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As Mulheres de Mantilha

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As Mulheres de Mantilha

Capítulo 51 · As Mulheres de Mantilha

As Mulheres de Mantilha: Capítulo L

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Alexandre Cardoso affectava aos olhos de todos serenidade e segurança; mas dentro de si receiava talvez bem proxima a sua desgraça, porque tambem á elle espantava a cega confiança, com que o Vice-Rei o amparava contra a animadversão geral, ápezar da gravidade dos ultimos acontecimentos.

Além disso outras contrariedades o affligião; o jogo absorvera-lhe quanto dinheiro tinha, e quanto pudera tomar de emprestimo á bolsa dos amigos; a morte de Clelio Irias o privara de uma fonte de recursos, e a recusa do Vice-Rei á nomeação dos officiáes para o novo terço o deixava em difficilima e triste posição: por ultimo a sua infeliz paixão pela menina Ignez, o máo resultado de sua criminosa tentativa na noute da serração da velha enchião-lhe de fel o coração.

Entretanto o ajudante official da sala dissimulava as perturbações do seu animo; mas irritado e desejoso de tirar vingança daquelle que principalmente fora a causa de haver abortado o seu plano para o rapto de Ignez e já perfeitamente informado de quem era Izidoro e do motivo do seu disfarce, determinára persegui-lo á todo trance, e recruta-lo para soldado.

Não entrava no seu espirito a idéa de que Jeronymo Lirio quizesse para seu genro um joven sem fortuna e sem futuro, como era Izidoro que somente se recommendava por alguma educação literaria e artistica que os frades franciscanos do convento da villa de Santo Antonio de Sá lhe tinhão dado movidos pelo interesse que lhes inspirava a bella intelligencia daquelle menino.

Alexandre Cardoso comprohendeu que não era prudente depois do que acontecera, fulminar directamente com os raios da sua vingança o sympathico Izidoro, estudara pois e calculára uma providencia que comprehendesse Izidoro pela regra geral, e dirigiu-se ao conde da Cunha com um bando já redigido, em que erão declarados soldados de linha todos quantos até a data do bando erão solteiros e não tinhão officio activo, ou estabelecimento proprio e conhecido no commercio, industria e artes, tendo de desoito á quarenta annos.

O conde da Cunha leu o bando e disse, mostrando-se satisfeito:

-- Eu tambem tinha pensado nisto, que aliás já está em pratica, pois é principalmente na massa dos solteiros e vadios que fazemos recrutar.

-- No bando que escrevi para offerecer á sabia consideração do Senhor Vice-Rei, excluo a idéa do recrutamento arbitrario de que muitos se queixão, e proponho uma regra que por ser geral agradará ao povo.

-- Que lemos nós com a gritaria do povo?... guardo o seu bando, e amanhã ou depois lhe darei outro com uma idéa nova que dezejo ensaiar.

O ajudante official da sala curvou-se.

O Vice-Rei continuou:

-- Quero que seja esplendida a grande parada que pessoalmente commandarei no dia do nome d'El-Rei, meu senhor: ha muitos dias que não vizitamos as fortalezas, e dellas se devem retirar para concorrerem a parada quantas praças se poderem dispensar em suas guarnições; saiamos pois: o senhor vá as fortalezas, eu irei aos quarteis e ao meu arsenal.

Alexandre Cardoso tornou a curvar-se e sahio.

Pouco depois o conde da Cunha foi vezitar os quarteis, onde se informou do numero de praças promptas, do estado das armas e do fardamento.

No regimento novo os soldados doentes tratavão-se todos no competente hospital; e no da Santa Casa de Misericordia: no regimento velho tres soldados doentes não estavão como outros nos hospitaes.

O Vice-Rei quiz saber a razão dessa excepção.

O major do regimento respondeu:

-- Tiverão licença para tratar-se fóra.

-- E quem os cura?...

Eu o ignoro, senhor Vice-Rei.

O conde da Cunha cerrou as sobrancelhas e perguntou:

-- E onde se tratão?

O major estremeceu:

-- Também o ignora ?... quero sabe-lo.

-- Um desses soldados doentes é cazado, e tanto elle como os dous camaradas, de quem é parente ou amigo são tratados em sua casa.

-- E onde é essa casa ?

-- Senhor Vice-Rei, eu não estava preparado para...

-- Devia estar! bradou o conde da Cunha; e se não está, prepare-se já para responder-me: dou-lhe dez minutos.

E o Vice-Rei tirou o relogio, e marcou em alta voz a hora que era.

O major tremulo e asssutado foi para o interior do quartel e no fim de tres minutos voltou apressado.

-- Preparou-se? perguntou o Vice-Rei com ironia terrivel.

O major disse á gaguejar de medo.

-- A casa é no morro do Desterro um pouco á cima do convento de Santa Thereza... á beira do caminho, e a mão esquerda de quem sobe...

O Vice-Rei voltou as cosias ao major, e disse aos officiaes que á distancia respeitosa se achavão reunidos.

-- O tenente-coronel Alexandre Cardoso obrigado á desempenhar os deveres de meu ajudante official da sala tinha o direito de ser mais zelosamente servido pelos seus subordinados no commando do regimento velho: heide dizer-lhe o que observei aqui, e basta-me isso. O tenente coronel ainda não mentio á minha confiança.

E o velho conde da Cunha montou á cavallo, dirigiu-se ao arsenal, onde se demorou até a hora do jantar.

