A Sala dos Vivos O Cartório Virtual · Capítulo 3 de 12
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A Sala dos Vivos

A atendente da copiadora não perguntou outra vez. Talvez porque o homem do lado de fora tivesse cara de cobrança ruim, talvez porque Raquel segurasse a bolsa como quem segura documento contra assalto, talvez porque algumas pessoas reconhecem urgência sem precisar de explicação completa. Ela virou a placa da porta para fechado, puxou Raquel pelo balcão e apontou para um corredor estreito entre caixas de papel sulfite.

"Fundos, direita, escada. Sai no estacionamento da farmácia."

"Obrigada."

"Se ele quebrar meu vidro, você paga?"

Raquel quase respondeu que sim. Lembrou do aviso no celular, da conta que talvez deixasse de existir antes da fatura, e disse a única coisa possível: "Se eu continuar viva."

A moça fez uma careta. "O dia está ótimo para frase ruim. Vai."

O homem bateu no vidro de novo. Dessa vez usou a pasta preta. O som seco atravessou a loja, organizado e paciente. Raquel correu pelo corredor, desviou de uma impressora aberta, empurrou uma porta de metal e desceu a escada dos fundos com cheiro de água sanitária. O estacionamento da farmácia ficava abaixo do nível da rua. Três carros, uma vaga de carga e uma funcionária fumando perto do depósito.

Raquel saiu tentando parecer cliente atrasada. Falhou. A funcionária olhou para ela e para a porta de onde vinha.

"Copiadora?"

"Saída errada."

"Todo mundo que sai por aí fala isso."

Raquel atravessou o estacionamento. O celular vibrou outra vez. Ela não queria olhar. Olhou.

PRÉ-ANÁLISE CONCLUÍDA. PENDÊNCIA: LOCALIZAÇÃO PARA COLETA.

Abaixo da mensagem, havia um botão azul: confirmar prova de vida. O botão piscava com a delicadeza de uma armadilha educada. Raquel guardou o aparelho no bolso sem tocar. Subiu a rampa da farmácia e entrou na loja, passando por prateleiras de vitamina, fralda e xampu anticaspa. No fundo, perto do balcão de medicamentos, uma televisão pequena mostrava reportagem sobre trânsito. Nenhuma notícia de mulher morta em cartório digital.

Ela comprou um pacote de curativo para ter motivo de estar ali e pediu para usar o banheiro. A farmacêutica apontou para os fundos. Raquel entrou, trancou a porta e sentou na tampa fechada do vaso. Só então deixou o corpo tremer sem testemunha.

O espelho acima da pia era manchado nas bordas. Raquel olhou para o próprio rosto e tentou imaginar como ficaria em uma certidão. Nome completo, CPF, data, hora, validação. O sistema não precisava tocar nela para começar a matá-la. Bastava convencer o mundo de que já tinha feito isso.

Ela abriu o celular com cuidado, evitando o botão azul. O aviso de prova de vida ocupava a tela, impedindo outros aplicativos. O aparelho, que era dela, comprado em doze parcelas, agora obedecia primeiro ao Cartório Virtual. Tentou desligar. A tela escureceu e voltou sozinha com a mesma mensagem.

Alguém bateu na porta do banheiro.

"Ocupado", Raquel disse.

"Eu sei", respondeu uma voz feminina. "Por isso bati baixo."

Raquel ficou imóvel.

"Não sou ele", a mulher continuou. "Se fosse, já teria pedido para você confirmar seus dados."

Raquel levantou devagar. "Quem é?"

"Uma pessoa que também não pode fazer prova de vida. Abre só a trava de cima. Devagar."

Não havia trava de cima, só uma lingueta velha. Raquel olhou para a janela basculante minúscula, alta demais. Se a pessoa do lado de fora mentisse, ela não teria por onde sair. Se dissesse a verdade e Raquel não abrisse, talvez também não tivesse.

Abriu.

A mulher entrou rápido. Devia ter uns cinquenta anos, cabelo curto, mochila pequena, camisa de uniforme de limpeza por baixo de um casaco. Fechou a porta e encostou o ouvido nela.

"Você é Raquel Nunes. Atendimento do CV."

"Como sabe?"

"Porque seu nome caiu no grupo há nove minutos. Pré-análise com coleta pendente."

"Que grupo?"

