A Marcha das Utopias - bloco 04 A Marcha das Utopias · Capítulo 4 de 11
Obra Menu

A Marcha das Utopias - bloco 04

Ê esse um grito rebelaisiano. No século XVI, o século quo se apoiou na Antigüidade nua para exaltar a nudez da Desco- berta — há uma geografia do riso. Ele se inicia com as gara- tujas geniais de Erasmo, vem encontrar na França o seu mes- tre incontestável François de Rabelais e desce até a Espanha para, com Miguel de Cervantes, por cobro à sinistra seriedade medieval. Ê um eco do Elogio da Loucura aquele fabuoso nasci- mento de Pantagruel, gritando "À boireI A boire!" Ê a Uto- pia negativa, é o avesso da Utopia. Ou melhor, a Utopia que o homem encontra em si mesmo na saúde e no vinho. No pa- dre Rabelais há menos pensamento que em Erasmo e mais literatura. As molas do riso, tanto em Gargântua -como em Pantagruel, brotam às vezes duma colocação de frase, dum tro- cadilho, duma invenção vocabular. Rabelais já começa a fa- zer da língua, o próprio estofo da sátira e da fantasia. Dele sairão os mestres da novidade mordaz que vão co- locar a França no ápice da cultura européia em direção às transformações morais do mundo. Dele brotará toda a série de escritores epigramáticos que virão de Molière a Jarry, o magnífico autor do Ubu Rei. Nela resplendem, tanto Voltaire como Guy de Maupassant como Crommelynck, o autor do Cocu Magnifique, a peça que Gabriel Mareei batizou de fu- neraiües au cocuage. Toda a farsa, como o teatro ligeiro, a canção grivoies que deram a Paris o cetro da graça e trouxeram até nós as civi- lizadas micagens de Maurice Chevalier, vieram em linha di- reta de Rabelais. Ê o cura de Maudon que abre o caminho real do espírito gaulês. Não é estranho a Rabelais o acento sonhador das Uto- ias. A mulher de Gargântua, Badebec, aquela que morreu S e parto, a que fez o gigante, numa cena imortal, hesitar en- tre o riso e as lágrimas, pois pensava no filho nascido e ria, logo depois lembrava-se aa mulher morta e chorava, e assim permaneceu na mais deliciosa confusão de sentimentos. Badebec é filha do rei dos Amauretas, na Ilha da Utopia. As relações de Rabelais com a Ilha de Morus são públicas. O francês conhece perfeitamente o novo mundo sonhado e por ele incursiona. Melhor ainda. Coloca-se numa expectativa sa-

tírica contra o próprio otimismo social de Morus. Hoje, está perfeitamente identificado aquele personagem de Pantagruel que aparece com o nome de Thaumaste. £ o próprio Morus. O sábio inglês afronta o mar e os maus caminhos a fim de disputar com Pantagruel sobre assuntos de filosofia, de geomancia e de cabala. Os preparos para o encontro intelec- tual são mais importantes do que este. Pantagruel estranhamen- te comovido por ter que se defrontar em público oom o sábio in- glês, passa a noite culturizando-se. Para isso percorre livros de Beda, de Plotino, de Proclo e de Anaxágoras. Séculos depois, em matéria de cultura concentrada e fulminante, nos seria dada uma das mais risonhas páginas que conheço. £ quando Carlitos, nas suas Viagens, livro hoje desaparecido das livra- rias, se enche da esperança de aprender em quatro dias de travessia de Nova Iorque para a Inglaterra, tudo o que pre- cisa saber. £ que o seu vizinho de cadeira no tombaailho, só pode ser algum grande professor ou sábio, dada a biblioteca que despeja ao seu redor. Carlitos timidamente se apresenta. Quer filar alguma coisa daquela imensa cultura. O homem é apenas o inventor das lâminas Gilette. Pantagruel e Thaumaste decidem, ao contrário dos sofis- tas que só sabem berrar, realizar a disputa por meio de sinais. Enche-se a sala, mas antes de se defrontarem os dois gigan- tes do saber, Panurge, o discípulo querido do herói rabelai- siano, ensaia um round com o homem de Londres que se de- clara satisfeito com a amostra deixando Pantagruel para es- vaziar com ele algumas dúzias de garrafas de bom vinno fran- cês. Um professor do Collège de France deu à conhecida co- leção Uevolution de THumarúté, um pesado ensaio sobre o problema da descrença no século XVI, concluindo tenden- ciosamente que Rabelais foi um homem de "fé profunda". Todo o mundo que lê sabe que isso é uma inverdade. Ra- belais coloca-se entre os primeiros grandes incréus do Renas- cimento. £ mais. £ o primeiro riso ateu, quando, atravessado o funesto túnel medieval, a Europa abre os olhos para o ho- mem natural, "sem culpa nem redenção", e ruma para os horizontes atlânticos, tomada de um novo conceito de vida. Por mais que se queira sofismar, o século XVI foi um século libertino e revolucionário.

