A Marcha das Utopias - bloco 03 A Marcha das Utopias · Capítulo 3 de 11
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A Marcha das Utopias - bloco 03

corpo paralisa o vigor da alma e cuja energia foi aniquilada pela miséria. Os lacaios, dizei vós, são maiores e mais robus- tos. Mas não será por acaso uma lástima ver homens fortes e belos (porque os nobres sabem escolher as vítimas de sua corrupção) consumirem-se na inação e amolecerem em ocupa- ções ae mulher, quando fácil seria torná-los laboriosos e úteis, dando-lhe um ofício honrado e habituando-os a viver do tra- balho de suas mãos?". E acrescenta: "De qualquer maneira que se encare a questão, esta mas- sa imensa de gente ociosa parece-me inútil ao país, mesmo na hipótese de uma guerra que poderieis aliás evitar todas as ve- zes que o quisesseis". Já se desenham em Morus os pródromos da revolução in- dustrial e seus imediatos desmandos. E trazem seu fundamen- to na Utopia as críticas de Marx à devastação da agricultura pela indústria de lã. "A todos os pontos do reino, onde se tra- balha a lã mais fina e preciosa, ocorrem em disputa da terra, os nobres, os ricos e até os santos abades". Não se satisfazem com as rendas e benefícios de suas ter- ras. Não lhes basta viver no meio da ociosidade e dos praze- res às expensas do público e sem proveito para o Estado. "Subtraem vastos territórios à agricultura e os convertem em pastagens. Abatem as casas e as aldeias, deixando apenas o templo para servir de estábulo aos carneiros". Prossegue a crítica do Chanceler ao processo de prole- tarização da sociedade: "Transformam em deserto os lugares mais povoados e cultivados". "O homem de campo nada tem a fazer onde não há semeaduras e colheitas". "Um só pastor é agora suficiente, onde o cultivo da terra empregava cente- nas de braços". O seu anseio de justiça social lembra os acentos do velho profetismo judaico. "Colocai um freio no avarento egoísmo dos ricos, tirai-lhe o direito ao açambarcamento e ao mono- pólio. Que não haja mais ociosos entre nósl" O problema que mais tarde Karl Marx esgotaria na sua crítica ao capital, obsessiona o santo do século XVI. "Aban- donais milhões de crianças aos danos de uma educação vi- ciosa e imoral. A corrupção faz murchar essas jovens plantas

que poderiam florescer. Fabricais ladrões para ter o prazer de enforcá-los". Rafael Hitloideu, que é o nauta que fala no livro, decla- ra: "Ê injustiça matar-se um homem por ter tirado dinheiro de outrem, desde que a sociedade humana não pode ser orga- nizada de modo a garantir a cada um uma igual porção de bens". Considerações que seriam socialistas enchem a Utopia "Onde a propriedade for um direito individual e onde todas as coisas se medirem pelo dinheiro não se poderá jamais or- ganizar justiça nem prosperidade social, a não ser que con- sidereis feliz um Estado em que a fortuna pública é presa dum punhado de indivíduos insaciáveis de prazer, enquanto a mas- sa é devorada pela miséria". Na Utopia, afirma o personagem luso, passam-se coisas diversas. "A administração estende indistintamente seus be- nefícios por todas as classes de cidadãos". Depois de exaltar as soluções comunitárias, Rafael res- ponde ás objeções ocorridas ao Chanceler. "Vossa imaginação não poderia fazer a menor idéia duma tal República". Tratando das Artes e Ofícios da Ilha, volta Morus ao tema do trabalho. "Há uma arte comum a todos os homens e mu- lheres e da qual ninguém tem o direito de isentar-se — é a agricultura. As crianças assistem a trabalhar e trabalham tam- bém. Além da agricultura, ensina-se a cada um, um ofício es- pecial". Um sopro de seleção vocacional atravessa o livro. "Se al- guém tendo já uma "profissão, quer aprender outra, pode fa- zê-lo. Deixa-se-lhe a liberdade de aprender a quem melhor lhe convier, a menos que a cidade não lhe designe uma, por mo- tivo de utilidade pública". A luta contra o ócio prossegue. "Ninguém se entregue à preguiça e todos exerçam com animo a sua profissão." Além das mulheres que não trabalham, o santo hoje canonizado pela Igreja Católica denuncia a multidão existente de "padres e religiosos vagabundos". Não esconde Morus seus pendores pelos deleites naturais do homem. "Crucificar a carne, sacrificar-se por um vão fan- tasma de virtude, ou para habituar-se antecipadamente a mi-

