A Casa de Itaquera O Cartório Virtual · Capítulo 8 de 12
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A Casa de Itaquera

O nome de Davi Moreira ficou parado no tablet como sentença que ainda procurava cartório. Abaixo dele, o nome da mãe parecia menor, embora ocupasse a mesma linha. Elza Moreira, setenta e um anos, casa térrea em Itaquera, inventário em regularização, prova de vida reversa pendente. Raquel leu três vezes, esperando que a repetição transformasse o absurdo em dado comum. Não transformou.

Dona Célia pegou o tablet e aproximou da luz fraca do galpão. "A Vértice não esperou nem meia hora."

"Eles punem desvio rápido", Marta disse. "Serve de recado para quem opera."

Ana Lúcia estava sentada em um sofá sem encosto, com uma manta nos ombros e um copo de água entre as mãos. A pele ao redor dos pulsos começava a escurecer onde a fita plástica havia apertado. "Então ele vai fazer o quê?"

"Se for esperto, não abre a porta", Jéssica respondeu.

Raquel olhou para a tela. "Davi não é esperto desse jeito. Ele acha que ainda consegue negociar."

Pedro, perto da entrada do galpão, falava ao telefone com alguém da transportadora, inventando atraso, pneu, cliente ausente, qualquer coisa que comprasse mais tempo. Elias mexia no tablet sem tocar nos botões principais, copiando o que podia para um computador antigo. Dona Célia anotava nomes em papel, porque papel continuava existindo depois que servidor fechava a cara.

"A casa da mãe dele fica a vinte minutos daqui", Raquel disse.

Marta levantou a cabeça. "Não."

"Você nem ouviu."

"Ouvi pelo seu rosto. Você quer ir."

"Se salvamos Elza, Davi fala. De verdade."

"Ou entregamos todo mundo para uma emboscada feita para isso."

Raquel não respondeu na hora. Marta tinha razão suficiente para irritar. O sistema usava urgência como isca. Um nome em vermelho, uma mãe idosa, uma verificação na porta. Tudo empurrava o corpo para a rua antes que a cabeça terminasse de contar saídas.

Dona Célia fechou a pasta. "Vamos, mas não todos. Ana fica. Jéssica também."

"Eu?", Jéssica perguntou. "Fui promovida a sobrevivente de sofá?"

"Você foi promovida a pessoa não listada. Enquanto continuar assim, é nossa melhor testemunha externa."

Jéssica mordeu a resposta. Pela primeira vez desde a copiadora, pareceu satisfeita em não estar no centro do desastre.

Foram Raquel, Marta, Elias e Pedro. Dona Célia ficou com Ana e Jéssica, coordenando por um celular velho. Antes de sair, Ana segurou o pulso de Raquel.

"Se encontrar a professora Neide no lote, ela mora perto da minha escola", disse. "Dá aula de português. Ou dava. Não sei mais como falar."

"A gente vai achar."

"Não promete como atendente."

Raquel assentiu. "Então prometo como fraude viva."

Pedro dirigiu o caminhão até uma garagem pequena em São Mateus, onde trocaram para um carro popular sem rastreador, emprestado por alguém que devia favor à avó. No caminho para Itaquera, Raquel tentou imaginar Davi criança naquela casa. O exercício falhou. Ela só via o supervisor de terno claro puxando o fio do headset, dizendo desliga enquanto uma mulher viva pedia ajuda.

A casa de Elza Moreira ficava em uma rua de paralelepípedo, com muro baixo, portão verde e uma mangueira que invadia a calçada. Havia luz na sala. Na frente, um carro preto estacionado sem ninguém dentro. Nenhuma marca, vidros escuros, motor frio.

"Eles já chegaram?", Pedro perguntou.

"Ou estão esperando", Marta disse.

Raquel desceu antes que Elias terminasse de reclamar. No portão, ouviu uma televisão ligada e uma voz de mulher falando alto, talvez no telefone. Tocou a campainha. A voz parou. Passos lentos vieram até a janela.

"Quem é?"

"Raquel. Trabalho com seu filho."

"Meu filho mandou você?"

"Não. A Vértice mandou alguém?"

A cortina se moveu. Um rosto apareceu por trás da grade, olhos pequenos, cabelo branco preso com presilha. "Você é a moça que morreu hoje?"

Raquel soltou o ar pelo nariz. "Ainda estou recorrendo."

Elza abriu o portão com uma chave presa no pescoço por barbante. "Entra logo. Davi disse que se alguém falasse Vértice eu devia fechar tudo. Depois ligou de novo mandando abrir se fosse uma mulher sem celular. Vocês combinam mal."

