Reunião em Veneza O Bilionário Indeciso · Capítulo 8 de 23
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Reunião em Veneza

Veneza recebeu Marina com céu baixo, água escura e turistas demais para uma reunião que pretendia discrição. O convite dos investidores suíços chegara na noite anterior, depois que Caio suspendeu a fusão, abriu auditoria e afastou Renan das análises societárias. O grupo queria conversar longe de São Paulo, em um palazzo alugado para um encontro de fundos europeus, onde cada parede antiga parecia cobrar silêncio em moeda forte. Marina desembarcou sem mala grande, com duas pastas, um vestido azul-marinho para o jantar e a irritação disciplinada de quem sabe que reuniões bonitas costumam esconder decisões feias. Caio veio no mesmo avião, três fileiras à frente, obedecendo ao teatro da distância.

No barco reservado pelo hotel, sentaram em bancos opostos. O motorista falava pouco. A água batia no casco com insistência, e as fachadas velhas passavam devagar, cheias de janelas fechadas e roupas penduradas. Caio usava óculos escuros e camisa clara, aparência de herdeiro em revista, mãos inquietas denunciando o homem que ainda aprendia a não pedir aprovação antes de respirar. Marina manteve os olhos na cidade, porque olhar para ele naquela luz seria admitir uma fraqueza desnecessária. A última conversa na galeria permanecia entre os dois, junto da frase que ele dissera sobre desejo perder o direito de atropelar o resto. Boas frases pedem provas. Veneza ofereceria várias.

Clara ficou em São Paulo, comandando a auditoria e enviando mensagens secas a cada meia hora. Isabel viajou com o pai, porém recusou o mesmo hotel de Caio. A decisão foi inteligente. Também foi um aviso. No lobby, Marina viu Isabel passar de tailleur creme, cabelo preso, acompanhada por dois advogados Azevedo e uma assistente que carregava tablet contra o peito. As duas mulheres se cumprimentaram com um aceno. Caio estava ao lado de Marina, e por um segundo pareceu tentado a dizer algo que suavizasse a cena. Não disse. Isabel percebeu. Marina também. O silêncio correto dele valeu mais que meia dúzia de desculpas.

A reunião começou às quatro, numa sala comprida, com lustre antigo, água mineral em garrafas verdes e uma janela aberta para um canal estreito. Os investidores queriam saber se a auditoria suspenderia toda a operação. O pai de Isabel queria preservar desconto de ativos. Caio queria manter a empresa viva sem entregar o comando ao fantasma de Otávio. Marina queria impedir que todos chamassem medo de prudência. Abriu a apresentação com números, datas, falhas de governança e uma recomendação objetiva: a fusão poderia continuar apenas após revisão independente do parecer uruguaio, retirada de qualquer influência de Renan e renovação da matriz de avaliação. Disse tudo em português, depois em inglês, sem perder uma vírgula.

O investidor suíço, homem magro de rosto rosado, perguntou se a instabilidade emocional do CEO contaminava a operação. A frase veio elegante, quase limpa. Caio virou o rosto para Marina, rápido, procurando talvez permissão para reagir. Ela não deu. Ele respirou, apoiou as mãos sobre a mesa e respondeu que a operação fora contaminada justamente quando interesses familiares passaram a usar sua vida pessoal como instrumento de contenção. Disse que a auditoria não enfraquecia a empresa. Enfraquecia quem precisava de sombra. O pai de Isabel mexeu no anel. Isabel olhou para Caio de um jeito novo, sem perdão, sem deboche. Talvez reconhecimento.

Marina completou a resposta com documentos. Mostrou a cadeia de mensagens do comitê informal, os vínculos da empresa uruguaia e a ata preparada por Clara. Evitou linguagem de escândalo. Escândalo distrai. Fato constrange melhor. Um dos advogados Azevedo tentou questionar a legitimidade de Clara, insinuando ressentimento familiar. Isabel interrompeu antes de Marina. Disse que ressentimento não invalida documento e que a família dela revisaria qualquer proposta contaminada por arranjo paralelo. O pai dela a encarou com surpresa dura. Marina sentiu a sala reorganizar suas apostas. A quase-noiva deixava de ser peça ornamental e começava a cobrar preço por ter sido usada como cenário.