sérias que talvez não aconteçam nunca, é dar mostra de lou- cura, de covarde crueldade para consigo mesmo, e de orgu- lhosa ingratidão para com a natureza". Ali é decretada a liberdade religiosa. "Não há advogados na Utopia" Por quê? Morus responde: "Quem não sabe com efeito que as fraudes, os roubos, as rapinas, as rixas, os tu- multos, as querelas, as sedições, os assassínios, as traições, quem não sabe, digo, que todos esses crimes de que se vinga a sociedade com suplícios permanentes, sem entretanto poder preveni-los, seriam suprimidos no dia em que o dinheiro desa- parecesse?" Na Cidade do Sói, de outro padre, Tomaz Campanella, a comunidade dos bens se estende à das mulheres, como em Platão. "E se bem que em seu país natal não esteja em voga a comunidade das mulheres, eles a adotaram unicamente pelo princípio de que tudo deve ser posto em comum". Certas afirmações atualíssimas brilham no texto renascen- tista. "Perdido o amor-próprio, fica sempre o amor da comu- nidade". "O amor à coisa pública aumenta na medida em que se renuncia ao interesse particular". O ócio de classe é também visado pelo arquiteto da Ci- dade do Sol. "Não é de admirar que dessas casas e escolas de torpeza (as que vivem no ócio e insultam os que traba- lham) saiam catervas de intrigantes e malfeitores com infini- to dano para o interesse público". A comunhão resplandece na urbe socialista. "Negam ser natural ao homem, para educar vantajosamente a prole, a pos- se de uma mulher e de filhos, e afirmam com São Tomás que o objetivo da geração é a conservação da espécie e não a do indivíduo". A sátira social de Campanella atinge em cheio as dife- renças de fortuna. "A pobreza é a razão principal de se tor- narem os homens velhacos, fraudulentos, ladrões, intri- gantes, vagabundos, mentirosos e falsários, produzindo a ri- queza os insolentes, os soberbos, os ignorantes, os traidores, os presunçosos e os egoístas. A comunidade, ao contrário, coloca os homens numa condição rica e pobre no mesmo tempo. São

ricos porque gozam de tudo que lhes é necessário e são pobres porque não possuem nada". A seleção vocacional também se impõe. "Os habitantes da Cidade do Sol não estimam o ócio" "Segundo o próprio talento natural, cada um exerce o respectivo mister com pon- tualidade e também com prazer, por estar em harmonia com a índole própria". São favoráveis à cremação dos corpos. A comunhão dos bens é decidida. E a das mulheres tam- bém. "Ê de Direito Natural ter uma só mulher. Mas Jacó to- mou duas irmãs. Davi teve cinco mulheres e Salomão sete- centas". "Não é duma só corda mas de várias que se tira a harmonia". O caminho percorrido pelas Utopias renascentistas conduz a dois pontos altos — o óaio ao ócio, evidentemente ao ódio de classe que produziram as longas e pesadas desigualdades medievais; e & exaltação da comunhão dos bens. O ócio da selva coloca-se assim face aos ócios de privilégio. Os dois san- tos homens que marcam a virada de idéias da Descoberta, são os precursores do socialismo. Socialismo utópico, que po- derá ser mais tarde atingido e consolidado através da técnica e pela organização do trabalho humano. Trabalho que per- manece uma virtude dignifícante, ante os grosseiros vícios do Ocidente medieval.

IV

Nesta babel do vocábulo impróprio que é a São Paulo de todas as raças, já vi chamar de "humanista" a um sujeito que tinha bom coração: — Aquele é humanista! Sabe fazer caridadel Evidente que o que se queria dizer era "huma- nitário". Humanista é bem outra coisa. É um termo que se pren- de à área cultural do Renascimento europeu e que, podendo variar entre dois ou três conceitos, sempre se liga à idéia de uma volta da cultura ao humano, de um retorno do homem a si mesmo.

