A Festa de Isabel
A festa de Isabel ocupava o salão principal do Palacete Azevedo com flores brancas, taças finas e garçons treinados para desaparecer antes que alguém precisasse lembrar que luxo também depende de gente em pé. Marina chegou sem convite social, usando vestido preto simples, cabelo preso e a pasta de comunicação aos investidores dentro de uma bolsa pequena demais para a gravidade do assunto. Bianca vinha ao lado, oficialmente assistente técnica, extraoficialmente sentinela com batom vermelho. Do outro lado da entrada, fotógrafos procuravam Caio, Isabel, algum rastro de Otávio. Quando viram Marina, corrigiram o alvo com a rapidez cruel de quem fareja história mais barata que verdade.
Isabel surgia em todos os pontos do salão sem parecer andar. Vestia prata claro, joias discretas e uma serenidade construída por gerações de mulheres ensinadas a sorrir enquanto calculam herança. A festa fora anunciada antes da suspensão de Otávio, para celebrar a parceria entre Prado Vértice e Azevedo Global. Depois da sessão fechada, transformara-se em teste público. Cancelar indicaria pânico. Manter indicaria força. Reescrever o roteiro indicaria guerra. Marina percebeu o terceiro caminho assim que viu, perto do palco, dois painéis com as marcas das famílias e um espaço reservado para pronunciamento. Isabel jamais desperdiçaria uma plateia pronta.
Caio chegou vinte minutos depois, sozinho. Nenhuma escolta de pai, nenhuma quase-noiva ao braço, nenhum sorriso ensaiado. A ausência de Otávio gerou murmúrio antes que qualquer comunicado oficial pudesse organizar a curiosidade. Clara entrou logo atrás dele, de azul escuro, carregando uma pasta de couro e a expressão de quem havia dormido vestida para uma reunião. Marina observou os irmãos a distância. Caio encontrou seu olhar no meio do salão. Não caminhou até ela. Cumprimentou investidores, falou com dois conselheiros e deixou claro, pelo itinerário, que estava ali pela empresa. Marina aprovou contra a própria vontade. Bianca percebeu e comentou que aprovação silenciosa também dava rugas.
O primeiro ataque veio com luvas. Uma senhora ligada aos Azevedo aproximou-se de Marina e disse que admirava mulheres capazes de seguir trabalhando sob tanta exposição. O elogio trazia lâmina escondida na palavra tanta. Marina respondeu que exposição só assusta quando falta documento. A mulher sorriu, sem saber se fora ofendida, e se afastou em busca de presa mais dócil. Bianca ofereceu champanhe. Marina recusou. Precisava da cabeça limpa, do corpo calmo e da boca pronta para frases curtas. Num salão daqueles, qualquer excesso viraria retrato. Qualquer silêncio viraria culpa. Qualquer respiração mais funda seria interpretada por alguém com coluna social e pouca ética.
Renan apareceu perto do bar, contrariando todas as recomendações formais de afastamento. Usava smoking impecável e aquela calma de homem que confunde entrada proibida com coragem. Marina o viu antes de Caio. Clara também. A irmã de Caio moveu apenas dois dedos, e um segurança discreto aproximou-se do bar. Renan levantou a taça em direção a Marina, brindando à distância. Ela não respondeu. Bianca murmurou que certos homens tinham alergia a porta fechada. Marina pediu que registrasse foto, horário e testemunhas. A festa, além de vitrine, começava a produzir prova própria. Isabel observava de longe, aparentemente concentrada numa conversa com investidores franceses.
Às nove, as luzes diminuíram meio tom. O gesto bastou para calar o salão. Isabel subiu ao palco sem pressa, agradeceu a presença de acionistas, parceiros, imprensa econômica e amigos das duas famílias. Falou da tradição Azevedo, do legado Prado, da importância de estabilidade em tempos de ruído. A palavra ruído fez Marina sentir o salão inteiro olhando sem mover o rosto. Isabel continuou. Disse que empresas sobrevivem porque pessoas adultas sabem sacrificar vaidades particulares por continuidade coletiva. Caio estava na primeira fila, entre Clara e um conselheiro independente. Marina, mais atrás, percebeu a mão dele fechar em torno do programa impresso.
