Servidor-Mãe O Cartório Virtual · Capítulo 10 de 12
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Servidor-Mãe

A sede do Cartório Virtual parecia mais limpa à noite. Sem fila na recepção, sem funcionários atravessando com copo de café, sem entregador esperando elevador, o prédio perdia o disfarce de empresa comum. Virava o que Raquel sempre ignorara durante o expediente: quatro andares de salas fechadas onde decisões sobre nascimento, casamento, herança e morte passavam por telas antes de alcançar pessoas.

Ela chegou no carro preto de Davi, com Marta no banco do passageiro e Elias atrás, curvado sobre uma mochila de cabos. Pedro ficou a duas quadras, com Elza, Ana Lúcia e Jéssica no carro popular, prontos para soltar as provas caso ninguém voltasse. Dona Célia coordenava da oficina, usando telefone fixo, rádio velho e uma paciência que parecia ter sido feita antes da internet.

"Última chance de achar isso uma ideia ruim", Marta disse.

"Eu achei desde o começo."

"Ótimo. Consciência preservada."

A entrada principal estava trancada por manutenção. Um aviso impresso dizia que, por instabilidade técnica, os atendimentos presenciais seriam remarcados. Raquel reconheceu o tipo de frase que a empresa usava quando queria esconder decisão humana dentro de substantivo neutro. Instabilidade técnica. Como se os servidores tivessem sequestrado Davi sozinhos.

Ela encostou o certificado físico no leitor lateral usado por prestadores. A luz vermelha piscou. Depois verde.

"Lúcio abre portas melhores que Davi", Elias murmurou.

Entraram pela garagem. O ar lá dentro cheirava a concreto lavado e borracha. As câmeras acompanhavam o corredor, uma depois da outra. Raquel não tentou se esconder. O sistema já sabia. A vantagem, se havia alguma, era fazer o prédio gastar tempo entendendo por que uma pessoa morta usava certificado de diretor.

No elevador de serviço, Marta apertou o quarto andar. Raquel apertou o terceiro.

"Davi está no quarto", Marta disse.

"Servidor-mãe no terceiro."

"Ele vai morrer."

"Se eu for buscar Davi primeiro, todos os lotes publicam. Ele sabe."

Marta segurou a porta do elevador antes que fechasse. "Você fala isso como se não doesse."

Raquel olhou para os números apagados no painel. "Dói depois. Agora atrapalha."

Marta soltou. O elevador subiu.

O terceiro andar era o setor de infraestrutura documental, nome pomposo para um corredor gelado com salas de servidor, controle de qualidade e auditoria. Raquel só tinha ido ali duas vezes, sempre acompanhada, sempre ouvindo que aquele era o coração técnico da operação. Coração, no caso, ficava atrás de porta de vidro, biometria e uma câmera tão nítida que parecia enxergar intenção.

"Sem rosto", Elias lembrou.

Raquel colocou a máscara e abaixou o boné. Encostou o token no leitor. O painel pediu senha. Digitou a senha do verso do certificado. O painel pediu segunda confirmação.

Prova de vida do auditor responsável.

"Droga", Elias disse.

Na tela, surgiram três opções: facial, voz, presença assistida. Facial e voz eram armadilha direta. Presença assistida exigia operador interno. Raquel clicou nela. O sistema abriu uma lista de operadores no prédio. Dois nomes ativos. Lúcio Brandão e Davi Moreira.

Davi ainda estava vivo o bastante para aparecer ativo.

Raquel selecionou Davi. A tela mostrou: operador em procedimento de saneamento. Deseja solicitar intervenção?

Sim.

No quarto andar, em algum lugar acima deles, um alarme curto tocou.

A porta do servidor abriu.

"Isso chamou alguém", Marta disse.

"Chamou Davi também."

Entraram. A sala era menor do que Raquel esperava, fria demais, com racks pretos, luzes verdes, etiquetas brancas e um terminal preso à parede. Nada ali parecia capaz de matar uma pessoa, e talvez por isso fosse tão eficiente. Violência física fazia barulho. Violência de banco de dados piscava em silêncio.

Elias conectou o tablet ao terminal. "Preciso de três minutos."

"Você tem dois", Marta respondeu, olhando para o corredor.

Raquel abriu o painel de auditoria com o certificado de Lúcio. As pastas corporativas apareceram. Vértice, seguradoras, escritórios de cobrança, administradoras de condomínio, fundos imobiliários. Havia mais nomes do que ela conseguia processar. Centenas de lotes, alguns concluídos, outros suspensos, muitos programados.

"Congelar tudo", ela disse.

Elias apontou para um comando. "Esse aqui preserva logs e suspende publicação. Precisa justificativa."

Raquel começou a digitar. Uso indevido do módulo Óbito Fácil por clientes corporativos, titulares vivos, coação, substituição documental, auditoria externa.

