A Marcha das Utopias - bloco 05 A Marcha das Utopias · Capítulo 5 de 11
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A Marcha das Utopias - bloco 05

um messias em revolta contra a Roma imperial — e no senti- mento órfico em disponibilidade, que foi preenchido pela me- tafísica pauliniana. Medrou em Roma, em meio da maior con- centração obreira do mundo antigo. Entre revoltados, ilumi- nados e escravos. Tinha como esperança imediata a Parúsia, isto é, a volta vingadora do Cristo que poria cobro às injusti- ças sociais. Essa esperança deu a florada sanguinolenta dos Circos e encheu de mártires o Império. A Parúsia era uma cambial sem vencimento certo. Foi sendo esperada e adiada. E há quem atribua a Clemente de Alexandria, uma espécie de estorno ideológico pelo qual fez passar o local do justi- çamento, da terra para o céu. Era na outra vida que seriam julgados os homens. E nada havia para que o rico não pudes- se também entrar no céu. O órfico, com a oficialização do Cristianismo por Constantino, superou o fermento revolucio- nário dos primeiros tempos. Passou-se o túnel medieval e, no Renascimento, o Papado torna-se senão orgiástico ou liberti- no, pelo menos pagão. Nesse momento, é o Humanismo que se apossa da cultu- ra, apontando para as terras descobertas a recalcada esperan- ça de uma vida melhor neste mundo. A Renascença modela e disciplina grandes assuntos. Sem- pre o seu triunfo técnico se sobrepõe ao tema, à inspiração e ao sentimento. Enquanto isso, o Humanismo dá o estofo das Utopias futuras. Ele cria o Direito Natural Ele produz na longínqua América, a primeira experiência de uma socieda- de nova — a República Comunista Cristã do Paraguai. No sé- culo XVIII, ele dá os fundamentos da Filosofia aas Luzes e realiza a Revolução Francesa. No século XIX consegue o aba- lo sísmico das agitações liberais. E hoje, mais do que nun- ca, é no Humanismo e na sua tradição revolucionária que se fundamenta a conquista de uma vida melhor para todos os povos.

VI

Um dos males da nacionalidade que com tanto esforço construímos, é o nosso ufanismo. Palavra tirada de um livro

cretmizante, intitulado Forque me ufano de meu pais, e onde tudo que o Brasil fez aparece oor-de-rosa e azul. Maior se- ria a nossa grandeza se distinguíssemos as virtudes dos de- feitos que se entrelaçaram em nosso destino de nação. Ponto nevrálgico da história paulista é o bandeirismo. Desde a escola primária, aprendemos a ver os desbravadores como "raça de gigantes" e outras sonoras tolices de que vi- vem professores incapazes e escritores fracativos. O Bandei- rismo é discutível. Ê um dos mais curiosos problemas do mun- do moderno. Tem coisa) Se de fato os paulistas quebraram o mito diplomático de Tordesilhas, também fizeram inutilmen- te uma das maiores razias da história americana, deprederam e destruíram as reduções jesuiticas do Sul — glorioso e incom- preendido cometimento social e humano. fi verdade que se defrontavam ai dois mundos — pré-capitalista que nós repre- sentamos e o pré-socialista que os inadonais magistralmente tentaram. E o mpmento era dos paulistas. Circula pelas livrarias, com um retratão colorido na capa, uma biografia bestíssima de Maurício de Nassau. Outra ver- gonhal Queremos deprimir uma alta figura dos primórdios do mundo moderno para aumentar o nosso êxito contra a Ho- landa. A Guerra Holandesa não precisa de enchimento. Quan- to mais fizermos justiça aos nossos inimigos do século XVIII, maior louvor resultará para as ações nadonais. A Guerra Ho- landesa é, por si, ã justificativa da independência de um povo. O que de mais importante há nessa perdida campanha dos trópicos é ter da colocado em face da vitoriosa Reforma, uma concepção oposta de vida — a trazida e sustentada pela Contra-Reforma. Luta que até os nossos dias prossegue sob dissimulações, traxisferêndas e disfarces, mas que constitui a espinha dorsal de todo um sistema histórico e filosófico. O velho João Ribeiro, o grande e erudito polígrafo que conhetí nas noites da redação do Jornal do Brasil, no Rio, dá sempre dentro. Não atingiu, é verdade, esse ponto alto do con- flito ideológico, mas percebeu magnificamente o aspecto bá- sico da questão que foi o econômico. Aí também dois siste- mas se defrontaram. Portugal e Espanha eram monopolistas e a Holanda inaugurava, com os países reformados, o libera- lismo econômico-burguês. Diz João Ribeiro: "A agressão ho-

