Sem Cadastro O Cartório Virtual · Capítulo 4 de 12
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Sem Cadastro

A janela basculante não tinha tamanho para uma fuga digna. Raquel descobriu isso quando Marta passou primeiro, com a agilidade feia de quem já tinha treinado em lugares piores, e a atendente da copiadora puxou do lado de fora pelo braço do casaco. Raquel subiu na pia molhada, bateu o joelho na torneira e enfiou a bolsa pela abertura antes do corpo. Do corredor do banheiro, o Verificador batia na porta com a mesma paciência de antes.

"Regularização não precisa ser traumática", ele disse.

Marta, já do outro lado, respondeu baixo: "Sempre dizem isso quando trazem trauma embalado."

Raquel prendeu o quadril na janela. Por dois segundos, achou que morreria ali, entalada no banheiro de uma farmácia, com uma certidão em pré-análise e uma desconhecida puxando sua manga. A atendente da copiadora, do lado externo, segurou seus dois pulsos.

"Inspira menos", ela mandou.

"Como é que inspira menos?"

"Descobre agora."

Raquel torceu o ombro, perdeu um sapato e caiu em cima de sacos de lixo limpo no corredor de serviço da farmácia. O impacto arrancou o ar dela. Marta fechou a janela por fora e encaixou um cabo de vassoura no trilho. Seguraria pouco. O bastante para obrigar o homem a escolher outro caminho.

A atendente da copiadora usava avental azul e tênis branco sujo de toner. "Meu nome é Jéssica", disse. "E vocês estão devendo um vidro, uma venda perdida e uma explicação que eu talvez me arrependa de ouvir."

"Você não devia se envolver", Marta falou.

Jéssica olhou para a porta de serviço. "Moça, ele mostrou meu CNPJ no celular e perguntou se eu queria manter minha loja aberta. Já me envolveu."

Raquel pegou o sapato caído e calçou sem arrumar o cadarço. O celular encharcado estava morto dentro da bolsa, pingando água em recibos antigos. Pela primeira vez desde a mensagem sem remetente, ela ficou sem tela. A ausência deu alívio e pavor ao mesmo tempo.

Marta levou as duas por um corredor de carga que saía atrás de um pequeno mercado. Passaram por caixas de hortifruti, uma pilha de engradados e um entregador sentado no chão almoçando marmita. Ele nem levantou a cabeça. Na rua lateral, uma Kombi cinza esperava com o motor ligado. Não tinha placa dianteira, apenas um pedaço de papelão no para-brisa escrito manutenção predial.

"Entra", Marta disse.

"De quem é?", Raquel perguntou.

"De um morto que dirige melhor que muito vivo."

O motorista virou o rosto. Era um homem magro, barba rala, boné de supermercado. "Ofensa gratuita, Marta."

"Dirige, Elias."

Raquel entrou no banco de trás com Jéssica. A Kombi saiu antes de a porta fechar direito. No retrovisor, ela viu o Verificador aparecer na esquina da farmácia, falando ao telefone. Não correu. Apenas anotou a direção com os olhos.

"Ele não precisa correr", Elias disse, como se tivesse escutado o pensamento dela. "Sistema corre por ele."

"Para onde estamos indo?"

"Para um lugar que não pede CPF para entrar", Marta respondeu.

O lugar era uma oficina de conserto de televisores em uma rua escondida entre galpões velhos. A placa dizia Imagem Boa Assistência Técnica, letras descascadas, vitrine cheia de controles remotos e aparelhos que pareciam ter sido abandonados por famílias inteiras. Elias estacionou nos fundos. Marta abriu uma porta metálica com três batidas curtas, duas longas, uma curta. Por dentro, alguém destravou.

A oficina tinha cheiro de poeira quente, solda e café passado forte. Atrás do balcão, uma sala maior abrigava quatro mesas, computadores antigos sem câmera, roteadores cobertos por fita, cabos atravessando o teto e um quadro branco cheio de nomes. Alguns estavam em verde, outros em amarelo, muitos em vermelho. Ana Lúcia Ferreira estava escrita no canto direito, circulada duas vezes.

Raquel parou diante do quadro. "Quantos?"

"Confirmados, oitenta e sete", disse uma voz atrás dela.

Uma mulher idosa saiu de uma sala menor, apoiada em bengala, cabelo branco preso em coque baixo. Vestia blusa de lã apesar do calor. Os outros endireitaram o corpo quando ela entrou, não por medo, por respeito automático.

"Suspeitos, trezentos e doze. Mortos de verdade usados como teste, não sabemos."

Marta fez a apresentação: "Dona Célia. Primeiro óbito revertido que não reverteu."

A velha olhou para Raquel. "Você trabalha no Cartório Virtual."

"Trabalhava."

"Ainda trabalha enquanto eles precisarem culpar alguém. Senta."

