A Suíte Presidencial O Bilionário Indeciso · Capítulo 5 de 23
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A Suíte Presidencial

Caio assinou antes do almoço, com Marina de pé ao lado da mesa e Clara observando da porta da sala jurídica. A cláusula que vinculava a fusão Azevedo a qualquer anúncio de noivado saiu da minuta com um traço limpo, registrado em ata, copiado para investidores e entregue ao advogado do conselho sem teatro. Renan Lobo leu a alteração em silêncio, depois olhou para Marina com aquele meio sorriso de quem reconhecia uma derrota e tentava transformá-la em charme. Ela guardou a caneta na bolsa. Caio manteve a mão sobre o documento por alguns segundos, talvez esperando que o teto caísse. Nada caiu. Só o telefone dele começou a tocar.

Isabel ligou três vezes. Otávio ligou duas. O pai de Isabel mandou uma mensagem longa demais para ser jurídica e curta demais para ser educada. Caio leu, respirou, respondeu apenas que a negociação seguiria à tarde no hotel onde os Azevedo hospedavam os investidores estrangeiros. Marina aprovou a resposta com um movimento quase imperceptível da cabeça. Ele viu. A pequena aprovação fez mais por ele que qualquer elogio de conselho. Clara percebeu também e saiu antes que o irmão notasse o sorriso dela. Renan ficou para trás, recolhendo cópias, e comentou que Marina sempre soubera tornar uma sala mais perigosa do que precisava.

Ela respondeu que salas perigosas costumavam revelar quem entrou armado. Renan aceitou a frase com prazer antigo, daqueles que tentam recuperar intimidade pela memória. Caio, do outro lado da mesa, fechou a pasta com força controlada. Marina viu a reação e decidiu ignorá-la por profissionalismo e por vaidade. Havia uma satisfação inconveniente em perceber ciúme naquele homem que ainda aprendia a escolher. O problema do ciúme é que, em homens poderosos, ele costuma se fantasiar de proteção. Marina conhecia o figurino. Por isso, quando Caio perguntou se Renan participaria da reunião no hotel, ela respondeu que participaria qualquer pessoa útil e suportável. Nessa ordem.

O hotel escolhido pelos Azevedo ocupava os últimos andares de uma torre nova, com lobby silencioso, perfume de flores caras e funcionários treinados para enxergar crise sem demonstrar opinião. A reunião começou às três, numa sala reservada ao lado da suíte presidencial, porque os investidores queriam discrição e Isabel queria território. Ela chegou acompanhada do pai, de Renan e de uma assessora, vestida de verde escuro, séria, bonita, ferida em lugar público. Marina cumprimentou todos e sentou onde havia melhor visão da mesa. Caio sentou ao lado dela, escolha pequena, compreendida por todos. O ar da sala ficou educado demais.

A negociação durou quase quatro horas. O pai de Isabel tentou recolocar a cláusula por linguagem indireta, usando palavras como alinhamento familiar, estabilidade social e narrativa de continuidade. Marina desmontou cada termo com paciência cruel. Clara, por vídeo, reforçou os números. Caio falou menos que de costume e decidiu mais. Quando o investidor suíço perguntou se a instabilidade pessoal poderia comprometer a governança, ele respondeu que a instabilidade vinha justamente da confusão entre afeto e contrato. Isabel baixou os olhos por um instante. Marina sentiu pena, guardou a pena no bolso e continuou trabalhando. Em mesa cara, sentimento mal colocado vira alavanca contra alguém.

Às sete e quarenta, a tempestade cobriu a avenida com água e sirenes. O trânsito parou, o heliponto fechou, a garagem ficou bloqueada por carros oficiais e a gerência do hotel ofereceu quartos para todos. Renan aceitou com rapidez demais. Isabel recusou no primeiro impulso, depois recebeu ligação do pai e mudou de ideia. Caio pediu duas suítes executivas em andares separados. A recepcionista, pálida de eficiência, informou que o hotel estava lotado por causa de um congresso médico e que restava apenas a suíte presidencial, já reservada para a reunião, com quarto, sala e escritório independentes. Marina fechou a pasta. Claro que restava.

