A Marcha das Utopias - bloco 06 A Marcha das Utopias · Capítulo 6 de 11
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A Marcha das Utopias - bloco 06

d*0 Capital é visível. E nada existe de mais ortodoxo no mar- xismo do que essa obra clássica que ele deixou com o nome de Guerra dos Camponeses, É um estudo dos primórdios da Reforma na Europa ou da revolta camponesa mie, contradi- toriamente, resultou no nacionalismo vitorioso aos príncipes alemães, durante a luta contra o Papado. Martinho Lutero teria sido apenas o beneficiário dessa onda que sublevou o fim da Idaae Média, favorecido pelas condições ideológicas, políticas e econômicas da época. O desinteresse da revolução encabeçada por Thomas Münzer não era, evidentemente, esse de fortalecer o poderio dos nobres e dos príncipes. As massas camponesas da Tu- ríngia e de outras províncias germânicas fizeram no século XVI, de fato, uma guerra social, guerra típica de classe e nes- se ponto Engels tem razão. Mas o seu livro, atravessado pelo velho esquema metodológico marxista, se ressente dessa ob- sessão — tudo nele é luta de classes e somente luta de classes. Não existe outro fator que possa ter influído no movimento münzeriano. Entretanto, se atentarmos para a evolução da Igreja, po- demos ver um ponto de partida que se coloca bem fora des- sa primária explicação. Não haveria condições para a luta social alemã e de modo algum se teria criado um clima favo- rável à Reforma, se o Papado houvesse conseguido a unifica- ção temporal da Igreja na atormentada crise do século XIII. Quem poderá negar a influência temperamental do Impera- dor Frederico II e a da sua formação sarracena, nos longín- quos mas decisivos acontecimentos daquela época? Se Fre- derico II fosse um tímido crente ou um simples imperial pa- pahóstia como tantos houve, a Igreja Romana não teria vis- to, logo depois da morte do grande gibelino, o seu poderio se esfacelar ante a desaforada atitude do rei de França, Felipe, o Belo. Há historiadores que afirmam que o embaixador fran- cês dessa época, Guielaume de Nogaret, teria chegado a es- bofetear fisicamente o Papa Bonifácio VIII, no seu leito de doente. Caso é que a derrocada pontifícia se consumou ante a indiferença dos reinos católicos. O monarca francês fez ele- ger um títere para o trono de São Pedro, aliás, compatriota seu, que facilmente o transferiu para Avinhão. Roma fora de

Homa, deixou de ser Roma. Quando um século depois, o Papado tornou à Cidade Eterna vinha de papo caído e não cuidava mais das suas velhas pretensões terrenas que sempre ligara à falsa doação de Constantino. O que resta do imperador ro- mano, convertido no século IV, era a Igreja. Nesse momento, em 1449, surge um pontífice extraordinário.' Tomaso Parentucelli, que tomou o nome de Nicolau V e que num curto reinado, ten- do superado as lutas conciliares, pensou em oferecer a Roma a higiene e a toalete que convinham à sua missão universalista. Começou mandando jogar por terra e velha basília de Cons- tantino. E daí resultou o Vaticano com sua arquitetura migue- lanjolesca que não seria realmente a sonhada pelo seu plane- jador Bramante. Miguel Ângelo e Rafael Sanzio de Urbino inutilmente se opuseram à destruição total do velho templo que testemunhara a fé da alta Idade Média. Apenas alguns sarcófagos, os de Paulo II, de Sisto IV e de Inocêncio VIII, foram salvos e transferidos para as atuais grotas vaticanas. Os leitores naturalmente perguntarão que significa este meu enorme nariz-de-cera, que nada tem que ver com as Uto- rias. Eu creio que tem. Pois, se houve uma Utopia típica, Íoi essa que açulou e pôs em armas a população camponesa da Alemanha pré-reformada. As idéias igualitárias domina- vam Münzer e seus sequazes. E mais de uma vez, uma espé- cie de sonho parusíaoo (a volta vingadora do Jesus social) tomou conta dos veículos emocionais do cristianismo, para anunciar de novo o reino milenário, e o fim da desigualdade humana. Münzer não era um simples agitador, foi teólogo. Rejeitava a Bíblia como documento exclusivo da Revelação mas sabia se apossar dos textos mais cruéis da versão evangé- lica para levantar as massas conflagradas. Citava Lucas sobre a missão guerreira do Senhor: "Não vim trazer a paz e sim o gládio". "Apossai-vos de meus inimigos e estrangulai-os di- ante de mim". Münzer foi além das tempestuosas vociferações de Lute- ro contra a "Sodoma romana . Atacou mesmo a propriedade privada, a aristocracia eclesiástica e feudal e os príncipes, o que fez com que esses elementos todos se aliassem à modera- ção calculada de Lutero, oferecida talvez como solução por Melanchthon, esse "rato de biblioteca filisteu e medroso", no dizer de Engels.

