Leia agora
As Mulheres de Mantilha

Universo da obra

As Mulheres de Mantilha

Capítulo 22 · As Mulheres de Mantilha

As Mulheres de Mantilha: Capítulo XXI

22 de 56 ≈ 5 min de leitura

Sempre occupado de Ignez, Alexandre Cardoso, tendo sabido do entrudo que se jogára na casa de Jeronymo Lirio, aproveitára o ensejo para explorar duas minas, a da intimidação e a da gratidão de Jeronymo Pires, e em quanto esperava o resultado da carta e do bilhete, sahio quasi ao anoitecer da sala do Vice-Rei, com quem havia jantado, e seguido de um dos seus amigos dirigio-se pela praia de Santa Luzia para tomar o Largo d'Ajuda e ir ter a casa de Maria de...... onde se ajustára jogar a banca nessa noite.

Porque Alexandre Cardoso se impunha tão extensa volta, era muito simples: no ponto em que começa hoje a pequena rua, onde naquelle mesmo seculo foi estabelecido o matadouro que ali ficou até os nossos dias, ponto que então communicava a praia de Santa Luzia com o Largo d'Ajuda, havia uma pequena casa terrea, isolada, quasi solitaria, mas com o seu terreiro limpo, e meia duzia de larangeiras ao lado: morava ahi Marcos Fulgencio com sua mulher e uma filha de vinte annos de idade.

Marcos Fulgencio era laborioso e zelava sua familia; duas condições porém o amesquinhavão aos olhos de Alexandre Cardoso, de seus amigos e de muitos outros: era pobre e sua côr menos branca e seus caracteres physicos attestavão o crusamento de duas raças.

Emiliana, a filha de Marcos Fulgencio quasi desmentia a origem de seu pai e era verdadeiramente bonita; tinha recebido boa educação moral; e honesta e experta sabia bem fugir aos comprimentos e aos manejos de seducção que empregavão contra ella velhos e mancebos ricos e de posição muito superior á sua.

Alexandre Cardoso andava á pista de Emiliana, não porque a amasse, mas porque desde alguns dias a desejava, embora tivesse-lhe mandado debalde recados lisongeiros, e offerecimentos deslumbradores.

Passando diante da pequena casa o ajudante official da sala parou, e no empenho de ver Emiliana, chamou em voz alta por Marcos Fulgencio que appareceu á porta.

-- Como vamos de trabalho? perguntou Alexandre Cardoso.

-- Não me faltão obras; louvado Deos!

-- Mas nem por isso augmenta a fortuna, creio eu.

-- Não lastimo a minha sorte, senhor: sou mais feliz do que muitos.

-- Porque não se emprega nas obras d'el-rei? asseguro-lhe que será bem pago: temos necessidade de bons carpinteiros: se lhe fizer conta, eu o protegerei.

-- El-rei é meu senhor e se em nome delle me intimarem para trabalhar nas suas obras, hei de obedecer: mas prefiro andar occupado nas obras dos meus antigos freguezes.

-- Porque?...

-- E' por costume, senhor: a gente trabalha em mais liberdade cá por fóra.

-- Pois bem: não será incommodado; se porém precisar de trabalho ou de protecção, procure-me.

-- Deos lhe pague, senhor!

Alexandre Cardoso, vendo que Emiliana não apparecia, continuou seu caminho, e algumas braças adiante vio sentada no terreiro de um cazebre humilde e em começo de ruina uma velha que com respeito se levantou, e estendeu a mão direita, pedindo esmola.

O elegante official deixando por instantes o amigo, foi dar esmola a velha que ao recebel-a passou fingidamente á mão caridosa um anel, e murmurou:

-- Ella não quiz.

Alexandre Cardoso retirou-se contrariado; Emiliana regeitára um rico anel, que elle lhe mandára.

-- Vamos, capitão; disse elle ao companheiro; vamos e tome o meu conselho: não jogue hoje contra mim: tenho certeza de ganhar.

-- Como?

-- Infeliz no amor, feliz no jogo.