O intervalo veio com café forte e biscoitos secos. Caio saiu para o terraço interno, e Marina ficou na sala recolhendo papéis. Isabel aproximou-se sem pressa. Disse que não agradeceria por terem revelado a manipulação, porque parte dela já desconfiava e preferira a conveniência. Marina respondeu que lucidez tardia ainda servia para impedir assinatura ruim. Isabel olhou pela janela, onde Caio falava ao telefone com Clara, sério, sem gesticular. Comentou que ele parecia mais velho. Marina disse que decisão amadurece o rosto antes de amadurecer os hábitos. Isabel sorriu de leve. Perguntou se Marina pretendia esperar os hábitos. Marina respondeu que nunca esperava homem algum. Às vezes observava progresso por interesse profissional.

Isabel aceitou a evasiva com elegância suficiente para tornar a pergunta ainda presente. Disse que uma mulher como Marina sabia muito bem quando uma sala mudava por causa dela. Marina fechou a pasta. Disse que salas mudavam por causa de documentos, votos e assinaturas. Isabel riu baixo. Chamou aquilo de resposta útil para ata. Antes de voltar à mesa, avisou que Renan tentara contato com o pai dela durante o voo. Oferecera um parecer alternativo, pago por uma consultoria externa, contra a suspensão da fusão. Marina pediu cópia. Isabel respondeu que enviaria se Marina prometesse não fingir surpresa. A aliança entre elas continuava desconfortável, o que talvez fosse a única forma decente de começar.

A segunda rodada terminou perto das oito. Ficou definido que a auditoria avançaria em dez dias, a fusão permaneceria viva sob revisão e Renan seria formalmente afastado de qualquer etapa. Caio assinou o termo no fim da mesa, ao lado de Isabel. As canetas tocaram o papel quase ao mesmo tempo. O pai dela recusou assinar naquele momento, alegando consulta ao conselho familiar. O suíço aceitou a suspensão parcial. Marina registrou tudo. Quando Caio levantou, procurou por ela com os olhos antes de perceber que fazia isso diante de todos. Corrigiu-se, tarde, porém corrigiu-se. Marina desviou primeiro. Em público, alguns desejos precisam aprender a ficar sem alimento.

O jantar aconteceu num restaurante pequeno, reservado pelo fundo suíço, com mesas de madeira escura e janelas abertas para um canal onde passavam barcos silenciosos. Marina ficou entre um advogado de Zurique e uma diretora francesa que falava de arte com agressividade fiscal. Caio sentou duas cadeiras adiante, ao lado de Isabel, e cumpriu a noite inteira com uma disciplina quase cruel. Não tocou no braço de ninguém, não inclinou o corpo para criar intimidade, não usou gentileza para comprar paz. Isabel sustentou a mesma postura. Os dois pareciam pessoas que tinham assinado, enfim, a devolução de um papel que jamais lhes pertenceu por completo.

Marina bebeu pouco. Caio percebeu. Ela percebeu que ele percebeu e achou ridículo o grau de atenção possível entre duas pessoas fingindo distância. Depois do jantar, caminharam em grupo por ruas estreitas até o hotel. A cidade cheirava a água antiga, pedra molhada e perfume de gente rica saindo de restaurantes. Num beco iluminado por uma lâmpada fraca, a diretora francesa pediu ajuda ao advogado com um salto quebrado, Isabel parou para atender o pai, e Caio ficou ao lado de Marina por trinta segundos sem testemunha útil. Ele disse que gostaria de beijá-la. Marina respondeu que gostaria que ele chegasse vivo ao fim da auditoria. Ele riu com a boca fechada.

No hotel, Marina subiu sozinha. Fechou a porta do quarto, tirou os sapatos e encontrou sobre a mesa uma pasta enviada por Isabel, com o parecer alternativo de Renan. Havia também um cartão do hotel, sem assinatura, informando que a sala de leitura do terceiro andar ficaria vazia até meia-noite. Marina ficou olhando para o cartão por tempo demais. Depois recebeu mensagem de Caio: Renan enviou parecer para Otávio também. Preciso revisar com você. Sala de leitura? Ela respondeu: dez minutos. Vestiu o casaco sobre o vestido e prendeu o cabelo de qualquer jeito. A prudência não impedia encontro. Só exigia luz acesa, porta destrancada e objetivo real.

