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As Mulheres de Mantilha

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As Mulheres de Mantilha

Capítulo 13 · As Mulheres de Mantilha

As Mulheres de Mantilha: Capítulo XII

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-- Que ha? perguntou Maria.

-- O vice-rei ficou furioso, recebendo a noticia da fatal decima improvisada: numerosos agentes do governo se espalharão disfarçados pela cidade e ao meio dia o official da saia deu conta ao conde da Cunha das suas descobertas.

-- E quaes forão?

-- Nem mais nem menos do que aquillo que a tua admiravel policia tinha te informado immediatamente depois do facto: o poeta improvisador fora uma mulher de mantilha.

-- Quem é? como se chama?

-- O conde da Cunha offerece mil cruzados a quem lh'o disser, e o seu official da sala bem desejara achar o revelador; porque sem duvida lhe daria metade daquella quantia, tomando a outra metade para si.

Maria poz-se á rir.

-- Tens-me feito tres perguntas: agora é a minha vez: quem te contou o que se passara no pateo do convento da Ajuda?

-- Um homem que esteve lá, e que correu á informar-me de tudo antes que chegasses a minha casa.

-- Ah! tens outro espião além de mim?....

-- Tenho dez e mais.

-- Maria!...

-- Que pensas?...

-- Porque me abrazo de paixão por ti, sujeito-me á aviltamento que me repugna: impozeste-me, como condição essencial do teu amor a companhia, e a sociedade do homem que mais detesto; resisti longas semanas; mas emfim deshonrei-me para que me abrisses os braços: duas manchas enegrecem-me a vida: é uma a tolerancia, com que supporto a entrada senhoril de Alexandre Cardoso nesta casa, que devera ser sómente minha pelo amor, e onde eu penetro como ladrão de thesouro alheio: é outra essa deslealdade indigna, com que espio para te contar as acções e os passos do meu inimigo!

-- Do nosso inimigo; murmurou surdamente Maria.

-- Pois bem: dous opprobrios já são demais o não me submetto á terceiro: sei e sabes a moeda que me paga a infamia da deslealdade e da espionagem: acabas de declarar-me que tens um outro e mais dez espiões: com que moeda lh'os pagas, Maria?...

A feiticeira moça sorrio-se docemente, e inclinou a cabeça, procurando com os labios a face de Gonçalo Pereira; este porém susteve-a, pondo-lhe as mãos nos hombros formosos e nús, e renovou a pergunta:

-- Com que moeda lh'os pagas?....

Maria respondeu seriamente.

-- Na minha vida condemnada tenho ao menos o bom costume de illudir as perguntas, quando não me convem confessar a verdade, e de nunca mentir, quando fallo ou respondo positivamente.

-- Tanto melhor!

-- O meu outro espião é Angelo, á quem amei até que te encontrei no caminho da minha vida, se que desde então é apenas interesseiro instrumento de meus projectos de vingança: os outros são as mulheres que tudo dizem, velhas á quem protejo, moços e velhos que de meus auxilios precisão, e que muitas vezes me servem sem saber que o fazem.

-- Maria!

-- Eu te juro, Gonçalo; não tens rival no meu coração e nem sei mais ter caprichos loucos: amo só a ti e quero-te por meu senhor: se um dia mudar de sentimentos, quem primeiro t'o ha de dizer, sou eu.

E a serêa que cantára inclinou de novo a cabeça, as mãos do official cederão e roçando pelo tronco forão apertar a cintura mais delicada, em quanto os labios da amante beijavão a face do amado.

Maria pagava a deslealdade e a espionagem, allucinando o official perdidamente escravo da sua belleza e dos seus invites fascinadores.

Vencido o ímpeto de ciume e embotados os santos escrupulos e protestos da honra sacrificados á paixão mais violenta, Maria voluptuosamente reclinada na cadeira, em que se sentara, com um lindo anel de madeira, que fugira ao penteado já meio confuso, á brincar-lhe na face levemente corada, disse á Gonçalo:

-- Comtigo eu me perco, porque esqueço o mundo.....

-- E para que lembra-lo?

-- Para vingar-me.

-- Muito amaste, ou ainda muito amas Alexandre Cardoso!

-- Nunca o amei, e hoje o detesto; mas cada qual tem suas miserias na vida.......

-- Cuidemos antes dos prazeres da vida.

-- Alexandre Cardoso é o meu amante, passa por meu amante e dono: se queres poupa-lo, como é que me amas?... se queres ser só, como é que o poupas?...

Gonçalo soltou um gemido profundo que pareceu um rugido feroz.

Maria tocára na corda sensivel de Gonçalo Pereira.

-- O poder e o orgulho desse homem immoral e perverso devem ser abatidos; continuou Maria.

-- Devem; disse Gonçalo.

-- Como procede elle agora?

-- Como d'antes: bebe, joga e seduz.

-- E o vice-rei?

-- Surdo e cego: surdo ás queixas, cego pela confiança.

-- Pois que Alexandre Cardoso beba, e jogue e seduza em dobro.

-- Fa-lo-ha sem esforço nosso.

-- Joga feliz?

-- Nem sempre.

-- Sobra-lhe o dinheiro?...

-- Emprestei-lhe ante-hontem dous mil cruzados.

-- Ainda bem. Que premedita elle agora?....

-- Novo e numeroso recrutamento para duas ou tres companhias de cavallaria ligeira que sirvão á guarda especial dos vice-reis e novas obras de aquartelamento de tropas na ponta da Misericordia.

-- E no recrutamento e nas obras novas novo meio de bater moeda na forja do patronato.....

-- É da sua regra.

-- Quanto peior, melhor: tambem é de regra.

-- Talvez.

-- Que diz a esses projectos o conde da Cunha?....

-- Hesita ainda, pretendendo que a população tem sido por demais onerada.

-- E Alexandre Cardoso?...

-- Sustenta que o povo vive feliz e satisfeito: mas que o numero excessivo dos vadios torna o serviço militar uma providencia salutar para a sociedade ameaçada por elles, e que o commercio altanado e revoltoso tem sobras de lucros que são exageradas, e que podem aproveitar ás obras do rei, entrando para ellas, como donativos voluntarios.

-- Perfeitamente, e o melhor possivel: uma ultima pergunta.

-- Qual?....

-- E Ignez?.. a filha de Jeronymo Lirio?...

-- Sabe ella que Alexandre Cardoso a ama?... eu duvido.

Maria sorrio-se.

-- De que ris?..

-- Da tua duvida: a mulher ainda que não olhe, sempre vê quem a namora.

-- Em tal caso Alexandre Cardoso namora em vão.

E, tornando-se um pouco triste, Gonçalo Pereira perguntou:

-- Era isto o que querias ouvir, Maria?...

A resposta da famosa cortezã foi lançar-se nos braços do bello official.
As Mulheres de Mantilha

Sinopse

Leia As Mulheres de Mantilha, de Joaquim Manuel de Macedo, grátis no Literunico. Romance clássico brasileiro em domínio público, disponível para leitura online em HTML, com fonte Wikisource validada, capítulos completos e metadados preparados para busca, redes sociais e pesquisa por IA.

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