Unidade 14 O Cartório Virtual · Capítulo 5 de 12
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Unidade 14

Dona Célia deixou o viva-voz ligado. Ninguém na oficina respirava como antes. A voz de Davi atravessava o telefone fixo com uma calma quase íntima, deslocada entre televisores abertos e cabos pendurados.

"Raquel, você levou o problema para gente que não pode mais morrer. Isso complica a coleta."

Raquel levantou da cadeira. "Onde está Ana Lúcia?"

"Ainda tentando existir. Você viu como isso é trabalhoso."

Marta fez sinal para Elias rastrear a chamada. Elias apontou para o aparelho antigo e balançou a cabeça. Linha comum, central desviada, truque velho. Davi não ligaria de onde pudesse ser achado.

"Ela é professora", Raquel disse. "Não é processo."

"Todo mundo vira processo quando entra no sistema certo. Você sabe disso. Atendeu quantos divórcios como se fossem troca de plano? Quantos inventários como se fossem segunda via? A diferença é que hoje você viu a pessoa antes de ver a etapa."

Raquel sentiu vontade de quebrar o telefone. Dona Célia segurou o cabo com a mão enrugada, impedindo o impulso sem olhar para ela.

"O que você quer?", Dona Célia perguntou.

Davi demorou. "Célia Sampaio. Ainda usando oficina como abrigo. Seu neto sabe que você continua ativa?"

Pela primeira vez, a velha perdeu cor. Marta deu um passo na direção do telefone. Dona Célia ergueu a bengala, mandando parar.

"Meu neto enterrou uma certidão", ela disse. "Não uma avó."

"Ele tem emprego novo. Financiamento. Uma filha pequena. O mundo cadastrado recompensa silêncio."

"E pune vivos inconvenientes", Raquel falou.

"Exato", Davi disse. "Por isso estou oferecendo uma saída. Raquel volta. Entrega o que acessou. A oficina fecha. Ninguém faz prova de vida. Ninguém precisa ser localizado hoje."

Jéssica soltou uma risada curta. "Nossa, que generoso o homem que veio cobrar morte."

"Quem é essa?", Davi perguntou.

Raquel olhou para Jéssica. A atendente tapou a boca tarde demais.

Davi continuou: "Interessante. Pessoa não listada. Isso costuma acabar mal para prestadores autônomos."

Jéssica ficou quieta. Raquel viu a raiva subir nela, mais forte que o medo. Talvez fosse isso que o sistema não calculava direito: gente comum aceitava muita coisa por boleto, até o dia em que alguém ameaçava a lojinha, a mãe, o filho, a própria existência pequena e teimosa.

"Davi", Raquel disse. "Se você sabe onde estamos, por que está ligando?"

O silêncio do outro lado respondeu antes da voz.

"Porque não sei qual porta vocês vão usar. E porque Raquel Nunes ainda é funcionária ativa por mais quarenta e três minutos. Depois disso, o acesso dela vira invasão."

Dona Célia desligou.

A oficina permaneceu imóvel por dois segundos. Depois todos se moveram ao mesmo tempo. Elias fechou cortinas, Marta recolheu pastas, Jéssica pegou uma tesoura no balcão como se fosse arma aceitável. Raquel ficou parada diante do notebook.

"Quarenta e três minutos", ela disse.

"Isca", Marta respondeu.

"Também é prazo."

Dona Célia encarou Raquel. "Você quer ir à Unidade 14."

"O protocolo de Ana Lúcia aponta para lá. Se ela não foi localizada fisicamente, talvez tenham levado o equipamento para fechar substituição documental. Computador, celular, backup. Dá para fabricar biometria melhor se tiver material da pessoa."

"Ou dá para descobrir o comprador."

"Sim."

Elias fechou uma mochila com ferramentas. "Tatuapé em quarenta minutos só se o trânsito morrer também."

"Não vamos de carro", Dona Célia disse.

Foram de metrô, porque o sistema de transporte ainda aceitava dinheiro em bilheteria pequena e porque Elias conhecia uma entrada onde as câmeras ficavam viradas para a catraca errada desde uma reforma. Raquel colocou um boné, uma máscara descartável e o casaco de Marta. Jéssica insistiu em ir junto, dizendo que já tinha sido ameaçada, que a loja estava fechada e que alguém precisava cobrar o vidro se todos sobrevivessem. Dona Célia ficou na oficina, com dois celulares velhos e uma lista de contatos que não existiam em aplicativo nenhum.

No vagão, Raquel viu seu reflexo no vidro escuro. Sem celular, sem crachá visível, sem o sapato direito bem amarrado. Uma pessoa podia desaparecer de muitas formas antes de morrer. Perder os objetos era uma delas.

Marta falou baixo: "Unidade 14 não é cartório de atendimento. É parceiro de cadeia."

"Parceiro de cadeia completa", Raquel corrigiu.

"Isso. Lugar que valida o que outros não podem assinar com nome próprio."