Caio disse que ela ficaria com o quarto, ele ficaria no escritório, e a porta da suíte permaneceria aberta para a segurança no corredor. Marina aceitou com uma condição: Bianca receberia mensagem com número do quarto, nomes presentes no andar e horário previsto de saída. Ele concordou sem discutir. Essa obediência nova, longe de diminuí-lo, tornava sua presença mais difícil de ignorar. No elevador, subiram os dois e um funcionário carregando pasta de documentos. A cabine cheirava a metal frio e chuva trazida nos casacos. Caio olhou para o painel. Marina olhou para a mão dele, limpa, forte, ainda marcada pela pressão da caneta.

A suíte presidencial tinha duas salas, piano decorativo, bar, escritório e uma janela imensa diante da cidade encharcada. O quarto ficava no fundo, separado por um corredor curto. Marina foi direto à mesa e espalhou as minutas, mantendo o vestido preto, embora a barra estivesse úmida. Caio tirou o paletó e arregaçou as mangas. A cena ganhou intimidade sem pedir autorização: ele servindo água, ela prendendo o cabelo de qualquer jeito, os dois descalços após a recepcionista enviar chinelos do hotel em embalagens brancas. A distância social entre CEO e consultora encolheu de modo perigoso quando a chuva começou a bater mais forte contra o vidro.

Trabalharam por uma hora. Cortaram termos, revisaram prazos, prepararam resposta pública e definiram que a fusão só avançaria após auditoria independente. Caio errou uma data, Marina corrigiu. Ela esqueceu uma página no sofá, ele encontrou. Em algum momento, o silêncio deixou de ser técnico. Marina percebeu primeiro, porque sempre percebia quando uma sala mudava de temperatura. Caio estava junto à janela, lendo o último aditivo, com a camisa colada no antebraço por causa da umidade. A luz da cidade desenhava o rosto dele de lado. Não havia plateia, noiva, pai, conselho, ex-amante. Havia apenas um homem cansado e uma mulher que conhecia bem o perigo de confundir trégua com permissão.

Ele perguntou se podia fazer uma pergunta pessoal. Marina fechou a tampa da caneta. Disse que ele já gastara a pergunta pessoal da semana. Caio aceitou a recusa com um gesto, depois veio até a mesa e colocou a versão final diante dela. Assinara todos os pontos que prometera assinar. A letra dele parecia menos tensa. Marina conferiu, página por página, procurando falha, adiamento, fuga escondida em vírgula. Encontrou apenas decisão. Quando ergueu os olhos, Caio estava perto. Perto o bastante para que ela sentisse o calor do banho recente, a respiração controlada, a vontade contida por disciplina, sem frieza.

Marina disse que ele cumprira a parte dele. Caio respondeu que ainda faltava cumprir a cláusula mais difícil. Ela perguntou qual. Ele tocou de leve a borda da mesa, ao lado da mão dela, sem encostar. Clareza, disse. A palavra ficou suspensa, simples, quase indecente dentro daquela suíte cara. Marina poderia fazer uma piada. Poderia abrir o notebook. Poderia lembrar que Bianca sabia o número do quarto. Em vez disso, perguntou o que ele queria com clareza. Caio olhou para a boca dela, depois para os olhos, nessa ordem honesta que valia mais que prudência. Respondeu que queria beijá-la e queria saber se ela desejava o mesmo.

Marina ficou imóvel o tempo suficiente para o próprio desejo deixar de parecer reação. Sentia o corpo atento, a nuca quente, os dedos inquietos sobre a mesa. Caio não avançou. Essa espera, pela primeira vez, não veio de covardia. Veio de cuidado. Ela se levantou devagar, e a distância entre eles desapareceu sem gesto brusco. Tocou o peito dele com a ponta dos dedos, sentindo o algodão fino da camisa, o coração batendo mais rápido do que a expressão permitia mostrar. Disse que desejava, sim, e que isso não alterava o contrato. Caio respondeu que nada naquela noite alteraria o respeito. Só então Marina permitiu o beijo.