£ que toda a Idade Média, na sua afirmação religiosa, havia feito do homem um viajante perdido na terra, com pas- saporte para o céu ou para o inferno, onde, na outra vida, se cumpriria o seu destino. Desde que, depois do século XIII e do exílio do Papado em Avinhão, a Idade Média se distan- cia dos propósitos temporais da Igreja e se entrega a um afã muito mais útil — o de animar as letras e as artes, com a fi- gura de Nicolau V, o homem regride de suas aladas preten- sões e procura a terra como habitai natural. Aparece então um movimento que se chamou de Humanismo e que para uns, principalmente na Itália, é apenas, na luta entre Aristóteles e Platão, a supremacia deste contra o cientificismo trazido pela obra de Santo Tomás de Aquino, influenciado pelos árabes e longinquamente pelo Estagirita. Para esses intérpretes do Humanismo trata-se simplesmente de fixar o predomínio do que se chamou de "patnos da existência" contra o realismo, a lógica e outras conquistas terrenas do Tomismo. Platão traz em si um poderoso sopro órfico, herdado de Pitágoras, o qual alimenta a dimensão irracional do homem e carrega por isso um poder de sugestão que o torna muito maior e mais impor- tante do que na verdade o é. A luz do mundo moderno e ali- viado da pavorosa ética socrática, Platão salva-se mais pela sociologia utópica d'A República do que por quase toda a dia- logação vomitiva de suas obras. Tem a consistência dos fan- tasmas e por isso volta sempre ao nosso mundo noturno. Essa restrição ao conceito de Humanismo que certos gru- pos intelectuais italianos cultivam, não exprime o rótulo lar- go com que a palavra acolhe todos os sintomas de revalida- ção do humano a que assistiu o século XVI and after. Tenho a impressão de que o encontro da humanidade nua da Descoberta, muito influiu sobre o movimento geral de idéias daquele instante histórico. Saber que do outro lado dà terra se tinha visto um homem sem pecado nem redenção, sem teologia e sem inferno, produziria não só os sonhos utó- picos cujo desenvolvimento estamos estudando, mas um abalo geral na consciência e na cultura do Europa. Era a negação do Cristianisimo ecumênico. De modo que me encontro entre os que vêem no Humanismo, não uma simples revan- che trazida pela Academia Platônica, de Florença, « por ou-

tros surtos do velho pathos órfico, contra a clareza afirmati- va de Aristóteles — mas uma larga ondulação do pensamento que faz a criatura desligada do Criador retomar pé na terra de suas misérias e de seus entusiasmos. Humanistas foram Ves- púcio, Erasmo de Roterdão que oomo o seu Elogjlo da Loucu- ra lembra Luciano de Samosata, Rabelais, Cervantes, Vico, Maquiavel, Giordano Bruno, todos os utopistas e, mais tarde, Montaigne e Rousseau. Nessa equipe é necessário distinguir os afirmativos dos negativos. Assim, as Utopias afirmam sempre. Mas há um lado negativo, eivado de sátira e de critica, onde o Humanismo se torna admiravelmente útil e construtivo. Há o que se poderia chamar de avesso da Utopia e que, justamente no século XVI, nos é dado por três mestres da Europa culta. São eles: Ra- belais, Cervantes e Erasmo. O Elogjlo da Loucura constitui um escrínio de facécias traçado sobre um sólido e impressionante fundo de verdade. Logo no inicio, pergunta a mestre de Roterdão: "Dizei- me se há por acaso um só dia na vida que não seja triste de- sagradáveC aborrecido, quando não é animado pela volúpia que é o condimento da loucura?" E apela para uma citação de Sófocles: ."Como é bom viver 1 Mas, sem sabedoria, pois esta é o veneno da vida!" Em seguida exalta as crianças que são amadas por todos e exclama: "For que? Forque são lou- quinhos!" Evidentemente o que Erasmo traça é o quadro de uma certa sociedade que ele procura desmoralizar e ferir. £ justa- mente a sociedade patriarcal que nessa época se consolida, baseada na herança e nos primórdios entusiásticos do capita- lismo. Basta atentar no que se passa em Florença. J. B. Alberti, o grande burguês que inicia e racionaliza o comércio, é o au- tor de um livro intitulado La Famiglia, onde proclama as vir- tudes do patriarcado em seu supremo instituto da Santa Ma- cerízia, que procura divinizar a poupança. Em sua idealização do dinheiro, ele cria o clima que daria mais tarde De Foe e Benjamin Franklin. Foi preciso que muito depois viesse Karl Marx demonstrar que o capitalismo tem muito mais de ativi- dade predatória que de sombria virtude. Se houvesse um Al* manaque de Cotha da burguesia milionária, em que posição

