Leia agora
As Mulheres de Mantilha

Universo da obra

As Mulheres de Mantilha

Capítulo 25 · As Mulheres de Mantilha

As Mulheres de Mantilha: Capítulo XXIV

25 de 56 ≈ 6 min de leitura

O jogo de prendas terminou; e Maria, levando outra vez Gonçalo Pereira para a janella, disse-lhe:

-- Afortunado e doce entretenimento! abraçamos-nos dez vezes e nos beijamos outras tantas!

-- E era isso o que eu devia agradecer-te esta noite? perguntou Gonçalo.

-- Achas pouco?

-- Muito, e pouco.

Maria sorrio-se ternamente e apertando a mão do joven e apaixonado official, tornou dizendo-lhe:

-- Não era isso o que eu pensava que me agradecerias, o que ainda penso que me agradecerás.

-- Então o que?...

-- O que não contavas e nem se quer me pediste: adivinha!

Gonçalo adivinhou immediatamente.

-- Passarmos juntos o resto da noite, Maria?

-- Sim; mas sob uma condição....

-- Qual?

-- Dir-me-has o que me escondes: quaes são os projectos de Alexandre Cardoso relativamente á filha do carpinteiro...

-- Sempre vil espião!

-- Gonçalo!...

-- Esta imposição me desatina, e eu declaro que não é possível continuar a obedecer-te.

-- Tão pouco mereço eu!

-- Ah Maria! tu não me dás, vendes-me o teu amor â preço de deslealdade e de deshonra minha!

A bella cortezã, inclinando a cabeça para murmurar um segredo ao ouvido do amante tocou com os labios na face delle, e depois continuando a conversar, torcia levemente com os dedos a ponta do negro bigode do elegante militar.

Dejanira captivava Hercules.

Gonçalo abrazado em apaixonadas flammas, jurou dizer-lhe quanto sabia, quando estivessem sós.

-- Porque nâo agora? perguntou Maria.

O tenente corou e disse tremendo e com os dentes cerrados:

-- Porque tu és escrava, e eu não sei, se teu senhor te quererá deixar livre.

Maria corou por sua vez, teve um impeto de colera; mas dominou-se e tornou a fallar.

-- E se eu o fizer sahir já?....

-- Já?...

-- Em cinco minutos.

-- Dir-te-hei tudo immediatamente.

Maria sahio da janella, dirigio-se á sala do jogo, sentou-se junto de Alexandre Cardoso e disse-lhe ao ouvido:

-- Ha meia hora que um soldado da guarda do Vice-Rei veio trazer uma carta dirigida á ti.

-- Onde está a carta?

Maria mostrou; mas não entregou a carta.

-- Da-m'a; disse Alexandre Cardoso: é talvez alguma ordem do Vice-Rei....

-- Não é do conde da Cunha....

-- Qu'importa? seja de quem fôr; dá-m'a-

-- Aqui não; respondeu Maria, retirando-se.

Alexandre Cardoso seguio á cortezã até um gabinete, onde ella entrou.

Maria voltou-se e com voz alterada e os olhos em fogo, disse, mostrando a carta em sua mão:

-- Esta letra é de mulher!....

Alexandre Cardoso rio-se do accesso de ciume da amante.

-- Semelhante carta mandada á minha casa é uma zombaria, uma injuria á que não me resigno!

-- Maria; não ha mulher que me escreva; tranquillisa-te.

-- Oh!... tranquillisar-me!... exclamou a cortezã, misturando o furor com as lagrimas que dos olhos lhe romperão.

Alexandre Cardoso commoveu-se, ou quiz pôr termo a questão e disse:

-- Convence-te de que és louca: abre a carta, e lê o nome de quem me escreve.

Maria tremula de irado ciume rasgou o sobscrito, desdobrou o papel, e vendo a assignatura, sorrio-se e balbuciou um pouco confundida; entregando a carta, que não quiz ler:

-- Perdão, Alexandre.

O ajudante official da sala empallideceu, lendo o que lhe communicavão, e visivelmente contrariado fallou á Maria.

-- E' forçoso que eu te deixe: um caso imprevisto previsto reclama a minha presença fóra d'aqui: até amanhã.

E, beijando a mão da cortezã, foi á sala do jogo recolher o seu dinheiro, e sahio apressado.

