Universo da obra
Universo da obra
Em Caminhos Não Trilhados
Em caminhos não trilhados,
No crescimento junto às margens das águas do lago,
Escapado da vida que se exibe,
De todas as normas até agora publicadas, dos prazeres,
lucros, conformidades,
Que por tempo demais ofereci para alimentar minha alma,
Claras para mim agora normas ainda não publicadas, claro para mim que minha alma,
Que a alma do homem por quem falo se alegra em companheiros,
Aqui, sozinho, longe do tinido do mundo,
Contado e interpelado aqui por línguas aromáticas,
Já não envergonhado, (pois neste lugar apartado posso responder como
não ousaria em outra parte,)
Forte sobre mim, a vida que não se exibe, mas contém
todo o restante,
Resolvido a não cantar hoje canções que não sejam as da afeição viril,
Projetando-as ao longo dessa vida substancial,
Legando daqui modelos de amor atlético,
Nesta tarde deliciosa do Nono Mês, em meu quadragésimo primeiro ano,
Prossigo por todos os que são ou foram jovens,
Para contar o segredo de minhas noites e dias,
Para celebrar a necessidade de companheiros.
Erva perfumada de meu peito,
Folhas de ti recolho, escrevo, para serem melhor lidas depois,
Folhas de túmulo, folhas de corpo crescendo acima de mim, acima da morte,
Raízes perenes, folhas altas, ó, o inverno não vos congelará,
folhas delicadas,
A cada ano florescereis novamente, do lugar para onde vos retirastes
emergireis outra vez;
Ó, não sei se muitos dos que passam vos descobrirão ou inalarão
vosso tênue odor, mas creio que alguns o farão;
Ó folhas esguias! Ó flores de meu sangue! permito que conteis, à
vossa maneira, do coração que está sob vós,
Ó, não sei o que significais aí sob vós mesmas, não sois
felicidade,
Muitas vezes sois mais amargas do que posso suportar, queimais e me feris,
Contudo, sois belas para mim, raízes de tênue coloração, fazeis-me
pensar na morte,
A morte é bela por vós, (o que, afinal, é verdadeiramente belo
exceto a morte e o amor?)
Ó, penso que não é para a vida que canto aqui meu canto de amantes,
penso que deve ser para a morte,
Pois como se torna sereno, como se torna solene ascender à atmosfera dos amantes,
Morte ou vida, então me são indiferentes, minha alma recusa-se a preferir,
(Não estou certo de que a alma elevada dos amantes não acolha sobretudo a morte,)
De fato, ó morte, penso agora que estas folhas significam precisamente o mesmo que
tu significas,
Crescei mais altas, doces folhas, para que eu veja! crescei para fora de meu peito!
Brotai do coração oculto aí!
Não vos encolhais assim em vossas raízes tingidas de rosa, folhas tímidas!
Não permaneças aí embaixo tão envergonhada, erva de meu peito!
Vem, estou decidido a desnudar este meu peito largo, já o
sufoquei e reprimi por tempo bastante;
Lâminas emblemáticas e caprichosas, abandono-vos, agora já não me servis,
Direi por si só o que tenho a dizer,
Farei ressoar apenas a mim mesmo e aos companheiros, nunca mais proferirei
um chamado que não seja o chamado deles,
Com ele levantarei reverberações imortais através dos Estados,
Darei aos amantes um exemplo para assumirem forma e vontade permanentes
através dos Estados,
Por mim serão ditas as palavras que tornarão a morte jubilosa,
Dá-me, portanto, teu tom, ó morte, para que eu me harmonize com ele,
Dá-me a ti mesma, pois vejo que agora pertences a mim acima de tudo, e
estais inseparavelmente enlaçados, tu, amor, e tu, morte,
Nem permitirei que me frustres mais com aquilo a que eu chamava vida,
Pois agora me foi transmitido que sois os sentidos essenciais,
Que vos ocultais nestas formas mutáveis da vida, por razões, e que
elas existem principalmente para vós,
Que para além delas surgis para permanecer, a realidade real,
Que por trás da máscara dos materiais esperais pacientemente, não importa quanto tempo,
Que um dia talvez assumireis o controle de tudo,
Que talvez dissipeis todo este espetáculo das aparências,
Que talvez sejais aquilo para que tudo existe, mas ele não dura por tanto tempo,
Mas vós durareis por muito tempo.
