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As Mulheres de Mantilha

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As Mulheres de Mantilha

Capítulo 5 · As Mulheres de Mantilha

As Mulheres de Mantilha: Capítulo IV

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A cidade do Rio de Janeiro era naquelles tempos muito differente do que é hoje: o aspecto ainda das melhores casas era triste e indicava a educação clausural das familias: abundavão as casas térreas e de um só pavimento, e essas reservavão as portas e batentes das janellas para se trancarem á noite, mas de dia tinhão os vãos das portas e janellas defendidos aos olhos curiosos por peneiros ou tecidos de palha firmados em um quadrado de sarrafos, que se penduravão, ou se podião mover encaixilhados: as casas de dous ou mais pavimentos, quasi todas uniformemente de tres portas erão de sacadas com grades de madeira mais ou menos completas e sombrias: mais ou menos porque essas grades ou erão da altura de meio corpo do homem, ou tinhão a altura do pé direito do pavimento que sombreavão, de modo que simulavão triste prisão: em regra abrião-se pequenos postigos nesse engradamento, postigos maiores e commodos na altura em que devião ser as janellas, para que as senhoras delles se aproveitassem, olhando a rua, e pequenos postigos rentes ou quasi rentes com o assoalho para que as senhoras ou as escravas debruçando-se vissem menos expostas ao publico, o que se passava na rua ou chamassem os pregoeiros vendedores de quanto podia precisar a mesa da familia.

No seculo passado e ainda no principio do actual havia quitandeiros ambulantes de todos os generos da alimentação geral dos habitantes da cidade: os escravos vindos da Africa, negros e negras corrião as ruas da cidade que hoje se chama velha, apregoando além do peixe e das verduras, o feijão, a farinha, o arroz, o guando, o milho verde e secco, e tudo já medido em taboleiros pyramides, de que erão base a porção avultada e necessaria á familia numerosa, e apice o quinhão de cinco ou dez réis que convinha aos pobres.

Tudo se vendia pelas ruas e até os refrescos utilissimos em paiz de tanto calor: ninguem então se lembrava do gelo, ninguem desejava os sorvetes do nosso tempo; não havia confeitarias; mas era certo o popular aloá, a innocente e refrigerante cerveja do arroz, apregoado nas horas mais calmosas dos dias de verão e em todas as estações.

Os humildes postigos inferiores das casas de sobrado servião pois principalmente ás recatadissimas chefes de familia, e ás suas escravas para chamarem os pregoeiros vendedores de todos esses productos agricolas e do industrial, o rude mas utilíssimo aloá, que muito aproveitavão ás famílias.

Em todos esses costum.es estampava-se o atrazo e a rudeza da sociedade colonial do Rio de Janeiro; mas indisputavelmente se a civilisação tivesse poupado alguns delles, limitando-se á destruir os peneiros, e as grades de páo, e outros semelhantes o povo pobre pelo menos teria mais facilidades na vida.

Ponhamos porém de parte estas inuteis memorias do passado, e no passado sigamos apenas os factos que servem ao romance que nos propuzemos á escrever.

Na rua que agora se chama do Hospicio e que no ultimo seculo se chamava do Alecrim desde o ponto em que é cortada pela rua da Valla até o Campo de Sant'Anna levantava-se uma casa de sobrado com sacadas de grades de páo á meia altura, e que na madrugada de 6 de Janeiro de 1766 se mostrava refulgente de luz e ruidosa de alegria e de festança.

Era a casa de D. Maria de..... notabilidade femenina, que por sua formosura, sua independencia audaciosa, sua natureza ardente e indommavel, suas paixões e seus desvarios faceis desde o conde de Bobadella até o vice-reinado do marquez do Lavradio influio algumas vezes mais do que se póde suppôr no governo da grande colonia portugueza da America.

