A Marcha das Utopias - bloco 09 A Marcha das Utopias · Capítulo 9 de 11
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A Marcha das Utopias - bloco 09

descrença, no abismo óiüco que o acompanha do berço ao tú- mulo. Mas, poder-se-ão, por acaso, negar os prodígios conse- guidos através de guerras sangrentas, de sacrifícios trágicos, ae entregas absolutas, que começam a dourar os dias ao sé- culo presente? Tudo isso é o produto da técnica. Um depoimento terrível oontra a retaguarda burocrática da última conflagração, onde o homem passou a ser um núme- ro, ficará marcando essa era implacável de desumanização. Esse testemunho que talvez venha a produzir um monumen- to ao Robô é o romance intitulado A 25a Hora e tornou cé- lebre o romeno Gheorghiu. Pois é em torno do Robô que se está construindo a civilização de nossos dias. O escravo só de- saparecerá quando a mecânica o substituir, isto é, quando os fusos trabalharem sozinhos. Trata-se apenas de resolver um problema — o da conquis- ta do ócio. O ócio era permitido na seara fácil da selva matriarcal. Mas, desde que o alimento foi disputado, o mais hábil dividiu o mundo em classes e criou a herança. O ócio continuou a ser o maior dos bens. Do "otium cum dignitate" que aristocrati- zava o senhor romano até à igualitária carteira de identidade do presente, progredimos muito. Já hoje, o ócio é regulamen- tado e através das leis sociais, dos estádios gigantescos, da televisão e do rádio e também do turismo a prestações — fol- ados bens atingem as camadas mais desfavorecidas da socied- § ade. Há uma democratização do ócio, como uma democrati- zação da cultura. Num grande livro Ou va le travail humain, o sociólogo francês Fríedmann varejou a sociedade fabril de nossos dias na Europa e na América. E concluiu, tremendamente do- cumentado: o trabalho humano conduz ao ócio. Fase paradi- síaca do matriarcado.

O Achado de Vespúcio

S £N&o MILLIET pôs à minha disposição uma baia da Bi- blioteca e nela fez enfileirar, sobre a mesa, cinco volumes acerca da correspondência do piloto que deu nome à Améri- ca. Fiquei, assim, mais habilitado a entrar no assunto que ele- gera, ao que se tivesse encontrado na desordem viva de mi- nha biblioteca, o volume de suas cartas que inutilmente pro- curava. Américo Vespúcio foi, para mim, um dos homens mar- cantes nas transformações que presidiram à formação da men- talidade do Renascimento. Se a religião teve em Calvino, mais do que em Lutero, um líder decisivo de seus novos caminhos, se foi Machiavel quem degolou a Medusa das idéias políticas que reumatíza- vam o Medievo, foi Vespúcio quem ofereceu à tarda Europa ptolomáica, um panorama diferente da espécie humana. Ele descobriu e anunciou o homem natural. A sua importância talvez tenha decorrido mais disso do que de qualquer outra façanha.

A Idade Média confinada nas suas fronteiras reli- giosas, vivera até aí em função dos ensinamentos geográfi- cos do egípcio-grego do segundo século, Cláudio Ptolomeu. Se bem que hoje se afirme que outras e diferentes concep- ções astronômicas houvessem surgido num passado anterior, as que presidiam às relações culturais do eixo da história que foi a Europa Medieval eram as de Ptolomeu. Sendo a terra estável e plana, centro indiscutível do Universo, o céu foi colocado em rima, no azul do infinito, e o inferno embaixo, no9 abismos terrificantes, donde, antes da espeleologia, saía pela boca dos vulcões lava e fogo vomitados do Inferno. E a Igreja canta até boje para os seus mortos, o horror da porta inferi que é a porta de baixo. Também toda a cosmologia dantesca é ptolemaica. E foi preciso vir a aventura de Colombo para definiti- vamente liquidar essa fácil sucessão de prateleiras fixas, ondê as ascensões se davam sempre para o alto, mesmo que esti- vesse a terra de cabeça para baixo. A Reforma transformou a religião mas confirmou a ci- ência trevosa da Idade Média. Não foi só o Papado que quis fulminar Galileu. Calvino exclama: "Quem ousaria colocar a autoridade de Copérnico acima da do Espírito Santo?" E Lu- tero dizia do sábio revolucionário: " E s s e imbecil quer des- truir toda a Astronomia!" No campo da religião as reviravoltas da nova idade vie- ram pela possante garra da Reforma. Julgo o monge Lutero preso demais aos seus compromissos de fidelidade naciona- lista, para ter tido influência mais decisiva que a do cidadão livre de Genebra, Calvino. O importante em Lutero foi a sua célebre viagem à Roma borgiesca e a cruzada que desencadeou contra a catolicidade (universalidade) do Papado. Este já sofrerá a sua quebra de padrão temporal na luta titânica que oontra ele mantivera o Imperador Frederico II — que é preciso não confundir, como comumente se faz, com Frederico, o Grande, da Prússia. Aque- le, o Hohenstaufen do século XIII, foi apenas Frederico o Maior. Ê o neto do Barba-Roxa e o filho do príncipe h u m i - lhado em Canossa.