Quem quer que sejas, segurando-me agora na mão,
Sem uma coisa tudo será inútil,
Dou-te justo aviso antes que avances mais sobre mim,
Não sou o que supunhas, mas algo muito diferente.
Quem é aquele que se tornaria meu seguidor?
Quem se declararia candidato a minhas afeições?
O caminho é suspeito, o resultado incerto, talvez destrutivo,
Terias de abandonar tudo o mais, somente eu esperaria ser tua
única e exclusiva norma,
Teu noviciado, mesmo então, seria longo e exaustivo,
Toda a teoria passada de tua vida e toda conformidade com as vidas
ao teu redor teriam de ser abandonadas,
Portanto, solta-me agora antes de te incomodares mais, retira
tua mão de meus ombros,
Põe-me no chão e segue teu caminho.
Ou então, furtivamente, em algum bosque, para uma prova,
Ou atrás de uma rocha ao ar livre,
(Pois em qualquer aposento coberto de uma casa não me revelo, nem em companhia,
E nas bibliotecas jazo como um mudo, um desajeitado, ou não nascido, ou morto,)
Mas talvez contigo numa colina alta, primeiro vigiando para que nenhuma
pessoa, por milhas ao redor, se aproxime sem ser percebida,
Ou talvez contigo navegando no mar, ou na praia do mar, ou
em alguma ilha tranquila,
Aqui permito que pousas teus lábios sobre os meus,
Com o beijo duradouro do companheiro ou o beijo do novo marido,
Pois sou o novo marido e sou o companheiro.
Ou, se quiseres, enfiando-me sob tuas roupas,
Onde eu possa sentir as pulsações de teu coração ou repousar sobre teu quadril,
Leva-me quando saíres por terra ou por mar;
Pois assim, apenas tocando-te, basta, é o melhor,
E assim, tocando-te, eu dormiria silenciosamente e seria carregado eternamente.
Mas ao estudares estas folhas, estuda-as por tua conta e risco,
Pois estas folhas e eu não seremos compreendidos por ti,
Elas te escaparão a princípio, e ainda mais depois, eu
certamente te escaparei.
Mesmo quando pensares ter-me apanhado sem dúvida alguma, contempla!
Já vês que escapei de ti.
Pois não foi pelo que pus nele que escrevi este livro,
Nem é lendo-o que o adquirirás,
Nem me conhecem melhor aqueles que me admiram e me louvam com vanglória,
Nem os candidatos a meu amor, (salvo talvez pouquíssimos,)
se mostrarão vitoriosos,
Nem meus poemas farão apenas o bem, farão igualmente o mal,
talvez mais,
Pois tudo é inútil sem aquilo que muitas vezes podes adivinhar
e não acertar, aquilo a que aludi;
Portanto, solta-me e segue teu caminho.
Vem, tornarei o continente indissolúvel,
Farei a mais esplêndida raça sobre a qual o sol já brilhou,
Farei terras divinas e magnéticas,
Com o amor dos companheiros,
Com o amor dos companheiros por toda a vida.
Plantarei companheirismo denso como árvores ao longo de todos os rios da América,
e ao longo das margens dos grandes lagos, e por todas as pradarias,
Farei cidades inseparáveis, com os braços ao redor do pescoço umas das outras,
Pelo amor dos companheiros,
Pelo amor viril dos companheiros.
Para ti estas coisas de mim, ó Democracia, para servir-te, ma femme!
Para ti, para ti trino estas canções.
Estas que canto na primavera recolho para os amantes,
(Pois quem senão eu compreenderia os amantes e toda a sua dor e alegria?
E quem senão eu seria o poeta dos companheiros?)
