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Folhas de Relva

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Folhas de Relva

Capítulo 1 · Folhas de Relva

LIVRO I. INSCRIÇÕES

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A Mim Mesmo Eu Canto

A mim mesmo eu canto, pessoa simples, distinta,
Mas pronuncio a palavra Democrático, a palavra Em-Massa.

Da fisiologia, da cabeça aos pés, eu canto,
Nem só a fisionomia nem só o cérebro são dignos da Musa, digo
que a Forma completa é muito mais digna,
A Mulher, igualmente ao Homem, eu canto.

Da Vida imensa em paixão, pulso e poder,
Jubilosa, formada para a ação mais livre sob as leis divinas,
O Homem Moderno eu canto.

Enquanto Meditava em Silêncio

Enquanto meditava em silêncio,
Voltando aos meus poemas, ponderando, demorando-me longamente,
Um Fantasma surgiu diante de mim com aspecto desconfiado,
Terrível em beleza, idade e poder,
O gênio dos poetas das terras antigas,
Dirigindo para mim, como chamas, os olhos,
Com o dedo apontando para muitas canções imortais,
E voz ameaçadora: Que cantas tu? disse ele,
Não sabes que há um só tema para os bardos que perduram eternamente?
E esse é o tema da Guerra, a sorte das batalhas,
A formação de soldados perfeitos.

Que assim seja, respondi então,
Eu também, Sombra altiva, canto a guerra, e uma mais longa e maior que qualquer outra,
Travada em meu livro com fortuna variável, com fuga, avanço
e retirada, vitória adiada e vacilante,
(Mas, penso eu, certa, ou quase certa, ao final,) tendo
por campo o mundo,
Pela vida e pela morte, pelo Corpo e pela Alma eterna,
Eis que também eu vim, entoando o canto das batalhas,
Eu, acima de tudo, exalto os soldados valentes.

Em Navios com Cabines no Mar

Em navios com cabines no mar,
O azul sem limites expandindo-se por todos os lados,
Com ventos assobiantes e música das ondas, as grandes ondas imperiosas,
Ou alguma barca solitária sustentada pelo mar espesso,
Onde, jubilosa, cheia de fé, desfraldando velas brancas,
Ela fende o éter entre o fulgor e a espuma do dia, ou sob
tantas estrelas à noite,
Por marinheiros jovens e velhos talvez eu, lembrança da terra, seja lido,
Em plena comunhão, enfim.

Aqui estão nossos pensamentos, pensamentos de viajantes,
Aqui não aparece somente a terra, a terra firme, poderão eles então dizer,
O céu arqueia-se aqui, sentimos sob os pés o convés ondulante,
Sentimos a longa pulsação, o fluxo e o refluxo do movimento sem fim,
Os tons do mistério invisível, as vagas e vastas sugestões do
mundo salgado, as sílabas de fluidez líquida,
O perfume, o leve ranger dos cordames, o ritmo melancólico,
A vista ilimitada e o horizonte distante e indistinto estão todos aqui,
E este é o poema do oceano.

Não hesites então, ó livro, cumpre teu destino,
Tu não és apenas uma lembrança da terra,
Tu também, qual barca solitária fendendo o éter, destinada não sei
aonde, mas sempre cheia de fé,
Companheiro de todo navio que navega, navega tu!
Leva-lhes, dobrado, o meu amor, (queridos marinheiros, para vós o dobro
aqui em cada folha;)
Avança depressa, meu livro! desfralda tuas velas brancas, minha pequena barca, através das
ondas imperiosas,
Prossegue cantando, prossegue navegando, leva sobre o azul sem limites, de mim a todos os mares,
Esta canção para os marinheiros e todos os seus navios.

Às Terras Estrangeiras

Ouvi dizer que pedíeis algo que demonstrasse este enigma, o Novo Mundo,
E definisse a América, sua Democracia atlética,
Por isso vos envio meus poemas, para que neles vejais o que desejáveis.

A um Historiador

Tu que celebras o que passou,
Que exploraste o exterior, as superfícies das raças, a vida
que se manifestou,
Que trataste do homem como criatura da política, dos conjuntos,
dos governantes e sacerdotes,
Eu, habitante dos Alleghanies, tratando dele tal como é em si mesmo,
em seus próprios direitos,
Tomando o pulso da vida que raramente se manifestou,
(o grande orgulho do homem em si mesmo,)
Cantor da Personalidade, delineando o que ainda há de ser,
Projeto a história do futuro.

