O CEO que Adiava Tudo O Bilionário Indeciso · Capítulo 2 de 23
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O CEO que Adiava Tudo

Às seis e cinquenta da manhã, Marina já estava na recepção da Prado Vértice com café sem açúcar numa mão e um bloco de anotações na outra. Bianca havia passado a madrugada organizando os acessos que a empresa liberara, separando contratos por risco, atas por grau de constrangimento e fotografias de Caio por ocasião social. A conclusão enviada às cinco e doze vinha em três linhas secas: ele sorri igual em evento de caridade, reunião de banco e almoço com possível noiva. Diagnóstico provisório: homem que aprendeu a concordar antes de pensar. Marina guardou o celular quando o elevador abriu e entrou sem olhar para o segurança.

Caio a esperava no corredor do último andar, já de camisa branca, paletó azul-marinho e aparência irritantemente desperta. Trazia duas pastas sob o braço e o cabelo ainda úmido, detalhe que sugeria banho recente, casa próxima ou motorista competente demais. Marina reparou no colarinho aberto, na barba feita com pressa e na ausência de aliança. Ele reparou no vestido dela, grafite, fechado no colo, justo o bastante para lembrar que austeridade também podia ser uma provocação. Cumprimentaram-se sem beijo, sem mão, apenas com um silêncio que reconhecia a noite anterior e fingia educação profissional.

Ela perguntou pela agenda completa. Caio entregou o tablet. Havia reunião com a diretoria industrial às sete, café com Otávio às oito e quinze, chamada com investidores às nove, almoço com Isabel ao meio-dia, comitê jurídico às duas, entrevista preparatória às quatro e jantar beneficente às oito. Marina passou o dedo pela tela e encontrou pequenos marcadores amarelos em cinco itens. Perguntou o significado. Caio respondeu que eram pontos a decidir. Ela abriu cada um: demitir ou preservar um diretor, confirmar ou adiar a fusão, assinar ou revisar nota pública, aceitar ou recusar jantar com o governador, anunciar ou suspender o noivado. Marina levantou os olhos. A manhã começava generosa.

A primeira reunião ocorreu numa sala de vidro onde doze executivos aguardavam com planilhas prontas e coragem pendurada no cargo. O diretor industrial apresentou a falha de uma unidade no interior, risco de multa ambiental e necessidade de parar a produção por quarenta e oito horas. Caio ouviu tudo com atenção real. Fez perguntas boas, localizou números fracos, pediu projeções melhores e, quando todos esperavam a decisão, pediu novo relatório até o fim do dia. Marina, sentada perto da parede, anotou apenas uma frase: competência usada para ganhar tempo. Os executivos saíram aliviados, porque adiamento costuma parecer bondade para quem teme consequência imediata.

Quando ficaram sozinhos, Caio perguntou se ela sempre escrevia tanto. Marina respondeu que escrevia pouco quando o cliente facilitava. Ele veio até a mesa onde ela fechava o bloco e inclinou-se para ler. Marina cobriu a página com a mão. A proximidade trouxe o perfume discreto da noite anterior, agora misturado a sabonete e café. Caio notou o gesto e sorriu de lado. Disse que contratara transparência. Ela respondeu que transparência começava quando ele tomava decisão diante de testemunhas, em vez de pedir outro relatório para não magoar ninguém. O sorriso dele diminuiu. A beleza continuou ali, menos útil.

O café com Otávio aconteceu numa sala menor, revestida de madeira clara, com uma vista que fazia a cidade parecer propriedade particular. O fundador entrou apoiado em bengala escura, acompanhado por um enfermeiro que saiu antes de qualquer palavra relevante. Otávio cumprimentou Marina sem curiosidade, usando o tom de quem classificava pessoas pelo preço de contratação. Perguntou se a consultora já entendera que o filho precisava de estabilidade, não de espetáculo. Marina respondeu que estabilidade construída sobre hesitação tinha prazo curto. Caio mexeu na xícara, sem beber. O pai sorriu para ele com crueldade íntima, aquela reservada a famílias que conhecem o ponto exato da ferida.

