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As Mulheres de Mantilha

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As Mulheres de Mantilha

Capítulo 26 · As Mulheres de Mantilha

As Mulheres de Mantilha: Capítulo XXV

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Desde alguns mezes o conde da Cunha começára á meditar sobre a possibilidade do compromettimento do seu nome e da sua reputação em abusivo e criminoso proveito do seu ajudante official da sala, e não menos sobre alguns indicios, que no murmurar do povo erão provas dos costumes desregrados, e da vida desmoralisada de Alexandre Cardoso.

Encantado pela actividade e intelligencia do tenente-coronel do regimento velho, á quem chamára para o gabinete do governo da colonia, o Vice-Rei conde da Cunha durante os primeiros annos desprezára e até castigára todas as queixas e denuncias dadas contra Alexandre Cardoso não só pela habilidade com que este se defendia, como pela recente lembrança do muito que soffrera o conde da Bobadella em insultuosas cartas anonymas, que tambem então chegavão ás mãos do Vice-Rei cheias de accusações contra o seu querido ajudante official da sala.

Ultimamente porém um inimigo muito mais terrivel operava incognito, atacando Alexandre Cardoso.

Não se passava semana em que o conde da Cunha não recebesse uma especie de relatorio da vida desordenada do seu ajudante official da sala, sendo para notar que ás vezes o sinistro semanario preannunciava casos que effectivamente se realisavão.

As censuraveis relações de Alexandre Cardoso com Maria de....., a influencia desta fazendo-se sentir na administração, o patronato productivo exercido por aquelle, sua paixão do jogo, seus desregramentos e attentados contra o pudor e a moral, a venda de alguns empregos, a isenção do recrutamento á preço ajustado, as violencias, e imposições excessivas que se attenuavão ou desapparecião, conforme a importancia de ajustes particulares, tudo emfim o Vice-Rei recebia communicado no infallivel semanario escripto de modo a disfarçar completamente a letra.

O conde da Cunha fôra por esse meio informado da paixão em que Alexandre Cardoso se abrazava pela filha mais moça de Jeronymo Lirio, e dos esforços que elle empregava para captivar a gratidão do pai da bella menina, e introduzir-se no seio da familia Lirio, como amigo e protector.

Até Fevereiro de 1766 os relatorios anonymos e semanaes influirão pouco no espirito do conde da Cunha: recebidos com a desconfiança que merecem denunciantes inimigos que ferem á traição, esses escriptos conseguirão ao menos abalar um pouco a cega confiança que o Vice-Rei depositava no seu official da sala; mas no domingo do carnaval a carta e o bilhete que Jeronymo Lirio foi apresentar, produzirão impressão profunda no animo do conde da Cunha; porque demonstrarão que o secretario do governo abusava da sua posição e do nome do chefe da administração do Brasil, servindo-se de uma e de outro para seus empenhos particulares e reprovados.

O conde da Cunha sabia que Alexandre Cardoso era jogador e apaixonado do bello sexo; não acreditando porém que elle se entregasse doudamente á essas duas paixões, como seus inimigos propalavão, perdoava-lhe esses defeitos em attenção a essas qualidades; mas os factos começavão á provar que o ajudante official da sala compromettia o Vice-Rei.

Suspeitoso emfim e disposto á dissimular, o conde recebeu na manhã da segunda-feira a Alexandre Cardoso com a mesma bondade com que sempre o fazia e perguntou-lhe, se mais alguma novidade occorrera no dia antecedente.

O ajudante official da sala estava prevenido.

-- Nada mais, senhor Vice-Rei; respondeu elle: a prohibição do entrudo foi geralmente observada; deo-se porém uma unica excepção muito excusavel: o honrado negociante Jeronymo Lirio, jogando o entrudo na sua chacara da Gamboa, tolerou infelizmente que, contra o preceito dos editaes fixados, mercadores de limões de cheiro fossem vendel-os no terreiro de sua casa, recebendo denuncias do facto, e observações sobre minha parcialidade á favor desse negociante feitas por amigos que gracejarão comigo, alludindo á uma nova calumnia, de que sou victima, escrevi uma carta official muito severa á Jeronymo Lirio, intimando-o para vir hoje ao meio dia explicar-me o seu procedimento: preparada assim esta satisfação para o publico, mandei dentro da carta um bilhete, tranquillisando o bom velho negociante.

O conde da Cunha fingio que de leve se sorria

-- Tranquillisando-o...... como?....

-- Em breves palavras deixei entender que fôra indispensavel dirigir-lhe a severa carta; mas que hoje eu conseguiria tudo quanto não pudera conseguir hontem....

