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As Mulheres de Mantilha

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As Mulheres de Mantilha

Capítulo 16 · As Mulheres de Mantilha

As Mulheres de Mantilha: Capítulo XV

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Jeronymo foi trancar o testamento e as pistolas no armario com a mesma fria simplicidade com que os tirara delle e os mostrara pouco antes.

Os dous amigos voltarão ao gamão, ordenarão de novo as pedras, outra vez Antonio lançou no taboleiro o seu dado e outra vez Jeronymo lhe disse:

-- O vice-rei nos opprime; além do mais o recrutamento não tarda á caçar o povo.....

-- Já está caçando: recebi dos meus freguezes noticias de Magé, de Itapacorá e de Cabo-Frio, onde o recrutamento é horrivel; querião poupa-lo á cidade durante os dias da folgança do entrudo; mas os pasquins de hoje exacerbarão o vice-rei que mandou recrutar sem piedade.

-- Como devemos proceder?

-- A resistencia é impossivel.

-- Antonio, eu penso que ha duas resistencias, e que uma das duas é sempre possivel.

-- Qual?

-- A resistencia passiva, a resistencia que pela inercia cria embaraços, e pela negação dos meios fatiga a violencia. D'ora avante eu não darei mais um só real, o mais insignificante auxilio ao governo: o que o governo quizer de mim ha de tirar-m'o á força; contra o governo do vice-rei nem uma palavra, hei de observar completa submissão passiva; mas á favor do governo do vice-rei nem um passo, nem o mais leve concurso.

-- A idéa é boa: muitos te seguirão o exemplo.

-- Nada mais de donativos, nem de offerecimento de trabalhadores para as obras do rei: que nos arranquem o nosso dinheiro, e que nos tomem á força nossos escravos: o arbitrio e o despotismo tambem cansão, ou se tornão impossiveis pelo odio de todos: façamo-los cansar pelo excesso das violencias, e morrer pela sentença da condemnação geral.

-- Tens mil vezes razão, Jeronymo, disse Antonio; mas eu entendo que não basta a inercia, e que é indespensavel tambem a acção negativa: onde o governo do vice-rei perseguir haja protecção, caridoso amparo e couto aos perseguidos: um, dous hospedes de mais não exigem augmento de pratos em nossas mesas: em regra nossas refeições chegão para o triplo da familia: a hospedagem é um dever, hospedemos os que fugirem á perseguição.

Jeronymo sacudio a cabeça, indicando desapprovação.

-- Discordo e discordarei de tudo quanto puder dar ao governo o direito de repressão: na minha idéa não ha offensa das leis d'El-Rei nosso senhor, e na tua ha: ninguem, sem delinquir, acouta ou protege contra a acção da autoridade o homem criminoso ou não que a autoridade se empenha em prender.

-- Eu não fallei em protecção á criminosos.

-- Embora: fallaste em victimas injustamente perseguidas, em infelizes marcados pela vingança e pelos odios pessoaes dos recrutadores; mas nem para salvar essas victimas nos é licito ultrajar as leis, maquinando contra a acção da autoridade.

-- Ora esta!... então se um desses desgraçados te batesse á porta esta noite; fugindo á uma patrulha de soldados, tu lhe negarias entrada e asylo?...

-- Ainda mesmo á réos de certos crimes eu não o negaria; mas ao romper do dia de amanhã depois de fazer almoçar regaladamente o hospede, dar-lhe-hia uma bolsa cheia de ouro, e dir-lhe-hia: o dever da hospedagem está cumprido por mim; agora salve-se, como puder.

-- Para um homem generoso é pouco.

-- Eu sou ainda mais respeitador do governo do que homem generoso.

-- Jeronymo!

-- Que é?

-- E as pistolas que guardas naquelle armario?..

-- Vingança de honra ultrajada; mas crime na propria consciencia do criminoso, se eu precisar vingar-me.

-- E's um parlapatão.

-- Porque?.....

-- Acoutarias durante um mez, um anno, dez annos o infeliz injustamente perseguido pela autoridade que bradasse á tua porta: « protegei-me! »

-- Faria o que disse ha pouco.

-- Farias o que acabaste de ouvir-me.

-- Não!

-- Sim!

-- Não!

-- Aposto.

-- Só se és tu que vens pedir-me asylo.

-- Isso é medo de apostar.

-- Aposto o que quizeres.

-- A época é tal, que bem póde dar-se a hypothese em qualquer dia: marco o prazo de vinte dias porque exactamente acaba na noite da cerração da velha.

-- Como te parecer.

-- Se até lá ninguem te vier pedir guarida, paciencia, não me darei por convencido; mas pérco a aposta, e virei jantar comtigo em quatro domingos consecutivos; mas se eu ganhar a aposta em qualquer dia desse prazo, tu irás com a comadre e as meninas assistir da minha casa a passagem da cerração da velha e em seguida cear comigo; em?...

-- Entendo: juraste comer o meu peixe da quaresma em quatro domingos. Está feita a aposta.

-- Vamos finalmente ao gamão.

-- E' verdade..... é agora que sinto o taboleiro nas pernas.

Os dous amigos sorverão suas pitadas de tabaco amostrinha, e lançarão os dados: coube jogar primeiro a Antonio, que sacudindo os dados no copo, ia atira-los no taboleiro, quando se suspendeu, ouvindo bater palmas e uma voz argentina e tremula dizer:

-- Deos esteja nesta casa.

-- Amen; respondeu Jeronymo, levantando-se.

-- Quer me parecer que hoje não jogamos o gamão; observou Antonio.

As Mulheres de Mantilha

Sinopse

Leia As Mulheres de Mantilha, de Joaquim Manuel de Macedo, grátis no Literunico. Romance clássico brasileiro em domínio público, disponível para leitura online em HTML, com fonte Wikisource validada, capítulos completos e metadados preparados para busca, redes sociais e pesquisa por IA.

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