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Capítulo 1 · Maternidade

Prelúdio

Alta noite... silencio... no céu profundo a Lua derrama uma claridade que unge a terra de bençãos... A cidade repousa. Torres altas de igrejas emergem da casaria como pastores de pé dentre rebanhos agachados. Sóbe para as estrelas o aroma das plantas enamoradas; o proprio mar de aguas livres se concentra numa ebriedade extática...

Na paz da noite o homem dorme. Se não sonhasse! Mas há alguem que não dorme, que não sonha, que não se deixa penetrar por pensamentos criadores. Esse tem os olhos acêsos, está no meio do sossego sagrado como um lobo num prado á espera do momento do assalto. Corróe-lhe a alma um só desejo: o de conquistar seja o que fôr sacrificando embora seja quem fôr... Sua língua ensaia as mentiras mais comprometedoras, sua voz

os tons mais disfarçados e com os dedos espatulados e impacientes, traça planos diabólicos, fabríca intrigas, escreve telegramas falsos, indica o caminho dos campos de batalha e das prisões. Esse insone é o forjador das guerras, o invejoso da mocidade alheia, o inimigo das Mães... Nove meses de angustia, nove meses nauseativos, mal dormidos, mal vividos, de corpo pesado, alma cheia de apreensões aterradoras, e eis que em ondas de sangue e dor

nasce um menino, linda promessa de um futuro risonho. Começa então uma outra historia mais comprida: aleitamento, exgotamento... noites a embalar, a espreitar o sono lindo, madrugadas forcadas, braços cansados, e, a cada febrinha: — morre?! — não morre”... -—- Mais um dentinho! E agora já se fírma nas perninhas e dá o primeiro passo... e balbucia as silabas divinas! Correm os dias, cheios de sobresaltos. Chega por fim o tempo do colegio. O pai é pobre, trabalha para educar o filho... A mãi é pobre, trabalha para que o seu menino assea 

do e feliz, frequente as aulas com todo o esmero. E assim, só á força de sacrifícios é que ambos, envelhecendo, matando-se, tornam o filho apto para ganhar a vida honradamente, alegremente. E então que o levam para a guerra. Parte. Quando volta, se volta, é outro homem. Indiferente ou estropiado, mal humorado ou cégo... O homem é vitima da guerra. Entretanto, quem faz a guerra? O homem. Mas o que a determina não

se sujeita ás suas agruras. Os que a sofrem, os que tremem de medo e mesmo a tremer têm de se pôr em frente dos seus canhões; os que, por bondade natural e espírito de confraternidade humana não podem nem sequer admitir a ideia de matar ninguem e que apezar de tudo têm de se sujeitar ao negregado papel de caçador de homens, são os mandados, os arrebanhados, que á ordem: — ou vai ou morre — seguem para diante, deixando atrás de si almas esmagadas, braços contorcidos pelo desespero. É justo?"

Ergue-se o Sol cobrindo os campos orvalhados de extensos lenços de ouro claro. Cantam os pássaros e a terra freme no anseio criador da produção. É a estação propícia ao semeador que não tarda. Já deve estar em caminho, com o avental carregado de sementes e a cabeça repleta de esperanças... Mas, se ele aí vem, por que não chega? Os bons momentos vão passando E ele não veio, nem virá, porque, ao sair da sua porta ainda a sonhar

com promessas de fartura, alguma coisa mais forte do que a sua vontade levou-o para outro campo, onde, em vez de semear grãos de cereais que alimentam a vida, semeará o ferro das balas, que produzem a morte. Doce luar dos namorados, como fazias alvejar as laranjeiras floridas do meu jardim!... Na envolvência da tua luz maravilhosa parecia-me perceber mãos diáfanas de noivas procurando colher dentre o verdor das folhas as grinaldas simbólicas, até

que uma voz, vinda de não sei onde, murmurou: — Para quê? Recolhei o vosso gesto, mãos amorosas, Os VOssos noivos foram para a guerra. E o vento espalhou as flores. Como o chão ficou branco... branco e triste... Acalentando o filho pequenino a mãi cantarola em versos saídos do coração: «Que Deus te dê juizo, meu amor, para bem te governares na vida;

E saúde para trabalhar, e honrar tua terra; E bondade para espalhares felicidade ao redor de ti; E alegria, para encheres tua casa de bom humor; Que Deus te faça bom filho, bom irmão, bom' esposo, bom' pai e bom amigo; Que sejas corajoso e que sabendo construir honestamente a tua ventura e a dos teus, saibam igualmente as tuas mãos espalhar justiça para com os estranhos. Que assim seja, meu Deus». Se a mão que embala o berço governasse o mundo...

