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As Mulheres de Mantilha

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As Mulheres de Mantilha

Capítulo 15 · As Mulheres de Mantilha

As Mulheres de Mantilha: Capítulo XIV

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Na chacara de Jeronymo Lirio tambem se corversava sobre as novidades do dia.

O velho negociante portuguez António Pires, amigo de Jeronymo desde quarenta annos e padrinho de baptismo de Ignez tinha ido passar o dia na chácara da Gamboa, e dera conta do que se passára na cidade.

Estavão na sala a senhora Ignez, e suas duas filhas que alegremente festejavão os presentes de doces e fructas que lhes trouxera o velho antigo de seu pai, e especialmente a bella afilhada que recebera além do mais uma linda boneca não cabia em si de contente.

-- Imprudencias loucas, Antonio! não nos governão bem; mas a falta de respeito ao governo é peior: dissera Jeronymo.

Antonio Pires olhou em torno da sala, e não vendo senão o amigo, a comadre e as meninas, respondeu, fazendo com o braço um movimento:

-- Leve o demo o governo que desgoverna, Jeronymo!

-- Compadre! disse a senhora Ignez.

-- Arrancão-nos dinheiro e propriedade, prendem nossos caixeiros e nossos escravos, desenfreão e protegem a devassidão...... pois em tal caso venha ao menos a vingança do pasquim!

-- Antonio, tu és um velho creança: vamos jogar o gamão.

-- Cala-te ahi que pensas como eu penso, e como pensão todos os homens de sizo e de honra.

-- Anda jogar o gamão ou eu mando as meninas molharem-te a cabelleira e os babados da camisa.

-- Ellas não ousarião faze-lo, compadre: observou Ignez.

-- E que o fizessem! o dia é de folguedo e eu não sou carranca rabugento, como seu marido, comadre.

E voltando-se para as duas meninas, perguntou:

-- Sinhá-sinha, tens limões de cheiro?

-- Não, meu padrinho; respondeu Ignez.

-- E tu Nhânhã?

-- Tambem não.

O velho tirou da bolsa duas moedas de ouro, e dando uma a cada menina, disse-lhes:

-- Hoje governo eu aqui e muito melhor do que se governa lá fora: em quanto vou ensinar o gamão á vosso pai, mandem vocês comprar limões de cheiro nas casas em que os vendem, fazendo traze-los em caixas fechadas para não serem quebrados pelos rondantes do vice-rei, e molhem-se uma a outra, e molhem pai, e mãe, e á mim tambem com a condição de serem, e de se mostrarem bem contentes e bem felizes: não!

As meninas, coitadinhas, hesitavão, olhando para o severo pai.

-- Este velho creança tem direitos de padrinho, que é quasi pai: ide brincar, e obedecei-lhe; pois que elle manda; nada porém de doudices..... ide brincar.

As meninas sahirão, correndo.

-- Olhem como ellas vão! exclamou Antonio.

-- Ignez, disse Jeronymo, manda-nos vir o gamão.

A senhora ígnez sahio da sala e em breve chegou o taboleiro do gamão que os dous velhos amigos descansarão sobre os joelhos; armadas porém as pedras, e tendo Antonio lançado o seu dado, Jeronymo em vez de imita-lo, fallou tristemente:

-- Dizias bem: o governo da colonia está confiado á um cego que não quer ver e que tomou por conductor o vicio desenfreado.

-- Cada dia novas extorsões....

-- E' o menos: o mais é o exemplo da corrupção que parte dos que governão, e que empesta a sociedade; o mais é a impunidade do seductor indigno que ameaça as familias!...

O rosto de Jeronymo tornara-se rubro de colera.

-- E' assim; mas......

-- Antonio, eu á ninguém o disse ainda, nem mesmo á tua comadre; direi porém á ti, e á ti sómente; pois que tens direito de sabe-lo, e és homem capaz de comprehender-me.....

-- Que ha então?...

-- O official da sala ousou levantar seus olhos corruptores até a tua innocente afilhada!....