Isabel chamou Caio ao palco antes de anunciar o motivo formal do encontro. A plateia aceitou com um suspiro de expectativa, esse som pegajoso que transforma gente em entretenimento. Caio subiu. Parou ao lado dela, sem tocar sua mão. Isabel sorriu para os fotógrafos e disse que certas alianças nascem antes dos contratos, amadurecem nas famílias e precisam ser preservadas quando interesses menores tentam criar desordem. Marina ouviu o desenho inteiro: noivado sugerido, fusão purificada, consultora reduzida a tropeço. Antes que Isabel concluísse, uma tela ao fundo exibiu a imagem das duas marcas sobrepostas e a frase continuidade acima de tudo.
Caio pegou o microfone com uma calma que Marina ainda não confiava por completo. A primeira frase dele decidiu o ar da sala. Disse que continuidade sem verdade era apenas repetição cara. O sorriso de Isabel congelou sem quebrar. Caio agradeceu a hospitalidade dos Azevedo e afirmou que a Prado Vértice não faria anúncio de noivado, compromisso afetivo ou pacto familiar naquela noite. Um murmúrio correu pelas mesas. Ele prosseguiu. A fusão permaneceria suspensa até conclusão da auditoria independente, Otávio Prado estava afastado preventivamente e qualquer informação sobre a consultoria conduzida por Marina Figueira Campos seria avaliada por documento, jamais por insinuacões de corredor ou fotografia vazada.
O salão perdeu a educação por alguns segundos. Taças pararam no ar, celulares subiram, a imprensa aproximou o corpo das grades discretas. Isabel virou o rosto para Caio, ainda sorrindo, com os olhos dizendo outra coisa. Ele continuou, e dessa vez Marina sentiu o perigo. Disse que havia permitido que a cautela parecesse dúvida, que isso custara reputação a uma profissional que entregara mais coragem à empresa do que muitos herdeiros presentes naquela sala. A frase tocava a verdade. Também tocava espetáculo. Marina endireitou a coluna. Bianca cochichou que era bonito. Marina respondeu que beleza, em crise, podia ser uma armadilha com luz boa.
Caio concluiu dizendo que nenhum desejo pessoal dele comprara o trabalho de Marina e que nenhuma conveniência familiar teria autoridade para apagá-lo. Não declarou amor. Não citou relacionamento. Ainda assim, o salão entendeu a intimidade escondida sob a técnica, porque salões assim vivem de farejar aquilo que fingem condenar. Isabel retomou o microfone com habilidade admirável. Disse que respeitava a posição de Caio e esperava que a verdade, quando plenamente apurada, protegesse todas as famílias envolvidas. Famílias, no plural, arrumava espaço para ameaça futura. Em seguida, convidou todos a seguirem com o jantar, fingindo acreditar que a noite ainda obedecia ao cardápio.
Marina saiu para o terraço antes que Caio descesse do palco. O ar externo vinha frio, trazendo cheiro de jardim molhado e motor distante. Precisava ficar sozinha por três minutos, luxo quase vulgar naquela sequência de dias públicos. Não conseguiu. Caio apareceu na porta de vidro pouco depois, parou do lado de dentro e perguntou com os olhos se podia aproximar. Marina fez um gesto pequeno. Ele veio até a balaustrada, mantendo distância suficiente para não transformar a cena em fotografia romântica. Disse que precisava corrigir o que fizera na coletiva. Marina olhou para a cidade, iluminada abaixo do palacete, e respondeu que correção diante de plateia ainda pertence à plateia.
Caio aceitou sem defesa imediata. O silêncio dele já havia melhorado, o que a irritava por razões pouco generosas. Ele disse que não fizera aquilo para reconquistá-la. Marina virou o rosto. Perguntou se tinha certeza ou se apenas preferia acreditar nisso agora. Ele respirou com dificuldade. Respondeu que queria reconquistá-la, sim, porém a fala no salão precisava existir mesmo que ela nunca voltasse a atender uma ligação dele. A honestidade chegou menos polida e, por isso, menos ofensiva. Marina segurou a vontade de aliviar a frase. Alívio feminino, em certos homens, vira dependência com nome bonito.