landesa, como a francesa e a inglesa, explica-se antes por um princípio superior que nesse tempo foi a conseqüência dos descobrimentos do Oriente e do Ocidente, e esse princípio era a luta do livre comércio contra o monopólio". Como se vê, JoSo Ribeiro trilha os caminhos da inter- pretação histórico-materiaBsta e nisso faz muito bem. Mas, é que esses interesses opostos, dados pelo aspecto econômico da luta entre monopolistas e liberais, se encaixam numa con- cepção de vida mais alta que é a da divergência fundamen- tal entre Reforma e Contra-Reforma. O holandês Nieuhoff, autor de uma Memorável Viagem Marítima, editada em por- tuguês pela Livraria Martins, e onde estuda o fim da ocupa- ção flamenga, toca no ponto delicado da questão, quando fala "na diferença de religião,' de língua e de costumes", como causa da guerra. É verdade. São duas concepções de vida que se afrontam na tentativa de conquista do Brasil pelos holan- deses. Inutilmente a Metrópole tentou trair esse caráter da luta, procurando nos negociar com os Países Baixos. A guer- ra prosseguiu tipicamente brasílica e assinaladamente guerra nacional, com o concurso de brancos radicados, de negros e de índios, cujos chefes marcaram a campanha de heroísmo, e que tinham a incitá-los uma grande voz jesuíta — a de Vi- eira. Alguns sociólogos nossos aproximaram-se desse ponto- de-vista, sem contudo defini-lo perfeitamente. Assim, diz Sér- gio Buarque de Hollanda, nas Raízes do Brasil: "A próptrip língua (a nossa) parece ter encontrado, em confronto com a holandesa, disposição particularmente simpática em muitos desses homens rudes. Aquela observação formulada séculos depois por um Martius de que, para nossos índios, os idiomas nórdicos apresentam dificuldades fonéticas praticamente in- superáveis ao passo que o português como o castelhano lhes é muito mais acessível, puderam fazê-la bem cedo os invaso- res. Os missionários protestantes, vindos em sua companhia, perceberam que o uso da língua neerlandesa na instrução re- ligiosa prometia escasso êxito, não só entre os africanos como entre o gentio da terra. Os pretos velhos, esses positivamente n&o o aprendiam nunca. O português, ao contrário, era per- feitamente familiar a muitos deles".

A língua era a comunicação. E além do mais, essa lín- gua áspera de fora era o instrumento de uma ideologia mais áspera ainda — a da Reforma. Continua o sociólogo brasileiro: "Ao oposto do catolicis- mo, a religião reformada, trazida pelos colonizadores, não ofe- recia nenhuma espécie de excitação aos sentidos ou à imagi- nação dessa gente e assim não proporcionava nenhum terre- no de transição por onde sua religiosidade pudesse se acomo- dar aos ideais cristãos". E acrescenta: "O que parece ter fal- tado em tais contatos foi a simpatia transigente e comunica- tiva que a Igreja Católica, sem dúvida mais universalista ou menos exclusivista do que o Frotestantismo, sabe infundir nos homens". Não frisa ele, no entanto, que o Catolicismo fora trazido para o Novo Mundo por uma ordem religiosa plástica e compreensiva oomo a dos jesuítas. No seu estudo sobre a História, Arnold Toynbee atribui ao Protestantismo as origens do racismo. E também a das di- ficuldades que isso traz à miscigenação colonizadora. O Protes- tantismo, de fato, foi uma volta à Bíblia e, portanto, ao sistema exclusivista, endógamo e fechado dos judeus, considerados por sua milenária auto-suficiência, o "povo eleito". Ramalho Ortigão, num livro curioso intitulado A Holanda, faz um confronto util de ser lembrado entre a Holanda e Portu- gal na época do Renascimento. Põe ele em frente, um do outro, dois documentos de importância nacional — o da Holanda as- sinado por Marnix e o de Portugal por Febo Moniz — ambos surgidos em face da conjuntura histórica da usurpação imperia- lista de Felipe II, de Espanha. Afirma o escritor luso: "Ê fundamental a diferença entre a atitude de Marnix e a de Febo. O confronto dos dois do- cumentos em que essa diferença se baseia basta para nos dar a chave dos destinos políticos do Portugal marinho e da Ho- landa anfíbia, depois do grande conflito religioso do século XVI. "As palavras de Marnix de Sainte Aldegonde são um pro- testo resoluto e firme, um juramento solene e sagrado, de de- sembainhar imediatamente a espada e dar a última gota de sangue para obstar, e impedir que a política de Felipe II, re- presentada pelo estabelecimento da Inquisição nos Países-Bai-