O primeiro contato foi cuidadoso demais para a fome que havia entre eles. A boca de Caio tocou a dela com contenção, quase pergunta. Marina respondeu segurando a nuca dele, e a delicadeza perdeu a pose. Ele a beijou com mais firmeza, mãos paradas na cintura até ela aproximar o corpo. A chuva cobria a cidade inteira. O barulho protegia a respiração dos dois, o pequeno som que Marina fez quando ele desceu a boca até sua mandíbula, o modo como os dedos dela encontraram o cabelo dele e desfizeram a ordem do penteado. Caio murmurou o nome dela sem pressa, e Marina gostou do estrago que uma única palavra fazia quando vinha naquela voz.

Ele a ergueu pela cintura apenas o suficiente para sentá-la na beira da mesa, afastando as minutas com cuidado quase reverente. Marina riu contra a boca dele, porque até no desejo Caio parecia disposto a preservar documento. A risada afrouxou algo nos dois. Ele beijou seu pescoço, pausando quando ela prendeu a respiração, aprendendo sinais sem transformá-los em vitória. Marina soltou o primeiro botão da camisa dele, depois o segundo, sentindo a pele quente sob os dedos. O corpo de Caio respondeu com uma tensão franca. Ela gostou daquela sinceridade física, menos polida que o executivo e mais decente que muitas promessas.

Quando a mão dele subiu pelas costas do vestido e parou no fecho, Marina segurou seu pulso. Caio interrompeu tudo no mesmo instante. O gesto dele, rápido, obediente, acendeu nela uma confiança incômoda. Ela disse que ainda não. Ele assentiu, respirando fundo, testa encostada à dela. Sem cobrança. Sem teatro de frustração. Marina passou o polegar pela boca dele, marcada de batom, e sentiu vontade de levá-lo mais longe justamente porque ele soubera parar. Beijou-o de novo, mais lento, menos faminto, com uma promessa silenciosa que pertencia ao futuro próximo e ao risco que ambos conheciam.

O celular de Caio tocou sobre o sofá. O som atrapalhou a sala com brutalidade comum. Ele fechou os olhos por um segundo. Marina desceu da mesa, arrumou a barra do vestido e pegou a pasta mais próxima, recuperando postura antes que o mundo entrasse. Caio olhou a tela. Isabel. O nome apareceu iluminado, insistente, inadequado e triste. Marina esperou que ele decidisse sem instrução. O aparelho tocou até cair. Tocou de novo. Caio atendeu na terceira chamada, colocando no viva-voz apenas após avisar Isabel de que Marina estava na suíte por causa da negociação. Houve silêncio do outro lado. Depois a voz dela veio baixa, ferida e perigosa.

Isabel disse que o pai acabara de suspender a assinatura dos Azevedo. Disse também que Renan alertara sobre conflito de interesse entre consultora e CEO. Marina olhou para Caio. Ele não desviou. Respondeu que a consultoria seguiria, que as decisões daquela tarde estavam registradas e que qualquer acusação formal deveria vir por escrito. Isabel perguntou se Marina estava no quarto dele. Caio respirou, e Marina soube que ali morava a próxima escolha. Ele respondeu que Marina estava na suíte onde ambos revisavam documentos, com segurança no corredor e registro enviado à assistente. A verdade saiu limpa. Incompleta, sim. Ainda assim, limpa o bastante para impedir chantagem imediata.

A ligação terminou sem despedida. A chuva continuava. A mesa estava torta, as minutas espalhadas, a camisa de Caio aberta em dois botões, o batom de Marina apagado no centro. Nenhum dos dois fingiu normalidade. Marina foi até o espelho do lavabo, retocou a boca e voltou com o rosto recomposto. Caio permanecia perto da janela, olhando a cidade. Disse que Isabel não merecia ser humilhada. Marina concordou. Disse que ela também não merecia virar álibi para a indecisão dele. Caio guardou o celular no bolso e respondeu que, então, no dia seguinte, ele acabaria com a ambiguidade diretamente com Isabel. Marina pegou a pasta. Antes do café, ela disse. Caio sorriu pouco. Antes do café.

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