Fraude Viva
O escuro da Unidade 14 não veio inteiro. Primeiro caiu a luz do teto. Depois os monitores morreram em sequência, deixando manchas verdes nos olhos de Raquel. A cabine de biometria continuou acesa por mais três segundos, alimentada por bateria própria, e nesse intervalo o rosto de Ana Lúcia apareceu iluminado de baixo, pálido, inchado, vivo demais para qualquer certidão.
Então tudo apagou.
Ana gritou. Não foi grito longo. Foi um som arrancado de alguém que tinha ficado quieta tempo demais porque qualquer barulho podia piorar a situação. Raquel levantou da cadeira sem pensar. O Verificador agarrou seu ombro por trás. Ela enfiou o cotovelo no estômago dele com força ruim, sem técnica, e o homem soltou mais por surpresa que por dor.
"Elias!", Marta gritou no corredor.
Alguém bateu contra uma mesa. Um teclado caiu. O homem de camisa azul xingou e pediu lanterna. Raquel seguiu a respiração de Ana, tropeçando em cabos, até bater a canela na cadeira. Tocou fita plástica, pulso, pele fria.
"Sou eu", disse. "Raquel. Do atendimento."
"Eu sei", Ana respondeu, quase sem voz. "Você mandou eu não abrir."
A frase acertou Raquel em lugar impróprio para aquele momento. Ela puxou a fita dos pulsos de Ana, mas o plástico não cedia. Jéssica apareceu ao lado, como se tivesse nascido do escuro, e enfiou a tesoura entre a fita e a pele.
"Fica parada, professora. Minha nota em trabalhos manuais sempre foi uma vergonha."
"Quem é você?"
"Cobradora de vidro."
A fita arrebentou. Ana tentou levantar e quase caiu. Raquel a segurou pela cintura. A professora era mais leve do que parecia na foto de cadastro, ou talvez o medo deixasse todo mundo com ossos de papel.
Do outro lado da sala, o Verificador acendeu uma lanterna. O feixe cortou o escuro e encontrou Marta primeiro. Ela jogou uma cadeira na direção da luz. Elias gritou do corredor que tinham dois minutos antes de o disjuntor remoto religar. Dois minutos era muito em atendimento. Em fuga, era uma piada cruel.
Raquel pegou o tablet da mesa. A tela estava apagada, mas o aparelho ainda vibrava com processamento interno. Enfiou dentro da bolsa junto do próprio celular morto. O homem de camisa azul viu.
"Isso é material oficial."
"Então pede segunda via."
Marta abriu a porta de serviço. "Sai!"
Foram para a escada. Ana mancava, um pé descalço, a blusa verde rasgada perto do ombro. Jéssica desceu primeiro, tesoura na mão, como se fosse escolta armada. Elias vinha atrás, fechando portas e arrancando cabos que encontrava pelo caminho. Raquel e Marta sustentavam Ana entre elas.
No primeiro lance, a luz de emergência acendeu. Vermelha. Fraca. Suficiente para mostrar manchas no braço de Ana: marcas de contenção, uma punção mal coberta, digitais roxas.
"Eles me fizeram gravar", Ana disse.
"Eu vi o vídeo", Raquel respondeu.
"Não era tudo eu."
"Como assim?"
Ana engoliu seco. "Eles tinham minha voz de aula online. Meu rosto de cadastro. Só precisavam de alguns movimentos. Quando eu errava, diziam que meu irmão ia receber minha certidão antes de mim."
Marta olhou para Raquel. A frase confirmava o pior de um jeito quase técnico: o sistema não substituía a violência; reduzia a quantidade necessária dela.
Chegaram ao térreo pela escada de serviço. A porta para a rua estava trancada por fora. Elias bateu o ombro uma vez, duas, nada. Jéssica apontou para uma janela alta que dava para uma área de descarte. Raquel quase riu do destino insistente das janelas pequenas.
"De novo?"
"Dessa vez você já treinou", Jéssica disse.
Antes que subissem, a luz voltou no prédio. Alarmes começaram. Não sirenes altas, só bipes internos, discretos, de escritório. O Verificador apareceu no alto da escada.
