Coleta Presencial O Cartório Virtual · Capítulo 2 de 12
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Coleta Presencial

Davi não puxou Raquel para uma sala. Isso teria sido honesto demais. Ele ficou de pé na entrada da baia, entre ela e o corredor, com o headset quebrado ainda pendurado na mão, e falou como supervisor diante de erro pequeno.

"Você vai sair para almoçar agora."

Raquel olhou para o relógio do computador. Eram 09h41.

"Meu almoço é meio-dia."

"Hoje é agora. Deixa o crachá na mesa."

Os atendentes mais próximos continuaram olhando para as próprias telas, mas ninguém digitava. O som dos teclados tinha diminuído de um jeito que denunciava atenção coletiva. Raquel sentiu vergonha antes de sentir medo, e odiou isso. Empresas eram boas em fazer a pessoa se sentir infantil no momento exato em que precisava agir como adulta.

"Ana Lúcia está em perigo", ela disse.

Davi baixou a voz. "Você não conhece essa pessoa."

"Eu estava falando com ela."

"Você estava falando com um protocolo contaminado."

A palavra veio pronta, limpa, ensaiada. Protocolo contaminado. Raquel pensou na anotação oculta, titular resistiu ao encerramento, prova de vida reversa. Havia ali um idioma inteiro escondido por baixo do atendimento cordial. Se ela ficasse, aprenderia esse idioma do lado errado da mesa.

Pegou a bolsa, mas não deixou o crachá. Davi viu, segurou seu pulso por um segundo e soltou quando uma coordenadora passou pelo corredor. O gesto foi rápido. Mesmo assim, Raquel fotografou na cabeça a pressão dos dedos dele, porque prova, às vezes, começava como memória dolorida.

No elevador, ela abriu o celular. A mensagem sem remetente continuava na tela: SE QUISER CONTINUAR EXISTINDO, NÃO FAÇA PROVA DE VIDA. Tentou responder. O campo de envio nem apareceu. Tentou ligar para Ana Lúcia. Número inexistente. A operadora informava que aquela linha não recebia chamadas. Cinco minutos antes, a mulher tinha atendido com medo de alguém parado no corredor.

Raquel saiu do prédio pela garagem dos funcionários. O Cartório Virtual ocupava quatro andares de uma torre comercial na Berrini, sem placa na fachada além de uma logomarca discreta na recepção. Por fora, parecia empresa de seguro, fintech, consultoria de benefícios, qualquer coisa que vendesse confiança por assinatura mensal. Na calçada, motoboys esperavam pedidos, gente de crachá fumava, um homem limpava vidro com fone de ouvido. Ninguém parecia preocupado com vivos declarados mortos.

Ela chamou um carro por aplicativo e digitou o endereço de Ana Lúcia. O sistema recusou o destino na primeira tentativa: local indisponível. Digitou de novo, com CEP. Recusou. Pesquisou no mapa. O prédio existia, aparecia em foto antiga, mas a rota não fechava. Como se a rua tivesse sido retirada da cidade por alguns segundos.

Raquel fechou o aplicativo e foi até o ponto de táxi na avenida. Um motorista de camisa azul encostava no capô, comendo pão de queijo de um saco pardo.

"Santo André, bairro Campestre. Leva?"

"Levo. Dinheiro ou cartão?"

"Dinheiro."

Ele abriu a porta sem perguntar mais nada. Raquel sentou atrás, mandou o endereço por escrito e ficou olhando pelo vidro enquanto o prédio da empresa diminuía. Só então percebeu que tremia. Não como em filme, nada bonito, nada visível para quem passasse. Tremia por dentro dos dedos, na mandíbula, nos lugares pequenos que ninguém respeita quando pede calma.

No meio do caminho, tentou acessar o próprio cadastro no Cartório Virtual pelo celular. A senha funcionou. O painel de funcionária abriu com uma faixa amarela: acesso externo registrado. Logo abaixo, havia um aviso novo.

Raquel Nunes, atualização cadastral pendente. Faça prova de vida para manter seus acessos ativos.

