Leia agora
As Mulheres de Mantilha

Universo da obra

As Mulheres de Mantilha

Capítulo 43 · As Mulheres de Mantilha

As Mulheres de Mantilha: Capítulo XLII

43 de 56 ≈ 9 min de leitura

-- Que pretende?... perguntarão á Germiano.

O mudo, pondo em acção a sua mimica expressiva, indicou que queria entender-se com Clelio Irias.

Responderão-lhe que isso não era possivel.

Germiano conhecia o facultativo e dirigindo-se a elle, poz um dedo na boca, recommendando silencio e mostrou-lhe uma folha de papel.

A penas leu as primeiras palavras, o licenciado curvou-se com respeito, e disse ao mudo:

-- Venha.

E introduzindo Germiano na sala, onde estava Clelio Irias, retirou-se, cerrou a porta, e sahio, promettendo voltar em breve.

-- Aquelle soldado é um enviado do Vice-Rei; e sou capaz de jurar que vem pedir á Clelio Irias informações sobre a sua enfermeira.

Emiliana não respondeu á Maria e ficou immovel.

Baterão de novo a porta, e em quanto Emiliana foi ver quem chegava, Maria conhecedora, como qualquer outro das divizões e communicações adoptadas em quasi todas as casas da cidade, atravessou a sala de jantar, entrou em um quarto, passou desse para outro que era contiguo á sala que servia de escriptorio, onde estava Clelio Irias, e abrindo um pouco e levemente a porta, applicou o ouvido e escutou.

Germiano levára a candeia que eslava acesa na sala do doente para perto deste, e offerecera-lhe aos olhos a folha de papel que mostrara ao facultativo.

-- Da parte do Sr. Vice-Rei! disse Clelio Irias, lendo; e fazendo vão esforço para sentar-se.

O mudo conteve o doente e com a sua mimica recommendou-lhe tranquillidade e começou o seu interrogatorio, apresentando a primeira pergunta escrita.

Clelio Irias leo em meia voz e respondeu sim.

Germiano traçou com um lapis que trazia, uma cruz no papel onde estava escripta a pergunta.

No entanto Emiliana tinha vindo procurar Maria e encontrando-a á escutar á porta entreaberta do quarto, puchou-a com força pelo braço para afasta-la daquelle lugar, onde sorprehendia um segredo; achando porem teimosa resistencia, hesitou, não sabendo o que devia fazer; porque, tolerando aquelle abuso, era cumplice em uma traição, e denunciando-o, expunha talvez á tremendo castigo a mulher andaciosa, e hia provocar perigoso abalo provavelmente fatal ao velho doente.

Anciosa e tremula Emiliana ouvio o nome de Alexandre Cardoso murmurado por Clelio Irias na pergunta que lera, e não podendo arredar d'ali a senhora de mantilha, deixou-se também ficar, puchando sempre pelo braço desta, mas talvez já não menos curiosa que ella.

O mudo foi successivamente passando á Clelio os papeis de perguntas, e traçou uma cruz, quando a resposta foi -- sim --, um risco sobre as letras da pergunta, quando o velho respondeo -- não --, e não fez signal algum em uma pergunta, á qual o doente respondeo -- não sei.

Clelio Irias lia sempre em meia voz a pergunta que o mudo lhe apresentava e á que respondia immediatamente.

Terminado esse interrogatorio singular e imprudente nas circumstancias em que se achava Clelio Irias, Germiano apertou a mão do doente e voltou á dar conta da sua commissão ao Vice-Rei.

Ao mesmo tempo Maria tornou á sala de jantar e voltando-se para Emiliana disse-lhe:

-- Perdi o meo tempo: nada ouvi que fosse novo para mim.

Emiliana não podia dizer outro tanto, e estava espantada da perversão e dos crimes do homem que já era bastante criminoso para ella.

-- Em que pensa, menina? perguntou Maria, pensa em....

A moça interrompeo-a com viveza e respondeo:

-- Pensava naquelle mudo....