A Utopia, nesse instante, visita e fecunda todos os se- tores da informação, da fantasia e da inteligência. É quando surge o Aretino. Os conventos, as primeiras casas burguesas, como os prostíbulos, transformam-se sob a sua pena em pa- raíso aliados de prazer físico. Com nenhum outro escritor, em nenhuma outra época, nem com Bocaccio, nem com Casano- va ou com o Marquês de Sade, a erótica toma proporções gi- gantescas e fantásticas como nas Vidas ou na Educazione aéüa Pipa, que Guillajume Apollinaire tão carinhosamente traduziu. É a Ilha da Utopia sexual. Aliás é o largo conceito de humanismo que deve rotular essa gloriosa virada ocidental. Nela eu separo o Renascimen- to plástico, que foi o produto da maioriadade técnica, manti- do pela consciência alta de grandes artistas e poetas (entre os quais Petrarca e Camões) dos caminhos que o humanismo trilha. Fernando Pessoa, aliás, com as liberdades do seu gênio, acusa Camões de se ter escravizado ao jugo de ouro de Petrar- ca, no que tem toda razão. O humanismo produzia, não especulações e proezas ala- das e perfeitas, mas, sim, obras humanas de fazer chorar as pedras, como é o Quixote, oom que encerramos o nosso es- tudo de hoje. Cervantes fixa pela primeira vez certos aspectos sensa- cionais do mundo que começa, num conflito imenso com o que se fecha. O Quixote é o representante retardado deste. Quando principiam a se expandir as primeiras indústrias e se formar uma consciência atlântica e a se desmantelarem as ins- tituições fidalgas e generosas, ele procura afrontar o novo ciclo. Sai a cavalo num dia útil para endireitar o mundo. O choque inicial, com a família assentada, aquela que corresponde, num plano inferior, à dos Alberti de Florença, se dá logo no diálogo entre Teresa e Sancho Pança. Grita a esposa: — "Não me quebreis más la cabeza com vuestras arengas e retóricas". Cervantes fez psicanálise no século XVI, quatro centú- rias antes de Freud. Ê imortal a cena em que ele se faz espe- leólogo, procurando explorar a cova sinistra de Montesinos. Sancho e um primo o penduram numa corda e o fazem des- ça* ao fundo da cova. Ele aí permanece por cerca de meia

hora. Quando sai está completamente desacordado. Tapas, água e massagem o chamam a si. E conta um sonho extraor- dinário. Esteve ali três dias. Montesinos, um ancião magis- tral, o recebe num Álcazar fabuloso. E ele, de repente, vê passar, seguida de aias, a deusa de seu pensar, Dulcinéia dei Toboso. Reconhece-a, ela também, e incumbe uma aia de lhe levar um recado. A moça vem pedir-lhe seis vinténs. Enca- bulação. Ele só tem quatro que lhe foram fornecidos por San- cho para fazer esmolas pelos campos. Entrega as moedas, apoiado por Montesinos. No inconsciente do Cavaleiro da Tris- te Figura desencadeava-se com uma desapontada suspeita a identificação psicológica de sua bem-amada... Dulcinéia não passava, na realidade, duma pobre labrega, sua vizinha, e o que queria do fidalgo apaixonado era isso a que nós chama- mos ae "gaita". O Dom Quixote de la Mancha permanece um marco na história do homem. Ê a epopéia do equivoco.

A distinção fundamental que separa, no campo das idéias, o século atual do século XIX, é a que estabelece que o sé- culo passado foi o do ateísmo sem Deus e por isso seus es- forços anti-religiosos fracassaram, enquanto hoje vivemos a cultura de um século que admite o ateísmo com Deus. Pare- ce sutil, mas não é. £ que o século XIX, com uma compreen- sível auto-suficiência, foi além das barreiras em que crítica negativista deveria ter se contido na análise do fenômeno re- religioso. Este existe e existiriá sempre. Ele afunda na nossa eterna irracionalidade. Podemos talvez tranferi-lo do culto de um deus para o de um fetiche, o de um homem tornado ídolo, ou de um cometimento ou de uma idéia. Mas ele permanecerá sempre no fundo irremovível de nossa credulidade e de nossa imaginação. O século XIX não estava aparelhado para o estudo do problema de Deus. Nele, Marx, Nietzsche e Freud. forças gi-

