Leia agora
As Mulheres de Mantilha

Universo da obra

As Mulheres de Mantilha

Capítulo 19 · As Mulheres de Mantilha

As Mulheres de Mantilha: Capítulo XVIII

19 de 56 ≈ 6 min de leitura

Os dous lirios penderão suavemente para as caixas de laranginhas que acabavão de abrir.

Brilhavão nos olhos a flamma, e nos labios o sorriso da alegria de Irene e Ignez.

Erão limões de cheiro brancos, verdes, rubros, amarellos, de todas as cores e nuanças possiveis......

-- Tão bonitas: diz Irene; que faremos delles?....

Ignez fez um momo e respondeu:

-- Tu me molharás e eu te molharei...... eis ahi tudo.

A nobre mãe das duas meninas tinha parado junto dellas e as contemplava e ouvia risonha.

Irene tornou:

-- Se pudessemos molhar mais alguem........

-- Nhanhã; disse Ignez; meu padrinho me deu licença para molhar a todos...... e, se não fosse meu pae, eu era capaz.....

-- De que?...

-- De molhar, de quebrar limões em meu padrinho que deu licença para isso.....

A senhora Ignez não se pôde vencer, rio-se da idéa da filha e de modo que as meninas se voltarão para ella.

-- Mamãe ouvio?

-- Ouvi, sim.

-- E que diz?

-- Vão molhar o compadre: cada uma leve dous limões, cheguem-se a elle sem mostrar os limões, e não tenhão medo.

-- E meu pae?... perguntou Irene, em quanto Ignez se armava não com dous, mas com quatro limões em suas mãos pequeninas.

-- Eu me acharei perto de vosso pae para dizer que vos dei licença para o que ides fazer.

As duas meninas animadas pela mãe, palpitantes de emoção, dirigirão-se á sala, escondendo, como puderão, os limões de cheiro que levavão, e se aproximarão de Antonio.

Era exactamente no momento em que, armadas as pedras, os dous amigos lançavão os dados.

-- Vou dar-te um gamão cantado! exclamára o padrinho de Ignez.

Mas de subito soltou um grito: as meninas tinhão-lhe quebrado os limões de cheiro no peito.

Em vez de ralhar Jeronymo desatou á rir.

-- Ah, bregeirinhas! exclamou Antonio, levantando-se e largando o taboleiro do gamão nos joelhos do parceiro.

E correndo á um moringue d'agua, que vira sobre a mesa, tomou-o, mas em vez de vingar-se das meninas, foi despeja-lo na cabeça de Jeronymo que ainda se ria.

Jeronymo deixou cahir o taboleiro do gamão, e lançando-se para o interior da casa, voltou com um prato d'agua que atirou sobre Antonio.

As meninas tornarão com outros limões e tambem a senhora Ignez que os quebrou no marido e no compadre: vendedores de limões de cheiro da casa onde os portadores de Irene e Ignez os tinhão ido comprar, prevendo o costumado fervor que succedia sempre ao começo do jogo, apparecerão no terreiro, trazendo taboleiros disfarçados em caixas fechadas; Antonio e Jeronymo comprarão todos estes, e a luta se tornou mais vigorosa e animada com a abundancia e igualdade das armas, embora houvesse desproporção entre os combatentes batentes; porque toda a familia Lirio acabava de fazer coalisão contra Antonio.

De repente e ao grande ruido que se fazia appareceu correndo agitada e temerosa a mulher de mantilha, já porém sem mantilha, e deixando ver em si uma bella moça vestida com simplicidade.

A chegada imprevista da joven fez hesitar por instante os combatentes: as duas meninas ficarão surprehendidas; Jeronymo contrariado; mas a senhora Ignez pronunciava-lhe breves palavras ao ouvido, quando tambem Antonio exclamava á bella moça:

-- São quatro contra um! venha em meu soccorro, menina!...

A moça confusa e tremula não ousava avançar um passo; Jeronymo porém que ouvira bom conselho, provocou-a, arrojando-lhe limões, no que foi imitado pela mulher e pelas filhas: então ella risonha, e com vivacidade prompta, voou para o lado de Antonio, e tomou parte na acção, excedendo á todos na viveza do ataque, e na certeza das pontarias.

No fim de uma hora de amigas provocações, risadas, gritos, e alegria que novos taboleiros de limões, acudindo á mina explorada, alimentarão, o combate cessou por falta de munições e pela fadiga dos combatentes, que todos se acharão molhados da cabeça aos pés, assim como estava a sala toda inundada.