xos, seja recebida e suportada. E essa deliberação assenta na simples força que dá ao homem a conquista intelectual de um direito, a aquisição de uma verdade, a posse de uma convic- ção. "As palavras de Febo Moniz têm a delibilidade súplica, lastimavemiente enunciada em nome de todas as fraquezas com que a corrupção havia depauperado o vigor e envene- nado a seiva de uma sociedade. "Procurador do povo e intérprete dele, Febo alega em favor da liberdade, todas as superstições e todas as misérias que justificam a servidão. "Ignorando que são os povos que dão independência aos reinos e não os reis que dão autonomia aos povos, ele se inclina como se estivesse em frente do sacrário nacional, di- ante de um trono carcomido de sevandijas, no alto do qual um velho padre amedrontado, lívido, enrolado nas púrpuras de cardeal e de rei, treme confrangido de senilidade e de pa- vor, escutando a vaga tempestuosa que surge em torno dele, e sobre a qual parece sentir já descoser-se e desconjuntar-se a jangada oscilante em que tem os pés. É a esse homem que Febo Moniz implora. Em nome de que princípio? Em vir- tude de que direito? "Em nome das cinco chagas de Cristo, dadas pessoal- mente ao reino pelo mesmo Cristo no campo de Ourique. "Pelos órfãos que vivem das esmolas do rei. "Pelo remédio dos fidalgos, os quais parece viverem de iguais esmolas. "Pelas necessidades das viúvas. "Pelas misérias dos pobres." A exposição de Febo Moniz — termina Ramalho Orti- gão — é já o "epitáfio da nação". Eis o estado real em que se apresentam os antagonistas europeus, Portugal e Holanda, no início do conflito brasilei- ro. Isso em 1624. Quarenta anos depois, a Holanda, que arvo- rara no mastro de um navio capit&nia uma vassoura para sig- nificar que varrera todos os mares, volta às suas fronteiras e diques, humilhada e vencida. Por quem? Um índio Poty. Por

um negro — Henrique Dias. Por alguns luso-naáonais — Ma- tias de Albuquerque, Fernandes Vidra, Luís Barbalho. Por um jesuíta — o orador sacro Antônio Vieira! Eis a razão pela qual a nossa Guerra Holandesa pode ser chamada de guerra utópica.

Um desses russos atuais escapados à experiência bolche- vista e que em Paris vieram dar um sentiao dostoieosldano ao que se pode chamar de filosofia de ocasião, tem uma pá- gina admirável sobre a possibilidade de Deus errar. Não se trata de Chestov que Albert Camus, quando veio a São Pau- lo, tanto se alegrou de ver em minha Diblioteca. £ d e o cris- tão Nicoas Berdiaeff. Seus livros são geralmente atulhados de fantasia trágica e inútil. Mas, um deles se coloca no vér- tice da produção intelectual da primeira metade deste século. Trata-se da sua Metafísica Escatológica, que não vale menos do que a melhor contribuição existencialista alemã. Numa de suas páginas, Berdiaeff afirma com extraordi- nária libertação que no caso de dúvida sobre o comportamen- to de Deus, pode-se apelar para um princípio mais alto de justiça. O conceito de Deus sobe assim de grau. "Que deformações se apresentam a esse respeito na cons- ciência humana formada pela escravidão social ! — exclama ele. E elucida: "O ateísmo de grande estilo, não o ateísmo vulgar, pode-se tornar uma retificação dialética da idéia hu- mana de Deus. Em nome de Deus a gente se revolta contra Deus, em nome de uma melhor compreensão de Deus,, a gai- te se insurge contra uma compreensão de Deus manchada por este mundo". "Perde-se a fé em Deus porque o mal triunfa. O caráter excessivo dos sofrimentos da criatura é incompatí- vel com o que ensinaram aos homens sobre a ação e a presen- ça de Deus no mundo". (Pág. 175 — Tradução francesa Au- bier.) Temos um exemplo disso na nossa Guerra Holandesa qaundo, em 1640, ôs batavos expulsaram Brasil e Portugal do recôncavo baiano. O jesuíta Vieira, alma clangorosa da re- sistência, sobe ao púlpito e começa dizendo das vitórias e tri-

