Universo da obra
Universo da obra
Erão nove horas da noite.
Na casa da formosa cortezã havia saráo e jogo: na sala principal a dança e o canto erão os pretextos; na sala de jantar a mesa de jogo era o verdadeiro motivo da reunião.
Maria animava e encantava a companhia de moralidade duvidosa ou negativa na primeira sala: na outra uma roda de jogadores, mancebos ricos, velhos aferrados ao vicio, á paixão fatal do jogo, officiaes e paizanos dispunhão-se á parar á banca.
A mesa enchia-se de ouro.
Alexandre Cardoso ou por cortezia ou por desafio diante dos montes de ouro, offereceu as cartas a Angelo, que recusou-as modestamente; aceitando-as porém ás primeiras insistencias.O jogo começou.
Na primeira cartada Angelo perdeu quasi sempre, e metade das suas pilhas de ouro passou para os outros jogadores: na segunda ficárão apenas cerca de vinte moedas ao banqueiro que havia perdido já muito mais de tres mil cruzados.
Angelo perguntou com imperturbavel serenidade, se alguem queria tomar-lhe o lugar de banqueiro.
Alexandre Cardoso que fôra quem mais ganhara, e que, apezar do que havia dito ao amigo com quem viera, tinha ogerisa á Angelo, disse com intenção de confundil-o:
-- Abdica talvez por falta de recursos; mas sobra-lhe o credito: disponha da minha bolsa.
-- Obrigado; respondeu Angelo sem formalisar-se.
E tirando do bolso um pequno sacco de veludo verde, despejou na mesa nova enchente de ouro.
-- Vamos, senhores:
E espalhando, confundindo e baralhando as cartas com exagerado escrupulo, ia dal-as á partir, quando hesitou e sorrindo-se disse:
-- Evidentemente baralho hoje contra mim!... se alguem baralhasse melhor as cartas.... capitão! o senhor que não joga, quer fazer-me este favor?
O capitão recusou-se.
-- Paciencia; tornou Angelo.
E deu as cartas para serem partidas.
A terceira cartada vingou o banqueiro, que ganhou nessa quanto perdera nas duas primeiras.
-- Quem quer as cartas?... tornou Angelo á perguntar.
-- Continue; respondeu Alexandre Cardoso. Angelo carteou e ganhou ainda mais.
-- Quem quer as cartas? repetio.
-- Continue; insistio Alexandre Cardoso; mas se não o leva á mal mudaremos de baralho.
-- Como quizerem.
Um criado trouxe cartas novas, e o capitão á pedido de Angelo e á instancias dos outros jogadores, tomou, abrio e misturou o baralho.
O interesse do jogo augmentava.Alexandre Cardoso apontou elevada somma na dama.
-- E' um erro; observou Angelo, sorrindo; as damas não são favoráveis aos jogadores.
E carteou. A terceira carta foi dama e cahio á direita. O banqueiro ganhára.
Alexandre Cardoso dobrou a parada na mesma carta: um outro ponto imitou-o.
-- Não apontem na dama; tornou Angelo: sou ainda muito moço para que as damas me desdenhem.
E ganhou segunda vez.
Alexandre Cardoso teimou e com elle parárão outros ainda na dama, que offerecia então mais probabilidades contra o banqueiro, que impavido carteava, recolhendo sempre mais do que pagava.
A dama que se demorára appareceu, sahindo pela terceira vez á direita.
Alexandre Cardoso acabava de perder a sua ultima pinha de moedas, e no meio do ruido que excitára a fortuna do banqueiro, levantou-se dizendo:
-- Esgotou-me a bolsa: por hoje basta.-- Sua palavra vale mais que mil bolsas recheadas; respondeu Angelo; e devo lembrar-lhe que ainda está no baralho a quarta dama.
-- Mil cruzados pois! exclamou o ajudante official da sala.
Olharão todos para o banqueiro.
-- Aceito; disse elle.
E perguntou aos outros pontos.
-- Alguem mais quer honrar á dama?..
O desafio chegava á ser imprudente.
Dous mil cruzados esperarão a carta que tres vezes já tinha sido favoravel ao banqueiro.
Alexandre Cardoso tinha os olhos fitos nas mãos de Angelo; o capitão em pé o observava com igual cuidado.
A dama não se fez esperar muito e ainda pela quarta e ultima vez nessa cartada foi fiel á fortuna do banqueiro.
-- E' demais!... exclamou um dos jogadores.
-- Com effeito, disse Angelo; convenho em que ellas me perseguem docemente.......... mas só no jogo..... só no jogo....
Alexandre Cardoso olhou-o com raiva:
O tenente Gonçalo Pereira que pouco antes havia chegado e não jogava, fez um movimento de repugnancia, ouvindo Angelo, e sahio immediatamente da sala.
Leia As Mulheres de Mantilha, de Joaquim Manuel de Macedo, grátis no Literunico. Romance clássico brasileiro em domínio público, disponível para leitura online em HTML, com fonte Wikisource validada, capítulos completos e metadados preparados para busca, redes sociais e pesquisa por IA.
Ainda não há resenhas para esta obra. A primeira leitura comentada pode começar aqui.
Escolha a arte, confira a disponibilidade e adicione o produto ao carrinho sem sair da experiência.
Adquira Relíquias da Obra e deixe sua marca registrada, criando valor ao item!
Capítulos disponíveis para continuar a leitura.
Nenhuma Relíquia desta obra foi adquirida ainda. Seja o primeiro a eternizar seu nome no acervo oficial!
Conhecer as 100 RelíquiasAinda não há resenhas para esta obra. A primeira leitura comentada pode começar aqui.
Nenhuma posse foi registrada publicamente para esta edição.
Durante a leitura, abra Menu para ajustar a experiência sem sair do capítulo. As preferências de aparência ficam salvas neste aparelho.
Recursos identificados como “em preparo” aparecem para antecipar a evolução do leitor, mas ainda não executam uma ação.
Posso mostrar leituras em destaque, clássicos e Relíquias disponíveis agora no Literúnico.
Escolha um caminho
Dúvidas desta página
As explicações do Aurélio são respostas cadastradas pelo Literúnico.