Recolhendo, atravesso o jardim, o mundo, mas logo passo pelos portões,
Ora ao longo da margem do lago, ora entrando um pouco na água, sem temer molhar-me,
Ora junto às cercas de postes e travessas, onde as pedras antigas ali lançadas,
recolhidas dos campos, se acumularam,
(Flores silvestres, trepadeiras e ervas daninhas brotam entre as pedras e
as cobrem em parte, para além delas passo,)
Longe, muito longe na floresta, ou vagueando mais tarde no verão, antes de
pensar para onde vou,
Solitário, sentindo o cheiro terroso, parando vez ou outra no silêncio,
Sozinho, eu pensava, contudo logo uma tropa se reúne ao meu redor,
Alguns caminham ao meu lado, outros atrás, e alguns enlaçam meus braços ou pescoço,
São os espíritos de amigos queridos, mortos ou vivos, cada vez mais densos chegam, uma
grande multidão, e eu no meio,
Recolhendo, distribuindo, cantando, ali vagueio com eles,
Arrancando alguma coisa como símbolo, lançando-a na direção de quem estiver perto de mim,
Aqui, lilás, com um ramo de pinheiro,
Aqui, de meu bolso, um pouco de musgo que arranquei de um carvalho vivo na
Flórida, enquanto pendia arrastando-se para baixo,
Aqui, alguns cravos e folhas de louro, e um punhado de sálvia,
E aqui aquilo que agora retiro da água, entrando na margem do lago,
(Ó, aqui vi pela última vez aquele que me ama ternamente, e retorna outra vez
para nunca mais se separar de mim,
E isto, ó, isto será daqui em diante o símbolo dos companheiros, esta
raiz de cálamo será,
Trocai-a, jovens, uns com os outros! que ninguém a devolva!)
E ramos de bordo, e um cacho de laranja silvestre e castanha,
E hastes de groselheira, flores de ameixeira e o cedro aromático,
Estas coisas, cercado por uma espessa nuvem de espíritos,
Vagando, aponto ou toco ao passar, ou lanço-as soltas para longe de mim,
Indicando a cada um o que receberá, dando algo a cada um;
Mas aquilo que retirei da água junto à margem do lago, isso reservo,
Darei dele, mas somente àqueles que amam como eu mesmo sou capaz
de amar.
Não apenas erguendo-se de meu peito costelado,
Não em suspiros à noite, em fúria insatisfeita comigo mesmo,
Não nesses suspiros longamente prolongados, mal reprimidos,
Não em tantos juramentos e promessas quebrados,
Não na vontade de minha alma obstinada e selvagem,
Não no sutil alimento do ar,
Não neste bater e golpear em minhas têmporas e pulsos,
Não na curiosa sístole e diástole dentro de mim, que um dia cessará,
Não em tantos desejos famintos contados apenas aos céus,
Não em gritos, risos, desafios, lançados por mim quando sozinho, longe,
nas regiões selvagens,
Não em ofegos roucos através de dentes cerrados,
Não em palavras pronunciadas e repetidas, palavras tagarelas, ecos, palavras mortas,
Não nos murmúrios de meus sonhos enquanto durmo,
Nem nos outros murmúrios destes incríveis sonhos de todos os dias,
Nem nos membros e sentidos de meu corpo que te acolhem e te dispensam
continuamente, não ali,
Não em nenhum deles nem em todos, ó adesividade! ó pulso de minha vida!
Preciso que existas e te mostres mais do que nestas canções?
Da terrível dúvida das aparências,
Da incerteza, afinal, de que possamos estar iludidos,
De que talvez confiança e esperança sejam, afinal, apenas especulações,
De que talvez a identidade além do túmulo seja apenas uma bela fábula,
Talvez as coisas que percebo, os animais, plantas, homens, colinas,
águas brilhantes e correntes,
Os céus do dia e da noite, cores, densidades, formas, talvez tudo isso
seja, (como sem dúvida é,) apenas aparição, e a coisa
real ainda tenha de ser conhecida,
(Quantas vezes se lançam para fora de si mesmas como se quisessem confundir-me e zombar de mim!