Das lutas guelfas contra o Imperador saíra o Papado in- capaz de resistir ao bofetão real do francês Felipe, o Belo, que o desterrou para Avinhão. De modo que foi no clima de diluição, senão de falên- cia, de Roma que o vigor da Reforma iniciou as transforma- ções fundamentais do orbe religioso europeu. Os guelfos, que se aproveitaram tanto das liberdades municipais, pleiteadas pelas cidades nascentes da Itália, não tiveram a força intelec- tual correspondente. Dante foi gibelino como Frederico II e, depois deles, Maquiavel deu forma à figura autoritária do Príncipe. A Reforma encontrou um Papado descido do cavalo guer- reiro de Cregório IX e de Clemente IV. Mudou de campo. Trocou as suas ultrapassadas veleidades de mando temporal ílo prestígio dado às letras e às artes que inaugurara Nico- E u V. Enquanto isso, a Reforma trazia uma idéia que jogava por terra todo o igualitarismo do primeiro surto cristão na História. Era a idéia agostiniana da Graça e da Predestina- ção que ia construir, sobre a desigualdade, o esplendor e a fortuna das civilizações burguesas. O reformador Calvino exalta as atrocidades sociais em que nasceu e prosperou o capitalismo. As obras não contavam. O que contava era 'a elei- ção. Essa idéia diabólica, mas fecunda, levaria à prosperida- de as nações protestantes ante a lamentável ruína econômica e política da civilização católica, que nem com a Santa Ali- ança salvaria a Áustria, ou conseguiria dè modo algum enri- jar a Espanha. Calvino criou o espírito das tropas de choque que deram a revolução industrial e o seu triunfo. Na abertura da sua obra mestra — A Instituição da Religião Cristã, ele incita o crente à entrega absoluta e consciente: "Em Deus repousa todo o nosso bem, do qual nos encontramos vazios e nus". Essa dádiva a Deus, que inutilmente o movimento de Port-Royal quis incutir no corpo de idéias religiosas da Fran- ça, daria a Inglaterra de Churchill e a América de Eisenho- wer. Maquiavel modelou a máscara utilitária da autoridade. E outro homem completaria o tríduo dos grandes transforma-

dores do mundo no século XVI. Foi esse o navegante floren- tino Américo Vespúcio.

Anos depois de Vespúcio, o artilheiro alemão Hans Sta- den, que passou grandes apuros entre os tupinambás, os quais gritavam para ele: "Lá vem nossa comida pulando!H, afir- mava, como que resumindo as cartas anteriores do navegan- te: "Não há divisão de bens entre eles. Nada sabem do di- nheiro. Suas riquezas são penas de pássaroS. Com o Deus vero que criou o céu e a terra não se preocupam e crêem ser coi- sa muito natural que o céu e a terra existam. Nada sabem de especial do começo do mundo". A pequena obra de Staden foi editada em Malburgo, em 1557. A carta Mundus Novus mandada por Vespúcio a Pedro Lourenço de Mediei é de 1503. Logo publicada, teve inúmeras edições em italiano, francês, alemão, flamengo e la- tim, sendo incluída, em 1507, na coleção de Monttuboddo, intitulada Paesi nouvamente ritrovati. Dessas, 13 em latim e 10 em alemão, Nesse ano de 1507, o alemão Walsemüller, cartógrafo ilustre, batizou de América o continente achado. Quem tinha encontrado o continente fora Colombo. Mas quem tinha fixado o homem natural era Vespúcio.