Ela bloqueou a tela na hora.

O motorista olhou pelo retrovisor. "Tudo certo?"

"Sim."

"Esse sim foi feio."

Raquel quase riu. "Trabalho."

"Trabalho faz coisa pior que assalto. Assalto pelo menos acaba rápido."

Ela guardou o celular dentro da bolsa e só pegou de novo quando chegaram ao prédio de Ana Lúcia, uma torre antiga de doze andares, fachada bege, portaria estreita e vasos de espada-de-são-jorge na entrada. Havia uma viatura da polícia parada do outro lado da rua, vazia. A presença dela não tranquilizou Raquel. Parecia cenário abandonado por quem recebeu chamada melhor.

Na portaria, um homem grisalho levantou os olhos do jornal. "Pois não?"

"Vim falar com Ana Lúcia Ferreira. Apartamento...?"

"Ela faleceu."

A resposta saiu tão rápida que Raquel soube que ele já repetira aquilo.

"Eu sou parente", mentiu.

"Estranho. A família já veio buscar as coisas."

"Que família?"

O porteiro fechou o jornal. "Moça, não quero problema. O sistema marcou óbito, veio representante, tinha documento, tinha autorização. A administração mandou liberar."

"Representante de quem?"

"Da empresa funerária. Ou do cartório. Não sei. Hoje em dia todo mundo mostra QR Code."

Raquel sentiu o chão prático da situação ceder. "Quando?"

"Uns vinte minutos atrás."

Ela olhou para a rua. Vinte minutos. Se tivesse saído sem discutir com Davi, talvez chegasse a tempo de ver. Talvez a tempo de sumir junto.

"Posso subir?"

"Não. Apartamento lacrado."

"Lacrado por quem?"

Ele apontou para uma folha colada atrás do balcão. Ordem de restrição patrimonial por encerramento civil. O documento tinha brasão digital, selo do Cartório Virtual e assinatura automática. Raquel leu a frase duas vezes. Encerramento civil. Não era morte. Era apagamento com nome administrativo.

O elevador abriu atrás dela. Uma mulher saiu carregando sacolas de mercado. Parou ao ouvir o nome de Ana Lúcia.

"Você é da polícia?", perguntou.

"Não."

"Então cuidado. O homem que veio aqui não era da funerária. Ele perguntou se a professora tinha deixado computador ligado. Quem busca morto não pergunta isso."

Raquel se virou para ela. "A senhora viu o rosto?"

"Máscara, boné, crachá no pescoço. Mas tinha uma pasta preta com etiqueta vermelha."

"Que etiqueta?"

A vizinha apertou as sacolas contra o corpo. "CVR. E um número. Sete sete oito quatro dez."

O protocolo de Ana Lúcia.

O porteiro começou a dizer que não podia haver conversa ali. Raquel pediu licença e foi para a calçada. O ar parecia quente demais. Ela caminhou até a viatura vazia e viu, pelo vidro, um tablet preso no painel. Na tela bloqueada, uma notificação ainda aparecia.

Ocorrência cancelada: solicitante inexistente.

Raquel tirou foto. O clique fez pouco barulho, mas um homem do outro lado da rua levantou a cabeça. Estava encostado em uma moto sem placa dianteira, capacete pendurado no braço, pasta preta presa no bagageiro. A etiqueta vermelha aparecia de longe.

Ele guardou o celular no bolso e atravessou na direção dela.

Raquel não esperou. Entrou no primeiro comércio aberto, uma copiadora com cheiro de toner e papel quente. A atendente, uma moça com piercing no nariz, ergueu as sobrancelhas quando Raquel trancou a porta de vidro.

"Moça?"

"Tem saída pelos fundos?"

"Tem, mas..."

O homem bateu no vidro com dois dedos. Sem pressa. A pasta preta estava agora contra o peito dele. No crachá, Raquel conseguiu ler apenas uma palavra: Verificador.

O celular dela vibrou outra vez.

NÃO CORRA PARA CASA. SUA CERTIDÃO ESTÁ EM PRÉ-ANÁLISE.

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