Quantas vezes penso que nem eu nem homem algum sabemos coisa alguma delas,)
Talvez me pareçam aquilo que são, (como sem dúvida apenas parecem,)
a partir de meu atual ponto de vista, e pudessem revelar-se, (como naturalmente
se revelariam,) nada daquilo que aparentam, ou absolutamente nada, a partir de pontos
de vista inteiramente modificados;
Para mim, estas coisas e outras semelhantes são curiosamente respondidas por meus
amantes, meus queridos amigos,
Quando aquele que amo viaja comigo ou permanece por longo tempo sentado, segurando-me
pela mão,
Quando o ar sutil, o impalpável, a sensação que palavras e razão
não contêm, nos cercam e nos permeiam,
Então fico carregado de sabedoria não contada e incontável, permaneço em silêncio, não
exijo mais nada,
Não posso responder à questão das aparências nem à da identidade
além do túmulo,
Mas caminho ou me sento indiferente, estou satisfeito,
Aquele que segura minha mão satisfez-me completamente.
E agora, senhores,
Uma palavra vos dou para permanecer em vossas memórias e mentes,
Como base e também desfecho de toda metafísica.
(Assim falava aos estudantes o velho professor,
Ao término de seu concorrido curso.)
Tendo estudado o novo e o antigo, os sistemas gregos e germânicos,
Tendo estudado e exposto Kant, Fichte, Schelling e Hegel,
Exposto o saber de Platão, e Sócrates, maior que Platão,
E buscado e exposto aquele maior que Sócrates, tendo estudado por muito
tempo o Cristo divino,
Vejo hoje, recordando, aqueles sistemas gregos e germânicos,
Vejo todas as filosofias, vejo igrejas e doutrinas cristãs,
Contudo, sob Sócrates vejo claramente, e sob o Cristo divino vejo,
O caro amor do homem por seu companheiro, a atração de amigo por amigo,
Do marido e da esposa bem casados, dos filhos e dos pais,
De cidade por cidade e de terra por terra.
Cronistas de eras futuras,
Vinde, eu vos levarei para baixo deste exterior impassível, eu
vos direi o que dizer de mim,
Publicai meu nome e pendurai meu retrato como o do mais terno amante,
O retrato do amigo amante, aquele de quem seu amigo, seu amante, mais gostava,
Que não se orgulhava de suas canções, mas do oceano incomensurável de amor
dentro de si, e livremente o derramava,
Que muitas vezes percorria caminhos solitários pensando em seus queridos amigos, seus amantes,
Que, pensativo, longe daquele que amava, muitas vezes jazia insone e
insatisfeito à noite,
Que conhecia bem demais o temor doentio, doentio, de que aquele a quem amava pudesse
secretamente ser-lhe indiferente,
Cujos dias mais felizes passavam longe, pelos campos, nos bosques, sobre colinas,
ele e outro vagando de mãos dadas, os dois apartados dos demais homens,
Que muitas vezes, ao passear pelas ruas, curvava com o braço o ombro
de seu amigo, enquanto o braço do amigo também repousava sobre ele.
Quando ouvi, ao fim do dia, como meu nome fora recebido
com aplausos no Capitólio, ainda assim não foi feliz a noite que
se seguiu para mim,
E também quando me entreguei à farra, ou quando meus planos se realizaram, ainda
assim eu não estava feliz,
Mas no dia em que me ergui ao amanhecer do leito em perfeita saúde,
revigorado, cantando, inalando o hálito maduro do outono,
Quando vi a lua cheia no oeste empalidecer e desaparecer na
luz da manhã,
Quando vaguei sozinho pela praia, e, despindo-me, banhei-me,
rindo com as águas frescas, e vi o sol nascer,
E quando pensei em como meu querido amigo, meu amante, estava a caminho,
vindo, ó, então eu estava feliz,
Ó, então cada respiração tinha sabor mais doce, e durante todo aquele dia meu alimento
nutriu-me mais, e o belo dia passou bem,
E o seguinte veio com igual alegria, e com o seguinte, ao anoitecer, veio
meu amigo,
E naquela noite, enquanto tudo estava imóvel, ouvi as águas rolarem lentamente,
continuamente, até as praias,
Ouvi o sibilante roçar do líquido e das areias, como se dirigido a mim,
sussurrando para me felicitar,
Pois aquele a quem mais amo dormia junto de mim sob a mesma coberta, na
noite fresca,
Na quietude, sob os raios da lua de outono, seu rosto inclinava-se para mim,
E seu braço repousava de leve ao redor de meu peito, e naquela noite eu estava feliz.