O importante é verificar-se o estado de espirito em que se encontrava a Europa no fim da Idade Méaia. O impor- tante é constatar que, depois do exílio em Avinhão determi- nado pela tenacidade histórica de um Hohenstaufen, a Igre- ja deixara de ser uma força unificadora, como em parte já tinha deixado de ser com o cisma de Miguel Cerulário, no Oriente (1054). E que isso contribuía para o amadurecimen- to social da Europa. Münzer e seus rebelados voltaram de repente às concepções revolucionárias do primeiro Cristianis- mo, fracassadas na Judéia de Pila tos. Queriam justiça aqui na terra. Parúsia aqui. E vingança aqui. Isto tudo convulsionava a Europa interior, enquanto a Europa atlântica divisava no horizonte utópico das Américas, o sonho duma humanidade igual, feliz e sem pecado. Aliás, ficou isso fixado num dístico latino que afirma não haver pe- cado além dos trópicos.

A Holanda veio para Felipe II de Espanha pelas mãos ca- tólicas da Áustria, no esfacelamento do Império solar de Car- los V. E como tivesse sido inventado o grande brinquedo dos passados dominicanos — a Inquisição — ali, na faixa batava conquistada ao oceano, procuram implantá-la. O próprio Felipe II comunicava ao Papa o perigo da "total destruição do país" no caso de ser preciso empregar a violência. Conhecia* os holandeses. Mas, ae qualquer forma, faria "o que um príncipe cristão, temente a Deus, deve fazer pelo seu santo serviço e pela manutenção da fé católica". O resultado viu-se — foi a revolta de Guielaume de Orange e Marnix de Sainte Aldegonde e a conseqüente constituição dos Países-Baixos como nação independente e reformada. E a Holanda saiu de dentro das brumas e dos vagalhões do Mar do Norte para se tornar imediatamente um país im- perialista, navegador e guerreiro. Não se podem desligar as diretivas ideológicas da Refor- ma da atitude egocêntrica tomada pelos povos que a adota- ram e defenderam.

Tudo começou com o apóstolo São Paulo e a Epístola aos Romanos, cujo comentário passa por ser a obra-prima de teó- logo atual Karl Barth. Karl Barth é o protestante que protesta. Sua celebridade começou quando, sendo apenas o desconheci- do pastor da aldeia de Safenwil, num congresso de estudantes, teve a audácia de enfrentar o autor do monumento de cultura moderna que é a História do Dogma, Alfred Harnack, consi- derado o último grande- sábio germânico. v Na Epístola aos Romanos, vem esta frase: "Os que Deus predestinou".* Trata-se de uma transferência de caráter judai- co, do conceito de povo eleito para o de indivíduo. Na Epís- tola aos Coríntios, São Paulo insiste sobre a qualidade de povo escolhido dos israelitas. Ele é sempre o judeu judaizante. Nessa eleição, agora com a mística pauliniana — elemen- to órfico deflagrado no seio do primeiro cristianismo — o in- divíduo é que passa a ser o eleito e não o povo. Aparece depois Santo Agostinho, com o mesmo espírito que grava a desigualdade humana diante dos arbítrios de Deus. A fórmula da entrega total do indivíduo ao Senhor está nas Confissões. Ei-la: "Qiante desse divino Ser, todo outro ser é um ser que não é". Essa dádiva espetacular, esse aniqui lamento que parece reduzir a zero a personalidade é, no entanto, a insofismável e autêntica raiz do individualismo moderno, pois é a marca da própria eleição. Lutero dela se aproveitou à vontade. E foi o primeiro a denunciar a chantagem mística do culto católi- co. O enlevo dos sentidos, de que tanto os jesuítas se aprovei- taram na sua conquista espmtuaL Lutero foi decididamente contra o culto exterior — essa comunicação pública, essa intimidade com Deus — confrarias, peregrinações, encenação, aparato e totemismo. Hoje,, por uma de suas alas conscientes, o Catolicismo assume bravamen- te essa mesma posição. Vai além. Enquanto Karl Barth pro- cura sintetizar a doutrina da eleição, tripartida entre Lutero, Calvino e Schleiermacher (que romanticamente optava pela salvação coletiva) — o católico alemão Romano Guardini jul- ga a liturgia mais importante do que a ética. Evidentemente, em Pernambuco, foram as ladainhas que derrotaram a ' iluminação interior e a ascese.