A mulher tirou da mochila um celular velho, daqueles com tela pequena e teclado físico. Mostrou uma lista de nomes e códigos. Ana Lúcia Ferreira aparecia em vermelho. Raquel Nunes em amarelo.

"A gente chama de sala dos vivos", ela disse. "Nome bobo, mas nomes melhores chamam atenção."

Raquel segurou a pia. "Ana Lúcia?"

A mulher não respondeu rápido, e isso respondeu parte. "Ainda não sabemos. O Verificador saiu com alguma coisa do prédio dela. Computador, celular, talvez backup. Não vimos corpo."

"Você fala como se isso fosse bom."

"Quando o sistema quer um corpo e não mostra, às vezes é bom."

Raquel fechou os olhos por um segundo. "Quem é você?"

"Marta Siqueira. Ex-viva desde março."

"Ex-viva?"

"No papel. Na prática, diarista sem conta, sem aluguel no nome, sem convênio e sem direito a comprar passagem de ônibus pela internet. O mundo digital é muito confortável até descobrir que conforto exige cadastro."

Do lado de fora, alguém entrou no corredor dos banheiros. Marta apagou a tela do celular velho. Passos pararam diante da porta. Raquel viu a sombra por baixo da fresta.

"Senhora?", chamou a farmacêutica. "Está tudo bem?"

Marta pôs um dedo nos lábios. Raquel respondeu: "Já saio."

Os passos se afastaram.

"Escuta", Marta disse. "Você trabalha lá dentro. Isso muda tudo. A gente só vê o resultado. Você viu o histórico. Viu a linguagem deles."

"Vi pouco."

"Pouco é muito quando todo mundo está morto para reclamar."

Raquel olhou para o celular preso na tela de prova de vida. "Se eu não confirmar, o que acontece?"

"Você fica incompleta. Eles precisam da confirmação para fechar cadeia completa sem brigar com alguns bancos. Mas também podem vir buscar presencial."

"O Verificador."

"Um deles. Tem vários. Alguns acham que trabalham para compliance. Alguns sabem que recolhem gente."

Raquel sentiu náusea. "Recolhem para onde?"

Marta guardou o celular velho. "Para o lugar onde convencem a biometria a dizer sim."

A frase deixou o banheiro pequeno. Raquel imaginou Ana Lúcia diante de uma câmera às 02h41, voz rouca, rosto obedecendo comandos. Confirmo meus dados e autorizo o registro. Aquilo podia ter sido gravado sob ameaça, sedação, deepfake, qualquer palavra moderna que não alcançava a sensação mais simples: uma pessoa forçada a participar da própria exclusão.

"Preciso ir à polícia", Raquel disse.

Marta sorriu sem humor. "A viatura da Ana teve ocorrência cancelada porque a solicitante era inexistente. Se você registrar agora, seu boletim pode virar prova de que você apareceu viva depois da própria morte. Eles adoram contradição controlada."

"Então o quê? Fujo para sempre?"

"Primeiro, para uma hora. Depois, para outra. A gente trabalha com prazos curtos."

O celular de Raquel vibrou tão forte que quase caiu da mão. O botão azul sumiu. No lugar, apareceu uma câmera frontal abrindo sozinha. A imagem do rosto dela ocupou a tela, cercada por um círculo branco.

Iniciando prova de vida automática.

Marta arrancou o aparelho da mão dela e jogou dentro da pia. Abriu a torneira. A tela piscou, chiou, continuou ligada por dois segundos impossíveis e apagou.

"Esse era caro", Raquel disse, porque a cabeça escolhe detalhes idiotas quando falta chão.

"Mais barato que funeral."

A porta do banheiro recebeu três batidas. Desta vez, não era a farmacêutica. A voz masculina veio limpa, sem pressa.

"Raquel Nunes. A senhora iniciou procedimento de contestação indevida. Abra para regularização."

Marta olhou para a janela basculante.

"Você passa?", perguntou.

Raquel olhou para o espaço estreito, alto, ridículo. "Não."

"Então aprende rápido."

Marta subiu na pia, empurrou a janela, e do outro lado alguém abriu por fora.

Raquel viu uma mão masculina, magra, manchada de tinta de impressora. A atendente da copiadora sussurrou:

"Anda. Ele estacionou na frente. Eu cobro o vidro depois."

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