Universo da obra
Universo da obra
Alexandre Cardoso sahira da casa de Maria de...., quando a aurora vinha já rompendo; parecia pois natural que a bella mulher tivesse somno e quizesse dormir, como dissera, ao despedi-lo secca e enregeladamente.
Todavia apenas a porta da rua se fechou sobre o official da sala do vice-rei, Maria que se deixara ficar sentada, voltou os olhos para o corredor que se estendia até a casa de jantar, e para o qual abria uma porta cada um dos aposentos interiores do sobrado, e poucos momentos depois appareceu diante della, e foi sentar-se em uma cadeira fronteira da sua um bonito mancebo que certamente ainda não contava trinta annos de idade.
Era um homem de estatura regular e tão bem feito de fórmas, como desejaria sel-o uma mulher; tinha os cabellos pretos finos e crespos, e os olhos tão negros e bellos, como erão bellos, e brancos os dentes; o rosto oval ostentava encanto e graças demais para o seu sexo: longe de ser um typo de belleza varonil, dir-se-hia um erro da natureza que lhe dera formosura feminina e sexo masculino.
-- Maria, disse elle seriamente; não me sujeitarei segunda vez á situação tão mesquinha e aviitante!
Maria pareceu não tel-o ouvido; porque não lhe respondeu; mas perguntou-lhe.
-- Angelo, sabes jogar?.....
Tambem Angelo não respondeu á pergunta de Maria, e continuou, insistindo no seu protesto.
-- Porque excluir-me da sala e da mesa dos teus convidados e impôr-me essa cruel prisão de duas ou tres horas em um quarto retirado que nem ao menos é o do teu leito?.... envergonhas-te da minha companhia ou pensas que me causão medo os teus amigos de bigodes e espadas?....
-- Maria tornou-lhe:
-- Angelo, sabes jogar a banca?...
O mancebo levantou-se colerico:
-- E' demais!... exclamou.
-- Senta-te e ouve; tornou-lhe Maria com voz imperiosa.
Angelo sentou-se.
-- Deixei-te naquelle quarto porque me convinha que não te vissem hoje em minha casa: muito me serviste hoje; mas se te encontrassem aqui, não poderias servir-me amanhã; pois adivinharião em ti o amigo, que ha tempo me poz ao facto de quanto se passou no pateo do convento da Ajuda.
Angelo curvou a cabeça e disse:
-- Entendo; pensaste bem em ti mesma, zelando o teu espião.
Maria encrespou os supercilios, e fallou em tom severo.
-- Tens vinte e sete annos, Angelo, e aos vinte e cinco, na idade em que o homem deve assumir uma posição na sociedade, eras o filho mimoso de pais sem fortuna, um pobre moço sem officio, sem o habito do trabalho, e portanto um condemnado ás provações dos desvalidos; eu te encontrei, te distingui e te amei porque eras e és bello; fiz por ti o que teus pais não poderião fazer.
-- Mas eu tambem te amei, Maria!
-- E o amor é fogo que se apaga.....
-- O teu.....
-- Pois seja assim, o meu: arrefecido o meu amor, nem por isso te faltou minha protecção: de amante furtiva ou mal encoberta eu me tornei tua amiga manifesta; dei-te um emprego que te assegura posição mediocre, mas sufficiente para a vida do homem modesto, e não poupei nem poupo favores que te facilitão apparencias de abastança que não possues.
-- Lanças-me em rosto os beneficios, Maria?
-- Não; sómente lembro os fundamentos da gratidão que tenho exigido e exijo ainda.
-- E poderias juigar-me ingrato?
-- Tambem não: ainda precisas muito de mim para que tão cedo me voltasses as costas. Lembrei-te o casamento com a filha mais nova do negociante Jeronymo, que te tornaria esposo de uma linda moça e herdeiro de grande fortuna....
-- Inspiração do ciume......
-- Já o neguei? é certo, inspiração do ciume; mas inspiração que te póde aproveitar: prometti auxiliar-te neste empenho, e sabes que o tenho feito: que mais quererias que fizesse por ti a amante de dous annos, que saciada do teu amor hoje faz muito ainda, amparando-te, protegendo-te com a sua amizade?
-- Tua franqueza é cruel e desalmada!....
-- Qu'importa? eu sou melhor do que as que fingem e mentem: eu não te devo nada, Angelo; porque paguei-te o que me deste: e tu me deves muito, porque não te pedindo mais, e quando debalde mais me quererieis dar, ainda te dou e te prometto; eu porém preciso de ti contra Alexandre Cardoso, de quem jurei vingar-me; nada mais claro, e nada mais franco: entendamos-nos pois: queres continuar á servir-me?....
Angelo respondeu submisso:
-- Estou prompto.
-- Já te fiz rival de Alexandre Cardoso, aconselhando-te o amor e o casamento com Ignez Lirio: neste empenho tu me serves e eu te sirvo: agora tenho outro.
-- Qual?...
-- O jogo.
-- O jogo?....
-- Sabes jogar?
-- Conheço as cartas do baralho, e mais ou menos comprehendo os jogos.-- Jogas a banca?
-- Mal.
-- E' preciso que a saibas jogar honesta e deshonestamente; porque eu quero que ganhes o dinheiro de Alexandre Cardoso.
-- O famoso jogador?!!!
-- Serei tua socia nas perdas e lucros, e tomo á minha conta o capital necessario: entrarei com cinco mil cruzados para a sociedade, e tu com a tua simples participação no jogo, que muitas vezes se dará em minha casa.
-- Aceito a proposta sem modificação alguma; disse Angelo.
-- Eu porém exijo mais alguma cousa; tornou Maria.
-- O que?...
-- Que ganhes sempre a Alexandre Cardoso.
-- Isso desejo eu; mas o meio?....
-- Angelo, tens as mãos finas, e a subtileza das organisações delicadas: tudo é fácil no jogo á quem sobrão essas condições: irás amanhã, quero dizer, hoje mesmo ao outeiro da Gloria, ensinarte-hão ali a casa do velho Placencio Guedes, o mais habil jogador, adivinhador, e empalmador de cartas, que a fama apregoa; é um velho que deixou de jogar sómente porque todos se esquivão de o fazer com elle; entregar-lhe-has um bilhete de recommendação que vou escrever-lhe: durante quinze dias ou um mez praticarás, aprenderás com Placencio Guedes á ganhar sempre ao jogo, e especialmente ao jogo da banca, e quando o velho Placencio te disser: «podes jogar:» -- tu de sociedade comigo que fornecerei o dinheiro, jogarás sempre contra Alexandre Cardoso.
Angelo não respondia.
-- Expliquei-me claramente, disse Maria; cumpre-te agora responder: queres ou não?... aceitas ou não?....
-- Quero e aceito; respondeu emfim sombriamente o mancebo.
Maria levantou-se, e abrindo uma rica escrivania de jacarandá, escreveu algumas linhas em uma folha de papel que dobrou e veio entregar a Angelo.
-- Amanhã te apresentarás com este bilhete ao velho Placencio. Agora deixa-me: preciso descansar.
Angelo sahio.Leia As Mulheres de Mantilha, de Joaquim Manuel de Macedo, grátis no Literunico. Romance clássico brasileiro em domínio público, disponível para leitura online em HTML, com fonte Wikisource validada, capítulos completos e metadados preparados para busca, redes sociais e pesquisa por IA.
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