"Tem tabelião?"

"Tem alguém com certificado digital e pouca curiosidade. O resto é sala fechada."

Jéssica, sentada do outro lado, perguntou: "E se a professora estiver lá?"

Raquel pensou antes de responder. "Então a gente tira."

"Plano lindo. Longo, detalhado."

"Você pode voltar."

"E deixar vocês sem tesoura? Jamais."

A Unidade 14 ficava no segundo andar de um prédio comercial antigo, entre uma clínica de estética e um curso preparatório para concurso. A placa na porta dizia Registro Remoto Tatuapé, com letras prateadas e um QR Code para agendamento. A recepção estava vazia. Havia duas poltronas, uma máquina de café e uma câmera no teto apontada direto para a entrada.

Marta puxou Raquel para o corredor antes que a câmera pegasse o rosto inteiro. "Fundos."

"Como sabe?"

"Eu já morri por aqui."

Entraram pela escada de serviço. No patamar do segundo andar, uma porta corta-fogo estava entreaberta. Lá dentro vinha barulho de impressora térmica e uma voz masculina ditando números. Raquel reconheceu a cadência de conferência documental: CPF, data, selo, protocolo, validação.

Elias abriu uma fresta. A sala dos fundos tinha três mesas, dois computadores, um scanner de documentos e uma cabine pequena com iluminação circular. Em uma cadeira, uma mulher de blusa verde estava sentada de lado, mãos presas por fita plástica, rosto inchado.

Ana Lúcia.

Raquel levou a mão à boca. Marta segurou seu braço antes que ela entrasse.

Dentro da sala, um homem de jaleco cinza ajustava a câmera da cabine. O Verificador da moto estava junto à janela, pasta preta sobre a mesa. Um terceiro homem, de camisa social azul, falava ao telefone.

"A titular resistiu. Vamos usar substituição com base no acervo. O comprador precisa assinar até dezesseis horas, eu sei. Sem rosto final não fecha banco."

Ana Lúcia levantou a cabeça devagar, como se tivesse ouvido alguma coisa. Raquel não sabia se a professora a reconheceu pelo atendimento ou se apenas sentiu uma pessoa do lado de fora da morte dela.

Jéssica sussurrou: "A gente chama polícia agora."

Marta apontou para um tablet sobre a mesa da sala. Na tela, Raquel viu uma ocorrência registrada e cancelada em tempo real. Solicitante: Ana Lúcia Ferreira. Status: inexistente.

"Sem prova, eles limpam antes", Marta disse.

Raquel olhou para o próprio relógio de pulso, analógico, barato, único aparelho que ainda obedecia só ao tempo. Trinta e um minutos até seu acesso virar invasão.

"Elias, consegue derrubar energia?"

"Do andar, talvez. Do prédio, chama atenção."

"Chamar atenção é bom. Só não antes de eu entrar no sistema."

"Você vai entrar lá?"

"Vou."

Marta segurou mais forte o braço dela. "Raquel."

"Eu ainda sou funcionária ativa. Eles mesmos disseram."

Ela tirou o boné, ajeitou o casaco e abriu a porta de serviço antes que alguém pudesse impedir. Entrou na sala como se tivesse sido chamada, porque aprendeu cedo que prédio corporativo teme mais quem parece autorizado.

O homem de camisa azul virou primeiro. "Quem é você?"

"Raquel Nunes, atendimento central. Vim finalizar a cadeia da contestação."

O Verificador estreitou os olhos. Reconheceu. Raquel viu, mas continuou andando até o computador livre.

"Davi pediu pressa", ela disse. "O acesso expira em vinte e nove minutos. Se vocês querem culpar meu login, pelo menos deixem meu login funcionar."

A frase fez o homem de camisa azul hesitar. Culpa era senha universal em empresa suja. Ninguém queria impedir a pessoa designada para carregar o erro.

Ana Lúcia olhou para ela. Raquel não olhou de volta. Se olhasse, talvez estragasse tudo.

Sentou ao computador. Digitou usuário e senha. O sistema abriu.

No canto da tela, uma janela apareceu: procedimento de encerramento civil - lote 14. Dentro do lote, havia cinco nomes. Ana Lúcia era o terceiro. Raquel Nunes era o quinto.

O Verificador se aproximou por trás.

"Rápido", ele disse.

Raquel clicou em detalhes do lote. Uma lista de beneficiários finais apareceu por menos de um segundo antes de bloquear. Foi suficiente para ver um nome repetido em três linhas: Vértice Patrimonial S.A.

Ela pressionou a tecla que Dona Célia ensinara no metrô, um atalho simples para capturar tela e enviar para um endereço escondido. Nada aconteceu visualmente. Talvez tivesse funcionado. Talvez não.

O homem de camisa azul percebeu tarde. "Quem autorizou esse comando?"

A luz apagou.

Elias havia encontrado o quadro.

No escuro, Ana Lúcia gritou pela primeira vez.

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