-- Entendo: o Vice-Rei conde da Cunha é o despota, e o seu ajudante official da sala a bandeira da misericordia: é isso?.....

-- Mudado o nome despota em magistrado severo e recto, é isso mesmo, senhor.

-- Explique-se então melhor.

-- Tarde e quando V. Ex. já se havia recolhido, escrevi eu a carta e o bilhete em questão: resolvi por mim mesmo, porque o facto não tem consequencias, e não devia por tão pouco incommodar a V. Ex; mas, escrevendo, cumpria-me fazer partir a ordem em nome do senhor Vice-Rei, e indicar que eu interviria hoje e conseguiria o completo esquecimento da desobediencia de Jeronymo; porque de outro modo, e pondo de lado o senhor Vice-Rei que é quem governa e manda, diria o negociante que eu tambem governo e mando na colonia.

Alexandre Cardoso tocára no fraco do conde da Cunha.

-- Assignou o bilhete? perguntou elle.

-- Não senhor, e desfigurei a letra.

-- Porque? -- Poderia dar-se o caso de Jeronymo Lirio perdel-o.

-- Fez bem.

-- Deixei copia da carta e do bilhete, quo o senhor Vice-Rei lerá, quando quizer.

-- Já os li; disse o conde da Cunha.

-- Como? onde, senhor?.... perguntou o ajudante official da sala com admiração perfeitamente fingida.

-- Jeronymo Lirio m'os apresentou hontem a noite.

-- Ah! segue-se que elle desconfiou de mim.

-- Eu o creio tambem.

-- Doe-me isso: é um homem de bem que me desconsidera e me desestima.

-- Sem motivo?.....

-- A pergunta de V. Ex. me confunde.

-- Elle não, mas alguem me disse que o meu ajudante official da sala ama uma das filhas de Jeronymo Lirio.

-- E é verdade, senhor Vice-Rei.

-- E que procura por todos os meios relacionar-se com a familia da menina amada.....

-- Por todos os meios licitos, tambem é verdade.

-- E com que fim?

-- Com o unico fim honesto....

-- Quereria casar-te?

-- Poderia eu ter outro pensamento?...

-- Ha quem o supponha; senhor Alexandre Cardoso.

-- O pai, senhor Vice-Rei?...

-- Muito orgulhoso, não lhe ouvi uma palavra á esse respeito; é porém certo que elle não faz honra aos seus sentimentos.

-- Senhor Vice-Rei; tenho um meio seguro, infallivel de manifestar e provar a pureza de minhas intenções, e as torpes calumnias dos inimigos de V. Ex. que são os unicos que conto.

-- Qual é esse meio?

-- Sou nobre, e tenho já no exercito elevada patente; mais do que isso, o ajudante official da sala do Vice-Rei que é o senhor conde da Cunha, não póde ser homem absolutamente obscuro.

-- Certamente.

-- Pois bem: V. Ex. que tem sido o meu protector, o meu segundo pai, apatrocine esse amor de que me fazem um crime, e faça com que se realise o meu casamento com a filha mais moça de Jeronymo Lirio.

O rosto do conde da Cunha expandio-se.

-- Senhor Alexandre Cardoso, disse elle descansando a mão direita no hombro do seu secretario; acaba de tirar-me um peso horrivel que me esmagava o coração: vá trabalhar: hoje mesmo farei o que me pede, e quero ser uma das testemunhas do seu casamento.

O ajudante official da sala beijou a mão do Vice-Rei.

-- Ao meio dia Jeronymo Lirio se apresentará.

-- Depois de ter fallado ao senhor Vice-Rei?

-- Eu sei manter a força moral dos meus subalternos.

Alexandre Cardoso curvou-se, agradecendo.

-- Diga o que julgar melhor ao pai da sua noiva na certeza de que elle sabe que não tive conhecimento nem da carta, nem do bilhete, e diga-lhe emfim de minha parte que esta tarde hei de ir visital-o á sua chácara da Gamboa. Vá trabalhar.

Alexandre Cardoso sahio.

-- Como se julga mal e injustamente dos homens!1... como se calumnião aquelles que carregão com o peso e com a responsabilidade do governo!... disse comsigo o conde da Cunha.

Alexandre Cardoso acabava de reconquistar toda a confiança do Vice-Rei.

As Mulheres de Mantilha

Sinopse

Leia As Mulheres de Mantilha, de Joaquim Manuel de Macedo, grátis no Literunico. Romance clássico brasileiro em domínio público, disponível para leitura online em HTML, com fonte Wikisource validada, capítulos completos e metadados preparados para busca, redes sociais e pesquisa por IA.

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