Maria sorrio-se maliciosamente; veudo porem que Emiliana corava, disse-lhe:

-- A providencia divina tambem é muda: não falla; mas não dorme.

O facultativo chegou, como prometter,: e Maria, perdendo de todo a esperança de fallar á Clelio Irias, envolveo-se em sua mantilha, e embora levasse a promessa de que lhe parteciparião, quando o doente pndesse recebe-la, dada a hypothese de escapar á morte, retirou-se contrariada.

Dous egoismos tinhão, um tentado com empenho sacrificar e outro effectivamente sacrificado á sua vontade todas as considerações de respeito e de caridade, á que tinha direito um velho doente e em perigo de vida; o egoismo da vingança e o egoismo do poder despotico. Emiliana soubera resistir á Maria: o licenciado não ouzára resistir ao Vice-Rei.

Mas receioso das consequencias do interrogatorio mysterioso feito pelo mudo, o licenciado foi ver outra vez o seo doonte: a febre augmentára um pouco e com ella as dores e a agitação:

-- A tal conversa lhe foi nociva; disse o pratico; espero porem que hade amanhecer melhor: vou receitar-lhe um calmante poderoso.....

Clelio Irias sacudio a cabeça em signal de incredulidade.

-- Isso é medo de velho....

-- Amanhã receberei os sagrados soccorros e a extrema-uncção; murmurou o doente.

-- E' o seu dever de catholico.

-- E suave consolação e conforto de minha alma de uzurario e peccador arrependido....

-- Está bem; descanse.

-- Não; é preciso que eu lhe falle: senhor licenciado, tenho mais de setenta annos; o mundo e a vida ja me cansão.

-- Conversaremos amanhã...

~ Amanhã pode ser tarde. Senhor licenciado, seja franco: tenho negocios á arranjar, disposições á tomar: se ainda espera salvar-me e esses cuidados podem contraria-lo, estou prompto a adia-los: se pelo contrario....

O licenciado cortou a palavra ao doente e respondeo-lhe:

-- O seo estado é grave: ainda tenho esperanças de vencer esta febre maldicta que o devora: mas quer me parecer que a preocupação dos arranjos dos seus negpcios é ainda peior do que será a fadiga e a excitação do trabalho que vae ter: descanse pois duas horas, tome depois as suas disposições, e deixe o resto por minha conta.

Clelio Irias comprehendeo perfeitamente a verdadeira significação das palavras do licenciado, e sem commoção e sem tremer disse:

-- Agradeço-lhe a verdade.

E fechou os olhos como para dormir.

O licenciado receitou e despedio-se de Emiliana e da velha.

Meia hora depois Clelio Irias abrio os olhos e vio sentada á seos pés a dedicada enfermeira.

-- Venha sentar-se aqui; disse-lhe, mostrando uma cadeira de páo que estava junto da sua cabeceira.

A moça obedeceo, e elle tomou-lhe u a das mãos, e fallou com anciedade que energico dominava.

-- Emiliana! devo-lhe muito nestes dias, e vou morrer apesar dos seos cuidados de filha dedicada. Veja em mim seo pai, e creia que vae confessar-se á um moribundo; mas confesse-se....

Emiliana estremeceo.

-- Faltão-me as forças.... padeço muito.... não me fatigue: falle, que preciso ouvi-la.

-- Que quer que eu diga ?

-- Que coufesse ao moribundo que vae dar contas de si á Deos, o que com inteira verdade, se passou na noute do incendio da casa de seo pai.

Emiliana desatou a chorar.

-- E' pois verdade o que disserão ? perguntou Clelio Irias.

-- E' verdade; balbuciou a moça.

-- Alexandre Cardoso é pois seo amante?

-- Oh! não!... exclamou ella levantando-se.

-- Sente-se....

Emiliana sentou-se.

-- Mas Alexandre Cardoso, o infame por mil infamias, manchou a sua reputação.....

A moça contou soluçando a breve historia da sua desgraça.

Clelio Irias fatigado e em febril agitação teve pressa de acabar essa intima conversação.