De volta ao palacio e recolhido ao seu gabinete, consultou apontamentos que tomára, interrogando Izidoro, e leu para si: « penso que feri no hombro o salteador que tentava raptar a menina Ignez: com certeza feri no rosto e na ilharga outro salteador de alta estatura e força descommunal que esteve á ponto de matar-me: não feri nenhum outro ». O conde da Cunha abrio uma gaveta de segredo e della tirou uma carta: era ainda um novo relatorio semanal da vida e proezas de Alexandre Cardoso, que elle leu ainda para si: « o mandatario do attentado foi Alexandre Cardoso, o fim era o rapto da menina Ignez, filha de Jeronymo Lirio, os instrumentos forão soldados do regimento velho, alguns dos quaes forão feridos, e estão sendo tratados fóra do quartel, ainda não sei onde, e menos o sabe o Vice-Rei, que faz garbo de tudo ignorar. »

O conde da Cunha mandou chamar Germiano, que não tardou a apresentar-se. O Vice-Rei lhe disse:

-- No morro do Desterro, um pouco á cima do convento, á beira do caminho, á mão esquerda, de quem o sobe, ha uma casa, onde estão em tratamento tres doentes, soldados do regimento velho: preciso saber que molestias soffrem elles, e se estão feridos, como me informão, em que regiões ou pontos do corpo receberão feridas. Vai-te: tens dous dias para desempenhar esta commissão.

O mudo sorriu-se, fez sua venia, e deixou o Vice-Rei.

Germiano que sabia tudo quanto se passava e se murmurava na cidade, comprehendeu perfeitamente o empenho do Vice-Rei, e por amor deste sendo inimigo de Alexandre Cardoso; esmerou-se em executar promptamente as ordens do seu idolatrado amo: jantou e bebeu em vez de uma como tinha por costume, tres garrafas de vinho ao jantar.

O mudo sabia a sua conta: uma garrafa de vinho era apenas o excitante normal da digestão, duas davão-lhe alegria, tres o levavão ao estado duvidoso que precede a embriaguez; quatro tiravão-lhe a consciencia.

Germiano bebeu pois tres garrafas de vinho e sahio á passear; tomou a direcção do morro do Desterro, e começou a subi-lo, passou alem do convento, e reconhecendo pelas indicações a casa que procurava, parou diante della, introduzio na garganta dous dedos para provocar um vomito, e desde que conseguio esse indicio da embriaguez que pretendia simular, deixou-se cahir contra a porta da casa e estirado no chão, poz-se a gemer pungentemente.

A porta da casa abriu-se, e uma mulher e um soldado que trazia um lenço atado á cabeça apparecerão.

A mulher disse:

-- E' um bebado.

O soldado curvou-se um pouco, examinando o rosto de Germiano, e exclamou:

-- E' o cão do Vice-Rei, é o patife do mudo que hoje bebeu pelo menos um garrafão de vinho!

-- Manda esse maroto para a porta do convento; disse outra voz que partia do interior da casa.

-- Era preciso que o borracho tivesse pernas; aqui não ha que hesitar: ou atirar com o cão do Vice-Rei pela escarpa do morro á baixo, levando a cabeça quebrada e sem miolos, ou recolhe-lo e trata-lo como amigo: este biltre é cão capaz de morder, e ao cão bravo ou compra-se a fidelidade, ou mata-se de uma vez.

Isto dizia da porta o soldado que entrando e conferenciando com os camaradas, voltou com a mulher e ambos carregarão para dentro Germiano á quem estenderão em uma esteira velha.

O mudo dormio ou fingio dormir longas horas até que, despertando e sentando-se na esteira; olhou espantado em torno de si.

-- Estás em casa de amigos, Germiano; disse-lhe o soldado que trazia o lenço á cabeça: tomaste solemne bebedeira, como ás vezes nos acontece, e o Senhor Vice-Rei não ficará mal comtigo por isso.

Germiano poz-se á custo de joelhos, e levou um dedo a boca, pedindo segredo do excesso de vinho que o levará á embriaguez.

-- Um dia não são dias, e uma mão lava a outra: tu te embebedaste por excepção, nós te soccorremos: toma nota disto, e olha bem para nós afim de que, lembrando as caras, não esqueças a gratidão.

O mudo tornou á deitar-se e adormeceu.

Só no dia seguinte pelas dez horas da manhã Germiano entrou de volta no palacio; mas apenas entrou, foi direito ao gabinete particular do Vice-Rei.

-- Já sabes tudo? perguntou-lhe o conde.

O mudo fez signal afirmativo.

-- Os soldados estão feridos?...

Igual resposta deu Germiano, acenando com a cabeça.

-- Quantos são ?

O mudo mostrou tres dedos.

-- São tres, muito bem: e o primeiro, onde foi ferido?

O mudo poz a mão na cabeça.

-- O segundo?

O mudo mostrou o hombro direito.

-- Ah! no hombro? é isso mesmo.

-- E o terceiro?...

O mudo apontou o rosto, e depois a ilharga.

-- No rosto e na ilharga?... tal e qual! e esse ferido no rosto e na ilharga é de baixa estatura?..

O mudo fez com a cabeça signal negativo, e depois encostando-se á parede levou a mão um palmo á cima da sua propria altura.

-- Então... um homem gigantesco?...

O mudo indicou que sim.

-- Tudo como me informão! murmurou o Vice-Rei.

As Mulheres de Mantilha

Sinopse

Leia As Mulheres de Mantilha, de Joaquim Manuel de Macedo, grátis no Literunico. Romance clássico brasileiro em domínio público, disponível para leitura online em HTML, com fonte Wikisource validada, capítulos completos e metadados preparados para busca, redes sociais e pesquisa por IA.

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