O terminal travou antes do envio. Uma janela de vídeo abriu sozinha. Lúcio Brandão apareceu em uma sala clara, camisa branca, cabelo grisalho, expressão de treinamento institucional. Raquel já tinha visto aquele rosto explicando que o Óbito Fácil humanizava a burocracia do luto.

"Raquel Nunes", ele disse. "Você causou um prejuízo grande para uma pessoa falecida."

"Então deixa a falecida ir embora."

"Você entende que nada do que fizer tem validade jurídica?"

"Entendo. Por isso estou usando seu certificado."

Lúcio olhou de lado, irritado com alguém fora de quadro. Marta abriu a porta da sala e vigiou o corredor.

"O certificado foi revogado", Lúcio disse.

Na tela do terminal, a palavra revogado apareceu por um segundo. Depois mudou para pendente de auditoria. Elias sorriu.

"Dona Célia segurou a revogação", ele disse. "Velha linda."

"Sem elogio, trabalha", Marta falou.

Lúcio perdeu a paciência. "Você acha que está salvando pessoas. Está abrindo uma crise registral que vai travar famílias, heranças, sepultamentos, benefícios. Gente morta de verdade depende desse sistema."

Raquel pensou em Ana Lúcia amarrada, Elza atrás do portão, Marta sem conta, Dona Célia enterrada em papel sem sair do mundo. "Gente viva também."

No corredor, passos correram.

Elias apertou enter. O comando começou a processar. Preservação de logs: 12%. Suspensão de publicações: 9%.

A porta do servidor não trancava por dentro. Marta empurrou uma cadeira contra ela. "Raquel."

No vídeo, Lúcio aproximou o rosto da câmera. "Se concluir isso, Davi Moreira assina sozinho a fraude. Você derruba o supervisor que ajudou e me entrega tempo para limpar cliente."

Raquel hesitou.

Elias olhou para ela. "Ele está mentindo?"

"Parcialmente."

"Essa é a pior categoria."

O painel mostrou Davi Moreira - procedimento ativo. Sala 4B. Status: resposta induzida.

Resposta induzida significava que estavam tentando fazê-lo dizer a frase certa. Confirmo meus dados. Autorizo regularização. Aceito encerramento. A frase exata importava mais que a vontade.

Raquel pegou o microfone do terminal. "Davi. Se você me ouve, contesta cadeia. Não confirma nada."

Lúcio cortou o áudio. "Comovente."

A porta recebeu a primeira pancada. Marta segurou a cadeira com o corpo. Elias continuava no teclado. Suspensão: 41%. Logs: 58%.

Raquel viu uma opção no painel lateral: transmissão interna de auditoria. Era usada para treinamento, para que setores acompanhassem simulações. Clicou. O sistema pediu título. Ela escreveu: FRAUDE EM ÓBITOS CORPORATIVOS - AUDITORIA AO VIVO.

"Raquel", Elias disse, sem tirar os olhos da barra. "Isso vai para todo terminal da empresa."

"Eu sei."

"Inclusive sala 4B."

"Principalmente."

A transmissão abriu. Raquel anexou a apresentação da Vértice, o lote 14, o lote 15, a frase sobre Elza, a lista de quarenta e dois nomes do lote 16. Falou sem se apresentar.

"Esta auditoria registra uso do módulo Óbito Fácil para encerrar civilmente pessoas vivas. Funcionários, não façam prova de vida a pedido de supervisor, diretor ou cliente externo. Não confirmem dados sob chamada emergencial. Preservem logs. Se o sistema pedir frase de autorização para morte de titular presente, recusem a cadeia."

No quarto andar, o alarme mudou de som. Mais alto. Menos controlado.

Lúcio gritou para alguém fora da câmera. A porta do servidor cedeu uma fresta. Marta empurrou de volta, rangendo os dentes.

A barra chegou a 87%.

O vídeo de Lúcio sumiu. No lugar, apareceu a sala 4B. Davi estava sentado diante de uma câmera circular, rosto machucado, camisa rasgada no colarinho. Dois homens seguravam seus ombros. Uma voz fora de quadro mandava repetir.

Davi olhou para algum monitor à frente dele. Talvez tivesse visto a auditoria. Talvez tivesse ouvido Raquel.

"Eu, Davi Moreira", ele disse.

Raquel parou de respirar.

"Contesto a cadeia."

Um dos homens bateu nele. A imagem tremeu. Davi cuspiu sangue no chão e continuou.

"Não confirmo dados. Não autorizo regularização. Minha mãe está viva. Raquel Nunes está viva. Ana Lúcia Ferreira está viva."

A barra chegou a 100%.

Publicações corporativas suspensas. Logs preservados para auditoria externa.

A porta do servidor abriu de vez. Marta caiu para trás. Dois seguranças entraram. Atrás deles, Lúcio Brandão apareceu pessoalmente, sem vídeo, sem treinamento, com o rosto vermelho de quem subiu escada rápido demais para manter autoridade.

Raquel levantou as mãos, deixando o terminal aberto atrás dela.

"Agora sim", disse. "Pode chamar isso de instabilidade técnica."

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