A sala de leitura tinha estantes falsas, poltronas de veludo e uma mesa central onde Caio já espalhara documentos. A porta ficou aberta. Marina aprovou sem elogiar. Ele estava de camisa branca, mangas dobradas, sem paletó, cabelo desalinhado pelo dia longo. A aparência dele quase atrapalhou a leitura. Quase. Trabalharam em silêncio por vinte minutos, marcando contradições, datas impossíveis e honorários escondidos em uma nota anexa. Renan tentava salvar a influência vendendo medo aos dois lados. Marina fotografou tudo para Bianca. Caio observou seus dedos no celular e disse que ainda queria beijá-la. Ela respondeu que agora ele estava sendo repetitivo. Ele disse que clareza às vezes precisa repetir.

Marina largou a caneta. A frase poderia ter soado ensaiada em outro homem. Em Caio, naquela noite, depois de reunião, renúncia pública, Isabel firme e Renan cercado por papéis, parecia menos conquista e mais confissão teimosa. Ela se levantou e foi até a porta. Olhou o corredor vazio, a câmera no teto, o carrinho de serviço parado perto do elevador. Depois fechou a porta até deixá-la apenas encostada. Voltou à mesa. Caio não se moveu. Essa ausência de pressa, outra vez, trabalhou contra a defesa dela. Marina tocou o rosto dele com dois dedos e disse que, se ele confundisse aquilo com recompensa por ter se comportado bem, ela iria embora.

Caio respondeu que não queria prêmio. Queria presença. A frase chegou simples demais para ser desmontada. Marina beijou-o antes que ele dissesse outra coisa útil. O beijo começou diferente daquele da suíte presidencial. Menos espanto, mais reconhecimento. Ele segurou a cintura dela com cuidado, e Marina aproximou o corpo sem transformar a escolha em rendição. A mesa bateu de leve contra a perna dela quando Caio a guiou para trás. O som fez os dois pararem e rirem baixo, absurdamente jovens por um segundo. Depois a boca dele voltou ao pescoço dela, e a risada desapareceu na respiração que Marina tentou controlar sem sucesso.

Ela abriu os botões da camisa dele com lentidão deliberada, um por um, observando o modo como Caio fechava os olhos a cada toque. Ele deslizou as mãos pelas costas dela, parando antes do fecho do vestido. Marina sussurrou que podia. Ele pediu confirmação olhando para ela, não para o vestido. Sim, ela disse. A palavra saiu baixa, firme. O vestido afrouxou sobre os ombros dela, e Caio beijou a pele descoberta com uma reverência que a irritou e comoveu ao mesmo tempo. Marina segurou o cabelo dele, puxando-o de volta para a boca. Reverência demais também atrasa.

O celular dela vibrou sobre a mesa. Bianca. Marina soltou uma praga curta, encostando a testa no ombro de Caio. Atendeu porque Bianca não ligava por tédio internacional. A voz da assistente veio rápida: Renan acabara de protocolar, em São Paulo, pedido de suspensão da consultoria por conflito de interesse, anexando registros do hotel anterior e uma foto desfocada de Caio entrando na sala de leitura naquela noite. Marina olhou para a porta encostada. Caio ouviu o bastante para entender. A intimidade saiu da sala sem pedir desculpa. Marina ergueu o vestido no ombro, fechou o fecho com ajuda dele e pediu que Bianca enviasse tudo.

Caio parecia pronto para explodir. Marina segurou a mão dele antes que procurasse o telefone. Disse que a primeira reação definiria a próxima manchete. Ele respirou, difícil, obedecendo ao que aprendera com ela. Pediu a Bianca, no viva-voz, cópia do protocolo e da foto. Depois disse que registraria imediatamente a reunião de trabalho, anexaria o parecer de Renan, chamaria Clara e comunicaria ao conselho que o próprio Renan produziria prova contra si. Marina soltou a mão dele. Havia desejo ali, ainda aceso, agora misturado a estratégia. Veneza oferecera a eles uma noite possível e a arrancara pela metade. Talvez fosse melhor assim. O que sobrevivesse ao escândalo teria menos desculpas.

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