És tu a nova pessoa atraída para mim?
Para começar, fica avisado, certamente sou muito diferente do que supões;
Supões que encontrarás em mim teu ideal?
Pensas ser tão fácil fazer de mim teu amante?
Pensas que minha amizade seria satisfação sem mistura?
Pensas que sou confiável e fiel?
Não vês além desta fachada, desta minha maneira serena e tolerante?
Supões avançar sobre terreno real em direção a um verdadeiro homem heroico?
Não pensas, ó sonhador, que tudo isso pode ser maya, ilusão?
Apenas raízes e folhas são estas,
Aromas trazidos a homens e mulheres dos bosques selvagens e das margens do lago,
Azedinha do peito e cravos de amor, dedos que se enroscam mais firmemente
que trepadeiras,
Jorros vindos das gargantas de aves ocultas na folhagem das árvores quando
o sol se levanta,
Brisas de terra e de amor enviadas de praias vivas até vós no mar
vivo, até vós, ó marinheiros!
Bagas amaciadas pela geada e ramos do Terceiro Mês oferecidos frescos a jovens
que vagueiam pelos campos quando o inverno se desfaz,
Botões de amor colocados diante de vós e dentro de vós, sejais quem fordes,
Botões que se abrirão nos antigos termos,
Se lhes trouxerdes o calor do sol, eles se abrirão e vos trarão
forma, cor, perfume,
Se vos tornardes alimento e umidade, eles se tornarão flores,
frutos, altos ramos e árvores.
Não é o calor que se inflama e consome,
Não são as ondas do mar que se precipitam para dentro e para fora,
Não é o ar delicioso e seco, o ar do verão maduro, que leva de leve
as brancas esferas de penugem de miríades de sementes,
Esperando, navegando graciosamente, cair onde puderem;
Não são estas coisas, ó, nenhuma delas mais que minhas chamas, consumindo,
ardendo pelo amor daquele a quem amo,
Ó, nenhuma mais que eu, precipitando-me para dentro e para fora;
A maré se apressa, buscando algo, e nunca desiste? Ó, eu também,
Ó, nem esferas de penugem, nem perfumes, nem as altas nuvens emissoras de chuva,
são levados pelo ar aberto,
Mais do que minha alma é levada pelo ar aberto,
Transportada em todas as direções, ó amor, pela amizade, por ti.
Gotejai, gotas! deixando minhas veias azuis!
Ó gotas de mim! gotejai, gotas lentas,
Francas, caindo de mim, pingai, gotas sangrentas,
De feridas abertas para libertar-vos de onde estáveis aprisionadas,
De meu rosto, de minha testa e de meus lábios,
De meu peito, de dentro de onde eu estava oculto, avançai, gotas
vermelhas, gotas de confissão,
Manchais cada página, manchai cada canção que canto, cada palavra que digo, gotas sangrentas,
Fazei-os conhecer vosso calor escarlate, fazei-os cintilar,
Saturai-os convosco, inteiramente envergonhadas e úmidas,
Ardei sobre tudo o que escrevi ou escreverei, gotas sangrentas,
Fazei que tudo seja visto em vossa luz, gotas coradas.