Otávio falou de Isabel antes de falar da empresa. Disse que a moça possuía nome, discrição e utilidade estratégica. Marina anotou a ordem das palavras. Caio informou que o assunto pessoal ficaria fora da reunião. O pai perguntou se havia reunião em que Caio finalmente manteria uma frase por mais de cinco minutos. A mão dele parou na colher. Marina viu a resposta formar-se e morrer na boca do CEO. Aquela morte pequena explicava metade do organograma. Otávio saiu vinte minutos depois, deixando instruções, ameaças finas e a sensação de que o prédio inteiro respirava conforme o fundador permitia.

No elevador, Caio apertou o botão do trigésimo andar com força demais. Marina perguntou quantas decisões daquela semana pertenciam de fato a ele. Ele respondeu que todas, se a pergunta fosse legal. Ela esperou. O elevador desceu sem parar, fechado, espelhado, silencioso. Caio passou a mão pelo cabelo e confessou que o pai aprendera a transformar escolha em dívida. Se escolhia a empresa, devia à família; se escolhia a família, devia aos investidores; se escolhia Isabel, devia a si mesmo uma explicação; se recusava Isabel, devia guerra ao conselho. Marina escutou. Depois disse que dívidas emocionais vencem mesmo quando ninguém assina.

A chamada com investidores mostrou outro Caio. Seguro, rápido, quase sedutor pela inteligência. Explicou margens, corrigiu premissas, enfrentou pergunta agressiva de um fundo estrangeiro e neutralizou boato de sucessão com meia dúzia de números bem colocados. Marina o observou pela tela refletida no vidro. Aquele homem sabia conduzir dinheiro, medo e atenção. Ao terminar, recebeu elogios dos presentes e abriu a agenda para marcar nova rodada antes de qualquer compromisso formal. Marina sentiu vontade de arrancar o tablet da mão dele. Em vez disso, perguntou qual decisão ficara pendente. Caio respondeu que nenhuma. Ela apontou para a fusão Azevedo, ainda sem assinatura.

O almoço com Isabel foi num restaurante reservado, desses onde garçons somem antes que conversas caras fiquem perigosas. Isabel chegou de branco outra vez, talvez por cálculo, talvez por vício de imagem. Beijou Caio no rosto, tocou seu braço com familiaridade pública e cumprimentou Marina com simpatia suficiente para jornal. Pediu salada, água com gás e privacidade. Caio explicou que Marina acompanharia a rotina inteira por exigência do contrato. Isabel abriu o guardanapo no colo e disse que admirava mulheres objetivas. Marina agradeceu. Isabel acrescentou que objetividade ajudava a entender quando um papel profissional terminava. Caio segurou o copo. Marina pediu massa com vinho tinto.

Durante a refeição, Isabel falou do jantar beneficente, da mesa reservada para os Prado e os Azevedo, da nota social que já circulava em rascunho e da conveniência de tratarem o anúncio como confirmação natural, sem pedido performático. Marina perguntou se havia pedido privado. Isabel olhou para Caio. Caio olhou para o prato. A ausência respondeu antes dele. Marina cortou a massa devagar, porque algumas crueldades ficam melhores quando recebem tempo. Isabel disse que a vida adulta dispensava teatralidade. Marina respondeu que vida adulta dispensava também consentimento presumido em benefício de acionista. O garçom apareceu com o vinho num momento gloriosamente covarde.

No carro de volta, Caio permaneceu em silêncio por vários quarteirões. Marina deixou. A cidade corria nas janelas em cinza, concreto e anúncios de luxo, enquanto o motorista fingia surdez profissional. Por fim, Caio disse que Isabel entendia o jogo desde o início. Marina perguntou qual jogo. Ele passou os dedos pelo punho da camisa, irritado. Disse que as famílias negociavam fusão havia anos, que ele e Isabel tinham afinidade, história, respeito. Marina virou o rosto para ele. Afinidade não é pedido. História não é resposta. Respeito não é autorização. Caio abriu a boca, fechou, depois riu sem prazer. Chamou aquilo de aula cara.

A tarde confirmou o padrão. No jurídico, Caio pediu três pareceres para uma questão que exigia assinatura. Na comunicação, solicitou duas versões de nota pública e aprovou nenhuma. Na preparação para entrevista, desviou da pergunta sobre Isabel com habilidade tão fina que a assessora quase aplaudiu. Marina interrompeu no meio da terceira simulação e pediu que todos saíssem. A sala esvaziou com rapidez. Caio cruzou os braços. Ela colocou o gravador sobre a mesa e pediu uma resposta simples: vai anunciar noivado hoje? Ele encarou o aparelho, depois Marina. Disse que precisava avaliar impacto. Ela desligou o gravador. Informou que impacto já existia; faltava apenas autoria.