A Ti, Antiga Causa

A ti, antiga causa!
Tu, causa incomparável, apaixonada, boa,
Tu, ideia severa, implacável, doce,
Imortal através das eras, raças, terras,
Depois de uma guerra estranha e triste, grande guerra por ti,
(Penso que toda guerra através do tempo foi realmente travada, e sempre será
realmente travada, por ti,)
Estes cantos para ti, tua marcha eterna.

(Uma guerra, ó soldados, não somente por si mesma,
Muito, muito mais permanecia silenciosamente à espera por trás, pronto agora para avançar neste livro.)

Tu, orbe de muitos orbes!
Tu, princípio fervente! tu, germe latente e bem guardado! tu, centro!
Em torno da ideia de ti gira a guerra,
Com todo o seu irado e veemente jogo de causas,
(Com vastos resultados por vir durante três vezes mil anos,)
Estes recitativos para ti, meu livro e a guerra são um só,
Fundidos em seu espírito, eu e o que é meu, pois o combate dependia de ti,
Como uma roda gira sobre seu eixo, este livro, sem o saber,
Em torno da ideia de ti.

Eídolos

Encontrei um vidente,
Transpondo as cores e os objetos do mundo,
Os campos da arte e do saber, do prazer, dos sentidos,
Para colher eídolos.

Põe em teus cantos, disse ele,

Não mais a hora ou o dia desconcertantes, nem segmentos, partes, põe,
Põe primeiro, antes do restante, como luz para todos e canto de entrada de tudo,
O canto dos eídolos.

Sempre o princípio indistinto,

Sempre o crescimento, o arredondar do círculo,
Sempre o ápice e a fusão ao fim, (para certamente começar de novo,)
Eídolos! eídolos!

Sempre o mutável,

Sempre matérias, mudando, desmoronando, tornando a unir-se,
Sempre os ateliês, as fábricas divinas,
Produzindo eídolos.

Eis, eu ou tu,

Ou mulher, homem ou Estado, conhecido ou desconhecido,
Parecemos construir riqueza sólida, força, beleza,
Mas na verdade construímos eídolos.

A aparência evanescente,

A substância do estado de espírito de um artista ou dos longos estudos de um sábio,
Ou das lutas do guerreiro, do mártir, do herói,
Para formar seu eídolo.

De cada vida humana,

(As unidades reunidas, dispostas, sem deixar de fora pensamento, emoção ou ato algum,)
O todo, grande ou pequeno, somado, reunido,
Em seu eídolo.

O velho, velho impulso,

Fundado nos antigos pináculos, eis pináculos novos, mais altos,
Pela ciência e pelo moderno ainda impelido,
O velho, velho impulso, eídolos.

O presente, agora e aqui,

O turbilhão atarefado, fervilhante, intricado da América,
Do agregado e do separado, pois somente daí se libertam,
Os eídolos de hoje.

Estes com o passado,

De terras desaparecidas, de todos os reinados de reis além-mar,
Antigos conquistadores, antigas campanhas, antigas viagens de marinheiros,
Unindo eídolos.

Densidades, crescimento, fachadas,

Estratos de montanhas, solos, rochas, árvores gigantes,
Nascidos longe, morrendo longe, vivendo longamente, para deixar
Eídolos eternos.

Exaltado, arrebatado, extático,

O visível não é senão o ventre de onde nascem,
De tendências orbiculares a formar e formar e formar,
O poderoso eídolo-terra.

Todo o espaço, todo o tempo,

(As estrelas, as terríveis perturbações dos sóis,
Inflando, colapsando, terminando, servindo a seus usos mais longos ou mais breves,)
Cheios somente de eídolos.

As miríades silenciosas,

Os oceanos infinitos onde os rios deságuam,
As incontáveis identidades livres e distintas, como a visão,
As verdadeiras realidades, eídolos.

Não este é o mundo,

Nem estes são os universos, eles são os universos,
Propósito e fim, sempre a vida permanente da vida,
Eídolos, eídolos.

Além de tuas aulas, professor erudito,

Além de teu telescópio ou espectroscópio, observador perspicaz, além de toda matemática,
Além da cirurgia e da anatomia do médico, além do químico com sua química,
As entidades das entidades, eídolos.

Instáveis, contudo estáveis,

Sempre serão, sempre foram e são,
Arrastando o presente para o futuro infinito,
Eídolos, eídolos, eídolos.

O profeta e o bardo

Ainda se sustentarão, em estágios ainda mais elevados,
Ainda servirão de mediadores ao Moderno, à Democracia, ainda lhes interpretarão
Deus e os eídolos.

E tu, minha alma,

Alegrias, exercícios incessantes, exaltações,
Teu anseio enfim amplamente alimentado, preparado para encontrar
Teus companheiros, eídolos.