Ela disse que ele confundia acerto com absolvição porque aprendera a ser aplaudido por qualquer passo fora da covardia. Caio recebeu o golpe de frente. Respondeu que talvez fosse verdade. Disse também que, no palco, pela primeira vez, não sentira Marina guiando a resposta. Marina quase corrigiu a palavra sentira, quase implicou com a confissão, quase sorriu. Em vez disso, perguntou se ele queria medalha por ter ficado de pé sozinho. Ele disse que queria uma chance de continuar fazendo isso quando ninguém estivesse olhando. A frase ficou no terraço entre jardim e salão, simples demais para parecer ensaiada.
Antes que Marina respondesse, Isabel apareceu na porta. O vestido prata parecia mais frio sob a luz externa. Ela pediu licença com educação perfeita e disse que Caio era necessário numa conversa com investidores. Depois olhou para Marina. Afirmou que discursos públicos têm custo, e que algumas mulheres sabem cobrar esse custo com excelência. Marina perguntou se aquilo era elogio, acusação ou pedido de consultoria. Isabel sorriu. Disse que Marina deveria saber a diferença, sendo tão experiente. A palavra tentou repetir o golpe do capítulo anterior, agora com verniz de anfitriã. Marina respondeu que experiência servia justamente para reconhecer provocação barata, mesmo quando vinha servida em taça fina.
Caio interveio apenas o necessário. Disse a Isabel que falaria com os investidores em dez minutos, acompanhado de Clara e do comitê, sem conversa privada sobre fusão. Isabel olhou para ele, medindo a novidade. Disse que ele estava mudado. Caio respondeu que estava documentado. Marina quase riu, e esse quase a traiu mais que beijo. Isabel percebeu. O rosto dela endureceu por um instante. Então voltou ao salão, deixando perfume e ameaça. Caio permaneceu no terraço, sem celebrar a resposta. Bom. Alguns avanços perdem valor quando o autor exige testemunha para cada centímetro.
Marina avisou que sua renúncia seguiria em protocolo na manhã seguinte. Caio fechou os olhos por um segundo, abriu e assentiu. Disse que entendia. Ela acrescentou que a fala dele no salão ajudava a empresa, não mudava a situação dos dois. Ele perguntou se a situação tinha nome. Marina pensou em desejo, raiva, respeito, cansaço, saudade antecipada. Escolheu precisão. Disse que era uma negociação suspensa por falta de confiança suficiente. Caio recebeu o nome com um riso curto e triste. Disse que, vindo dela, até rejeição parecia cláusula aproveitável. Marina respondeu que ele deveria parar de procurar charme em sentença desfavorável.
O jantar continuou com talheres obedientes e conversas em volume cuidadosamente reconstruído. Marina voltou ao salão separada de Caio, sentou-se ao lado de Bianca e revisou no celular a minuta da comunicação aos investidores. Clara enviou uma versão corrigida, seca e forte. Renan já havia sido retirado da festa, segundo mensagem da segurança, após tentar abordar um conselheiro no corredor lateral. Isabel discursava em grupos pequenos, recalculando danos. Caio permanecia com investidores, usando frases curtas, sem prometer salvação familiar. O comportamento dele começava a parecer escolha repetida, ainda insuficiente, ainda observável. Marina odiou o quanto isso importava.
Ao sair, perto da meia-noite, ela encontrou um bilhete no vidro do carro. Sem assinatura, sem delicadeza: a próxima foto virá com áudio. Bianca quis chamar segurança. Marina guardou o papel num envelope plástico que carregava por hábito profissional e olhou para a escadaria do palacete. Caio vinha descendo com Clara, percebeu o rosto dela e parou. Dessa vez, Marina não escondeu o bilhete. Entregou a ele uma cópia fotografada, não o original. Disse que a festa acabara de produzir o próximo incêndio. Caio leu, levantou os olhos e perguntou onde ela estaria segura naquela noite. Marina respondeu que segurança jamais cabia num endereço. Era prova, porta trancada e ausência de homens tomando decisão por ela.