-- Estás certo disso?

Jeronymo continuou com voz tremula e abalada.

-- Quando quizesse duvidar, não podia....

-- Porque?...

-- Porque cartas anonymas me denuncião todos os passos, e todas as machinações de Alexandre Cardoso para aproximar-se de minha filha, relacionando-se comigo, e tudo se verifica de quanto me previnem; portanto já anda por ahi o nome de Ignez exposto ás lingoas venenosas desses devassos da companha do official da sala!

-- Jeronymo, talvez estejas exagerando: és rico e póde bem ser que Alexandre Cardoso calcule com um casamento.....

-- Casamento! darias a mão de tua afilhada á esse homem?

-- Nunca; mas semelhante ambição está longe de ser uma offensa, como seria a infame tentativa de seducção.

-- E quem assegura que o não é?...

-- Eu por certo que não.

-- Tambem minha resolução está tomada, e eu precisava communica-la á ti.

-- Qual é?

-- Minha familia continuará á negar-se a Alexandre Cardoso.

-- Muito bem.

-- E se o homem fatal por qualquer modo tentar seduzir Ignez, ou der motivo á que seu nome e a sua reputação soffrão ainda a mais leve e a mais injusta suspeita.....

-- Que farás?....

Jeronymo levantou-se e indo abrir as pesadas portas de um pequeno armario cavado na parede da sala, tirou delle um papel dobrado e lacrado triplicadamente e duas ricas pistolas.

-- Estes objectos explicão, o que hei de fazer: ficas sabendo onde se ha de achar o meu testamento e estás vendo as pistolas, com que hei de na rua, de dia, e á face de todos matar Alexandre Cardoso.

Antonio fez um movimento de approvação; mas logo depois disse:

-- Pobre velho Jeronymo! se errasses o primeiro tiro, não te darião tempo de usar da segunda pistola.......

-- Antonio!

-- Eu tenho melhor idéa.

-- Qual?....

-- Que magnificas pistolas! aqui na colonia não se encontrão iguaes! Jeronymo, dá-me uma dellas....... será aquella de que não terias tempo de servir-te.

Jeronymo, banhado o rosto em lagrimas, abraçou-se com o amigo, exclamando:

-- Não! seria demais!

-- Que demais?... tornou Antonio com gravidade; tu és pai, e por isso tens o direito de ir adiante; mas eu sou amigo e padrinho e tenho o direito de ir depois. Em dous velhos que atirão de pistola, quando um erra, o outro póde acertar.

Jeronymo estendeu o braço para dar uma das pistolas a Antonio, que não a quiz receber, dizendo á sorrir:

-- Tenho lá em casa tambem duas da mesma fabrica: o que eu queria, era assegurar-te que na hypothese que imaginaste, se errares o tiro, eu tratarei de apontar mais certeiro. Vamos jogar o gamão.

Hoje em dia dous velhos que assim fallassem, farião rir pelas bravatas ridiculas, á que ninguem daria grande importancia: naquelles tempos havia um dictado que definia certos homens: o dictado rude, como rude era o povo, era este: «pé de boi portuguez velho» e em Jeronymo e Antonio se encontravão dous pés de boi portuguezes velhos que farião o que dizião, dous homens de bem ás direitas, mas teimosos, emperrados, indommaveis que tinhão no cumprimento da palavra o fanatismo da religião.

Os ultimos representantes dessa geração de heroes de firmeza obstinada, antitheses da egoista inconstancia, e interesseiro aviltamento de notabilidades passivas, forão aquelles paulistas que tomavão por divisa vaidosa, ao menos porém não suspeita de indignidade o famoso principio: «antes quebrar, que torcer.»

As Mulheres de Mantilha

Sinopse

Leia As Mulheres de Mantilha, de Joaquim Manuel de Macedo, grátis no Literunico. Romance clássico brasileiro em domínio público, disponível para leitura online em HTML, com fonte Wikisource validada, capítulos completos e metadados preparados para busca, redes sociais e pesquisa por IA.

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