Os holandeses eram chamados "homens de manteiga" pela sátira e pela tortura católica do Duque D*Alba. Pois esses "homens de manteiga", estruturados na Eleição e na Graça da religião reformada, opuseram o próprio peito ao mar. Ven- ceram Felipe II, legando à história das lutas pela liberdade a estampa homérica ae Halckmar. Forçaram os horizontes ma- rinhos da Utopia humanista. Varreram do oceano as esqua- dras mais aguerridas e fortes, ingleses, espanhóis e lusos. E vieram, no Brasil, tomar uma tunaa tremenda de negros, mu- latos, cafuzos e degredados, Não se tratava somente duma guerra de tipo marxista en- tre o monopólio e livre comércio. Não se tratava de interes- ses dinásticos ou políticos. Tratava-se apenas da primeira luta titànica, no mundo moderno, entre o ócio e o negócio. E o ócio venceu.

VIII

Não é novidade nenhuma dividirem-se os regimes funda- mentais pelos quais a humanidade se rege em Matriarcado e Patriarcado. Aquele é o regime do Direito Materno e este o do Direito Paterno. Aquele tem presidido à pacífica felicidade dos povos marginais, dos povos a-históricos, dos povos cuja finalidade não é mais do que viver sem se meterem a con- quistadores, donos do mundo e fabricantes de impérios. O professor italiano Ernesto Grassi, que nos tem visita- do, pende hoje para uma tese que realça as virtudes do Ma- triarcado, principalmente as do a-historicismo, em face do descalabro a que nos vem conduzindo o Patriarcado, cuja maior façanha e a descoberta da bomba de hidrogênio e que tem comp sua carta de identificação o capitalismo, desde as suas formas mais obscuras e larvadas até a glória de Wall Street A descoberta do Novo Mundo veio trazer ao panorama da cultura européia um desmentido paradisíaco. O ecumêni- co cristão caía de um golpe. Do outro lado da terra — que ara redonda e não chata e parada, com céu em cima e infer-

no embaixo — havia gente e gente que escapava por comple- to ao esquema valetudinário da Idade Média, o qual fazia des- ta vida um simples trânsito. Desde então, mesmo que não identificado e compreen- dido, surgiu no horizonte das controvérsias essa extraordiná- ria questão do homem natural, sem culpa de origem e sem ne- cessidade alguma de redenção ou castigo. As Utopias foram as caravelas ideológicas desse novo achado — o homem como é, simples e natural. De Morus a Campanella até nossos dias, a humanidade insiste, sem saber, em se matriarcalizar. Todas as chamadas lutas pela liberdade não passam saião de episódios da guer- ra contra o regime da desigualdade e da nerança, imposto pelo Direito Romano e sagrado peío Cristianismo. O branco que se chamou de civilizado, insistiu em pa- dronizar a sua "superioridade". Mas nem sempre foi feliz. Caso curioso é esse do sábio Lévy-Bruhl, um aos mais au- torizados sociólogos da França contemporânea. Lévy-Bruhl criou a landa de uma mentalidade pré-Iogica, isto é, primi- tiva. Havia-se encontrado, enfim, a linha demarcatória entre a mentalidade primitiva e a mentalidade civilizada. Esta era a vitoriosa detentora do instrumento de todas as mágicas da inteligência. Era a possuidora da lógica. A lógica que fizera a ascensão de Estagirita, através das névoas platônicas aue recobriam a Idade Média religiosa. A lógica que criara e dis- ciplinara a ciência e que viera trazendo, nas conquistas da guer- ra e da paz, a luz decisiva do progresso. A lógica que de Aris- tóteles a Descartes pusera de pé mais que o homo faber, o mundo faber. Ao contrário desse título que justificava todos os privilégios e com eles os racismos e os imperialismos, uma outra pobre humanidade colorida de azeviche ou pigmentada de ocre, vegetava nas regiões onde ainda era permitido andar nu e viver feliz. Para essa, ara evidente que só poderia sobrar uma mentalidade diversa e inferior — a mentalidade pré-ló- gica. * O primitivo, que, pela sua teimosa vocação de felicidade, se opunha, a uma terra dominada pela sisudez de teólogos e professores, só podia ser comparado ao louco ou à criança.