Ele se aproximou de novo, agora sem a leveza provocativa da manhã. A irritação deixava Caio mais bonito, o que Marina considerou um defeito logístico. Ele disse que ela reduzia escolhas complexas a frases elegantes. Marina respondeu que ele ampliava frases simples até virarem labirinto. A distância entre os dois caiu para menos de um passo. Caio olhou para a boca dela sem esconder totalmente. Marina percebeu e não ofereceu resgate. O ar condicionado soprava frio, ainda assim a nuca dela aqueceu sob o coque. Ele perguntou se ela tinha uma decisão para cada coisa. Ela respondeu que tinha limites, o que costumava resolver bastante.

O celular de Caio vibrou sobre a mesa. Isabel. Ele não atendeu. Vibrou de novo. Clara. Também não atendeu. Na terceira chamada, apareceu Otávio Prado. Caio pegou o aparelho, olhou a tela e manteve na mão, sem deslizar o dedo. Marina observou a cena com uma atenção quase clínica. Ali estava o império: um homem adulto, dono de aviões, prédios e manchetes, paralisado por três nomes na tela. Quando o telefone cessou, ela perguntou se ele percebia o espetáculo. Caio respondeu baixo que percebia tudo. Pela primeira vez naquele dia, a frase não pareceu defesa. Pareceu cansaço.

Marina pediu acesso à agenda dos últimos seis meses. Caio liberou com um gesto no tablet, talvez por rendição, talvez para terminar a conversa antes que ela tocasse em algo pior. Bianca respondeu em cinco minutos com um relatório cruzado: reuniões adiadas vinte e sete vezes, assinatura da fusão prorrogada quatro vezes, conversa com Clara remarcada oito vezes, comunicado sobre Isabel preparado desde fevereiro, decisão sobre a fábrica do interior pendente havia onze dias. Marina leu em voz alta, sem entonação dramática. Caio ficou junto à janela, a cidade atrás dele, o corpo imóvel demais para quem fingia controle. O diagnóstico deixava de ser impressão.

Às seis da tarde, antes do jantar beneficente, Marina entrou no camarim improvisado ao lado do salão executivo e encontrou Isabel escolhendo brincos diante do espelho. Caio estava de paletó aberto, em pé, recebendo instruções de uma assessora. Isabel segurou uma caixa de veludo e perguntou qual par parecia mais adequado para uma noiva paciente. A assessora congelou. Caio endureceu. Marina pegou os brincos da caixa, avaliou o brilho e devolveu. Disse que paciência, quando exibida por tempo demais, começa a parecer cobrança. Isabel sorriu sem mostrar dentes. Perguntou se aquilo era consultoria ou opinião pessoal. Marina respondeu que, naquele contrato, a diferença custava caro.

O jantar começou com fotógrafos, flores brancas e gente que falava de filantropia segurando taças de champanhe importado. Caio circulava com Isabel ao lado, cumprimentando empresários, políticos e herdeiros treinados para abraços breves. Marina ficou a alguns metros, observando a coreografia. Isabel sabia entrar no quadro. Caio sabia iluminar o quadro. Nenhum dos dois sabia dizer quem escolhera aquela imagem. Quando um colunista perguntou sobre o anúncio esperado, Caio olhou para Marina antes de responder. Foi um erro delicioso. A câmera registrou o desvio mínimo dos olhos dele. Isabel registrou melhor ainda.

Caio disse ao jornalista que a empresa faria comunicados no tempo adequado. Era a resposta perfeita, polida, vazia, quase criminosa de tão ensaiada. Marina fechou o bloco. O dia inteiro cabia naquela frase. Mais tarde, no corredor de serviço, Caio a alcançou enquanto ela pedia o carro. Perguntou se havia salvação para alguém feito dele. Marina guardou a caneta devagar. Disse que salvação era palavra grande demais para consultoria. O que existia era treino, perda e assinatura. Ele perguntou por onde começavam. Marina olhou para o salão, depois para Isabel, depois para ele. Amanhã, disse, você escolhe uma coisa antes do café.

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