se encontrariam boje nele os descendentes do magnata floren- tino? Erasmo (1467-15361) é o primeiro critico social que se le- vanta com uma profética força contra o mundo patriarcal. A sua sátira não atinge os fundamentos econômicos da desi- gualdade. Os tempos não estão ainda maduros para isso. Es- tamos longe da atuação de um Marx ou de um Proudhon mas, em pleno desabrochar do burguesismo nascente, ele barra a fé na nova sociedade. Assim diz do conceito que naquele tem- po se faz da mulher. "Quando os gregos hesitavam em classi- ficar a mulher entre animais raciais, queriam apenas exprimir a imensa dose de loucura que caracteriza esse querido ani- mal". "Como o macaco é sempre macaco mesmo vestido de púrpura, a mulher é sempre mulher, isto é sempre louca". Continua: "Quantos divórcios não se verificariam, ou coi- sas ainda piores do que o divórcio, se a união do homem com a mulher não se apoiasse, não fosse alimentada pela adulação, pelas caricias, pela complacência, pela volúpia e pela simu- lação". Exalta em seguida os homens privados de sentimento e que por isso não têm medo da morte. São insentos de remor- sos da consciência, não temem fantasmas ou trevas. Não são enganados pela.esperança de bens futuros nem tremem com as perspectivas de males eternos. O Estoidsmo, com seu culto à virtude, torna-se a sua hête noire: "Que vão passar a vida na cidade de Platão! — exclama para os estóicos que acusa de insensíveis e surdos à voz dos sentidos". "Que exército reclamaria um tal general? Quem o con- vidaria à sua mesa? Estou convencido ae que não acharia nem mulher nem servo para suportá-lo. Quem, ao contrário, ido preferia um homem qualquer, tirado da massa dos estúpidos? Que soubesse mandar ou obedecer, fazendo-se amar por todos, que não fosse estranho a tudo que é próprio da humanidade?" Numa onda de realismo pessimista desabafa por vezes o grande humanista: "Que é afinal a vida humana? Como é sór- dido o nascimento! Como é penosa a educação! A quantos ma- les está exposta a infância! Como sua a juventude! Como é

grave a velhice! Como é dura a necessidade da morte! Enfim não h& prazer que não traga o amargor de muito fell" Como se vê, tanto a psicologia social como a humana des- ceram dos céus alados e subiram dos infernos medievais do Dante para a superfície da tara. É pela primeira vez que nos tempos modernos, o homem se analisa inteiramente. Erasmo não aceita a docta ignoranza de Nicolau Cusano nem abre as veredas do iluminismo devoto. Ê um arco de ponte entre a farsa do Pathelin medieval e Molière. Se nele não repercute diretamente a descorberta do Novo Mundo e do novo homem, se ele não encarta entre os que são animados de pelagismo (acusação que atingiu os próprios jesuítas)— é contra a velha sociedade, no entanto, que des- carrega seus punhos gigantescos. Se não se expande como Ronsard, diante dos índios acla- mando-os de "sobreviventes da Idade de Ouro", mais homens que os outros, pois eram os homens anteriores aos livros e às mitologias, a sua ação em denegrir e machucar a velha so- ciedade vale as repercussões da descoberta da América. "Os frades, por meio do canal, que se chama a confissão, estão a par dos mais íntimos segredos das pessoas". Nada im- pede, continua, que revelem o que sabem "sobretudo quan- do, alegres e esquentados pelo -vinhos, querem divertir-se con- tando histórias engraçadas . Quanto aos reis e aos príncipes, assegura que se pensas- sem um momento que se teriam de apresentar perante o tri- bunal do Rei dos Reis "não poderiam comer nem dormir tran- qüilamente um só dia em sua vida". Sobre a riqueza do Papado (a mesma que impressionou Lutero e o predispôs à Reforma) ele não deixa de enumerar os séqüitos cardinalícios de escritores e copistas, advogados e promotores, banqueiros e palafreneiros enfim, de rufiões ("si- lêncio neste ponto, pois é preciso respeitar os ouvidos cas- tos"), em suma, de toda aquela prodigiosa turba de pessoas de toda classe que arruinam ("que honram queria eu dizer") a Sé de Roma. E termina o livro num voto de saúde que condensa e ex- prime toda a obra: "Sede sãos, vivei, bebeil"

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