Teu corpo permanente,

O corpo oculto ali dentro de teu corpo,
O único propósito da forma que és, o verdadeiro eu, eu mesmo,
Uma imagem, um eídolo.

Tuas próprias canções não estão em tuas canções,

Nenhum acorde particular a cantar, nenhum por si mesmo,
Mas resultante do todo, erguendo-se enfim e flutuando,
Um eídolo redondo, de orbe completo.

Por Ele Eu Canto

Por ele eu canto,
Ergo o presente sobre o passado,
(Como uma árvore perene que se ergue de suas raízes, o presente sobre o passado,)
Com o tempo e o espaço eu o dilato e a ele incorporo as leis imortais,
Para que, por meio delas, ele se faça lei para si mesmo.

Quando Leio o Livro

Quando leio o livro, a célebre biografia,
E é isto então (disse eu) o que o autor chama de vida de um homem?
E assim alguém, quando eu estiver morto e ausente, escreverá minha vida?
(Como se algum homem realmente soubesse algo de minha vida,
Ora, até eu mesmo muitas vezes penso saber pouco ou nada de minha verdadeira vida,
Apenas algumas indicações, alguns indícios tênues e dispersos, alguns caminhos indiretos
Que procuro, para meu próprio uso, seguir aqui.)

Iniciando Meus Estudos

Iniciando meus estudos, o primeiro passo tanto me agradou,
O simples fato da consciência, estas formas, o poder do movimento,
O menor inseto ou animal, os sentidos, a visão, o amor,
O primeiro passo, digo, assombrou-me e tanto me agradou,
Que mal avancei e mal desejei avançar mais,
Mas paro e me demoro o tempo todo para cantá-lo em canções extáticas.

Iniciantes

Como são providos sobre a terra, (aparecendo a intervalos,)
Como são caros e terríveis para a terra,
Como se habituam a si mesmos tanto quanto a qualquer outro, que paradoxo
parece ser sua época,
Como as pessoas lhes respondem, mas não os conhecem,
Como há algo de implacável em seu destino em todos os tempos,
Como todos os tempos escolhem mal os objetos de sua adulação e recompensa,
E como o mesmo preço inexorável ainda precisa ser pago pela mesma
grande aquisição.

Aos Estados

Aos Estados, ou a qualquer um deles, ou a qualquer cidade dos Estados: resisti
muito, obedecei pouco,
Uma vez aceita a obediência sem perguntas, uma vez plenamente escravizados,
Uma vez plenamente escravizados, nenhuma nação, Estado ou cidade desta terra jamais
recupera depois sua liberdade.

Em Viagens Através dos Estados

Em viagens através dos Estados partimos,
(Sim, através do mundo, impelidos por estas canções,
Navegando daqui em diante para todas as terras, para todos os mares,)
Nós, aprendizes voluntários de tudo, mestres de tudo e amantes de tudo.

Observamos as estações distribuindo-se e seguindo adiante,
E dissemos: por que um homem ou uma mulher não haveria de fazer tanto quanto as
estações, e de emanar tanto?

Permanecemos algum tempo em cada cidade e povoado,
Passamos pelo Canadá, pelo Nordeste, pelo vasto vale do
Mississippi e pelos Estados do Sul,
Conferenciamos em pé de igualdade com cada um dos Estados,
Pomos a nós mesmos à prova e convidamos homens e mulheres a ouvir,
Dizemos a nós mesmos: lembrai-vos, não temais, sede francos, proclamai
o corpo e a alma,
Permanecei algum tempo e segui adiante, sede copiosos, moderados, castos, magnéticos,
E o que emanardes poderá então retornar como retornam as estações,
E poderá ser tão abundante quanto as estações.

A Certa Cantora Lírica

Aqui, recebe este presente,
Eu o reservava para algum herói, orador ou general,
Alguém que servisse à boa e antiga causa, à grande ideia, ao
progresso e à liberdade da raça,
Algum valente enfrentador de déspotas, algum rebelde audacioso;
Mas vejo que aquilo que eu reservava pertence tanto a ti quanto a qualquer outro.

Eu, Imperturbável

Eu, imperturbável, à vontade na Natureza,
Senhor de tudo ou senhora de tudo, seguro em meio às coisas irracionais,
Impregnado como elas, passivo, receptivo, silencioso como elas,
Considerando minha ocupação, pobreza, notoriedade, fraquezas e crimes menos
importantes do que eu pensava,
Eu junto ao mar mexicano, ou em Mannahatta ou no Tennessee,
ou no extremo norte ou no interior,
Homem do rio, ou homem dos bosques, ou de qualquer vida rural destes
Estados, ou do litoral, ou dos lagos, ou do Canadá,
Eu, onde quer que minha vida seja vivida, ah, manter-me equilibrado diante das contingências,
Enfrentar a noite, as tempestades, a fome, o ridículo, os acidentes, as recusas, como
fazem as árvores e os animais.