Marta entrou primeiro, olhando corredor, quintal, portas. Elias foi para o relógio de energia. Pedro ficou no portão. Raquel seguiu Elza até a sala. Havia fotos antigas na estante: Davi adolescente com uniforme escolar, Davi em formatura, Davi ao lado da mãe diante da casa, segurando uma chave nova. A casa era pequena, limpa, cheia de objetos que não tinham valor para fundo imobiliário até alguém decidir que o terreno valia mais sem morador.

"Ele comprou esta casa para a senhora?", Raquel perguntou.

"Ajudou a terminar de pagar. Depois passou para o meu nome, porque dizia que funcionário de empresa de documento não devia ter dívida bagunçada. Sempre foi assim. Controlado. Quando pequeno alinhava chinelo antes de dormir."

A frase doeu em Raquel sem pedir. O mal raramente começava com dentes à mostra. Às vezes começava com chinelo alinhado, boleto em dia e medo de perder emprego.

Na mesa da cozinha, havia uma carta impressa da Vértice Patrimonial oferecendo compra do imóvel por valor acima do mercado, pagamento rápido, assessoria completa de regularização. Elza tinha escrito não vendo em caneta azul, três vezes, em cima do cabeçalho.

"Eles ligaram muito", Elza disse. "Depois apareceu cartório online pedindo prova de vida para atualizar meu cadastro. Davi ficou bravo quando contei. Hoje mandou eu não atender ninguém. Como se eu tivesse idade para obedecer filho assustado."

Marta apareceu na porta da cozinha. "Tem câmera no poste da frente. Nova."

"Da prefeitura?", Elza perguntou.

"A prefeitura gostaria de ser tão eficiente."

O telefone fixo tocou. Todos olharam para o aparelho sobre a estante. Elza atendeu antes que Raquel impedisse.

"Alô."

A voz de Davi saiu alta o bastante para todos ouvirem. "Mãe, não fala nada. Raquel está aí?"

Raquel pegou o telefone. "Estou."

"Tem um carro preto na rua?"

"Tem."

"Não é deles. É meu. Entrem nele. Agora."

Marta riu sem alegria. "Claro, o carro sem ninguém, no meio da emboscada, é a saída segura."

Davi falou mais rápido. "O motorista saiu quando viu vocês. Chave no quebra-sol. Dentro tem um envelope com certificado físico de auditoria. Eu tirei do cofre do Cartório Virtual antes de sair. Sem isso, vocês só têm cópia de tela e gente machucada. Com isso, conseguem provar que a matriz emergencial foi aceita antes da Vértice assumir."

"Onde você está?", Raquel perguntou.

"No prédio da empresa. Eles bloquearam as portas de saída por manutenção."

"Davi..."

"Minha mãe primeiro. Depois me odeia."

A chamada caiu.

Do lado de fora, Pedro assobiou baixo. Um segundo carro entrava na rua, devagar, farol apagado. Elza olhou para Raquel, irritada de verdade.

"Eu não vou correr de casa minha."

"Dona Elza, eles não querem sua casa com a senhora dentro."

"Problema deles."

A campainha tocou. Não o toque comum. Um som longo, pressionado, de dedo que não soltava. Pela janela da sala, Raquel viu uma mulher de blazer cinza no portão, tablet na mão, sorriso de funcionária treinada para velório caro.

"Elza Moreira?", chamou. "Verificação presencial para regularização patrimonial. O procedimento é rápido."

Marta puxou Elza para longe da janela. Elias apagou as luzes da casa pelo disjuntor. Raquel correu até o carro preto, abaixada junto ao muro. O quebra-sol caiu quando ela abriu a porta. A chave bateu no banco. Havia um envelope pardo no chão do passageiro.

Ela pegou.

Dentro, além do certificado, havia uma folha impressa com a lista parcial de clientes corporativos da Vértice. No topo, em letras pequenas, um nome que Raquel reconheceu de reuniões internas do Cartório Virtual: Lúcio Brandão, diretor de expansão pública.

O homem que apresentava o Óbito Fácil em vídeos de treinamento.

A mulher no portão parou de sorrir.

"Raquel Nunes", ela disse, olhando direto para o carro. "A senhora está usando documento de pessoa falecida. Saia com as mãos visíveis."

Na mesma hora, as luzes da rua acenderam fortes demais. A câmera nova no poste girou para a casa de Elza.

E, de dentro da sala escura, Elza Moreira gritou:

"Falecida é a paciência que eu tinha. Sai do meu portão."

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