-- Nem sempre; e conselho por conselho, seja prudente e cauteloso, senhor tenente-coronel: ha oito dias que temos jogado tres vezes, e tres vezes as suas perdas forão excessivas.

-- Apenas chegão á dous mil cruzados.

-- Temos um antagonista que adivinha as cartas....

-- E' feliz; mas joga com franqueza e lisura.

-- Conhece-o?

-- Pouco: sei que Angelo por algum tempo mereceu que Maria me atraiçoasse: não lhe perdoaria essa dita ha cinco mezes; hoje que é despresado e que Maria não me domina mais, pouco ou nada me importa isso: fui eu que o convidei para o saráo desta noite.

-- Desconfio desse mancebo..... juraria que elle furta ao jogo.

-- De que modo?

-- Não sei: se as cartas obedecem ás suas paradas é que elle sem duvida as terá marcado.

-- Não é Angelo que dá ás cartas para o jogo, e nós mudamos de baralhos por vezes.

-- Mas a sua teimosa e infallivel fortuna?

-- E' fortuna.

-- Angelo não é rico....

-- Ao contrario, não tem onde caia morto.

-- Todavia.... o seu ouro cobre a mesa do jogo, e elle pára com a affouteza de um millionario.

-- E claro: se fosse millionario não parava assim; mas o seu ouro é ouro verdadeiro, eis o essencial.

-- D'onde lh'o vem?

-- Que nos importa? façamos por ganhar-lhe o ouro.

-- Eu não jogarei esta noite.

-- Tanto melhor: jogador que não joga e observa o jogo, vê em dobro: preste-nos um serviço: não arrede os olhos e a attenção desse endemoninhado Angelo, para quem não sei d'onde tire mais dinheiro.

Quando isso dizia, Alexandre Cardoso chegava com o amigo á porta da casa de Maria de.....

As Mulheres de Mantilha

Sinopse

Leia As Mulheres de Mantilha, de Joaquim Manuel de Macedo, grátis no Literunico. Romance clássico brasileiro em domínio público, disponível para leitura online em HTML, com fonte Wikisource validada, capítulos completos e metadados preparados para busca, redes sociais e pesquisa por IA.

Ver ficha da edição física
LITEBN
LITEBN-978653139462752349101270
As Mulheres de Mantilha

Resenhas do livro

0 publicadas

Ainda não há resenhas para esta obra. A primeira leitura comentada pode começar aqui.

Ir para o carrinho
Mercado de As Mulheres de Mantilha

Leve um fragmento deste universo

Escolha a arte, confira a disponibilidade e adicione o produto ao carrinho sem sair da experiência.

Nenhum livro físico está disponível neste universo.
Relíquias da Obra

Adquira Relíquias da Obra e deixe sua marca registrada, criando valor ao item!

Aguardando Aprovação do Autor
Aguardando grupo autoral As Mulheres de Mantilha Escolha uma Relíquia e envie uma proposta de aquisição, mesmo antes da ativação.
100Relíquias
0Titulares
0 Passagens
Central de RelíquiasDescubra coleções de outros universos e obras.
ver todas
Capítulo 22 carregado no app · 1 livro conectado 1/1
Abrir leitor completo

Capítulos disponíveis para continuar a leitura.

Capítulos de As Mulheres de Mantilha

Capa de As Mulheres de Mantilha
Continue a leitura As Mulheres de Mantilha: Capítulo XXI Capítulo 22 · 22 de 56 · ≈ 5 min
Todos os capítulos 56 disponíveis

Donos de Relíquias

0 titulares

Nenhuma Relíquia desta obra foi adquirida ainda. Seja o primeiro a eternizar seu nome no acervo oficial!

Conhecer as 100 Relíquias

Resenhas do livro

0 publicadas

Ainda não há resenhas para esta obra. A primeira leitura comentada pode começar aqui.

Entrar para resenhar

Posses do livro

0 Leitores com posse
0 Unidades registradas

Nenhuma posse foi registrada publicamente para esta edição.

Adicionais do Universo

Visual ClássicoAbra a leitura editorial, no estilo de uma página de livro
ler
Visual AuroraApresentação imersiva do universo da obra
abrir