Maria tinha aberto e lido a carta, em que um dos protegidos de Alexandre Cardoso, e encarregado de dar-lhe conta de quanto se passasse com o Vice-Rei, de quem era criado, lhe annunciava que Jeronymo Lirio fôra recebido em audiencia particular pelo conde da Cunha, e estava com este em conversação muito animada.

O ciume da cortezã fôra um embuste para encobrir o reprehensivel abuso do rompimento do sello da carta.

Quando Maria voltou á sala, Alexandre Cardoso já se tinha retirado: ella correu á janella, onde Gonçalo a esperava, e perguntou-lhe:

-- Que ha em relação a filha do carpinteiro?

-- E' uma bonita menina que nobremente resiste á toda especie de seducção.

-- E elle? o seductor?

-- A' elle proprio nada ouvi; porque confesso que desde algumas semanas me furto ás confidencias e á intimidade de Alexandre Cardoso.

Maria fez um movimento de contrariedade.

-- Um dos seus amigos porém ha pouco me revelou um plano atroz, a idéa de um duplo crime....

-- Qual?

-- Aproveitando o isolamento da casa do carpinteiro, Alexandre Cardoso a fará incendiar, e á pretexto de acudir ao incendio, será presente, e conta poder violentar ou raptar a pobre donzella.

-- Quando se effectuará este projecto criminoso?

-- Amanhã ou qualquer dia.

-- A menina chama-se Emiliana..... o pae Marcos Fulgencio....

-- Não sei; como o sabes tu, Maria?

-- E' que tu dormes, e eu velo, Gonçalo; nada sabes, e eu sei muito por isso.

-- Oh! mas eu tambem sei muito, sei demais!....

-- O que, mentiroso?.... -- Adorar-te, feiticeira!.....

Maria beijou a fronte de Gonçalo, e fugia-lhe; elle porém deteve-a, segurando-a pelo vestido e perguntou:

-- Não basta de canto, de dança e de jogo, Maria?

A cortezã lançou sobre Gonçalo um olhar voluptuoso e delirante.

-- Tens razão; respondeu ella; é tarde: as velas estão gastas, as luzes quasi a apagar-se: que outras luzes pois se acendão.

E meia hora depois estavão sós Gonçalo e Maria.

As Mulheres de Mantilha

Sinopse

Leia As Mulheres de Mantilha, de Joaquim Manuel de Macedo, grátis no Literunico. Romance clássico brasileiro em domínio público, disponível para leitura online em HTML, com fonte Wikisource validada, capítulos completos e metadados preparados para busca, redes sociais e pesquisa por IA.

Ver ficha da edição física
LITEBN
LITEBN-978653139462752349101270
As Mulheres de Mantilha

Resenhas do livro

0 publicadas

Ainda não há resenhas para esta obra. A primeira leitura comentada pode começar aqui.

Ir para o carrinho
Mercado de As Mulheres de Mantilha

Leve um fragmento deste universo

Escolha a arte, confira a disponibilidade e adicione o produto ao carrinho sem sair da experiência.

Nenhum livro físico está disponível neste universo.
Relíquias da Obra

Adquira Relíquias da Obra e deixe sua marca registrada, criando valor ao item!

Aguardando Aprovação do Autor
Aguardando grupo autoral As Mulheres de Mantilha Escolha uma Relíquia e envie uma proposta de aquisição, mesmo antes da ativação.
100Relíquias
0Titulares
0 Passagens
Central de RelíquiasDescubra coleções de outros universos e obras.
ver todas
Capítulo 25 carregado no app · 1 livro conectado 1/1
Abrir leitor completo

Capítulos disponíveis para continuar a leitura.

Capítulos de As Mulheres de Mantilha

Capa de As Mulheres de Mantilha
Continue a leitura As Mulheres de Mantilha: Capítulo XXIV Capítulo 25 · 25 de 56 · ≈ 6 min
Todos os capítulos 56 disponíveis

Donos de Relíquias

0 titulares

Nenhuma Relíquia desta obra foi adquirida ainda. Seja o primeiro a eternizar seu nome no acervo oficial!

Conhecer as 100 Relíquias

Resenhas do livro

0 publicadas

Ainda não há resenhas para esta obra. A primeira leitura comentada pode começar aqui.

Entrar para resenhar

Posses do livro

0 Leitores com posse
0 Unidades registradas

Nenhuma posse foi registrada publicamente para esta edição.

Adicionais do Universo

Visual ClássicoAbra a leitura editorial, no estilo de uma página de livro
ler
Visual AuroraApresentação imersiva do universo da obra
abrir