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As Mulheres de Mantilha

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As Mulheres de Mantilha

Capítulo 53 · As Mulheres de Mantilha

As Mulheres de Mantilha: Capítulo LII

53 de 56 ≈ 6 min de leitura

O tenente Gonçalo Pereira instado por Alexandre Cardoso para acompanha-lo á casa de Maria, não ouzou resistir ao convite: a resistencia pudera despertar uma de duas suspeitas: ou que elle se arreceava de mostrar-se ao lado do ajudante official da sala ameaçado pela adversidade, ou que lhe repugnava a casa de Maria que aliás até então frequentara, o que exporia á desconfiança a cortezā, á quem devia generosidade.

Era assim que na alegre reunião Alexandre Cardoso cahia ás vezes em irresistivel meditação e Gonçalo mal disfarçava a sua tristesa.

Lundú novo! exclamou uma linda rapariga, levantando-se, e tomando a viola.

Porque não ao craro?

O cravo é mais pobre, pertence as chacaras, e ás baladas: o lundú e mais plebeo e cabe de direito á viola, que é o instrumento do povo.

Venha pois o lundú.

A moça cantou:

Graças do conde da Cunha
Ao bando cazamenteiro
Achão noivos raparigas
Sem belleza, e sem dinheiro.

Em um mez se acabão
As moças solteiras,
Os noivos recorrem
A's velhas gaiteiras.

P'ra muitos que sobrão,
Soltar vão as freiras,
Dos recolhimentos
Sahem prisioneiras.

E as qu'em vão amavão.
E as que lastimavão
A sorte, que o feio, cruel celibato
Tam máo lhes impunha

E as moças sem dote, e as velhas e as freiras
Que á luz, se escondião, corujas do mato
São hoje devotas, e noivas festeiras
Do conde da Cunha.

Como esta mais cinco ou seis coplas cantou a bonita rapariga no meio de vivos applausos.

Depondo a viola disse ella á rir:

-- Todos me applaudirão menos o senhor tenente-coronel que pensa no dia de amanhã, e o senhor tenente Gonçalo que está triste com saudades do dia de hontem!

-- Não é isso; exclamou Maria; o senhor Alexandre Cardoso e o senhor Gonçalo Pereira estão afflictissimos; porque ambos me pedirão em cazamento, e á ambos me recuzei.

-- Querem ver que tivemos medo de assentar praça! disse Alexandre Cardoso.

-- Não; mas o Vice-Rei vai mandar proclamar outro bando, condemnando á perda de seus postos os officiaes solteiros que não se cazarem promptamente.

-- Em tal caso pedirei a minha demissão.

-- Pois, senhor tenente-coronel, apresse-se antes que Ih'a deem.

Alexandre Cardoso perturbou-se, lembrando-se da confidencia de Gonçalo Pereira.

Maria voltou-se para o tenente, e perguntou-lhe.

-- E o senhor tambem pretende pedir a sua demissão?

Gonçalo fitou com olhos flammejantes a cortezã e disse:

-- Já dei-a.

Maria corou de leve, sentindo o golpe que recebera; acrescentou porem logo:

-- E como conserva e traz a farda e as divizas¿

-- Estas são as do regimento novo, e foi de official de outro corpo que me demitti.

-- Então de qual?

-- Do regimento dos escravos do vicio.

-- Ainda bem que a sua prezença aqui indica que esta casa não é quartel desse regimento; respondeu Maria, contendo-se.

Alexandre Cardoso começava á prestar attenção.

A cortezã ferida rudemente em sua vaidade, tornou dizendo:

-- Que subita regeneração! os arrependidos assim ou ficão logo santos, ou bem depressa perdem-se no caminho da salvação, e só não cahem no inferno, quando o diabo lhes fecha a porta.

Gonçalo Pereira guardou silencio.

Alexandre Cardoso conservava-se pensativo e immovel na sua cadeira.

-- Que insuportavel melancolia a destes senhores officiaes! fazem-nos somno! creio que estão assustados com a grande parada de amanhã.

E, sempre audaciosa, Maria accrescentou:

-- Falta-nos aqui o elegante alferes Constancio Lessa que nunca sabe o que é tristeza!

E fallando ás senhoras:

-- Mundo às avessas! façamos dançar estes cavalheiros; exclamou.

As senhoras levantarão-se alegremente, e Gonçalo Pereira, aproveitando o movimento da companhia, aproximou-se da cortezã, e disse-lhe:

-- Se quer aqui o alferes Constancio Lessa, mando busca-lo á minha casa onde o deixei em vergonhoso estado de embriaguez depois que lhe ouvi, quanto me convinha saber.

Gonçalo voltava as costas; porem Maria travou-lhe do braço, e respondeu-lhe com impavidez:

-- Se me tivesse perguntado o que lhe convinha saber, poupar-se-ia á uma acção desleal, e ás despezas de um jantar envenenado; porque eu lhe diria... tudo.

E lançou-se ao turbilhão da dança.

Gonçalo Pereira foi debruçar-se á janella.

Alexandre Cardoso esperou alguns minutos, e quando vio a sociedade mais occupada com a dança, encaminhou-se tambem para a janella.

-- Tenente Gonçalo Pereira! disse-lhe; senão nos tivessemos batido esta tarde no campo do Rosario, sahiriamos agora mesmo d'aqui para nos batermos.

-- Senhor tenente-coronel...

-- A mulher que me atraiçoa e por quem me trahio, é Maria.

Gonçalo não respondeu.

-- E' Maria! repetio Alexandre Cardoso.

O tenente manteve-se mudo.

-- E' Maria!... tornou com voz surda e ameaçadora o tenente-coronel.

Gonçalo por unica resposta, perguntou:

-- Quer que saiamos?...

Alexandre Cardoso passou a mão pela fronte e disse:

-- Não tornaremos á bater-nos... não... essa mulher não é digna de um duello entre dous cavalleiros... vi bem, que suas relações com ella estão quebradas... as minhas, quebro-as hoje... e desde agora...

-- Um pouco tarde! murmurou sinistramente Maria, mostrando-se junto dos dous officiaes.

Espantados de tanto e tam affrontoso cynismo, Alexandre Cardoso e Gonçalo Pereira tiverão a mesma idea para castigar a soberba e impavida cortezã, idea profundamente insultuosa, material, baixa e repugnante; mas idea que sem previo ajuste, ambos poserão em pratica ao mesmo tempo, e como se estivessem de accordo.

Os dous officiaes simultaneamente atirarão suas bolsas de ouro aos pés da cortezã e retirarão-se.

As Mulheres de Mantilha

Sinopse

Leia As Mulheres de Mantilha, de Joaquim Manuel de Macedo, grátis no Literunico. Romance clássico brasileiro em domínio público, disponível para leitura online em HTML, com fonte Wikisource validada, capítulos completos e metadados preparados para busca, redes sociais e pesquisa por IA.

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