gantescas para a chave dos problemas históricos e humanos, eram bebês de mama. Não, havia estatísticas, nem História Comparada das Religiões, ignorava-se que o Cristianismo, se bem que constituído e vicejado numa área cultural superior, era um culto restrito ante as religiões de massa que sempre inundaram o Oriente. De modo que o ateísmo primário, que tomou conta de certas camadas dirigentes da inteligência européia, fracassou, enquanto se verificavam experiências opostas, como foi de Augusto Comte, que passou a inspirado e teólogo, depois de um largo apostolado positivista. £ que ninguém arranca do homem isso que eu chamo em alto sentido de "sentimento órfico" e que não passa da "religião natural" dos católicos ou do que Calvino muito bem definiu oomo "sentimento religioso universal". Não se en- contra, já disse, nem um aglomerado primitivo e nem um povo civilizado, destituído de religião. Isso, está claro, não vem pro- var nada a favor deste ou daquele culto. O que persiste no fundo é o sentimento do sagrado que se oculta no homem, pre- so ao instinto da vida e ao medo da morte. O sacerdócio, classe a mais variada e rica da espécie pa- rasitária, reclama para cada uma de suas facções o monopó- lio de Deus. Daí distinguir-se "religião natural" de "religião revelada", mantendo-se os cristãos (adeptos da "religião rer velada"), por exemplo, na afirmativa de que só há dois mil anos Deus resolveu, depois da perda de uma imensa humani- dade histórica e pré-histórica, aparecer em carne e osso para "salvar o mundo". Sabe-se, hoje, o que o cristianismo deve aos mitos pa- ãos das ressurreições primaveris, ao próprio orfismo grego e f contribuição de cultos estranhos à sua ortodoxia. Sabe-se, hoje, que houve três grandes revoluções clericais e de Akhe- naton — o faraó que inventou o monoteísmo e que teria ins- pirado seu lugar-tenente Moisés — a de Buda e a de Lutero, já na Europa Moderna. Sabe-se, hoje, enfim, de grandes coi- sas que desmoralizam por completo a idéia de um Deus de privilégio, exclusivista em seus favores e inexorável para com os homens que o ignoram ou contestam. Sabe-se, hoje, que o que existe é a preguiça de estudar, de rever, de compreender,

portanto, de mudar. Na inércia dos primeiros conhecimentos, permanece geralmente quase toda a gente. Quando vejo que um homem da estatura de um Gusta- vo Corção sofre do mal geral dos crentes que aceitam sem exame a doutrina e o culto da paróquia mais próxima de sua casa, o qual nada de sério me respondeu quando lhe pergun- trei se seria cristão, caso tivesse nascido em Benares, na ín- dia; quando verifico tudo isso, sei que apenas uma coisa sub- siste — é o "sentimento órfico", o mesmo que agora em nos- sos dias, vem trazer mais um atestado insofismável da sua per- manência, pela genialidade de Charles Chaplin. Nesta sua fita maravilhosa que intitularam Luzes da Jíibalta, e que é sem dúvida ; o mais belo espetáculo a que assisti em toda mi- nha longa e experimentada existência, na qual o palhaço Cal- vero vê fracassar toda a sua obra na recuperação da saúde física e psíquica de sua dançarina, atacada de histeria para- lisante. Depois de empregar um remédio drástioo — a bofeta- da dos psiquiatras — e vendo-a lançar-se ao palco, ele se ati- ra de joelhos atrás de um cenário e grita magistralmente para o idéia supersticiosa de Deus: — Seja você quem for, faça com que ela vá até o fim! Esse "sentimento órfico" é continuadamente explorado pelas elites cristãs da Europa, que se obstinam em localizar a revelação na Judéia e negar qualquer validade à de Dèlfos, de Meca ou de qualquer outro ponto estratégico de que a "divindade" se tenha utilizado ou venha por acaso ainda a se utilizar. Uma das armas de que essas camadas cultas e sec- tárias se têm valido é a da confusão. For exemplo, liga-se ge- ralmente o Humanismo ao Renascimento e faz-se disso tudo um bolo crescido no lêvedo do Cristianismo. A crítica filosófica, estética ou histórica não separa de- vidamente a Renascença — movimento que olha o passado, e nele aure as suas energias e orientações — do Humanismo que vê o futuro e segue a marcha das próprias Utopias. O Hu- manismo é de fato um movimento incréu que se libertou da fé medieval. Não há possibilidade de ligá-lo senão por coin- cidência ou leviandade a ciclos do pensamento anteriores ao século XVI. A equipe que melhor o ilustra é composta ou de pristinos socialistas — no primeiro plano, os padres Morus