Raquel sentou em uma cadeira de escritório com estofado rasgado. Jéssica ficou perto da porta, braços cruzados, tentando parecer irritada o bastante para não parecer assustada. Elias colocou sobre a mesa o celular afogado de Raquel dentro de um pote plástico.

Dona Célia abriu uma pasta de papelão. Dentro havia impressões de certidões, capturas de tela, fotos de pessoas segurando documentos, recortes de reclamações apagadas de sites. "O Cartório Virtual não inventou morrer gente viva. Erro de registro sempre existiu. A diferença é escala, automatização e interesse. Antes, um erro precisava de funcionário cansado, papel perdido, má-fé localizada. Agora, um módulo decide e todas as portas obedecem."

"Por quê?", Raquel perguntou. "Qual o ganho?"

Dona Célia virou uma página. "Inventário rápido. Conta liberada. Imóvel sem disputa. Seguro. Fraude de previdência. Sumir testemunha. Limpar processo. Cada morto vivo serve para uma coisa. O sistema não escolhe o motivo. Só oferece uma morte barata e juridicamente bonita."

Raquel pensou em Ana Lúcia, professora de matemática, convênio cancelado, banco fechado, prédio obedecendo ao selo digital. "E a coleta presencial?"

A sala ficou um pouco mais quieta.

Elias respondeu. "Quando a pessoa insiste em aparecer viva, precisam corrigir a pessoa, não o registro."

"Matar?"

"Às vezes. Às vezes gravar biometria sob ameaça. Às vezes internar como indigente. Às vezes fazer assinar procuração antes de sumir. Depende de quem comprou a morte."

Raquel levou a mão ao pescoço. "Ana Lúcia ainda pode estar viva."

"Pode", Marta disse. "E você sabe acessar o protocolo dela."

"Sem meu celular, sem crachá..."

Dona Célia empurrou um notebook velho para ela. A tampa estava riscada, e a câmera tinha sido arrancada, deixando um buraco preto coberto por fita. "Sem câmera. Sem microfone. Rede própria. Você entra pelo painel interno, baixa histórico, descobre quem comprou o encerramento."

"Se eu entrar, eles rastreiam."

"Sim."

"Então por que eu faria?"

Dona Célia não suavizou. "Porque rastreiam você de qualquer jeito. A diferença é se antes disso você descobre para onde levaram Ana Lúcia."

Raquel olhou para o quadro. Seu nome estava em amarelo, escrito com caneta recente. Ao lado, uma seta: pré-análise, coleta pendente, origem CV atendimento. A própria vida reduzida a fluxo de processo.

Sentou diante do notebook. Os dedos hesitaram sobre o teclado. Uma parte dela ainda esperava ouvir Davi dizendo que tudo era treinamento de segurança, simulação, auditoria interna absurda. Outra parte, mais honesta, lembrava a voz de Ana Lúcia no telefone, o homem no corredor, o chat fechado sozinho.

Digitou usuário e senha. O sistema aceitou.

Uma notificação apareceu no canto da tela: acesso de Raquel Nunes autorizado. Localização inconsistente. Iniciar prova de vida?

Dona Célia segurou o pulso dela antes que o susto virasse clique. "Nada de botões azuis."

Raquel respirou e fechou o aviso pelo atalho de teclado. Abriu o protocolo CV-778410. O histórico estava maior do que antes. Novas linhas tinham sido adicionadas depois da coleta.

09h38 - equipamento recolhido. 09h42 - titular não localizada fisicamente. 09h44 - ativar substituição documental. 09h51 - comprador solicita urgência. Imóvel com janela de transferência às 16h.

"Imóvel", Jéssica leu por cima do ombro. "Estão matando a professora por causa de apartamento?"

Raquel rolou a tela. Havia um campo que ela nunca tinha visto: beneficiário final. Estava oculto por permissão superior, mas a linha seguinte mostrava o cartório parceiro responsável pela cadeia completa: Unidade 14 - Registro Remoto Tatuapé.

Marta anotou o nome.

De repente, todos os monitores da oficina piscaram. O notebook de Raquel travou em uma tela branca. Letras pretas surgiram, uma por uma, sem cursor.

RAQUEL NUNES NÃO ESTÁ EM ATENDIMENTO AUTORIZADO.

Elias correu para o roteador. "Corta a rede."

A frase seguinte apareceu antes que ele arrancasse o cabo.

SALA DOS VIVOS IDENTIFICADA.

Do lado da vitrine, na frente da oficina, o telefone fixo começou a tocar. Ninguém se mexeu. Tocou seis vezes, parou, tocou de novo. Dona Célia atendeu no viva-voz.

A voz de Davi saiu limpa, educada, quase triste.

"Raquel, você levou o problema para gente que não pode mais morrer. Isso complica a coleta."

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