Maria de..... da mais nobre estirpe luso-brasileira, nobre por seus avós, rica pela opulencia de seus pais tinha direito á pretender esposo da mais alta gerarchia na colonia portugueza: o mais orgulhoso dos nobres mandados ao Brasil seria apenas igual á ella: a natureza lhe dera o encanto de irresistivel formosura; a fortuna sublimisara esse dom natural com a condição da riqueza e da fidalguia da familia.

Infelizmente a bella mulher, que ainda se distinguia pelos encantos do espirito mais cultivado do que então era usual no seu sexo, mentira á educação e aos exemplos dos seus maiores, e nodoára um nome illustre: a vaidade, o impeto das paixões, o desprezo do santo dever do recato a tornarão famosa, como as Lenclos e as Marion Delorme, zombando da reprovação publica e da repugnancia com que a olhava a sociedade.

O primeiro amor de Maria de..... foi o segredo da sua perdição: aos quinze annos deixou-se seduzir por um mancebo pouco mais velho, ou pouco menos creança que ella: um anno tinha já de duração o seu amor secreto e criminoso, quando foi descoberto pela familia que afflictissima se precipitou em imprudente vingança: o amante não foi julgado digno de lavar a mancha pelo casamento; e immediatamente passou a ser preso para assentar praça por ordem do conde de Bobadella, á quem o pai da seduzida dirigira queixa particular sob diversos fundamentos que dissimulavão a deshonra da filha.

Maria era ardente, colerica, arrebatada: sabendo que destino se preparava ao amante não verteu lagrimas inuteis nem protestou em vão no lar domestico: encerrou-se em seu quarto, vestio-se com apuro de elegancia que amava muito por vaidosa, e aproveitando hora opportuna, sahio de casa sósinha, arrostando os costumes do tempo e atrevidamente foi fallar ao governador, conde de Bobadella, que a recebeu e ouvio-lhe a historia da sua paixão e da sua fraqueza, e o formal pedido da sua intervenção para que ella se casasse com o mancebo recrutado.

O conde de Bobadeila tinha todos os prejuizos da aristocracia para não acceder ao empenho da joven fidalga seduzida por mancebo de humilde e despresada condição; mas admirado da affouteza e da energia daquella menina delicada, e ainda mais da sua peregrina belleza assegurou-lhe decidida protecção attenuadora do resentimento de seus pais.

Dentro em pouco tempo o protector se tornou amante: Maria repellida pela familia honestissima, teve casa propria, vida reprovada, mas luxo e riqueza que ostentava sem corar. Ou fosse que só um unico amor, o primeiro, tivesse ella verdadeiramente sentido, e que pelo infortunio desse lhe houvesse ficado o coração endoudecido, ou fosse que envenenado sangue lhe abrazasse a natureza com o fogo da luxuria, Maria não soube ser fiel a amante algum, e a todos atraiçoava menos pela torpeza do interesse, do que pelos delirios do capricho, e pelas inconstancias da sensualidade.

O conde de Bobadella apaixonado e captivo resistio alguns annos aos desatinos da formosa moça; mas por fim quebrou as cadêas que á ella o prendião, deixando-a porém rica, e protegida sempre pelo seu favor até o dia em que morreu.

No vice-reinado do conde da Cunha Maria foi a amante de Alexandre Cardoso: tinha tomado gosto ao amor do chefe do governo da colonia: em falta do vice-rei que era de austeros costumes, contentou-se com o official da sala que era quasi vice-rei pelo poder da sua influencia.

Na noite das cantatas dos reis Alexandre Cardoso e seus companheiros, retirando-se do pateo doconvento da Ajuda depois da inutil desordem que havião feito, tinhão-se dirigido á rua do Alecrim e entrado na casa de Maria de.......

As Mulheres de Mantilha

Sinopse

Leia As Mulheres de Mantilha, de Joaquim Manuel de Macedo, grátis no Literunico. Romance clássico brasileiro em domínio público, disponível para leitura online em HTML, com fonte Wikisource validada, capítulos completos e metadados preparados para busca, redes sociais e pesquisa por IA.

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