Dividiu-se então o mundo entre duas categorias de se- res: a superior, que tinha como seu padrão "o adulto, branco e civilizado**, e a outra, que juntava no mesmo comboio hu- mano "o primitivo, o louco e a criança*'. Esse esquema fácil ultrapassou o século XIX que não atendeu aos rugidos profé- ticos de Marx, ao sol novo de Nietzsche e aos abismos side- rais de Freud. Veio, porém, pouco a pouco, a desmoralização do branco. Se hoje se considera Ortega y Gasset um blefe, até ele não deixou de contribuir, como vulgarizador, para o conhecimen- to de que as massas também se rebelam. As Utopias estiveram na crista da Revolução Francesa, das agitações liberais de 1848 e vieram ecoar na Revolução Russa de outubro. E que foram as diversas formas do que chamamos "fascismo", senão também movimentos da massa e autêntioos movimentos utópicos? Hoje, a distância, pequena que seja, já pennite julgar melhor esse abalo sísmico provocado por levantes de caráter popular no seio das sociedades atrasadas. Quem negará que Mussolini e Hitler, por abomináveis que tivessem sido, cai> regavam atrás de si uma massa desesperada de povo? E que eram essas camadas vulcânicas senão os enormes resíduos pri- mitivistas, deixados propositadamente para trás, pelas classes "superiores e distintas*' que usufruíam sozinhas os benefí- cios do capitalismo? Leiam-se alguns depoimentos decisivos sobre o povo italiano desses dias. Por exemplo: duas obras- primas — Fontamara, de Silone, e o Cristo ficou em EboU, de Cario Levy, Houve também no campo alto da cultura, uma revalori- zação sensacional da criança e do primitivo e um novo res- peito pelo louco. A pedagogia mudou. A psiquiatria também. Os artistas que são os semáforos da sociedade deram o alar- ma. Não posso esquecer-me do que foi a minha chegada a Paris no ano de 22, já depois de ter tomado parte aqui na Semana de Arte Moderna. Onde estavam os Anatole de mi- nha infância? Avez-vous giflé un mort? — gritava Aragon que nesse tempo era inteligente.

Vi nas exposições, nas conferências, nos círculos de artis- tas e intelectuais, o que era a Arte Moderna. Um incrível destroçamento das boas maneiras do "branco, adulto e civi- lizado". O primitivo tremulava nos tapetes mágicos de Picas- so, em Rouault, em Chirico que majestosamente criava o sur- realismo. A estatuária negra do Benin figurava nas vitrinas da Rue La Boetie. Os ateUers eram trincheiras revolucionárias. Os grandes artistas novos falavam das cátedras do College de France. A mecânica de Léger, a geometria que do cubismo passava ao abstracionismo, revelavam também as artes do pri- mitivo, que nada têm nem de paisagista nem de agricultor. A onda tomou conta do mundo atual, deste grande mun- do do século XX que ainda se debate nas tenazes raivosas da reação por não ter levado às últimas conseqüências a cer- teza de sua alma primitiva. O que sobrenada, no caos. Será preciso que uma sociologia nova e uma nova filo- sofia, oriundas possivelmente dos Canibais de Montaigne, ve- nham varrer a confusão de què se utilizam, para não perecer, os atrasados e os aventureiros fantasmais do passado. Em meio dessa terra de ninguém, houve um grande exem- plo de honestidade, esse que acima assinalamos. O caso de Lévy-Bruhl. Com sua autoridade, o sociólogo francês defini- ra perfeitamente os dois campos — o da lógica que habitava "o oranco, adulto e civilizado" e o da pré-logica que eram as cavernas "da criança, do doido e do primitivo". Pois, antes de morrer o sábio etnologista, foram publica- do os Camets de Lévy-Bruhl. Nunca se viu mais honrosa pa- linódia. Lévy-Bruhl reconhece não haver essa divisão que se- para o branco do primitivo. Ê verdade que estas coisas chegam aqui muito atrasadas. Vi, há algum tempo, um pretenso professor se espalhar sobre os confessados erros de Lévy-Bruhl, ignorando a retificação pú- blica de seus enganas. Nós sofremos duma terrível mentali- dade colonial. Bom é o que nos é imposto. E não se faz como o inqualificável Westermarck, que, talvez levado pelos mes- mos interesses em defender as classes monogâmicas que usu- fruem da herança, teve pelo menos o gesto de publicamente se retratar. Ê verdade que na Europa há cultura e a cultura tem força.

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