"Raquel Nunes", ele chamou. "A sua situação mudou."
Ela olhou para cima.
"Você não é mais funcionária", ele disse. "É fraude viva."
A expressão correu pelo corpo dela como água suja. Fraude viva. O sistema não precisava matá-la de imediato; podia classificá-la como golpe, pessoa usando identidade de falecida, risco para banco, risco para polícia, risco para qualquer balcão que pedisse documento.
Marta empurrou Ana para a janela. "Não responde para cargo. Anda."
Elias quebrou o vidro com a mochila de ferramentas. Saíram pela área de descarte, entre caixas de papelão molhado e sacos de lixo. Um alarme externo começou quando Ana passou. A rua lateral estava vazia, exceto por um caminhão de mudança parado com motor ligado.
Dona Célia estava no banco do passageiro.
"Vocês demoraram", ela disse pela janela aberta.
"Você dirige caminhão agora?", Marta perguntou.
"Eu não. Ele dirige."
No volante havia um rapaz de vinte e poucos anos, cabelo raspado, uniforme de transportadora. Dona Célia não olhava para ele com a dureza que usava para todos. Raquel entendeu antes da apresentação.
"Meu neto, Pedro", ela disse. "Que aparentemente prefere a avó inconveniente ao financiamento."
Pedro fez sinal para entrarem. "Rápido, por favor. Eu ainda tenho medo de tudo."
Entraram no baú do caminhão, entre mantas de mudança e caixas vazias. Ana deitou sobre duas cobertas. Jéssica fechou a porta por dentro, deixando uma fresta. O caminhão arrancou com solavanco.
No escuro do baú, o tablet recolhido acendeu sozinho dentro da bolsa de Raquel. A luz atravessou a bolsa. Ela puxou o aparelho. A tela mostrava um painel que ela nunca tinha visto, sem logotipo do Cartório Virtual, sem linguagem de atendimento.
Lote 14 - encerramentos vinculados.
Cinco nomes. Ana Lúcia Ferreira, Raquel Nunes e outros três: Tiago Albuquerque, Neide Ramos, Orlando Pires. Ao lado de cada nome, um bem associado. Apartamento, terreno, seguro, participação societária, precatório. No rodapé, o beneficiário final: Vértice Patrimonial S.A.
Ana abriu os olhos. "Vértice?"
"Você conhece?"
"Meu prédio recebeu proposta deles. Queriam comprar todos os apartamentos para derrubar e fazer torre. Eu não quis vender. Outros também não."
Dona Célia, do banco da frente, falou pela pequena abertura entre cabine e baú. "Então não é só fraude. É limpeza patrimonial."
Raquel rolou a tela. Havia um botão cinza: confirmar lote. O botão estava desativado. Abaixo, uma mensagem de pendência.
Aguardando prova de vida da operadora responsável: Raquel Nunes.
Jéssica virou para ela. "Então eles precisam de você."
Raquel sentiu uma parte pequena, perigosa, quase satisfeita, nascer no meio do medo. "Precisam que eu confirme."
Marta negou com a cabeça. "Ou precisam de você gravando sob ameaça."
O tablet vibrou. Uma chamada de vídeo entrou sem número. Antes que Raquel pudesse afastar o rosto, a imagem abriu. Davi apareceu sentado em uma sala clara, camisa sem gravata, expressão cansada.
"Você está com Ana", ele disse.
Raquel virou o tablet para o chão. A câmera dele continuou transmitindo, mas a dela mostrava apenas madeira escura.
"Você está atrasado", ela respondeu.
Davi suspirou. "Não entende ainda. A Vértice não compra morte. Compra regularidade. Pessoas como você e eu só organizam a mesa."
"Eu não sou como você."
"Ainda."
No tablet, uma nova notificação se sobrepôs ao rosto dele.
Óbito de Raquel Nunes aprovado para publicação emergencial.
Davi leu também. Pela primeira vez, pareceu surpreso.
"Raquel", ele disse, agora sem calma. "Sai desse caminhão. Eles vão fechar você sem mim."