O êxito das cartas de Vespúcio não foi unicamente um êxito de divulgação. Foram essas pequenas imagens do mun- do novo que desencadearam um movimento intelectual de primeira ordem. Foram elas que criaram as Utopias. Abria-se, enfim, um horizonte para o homem europeu, confinado na' terra plana e imóvel entre o céu e o inferno. Havia do outro lado do mundo terras novas, que habitavam um homem diferente. Precedendo a Vespúcio, tínhamos tido, no Brasil, um do- cumento único, a carta lírica do escrivão de Cabral, Pero Vaz Caminha. Mas este trazia, imbuído na cabeça, todo o mofo medieval das concepções teológicas e universitárias. E grita-

va exasperado para Dom Manoel: Em primeiro lugar é pre- ciso salvar essa gente! Salvar queria dizer vestir, por sapatões e chapéu ef além de tudo, obedecer ao conquistador branco. Não sem razão, um poeta modernista escreveu:

Quando o português chegou Debaixo duma bruta chuva Vestiu o índio Que penal Posse uma manhã de sol O índio Unha despido O português.

Com sol ou com chuva, a miscigenação se produziu. Mas o importante na atitude de Américo Vespúcio é que ele, ante o índio, não se tomou de alarmas devotos. £ um puro admirador da gente "nuda e formosa". Um dos melhores documentos que produziu uma fase da literatura modernista de 22, a fase que sa chamou de "antro- Dofágica", foi o belo livro de Afonso Arinos intitulado O índio brasileiro e a Revolução Francesa. Este livro exige uma segun- da edição, pois, só ele, coloca o escritor mineiro na primeira fila dos sociólogos nacionais. Afonso Arinos, atual e grande líder da UDN, não pode esquecer essa contribuição culta, erudita e nova, à valorização do nosso caminhar. Nesse volume, o escritor estudou, escudado por uma óti- ma documentação, as influências do nosso selvagem sobre a eclosão do mundo moderno que teve seu ponto alto na Revolu- ção. Trata-se de uma transmutação de valores, lenta, árdua e vitoriosa. Ouçamos Afonso Arinos: "Por todos os motivos, podemos avançar sem temeridade que as cartas de Vespúcio formam a pedra angular da cons- trução teórica elaborada sobre o estado natural do homem, que o humanismofilosófico do século 16 inicia e que foi ter- minada com o individualismo revcüucionário do século XVTH".

A propósito da carta intitulada Mundos Novus, que se re- fere ao Brasil, escreve o nosso sociólogo: "Sobre a índole dos habitantes, diz que era cheia de cor- dura e inocência. Viviam num regime de absoluto comunismo, pois que ignoraram a propriedade, a moeda, o comércio e as- sim se davam muito bem. Inteiramente livres, não tinham reis nem chefes, sendo cada um rei de si próprio. Esta liberdade social era completada por absoluta liberaade moral, pois não ti- nham nenhuma espécie de religião e desconheciam os templos e os ídolos". Logo em seguida reproduz um texto de Vespúcio: "Aque- les povos têm una scelerata Ubertá di vivere, la quale piu tosto se conviene agli Epicuri che aüe Stólci". Estava revelando que, na realidade e na prática, era pos- sível viver-se em estado epicúreo. E isso jogava por terra to- das as longas e tremendas asceses que tinham presidido à construção do mundo medieval.

Posição de Sartre

não perdeu de modo nenhum a sua im- J E A N - P A U L SARTRE ortância nem a sua alta popularidade. Continua a ser uma S as figuras máximas do Ocidente intelectual. Mas houve, evi- dentemente, uma guinada na sua linha de conduta. Terá sido apenas, quem sabe, a acentuação e mesmo a definição de todo o seu passado inquieto, ou melhor, o delta de suas íntimas cor* rentezas revolucionárias. Essa acentuação e essa definição não exprimem um acrés- cimo do poder subversivo do mestre escritor. Dir-se-ia que Sar- tre termidorizou. Disso pode-se encontrar uma verificação fácil na polê- mica que ele manteve com outra grande figura das letras fran- cesas, Albert Camus,' que foi nosso hóspede dois anòs atrás. Em termos de política social, um tomou a direita e outro a es- querda. E apesar do seu novo fervor pela União Soviética e talvez, por isso mesmo, quem ficou na ala conservadora foi Sartre. Camus tomou paro si a defesa do irredutível que é o indivíduo e da sua intocável liberdade.

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