-- Embora innocente, o seo nome está exposto ás irrisões do mundo: tome outro nome....

~ Como, senhor?...

-- Seja noiva amanhã para ser viuva depois d’amanhã.

Emiliana não soube que dizer.

-- Mande chamar sua mãi, e prevenir á seo pai: amanhã a senhora será esposa do velho uzurario, que morrerá logo depois com a cabeça encostada no seo seio. E Clelio Irias tornou a fechar os olhos; mas, passados poucos momentos, murmurou:

-- As orações do anjo serão as azas que hão de levar a alma do velho peccador arrependido aos pés do senhor Deos mizericordioso. E Clelio Irias dormio.

········································

Na manhã do dia seguinte Clelio Irias apparentemente muito melhor dos seos cruéis soffrimentos, calmo e contricto confessou-se e recebeo a sagrada communhão.

Em seguida foi celebrado e abençoado o seo casamento com Emiliana, a filha do carpinteiro Marcos Fulgencio. Acabado o acto religioso do casamento, o padre sahio da sala, onde entrou o tabellião.

No fim de uma hora duas testemunhas assignarão o testamento do marido de Emiliana.

Ao meio dia o velho que era noivo estava sem febre, tranquillo, c como sorrindo aos horisontes da vida.

As duas horas da tarde voltou a febre com extraordinaria violencia.

A's cinco horas Clelio Irias delirava.

A's seis perdera a falla e seo corpo cobrio-se de frio suor.

A meia neuteo velho uzurario, peccador arrependido, agonisava tendo a cabeça encostada no seio de sua joven esposa.

A' uma hora da madrugada Emiliana Irias estava viuva e era a unica herdeira de uma fortuna de seis centos mil cruzados.

As Mulheres de Mantilha

Sinopse

Leia As Mulheres de Mantilha, de Joaquim Manuel de Macedo, grátis no Literunico. Romance clássico brasileiro em domínio público, disponível para leitura online em HTML, com fonte Wikisource validada, capítulos completos e metadados preparados para busca, redes sociais e pesquisa por IA.

Ver ficha da edição física
LITEBN
LITEBN-978653139462752349101270
As Mulheres de Mantilha

Resenhas do livro

0 publicadas

Ainda não há resenhas para esta obra. A primeira leitura comentada pode começar aqui.

Ir para o carrinho
Mercado de As Mulheres de Mantilha

Leve um fragmento deste universo

Escolha a arte, confira a disponibilidade e adicione o produto ao carrinho sem sair da experiência.

Nenhum livro físico está disponível neste universo.
Relíquias da Obra

Adquira Relíquias da Obra e deixe sua marca registrada, criando valor ao item!

Aguardando Aprovação do Autor
Aguardando grupo autoral As Mulheres de Mantilha Escolha uma Relíquia e envie uma proposta de aquisição, mesmo antes da ativação.
100Relíquias
0Titulares
0 Passagens
Central de RelíquiasDescubra coleções de outros universos e obras.
ver todas
Capítulo 43 carregado no app · 1 livro conectado 1/1
Abrir leitor completo

Capítulos disponíveis para continuar a leitura.

Capítulos de As Mulheres de Mantilha

Capa de As Mulheres de Mantilha
Continue a leitura As Mulheres de Mantilha: Capítulo XLII Capítulo 43 · 43 de 56 · ≈ 9 min
Todos os capítulos 56 disponíveis

Donos de Relíquias

0 titulares

Nenhuma Relíquia desta obra foi adquirida ainda. Seja o primeiro a eternizar seu nome no acervo oficial!

Conhecer as 100 Relíquias

Resenhas do livro

0 publicadas

Ainda não há resenhas para esta obra. A primeira leitura comentada pode começar aqui.

Entrar para resenhar

Posses do livro

0 Leitores com posse
0 Unidades registradas

Nenhuma posse foi registrada publicamente para esta edição.

Adicionais do Universo

Visual ClássicoAbra a leitura editorial, no estilo de uma página de livro
ler
Visual AuroraApresentação imersiva do universo da obra
abrir