unfos que Deus outorgou à gente lusa. "Porém agora, Se- nhor, vemos tudo isto tão trocado que já parece que nos dei- xastes de todo e nos lançastes de vós, porque já não ides di- ante de nossas bandeiras nem capitanias como dantes os nos- sos exercícios". "Não fora tanto para sentir se perdidas fa- zendas e vidas, se salvara ao menos a honra, mas também a passos contados se vai perdendo aquele nome português tão celebrado nos anais da Fama, já o herege insolente com as vitórias o afronta e o gentio de que estamos cercados e que tanto a venerava e temia já o despreza". Indo ao manacial donde tira as suas polidas discursei- ras, o tremendo orador sacro relembra Davi que "piedosa- mente atrevido se volta contra Deus". Queixa-se das desaten- ções de sua misericórdia e providência. Pergunta-lhe porque se esquece de nossas misérias e não faz caso de nossos traba- lhos. Protesta diante do tribunal de sua justiça e piedade que têm obrigação de nos acudir, de nos ajudar, de nos libertar logol "É a sua própria honra e glória que o erigem". "Que- ro eu, Senhor, converter a vósl" — clama o grande jesuíta. "Não hei de pedir pedindo, pois esta é a licença e a liberda- de que tem quem não pede favor senão justiça". Vol- ta de repente à sua humildade confessional e grita: "Homem atrevido, diz São Paulo, homem temerário quem és tu que te ponhas a altercar com Deus?" Mas, logo depois insiste na sua objurgatória e indaga: "É possível que diga o herege que Deus é hodandês?". Não. Deus é brasileiro desde essa época. Não aconteceu o que Vieira ameaçava: "Entrarão os hereges nesta igreja e na outra: arrebatarão essa custódia em que agora estais ado- rado dos anjos: tomarão os cálices e vasos sagrados e aplicá- los-ão a suas nefandas embriaguezest" "Enfim, Senhor, despo- jados assim os templos e derrubados os altares, acabar-se-á no Brasil a cristandade católica, acabar-se-á o culto divino; nascerá erva nas igrejas como nos campos". "Pregar-se-ão he- resias nestes mesmos púlpitos e em lugar de São Jerônimo e Santo Agostinho, ouvir-se-ão neles os infames nomes de Cal- vino e Lutero". Termina o ignaciano com esta imprecação: "Se sois Jesus que quer dizer Salvador, sede Jesus a sede Salvador nosso!

Se sois sol e sol .de justiça, antes que se ponha o deste dia, deponde os rigores aa vossa. Deixai já o signo rigproso do Leão e dai^um passo ao signo da Virgem, signo propicio e benéfico. Recebei influências humanas de quem recebestes a humanidade!" Um romancista contemporâneo volta a esse tema do dis- sídio com Deus. £ o italiano Guareschi. Em Dom Camilo e teu Pequeno Mundo, essa jóia absoluta da novela de todos os tempos, o pároco grita para o Cristo com quem diariamente se entretém: "Jesus, por que não disparais um raio que atin- ja esta canalha?" Fora da Igreja, processa-se um comício comunista. Vinte séculos antes, no Diálogo dos Deuses de Luciano de Samósata, é Mercúrio quem pede a Júpiter para fulminar um ateu que discute religião em praça pública. Sempre a Utopia levantando o braço sedento de Justiça contra as feições absolutistas da Divindade ou a sua pesada indiferença.

Na Guerra Holandesa vencia, evidentemente, uma com- reensão lúdica e amável da vida, em face dum conceito uti- E tário e comerciante. O Brasil compusera-se de raças matri- arcais que não estavam distantes das concepções libertárias de Platão e dos sonhos de Morus e de Campanella. Era o ócio em face do negócio. O ócio vencia a áspera e longa conquis- ta flamenga, baseada no primeiro lucro é na ascensão inicial da burguesia. O Deus bíblico, cioso, branco e exclusivista era batido, no seu culto, reformado pela severidade e pelo arbí- trio, por uma massa órfica, híbrida e mulata a quem a roú- peta jesuítica dera as procissões fetichistas, as litanias doces como o açúcar pernambucano e os milagres prometidos.

VII

Há quem afirme que Friedrick Engels foi marxista antes de Marx. Fato é que sua enorme influência sobre o autor

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