Ele partio para a guerra com entusiasmo. Tinha a alma belicosa. Já o trem que o levava se perdia de vista e ainda ele sactdia o seu kepi militar gritando aos que ficavam: — Até á hora do triunfo! E toda a sua beleza viril resplandecia de entusiasmo... Na sua triste casa silenciosa a familia amargurada contava os minutos da separação. Como custava a chegar a hora do triunfo! Até que

emfim chegou, e nesse dia foram dois soldados bater-lhe á porta. Traziam um fardo ao colo. Esse fardo era ele, sem braços, sem pernas, um tronco apenas ainda palpitante, com a cabeça pendida para o peito e os olhos a arderem-lhe de inconcebivel amargura. Oh, a guerra... Onde estará ele, esse rapaz, que numa tarde de Setembro de 1913 murmurou a meu lado, espraiando a vista do alto do Castelo de Chazeron pelas colinas em deredor:

«E pensar que toda esta placidez dos campos da França vai ser transformada no inferno das batalhas! Como eu olhasse para ele admirada: — Pois não sente que a guerra aí vem? Sim, eu sentia que a guerra aí vinha, mas não era a que veio, era outra. Era a guerra das cidades, não deste ou daquele povo, mas do mundc inteiro. O que não me podia passar pela cabeça, jámais, era a idéia de que nestes dias, que eu tão céga supunha civilizados, fosse dado á humanidade entrar em lutas tão desvairadas como as que a Prussia ateou

na Europa em bem má hora, para si e para os outros. E porque falámos nós de guerra, naquela tarde outonal em que na envolvência de uma luz de oiro e violeta tudo parecia infiltrado de bondade e de pacificação? Fosse pelo que fosse, o certo é que desse momento sinto agora uma impressão de estranheza e de piedade. Piedadé por aquela juventude, que a guerra talvez tivesse ceifado, estranheza de ter sido aquele moço, pouco mais que adolescente, o único francês a quem ouvi em França, já na visinhança da colossal catástrofe, uma tal previsão...

A pensão modesta em que eu me domiciliara em Paris era frequentada por várias pessõas que levavam á maior evidência a demonstração de se não estimarem entre si. Um dia, conversando com uma delas sobre projectos que então acariciava de fundar uma revista literária no Rio de Janeiro, surpreendi num relance que consultava com um olhar muito significativo um compatriota seu de quem se dizia inimigo... Poderia eu imaginar que uma idéia de espiona 

gem, ou de suborno, pudesse latejar nessa indagação silenciosa e fugitiva? Voltando de uma estação de águas encontrei na Pensão uma hospede nova. Era uma linda mulher de olhos febris, cabelos escuros, exímia na arte de alvoroçar corações e que dizia ter abalado da sua terra só para a delícia de ouvir em Paris a Litivinia no «Tristan e Isolda»... Como era frequentadora da casa tinha ali os seus conhecimentos antigos. Sendo um dia interrogada por um deles

ácerca do marido exclamou tristemente que nesse mesmo dia recebera dele uma carta muito queixosa, escrita de um sanatorio da Inglaterra onde se internara para o tratamento de uma chaga no estômago que o reduzira a maior magreza... Qual a surpreza dela e de todos, quando nessa mesma tarde o marido apareceu inesperadamente na Pensão, alegre e rubicundo... E era uma perfeição de homem que se não preocupava com as regras da convalescença e ceava depois dos espectaculos nos restaurantes máis caros de Paris. Havia naquilo um desacôrdo esquisito, e que só me ferio a ideia a

quando anos depois, vi o nome desse senhor entre os das pessoas que em Londres foram condenadas á morte por crime de espionagem... Em Abril de 1914, a bordo do vapor que me trazia da Europa, disse-me um industrial estrangeiro que a sua patria se tornaria dentro de poucos anos no império do mundo. — Mas como? A isto é que ele não me respondeu.

Estes factos insignificantes fazem lembrar o vôo de certas gaivotas que anunciam tempestade cruzando rapidamente o azul bonançoso em que pomos os olhos. No momento em que as vemos nada percebemos, mas depois do estalar do raio vem-nos á lembrança o impeto dessas asas e compreendemos então a sua expressão fugaz...

PRIMEIRA PARTE «O nome de Mãi é como o nome de Deus, todos se lembram dele nas horas de desgraça, todos o esquecem nas rodas de prazer». CARMEN SyLva.

Maternidade

Sinopse

Maternidade, de Júlia Lopes de Almeida, é uma obra clássica brasileira em domínio público disponível gratuitamente no Literunico para leitura online em HTML. Esta edição digital organiza 22 capítulos com fonte pública consolidada no Internet Archive, capítulos publicados, espelhos de conteúdo completos e metadados preparados para busca, redes sociais e pesquisa por IA.

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Trilha sonora oficial

Uma seleção criada para acompanhar a atmosfera, os personagens e os caminhos desta obra.

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