Savantismo

Para lá, quando olho, vejo cada resultado e cada glória refazendo seu caminho e
aninhando-se junto à origem, sempre devedores,
Para lá as horas, os meses, os anos; para lá os ofícios, os acordos,
os estabelecimentos, mesmo os mais diminutos,
Para lá a vida cotidiana, a fala, os utensílios, a política, as pessoas, as propriedades;
Para lá também nós, eu com minhas folhas e canções, confiante, admirado,
Como um pai que, indo ao encontro de seu próprio pai, leva consigo os filhos.

O Navio que Parte

Eis o mar ilimitado,
Sobre seu peito, um navio que parte, desfraldando todas as velas, levando até
as velas de sobrecéu.
A flâmula voa no alto enquanto ele avança, avança tão majestoso;
abaixo, ondas rivais precipitam-se,
Cercam o navio com movimentos curvos e luminosos e com espuma.

Ouço a América Cantando

Ouço a América cantando, ouço os variados cânticos,
Os dos trabalhadores, cada qual cantando o seu, como deve ser, alegre e vigoroso,
O carpinteiro cantando o seu ao medir a prancha ou a viga,
O pedreiro cantando o seu ao preparar-se para o trabalho ou ao deixar o trabalho,
O barqueiro cantando o que lhe pertence em seu barco, o marinheiro de convés
cantando no convés do vapor,
O sapateiro cantando sentado à banca, o chapeleiro cantando
de pé,
A canção do lenhador, a do rapaz do arado a caminho pela manhã,
ou durante o descanso do meio-dia, ou ao pôr do sol,
O delicioso canto da mãe, ou da jovem esposa trabalhando,
ou da moça costurando ou lavando,
Cada qual cantando o que pertence a ele ou a ela e a ninguém mais,
O dia, aquilo que pertence ao dia; à noite, o grupo de jovens
companheiros, robustos, amistosos,
Cantando de boca aberta suas fortes canções melodiosas.

Que Lugar Está Sitiado?

Que lugar está sitiado e tenta em vão romper o cerco?
Eis que envio a esse lugar um comandante, veloz, valente, imortal,
E com ele cavalaria e infantaria, e parques de artilharia,
E artilheiros, os mais mortíferos que jamais dispararam um canhão.

Embora Ainda Cante o Indivíduo

Embora ainda cante o indivíduo,
(Um só, embora feito de contradições,) dedico-o à Nacionalidade,
Deixo nele a revolta, (Ó direito latente de insurreição! Ó
fogo inextinguível, indispensável!)

Não Fecheis Vossas Portas

Não fecheis vossas portas para mim, orgulhosas bibliotecas,
Pois aquilo que faltava em todas as vossas estantes tão repletas, e de que
mais se precisava, eu trago,
Surgindo da guerra, um livro que fiz,
As palavras de meu livro não são nada, seu sentido é tudo,
Um livro distinto, não ligado aos demais nem apreendido pelo intelecto,
Mas vós, latências incontáveis, estremecereis a cada página.

Poetas que Virão

Poetas que virão! oradores, cantores, músicos que virão!
Não cabe ao dia de hoje justificar-me e responder para que existo,
Mas a vós, nova estirpe, nativa, atlética, continental, maior do que
qualquer outra antes conhecida,
Erguei-vos! pois deveis justificar-me.

Eu mesmo escrevo apenas uma ou duas palavras indicativas para o futuro,
Avanço apenas por um instante, para logo girar e apressar-me de volta à escuridão.

Sou um homem que, caminhando sem parar por completo, lança
um olhar casual para vós e então desvia o rosto,
Deixando a vós a tarefa de demonstrá-lo e defini-lo,
Esperando de vós as coisas principais.

A Ti

Estranho, se ao passar me encontrares e desejares falar comigo, por que
não haverias de falar comigo?
E por que eu não haveria de falar contigo?

Tu, Leitor

Tu, leitor, pulsas de vida, orgulho e amor, assim como eu,
Por isso, para ti são os cantos que se seguem.

Folhas de Relva

Sinopse

Tradução integral direta para o português brasileiro da edição final de 1891–1892 de Folhas de Relva, organizada nos 35 livros reais da obra e preservando seus 377 cabeçalhos estruturais.

Ver ficha da edição física
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