Jeronymo atirou-se em uma cadeira, dizendo:

-- Eis ahi o que fizerão aquellas duas doudinhas impellidas por um velho creança!

-- Cala-te ahi, rabugento! comadre, mande-nos vir aguardente de Paraty; disse Antonio.

-- E basta de entrudo, ouvirão? tornou o outro fallando a Irene e Ignez; vão mudar de roupa. Quanto a senhora........ a senhora...... esqueceu-me o seu nome....

A moça respondeu, abaixando os olhos:

-- Izidora.

-- Peço-lhe perdão, menina Izidora; pois fui o primeiro a desafia-la á este jogo maldito: ande, vá mudar de vestidos e tranquillise-se que ninguem mais se lembrará de entrudo nesta casa.

A senhora Ignez e suas filhas entrarão para o interior da casa: e Izidora recolheu-se ao gabinete que lhe havião destinado.

Cada um dos dous velhos bebeu um calix de aguardente e forão ambos tomar outras roupas, ao mesmo tempo que alguns escravos varrião e enxugavão a sala.

Meia hora depois aquelles bons amigos achavão-se de novo em frente um do outro, rindo-se das innocentes proezas que acabavão de fazer tão contra os seus habitos e disposições, e como um pouco envergonhados ambos, não disserão palavra sobre o entrudo.

-- Jeronymo; disse Antonio: estou com vontade de ensaiar uma experiencia....

-- Qual ?

-- Quizera ver, se ainda haveria hoje pessoa ou facto que nos impedisse jogar o gamão....

-- Pois experimentemos.

E, tomando o taboleiro, sentarão-se e armarão as pedras; mas immediatamente a senhora Ignez entrou na sala, e disse:

-- Compadre o nosso feijão está na mesa.

E foi á porta do gabinete chamar Izidora.

-- Antonio, observou Jeronymo; sopa fria não presta.

-- Has de ver, que nem á tarde conseguiremos jogar o gamão, respondeu Antonio, deixando o taboleiro sobre as duas cadeiras.

As Mulheres de Mantilha

Sinopse

Leia As Mulheres de Mantilha, de Joaquim Manuel de Macedo, grátis no Literunico. Romance clássico brasileiro em domínio público, disponível para leitura online em HTML, com fonte Wikisource validada, capítulos completos e metadados preparados para busca, redes sociais e pesquisa por IA.

Ver ficha da edição física
LITEBN
LITEBN-978653139462752349101270
As Mulheres de Mantilha

Resenhas do livro

0 publicadas

Ainda não há resenhas para esta obra. A primeira leitura comentada pode começar aqui.

Ir para o carrinho
Mercado de As Mulheres de Mantilha

Leve um fragmento deste universo

Escolha a arte, confira a disponibilidade e adicione o produto ao carrinho sem sair da experiência.

Nenhum livro físico está disponível neste universo.
Relíquias da Obra

Adquira Relíquias da Obra e deixe sua marca registrada, criando valor ao item!

Aguardando Aprovação do Autor
Aguardando grupo autoral As Mulheres de Mantilha Escolha uma Relíquia e envie uma proposta de aquisição, mesmo antes da ativação.
100Relíquias
0Titulares
0 Passagens
Central de RelíquiasDescubra coleções de outros universos e obras.
ver todas
Capítulo 19 carregado no app · 1 livro conectado 1/1
Abrir leitor completo

Capítulos disponíveis para continuar a leitura.

Capítulos de As Mulheres de Mantilha

Capa de As Mulheres de Mantilha
Continue a leitura As Mulheres de Mantilha: Capítulo XVIII Capítulo 19 · 19 de 56 · ≈ 6 min
Todos os capítulos 56 disponíveis

Donos de Relíquias

0 titulares

Nenhuma Relíquia desta obra foi adquirida ainda. Seja o primeiro a eternizar seu nome no acervo oficial!

Conhecer as 100 Relíquias

Resenhas do livro

0 publicadas

Ainda não há resenhas para esta obra. A primeira leitura comentada pode começar aqui.

Entrar para resenhar

Posses do livro

0 Leitores com posse
0 Unidades registradas

Nenhuma posse foi registrada publicamente para esta edição.

Adicionais do Universo

Visual ClássicoAbra a leitura editorial, no estilo de uma página de livro
ler
Visual AuroraApresentação imersiva do universo da obra
abrir