e Campanella — ou de ateus fichados como Giordano Bruno, Erasmo, Rebelais, Vico, Maquiavel, Grotius. Como querer por a essa turma um grupo que carrega, na última viela da cida- de medieval, andor das desmanteladas tradições de uma cul- tura vencida? Contra os grandes ateus apresentam Colucio Salutati e Ficino. Apelam para o Dante e procuram levar c movimento até Cícero, querendo criar um "primeiro Humanismo". E re- cheiam-no da figura realménte magistral de Petrarca. Confu- são dirigida, pois, se Petrarca é sem dúvida um homem do Re- nascimento, nada lhe deve o movimento humanista desenca- deado em progresso e revolução. Em Petrarca fulge a técni- ca do verso, como em Leonardo de Vinci ou Rafael, a técnica do quadro. Mas, apenas a técnica lhes pertence e não o pen- samento que escapa nesse instante ao primado redescoberto da Antigüidade. Como colocar dentro da tradição clássica um humanista autêntico tal Francis Bacon de Verulam, que de- clara: "As invenções devem reportar-se à experiência da na- tureza e nunca às trevas da Antigüidade"? Há uma guerra evidente de posições entre o Renasci- mento e o Humanismo. Não é possível atribuir-lhe o mesmo sentido. Ê mais fácil colocar dentro do Humanismo os gran- des reformadores da Igreja do que os Renascentistas. £ mais cômoda a posição de Calvino como revolucionário do que a de Miguel Ângelo. Do estouro cultural que liquidou a Idade Média no sé- culo XVI, saíram diversas diretivas do progresso humano. Saiu o Humanismo, saiu a Reforma, saiu o Renascimento e fi- nalmente a Ciência, já prenunciada pelo monge Rogério Ba- con e conduzida até aí nas asas árabes de São Tomás de Aqui- no. A própria Grécia que ressurge é uma Grécia deformada e inautêntica. Seria preciso que aparecesse no século XIX o gênio de Nietzsche, acolitado por Erwing Rohde e Burckhardt para que se restaurasse a Grécia dionisíaca e a Grécia órfica. Na virada do século XVI, Roma perdera o controle da Física, da Geografia e da Moral. Mas o Vaticano enriquecia e pagava. Em torno dele juntou-se uma plêiade de voca- ções, vinda já de uma nascente mas ótima tradição técnica

começada no século XIII e apoiada em Cimabue e Giotto. Ni- colau V orientara a Igreja nessa direção feliz do mecenato. E a técnica progrediu a ponto de realizar uma definitiva re- volução plástica. Atribui-se à descoberta que teria sido feita por Botticelli, de um grupo escultório grego,_a volta à Antigüi- dade à recuperação ae sua nudez. Outra nudez já tinha sur- gido no horizonte cultural da Europa, com o aparecimento do homem americano. E se houve um ponto de encontro entre a Renascença e o Humanismo, esse se deu no entusiasmo co- mum pela natureza que a Idade Média difamava. Era, porém, tão terrível e grosseiro o preconceito que au- reolava o mundo helênico que, quando com as Cartas de Vaspúcio e pelas Utopias se divulgou a existência de uma su- per-humaniaade perdida do outro lado da terra, se pergun- tava a respeito dessa gente: — Serão gregos? Ou pelo menos mediterrâneos? O cristianismo dólico-louro trabalha e defor- ma tudo. Petrarca protesta contra a idéia de que Cícero pu- desse ter ido para o inferno, pelo desconhecimento do Cris- to. Ele e Sócrates são tidos como "colaborantes do cristianis- mo". A Cícero e a Sócrates que são considerados deístas, in- corpora-se então uma legião de sub-humanistas católicos que têm, hoje, nomes inteiramente esquecidos. É tão grave a de- formação cristianizante que a mitologia pagã passa a ser uma teologia velada, as Metamorfoses de Ovíaio são a Gênese. Até Homero é um pronunciador de mistérios católicos. No entanto, o grande papel de Cícero foi ter dado ao mundo um livro admirável que é o De Natura Deorum. E onde se elucida todo o problema da religião e da crença. A época era extremamente propícia a essa análise. Houve no primeiro século de nossa era uma disponibilidade órfica. Ha- via necessidade de novos deuses. O paganismo greco-romano se desmoralizara definitivamente. Basta ler um grande con- temporâneo de Cícero, Luciano de Samósata, para se ter idéia exata da agonia de religião oficial. O Diálogo dos Deuses de Luciano marca o fim do paganismo e mostra como seria inú- til qualquer tentativa de restauração de seus cultos, tal a que tentou depois o Imperador Juliano. O cristianismo trazia da Judéia um sopro revolucionário que tivera seu ponto de origem no sacrifício do Cristo — mais

1/1
Menu

Fazer anotação