Cidade de orgias, passeios e alegrias,
Cidade que, por eu ter vivido e cantado em teu meio, um dia tornará
Não teus cortejos, não teus quadros mutáveis, teus
espetáculos, me recompensam,
Não as fileiras intermináveis de tuas casas, nem os navios nos cais,
Nem as procissões nas ruas, nem as janelas brilhantes com
mercadorias dentro,
Nem conversar com pessoas cultas, nem tomar minha parte no sarau
ou banquete;
Não essas coisas, mas, ao passar, ó Manhattan, teus frequentes e rápidos lampejos
de olhos oferecendo-me amor,
Oferecendo resposta aos meus, estes me recompensam,
Amantes, amantes contínuos, apenas estes me recompensam.
Contempla este rosto moreno, estes olhos cinzentos,
Esta barba, a lã branca não aparada sobre meu pescoço,
Minhas mãos pardas e meu modo silencioso, sem encanto;
Contudo, vem um manhattanês e, sempre ao partir, beija-me de leve
nos lábios com amor robusto,
E eu, ao cruzarmos a rua ou no convés do navio, dou-lhe
um beijo em retorno,
Observamos essa saudação dos companheiros americanos em terra e no mar,
Somos essas duas pessoas naturais e despreocupadas.
Vi na Louisiana um carvalho vivo crescendo,
Inteiramente só permanecia, e o musgo pendia de seus ramos,
Sem companheiro algum crescia ali, emitindo folhas alegres de verde-escuro,
E seu aspecto, rude, inflexível, vigoroso, fez-me pensar em mim mesmo,
Mas admirei-me de como podia emitir folhas alegres, estando só ali
sem seu amigo por perto, pois eu sabia que não poderia,
E quebrei um ramo com certo número de folhas e
enrolei ao redor dele um pouco de musgo,
E o trouxe comigo, e o coloquei à vista em meu quarto,
Não é necessário para me recordar meus próprios amigos queridos,
(Pois creio que ultimamente pouco penso em outra coisa senão neles,)
Contudo, permanece para mim como curioso símbolo, faz-me pensar no amor viril;
Apesar de tudo, e embora o carvalho vivo cintile ali na Louisiana,
solitário num vasto, vasto espaço plano,
Emitindo folhas alegres durante toda a vida, sem amigo, sem amante por perto,
Sei muito bem que eu não poderia.
Estranho que passas! não sabes com que anseio te contemplo,
Deves ser aquele a quem eu buscava, ou aquela a quem eu buscava, (isso me vem
como de um sonho,)
Em algum lugar certamente vivi contigo uma vida de alegria,
Tudo é recordado enquanto passamos velozes um pelo outro, fluidos, afetuosos,
castos, amadurecidos,
Cresceste comigo, foste menino comigo ou menina comigo,
Comi contigo e dormi contigo, teu corpo tornou-se não apenas teu,
nem deixou meu corpo apenas meu,
Tu me dás o prazer de teus olhos, rosto, carne, enquanto passamos, tu
tomas de minha barba, peito, mãos, em troca,
Não devo falar contigo, devo pensar em ti quando me sentar sozinho ou
despertar sozinho à noite,
Devo esperar, não duvido de que voltarei a encontrar-te,
Devo cuidar para não te perder.
Neste momento, ansioso e pensativo, sentado sozinho,
Parece-me haver outros homens em outras terras, ansiosos e pensativos,
Parece-me que posso olhar e contemplá-los na Alemanha, Itália,
França, Espanha,
Ou muito, muito longe, na China, ou na Rússia, ou falando outros dialetos,
E parece-me que, se pudesse conhecer esses homens, eu me tornaria
ligado a eles como me ligo aos homens de minhas próprias terras,
Ó, sei que seríamos irmãos e amantes,
Sei que seria feliz com eles.
Ouço que fui acusado de buscar destruir instituições,
Mas na verdade não sou nem a favor nem contra instituições,
(O que, afinal, tenho em comum com elas? ou o que tenho com a
destruição delas?)
Apenas estabelecerei em Mannahatta e em todas as cidades destes
Estados, no interior e no litoral,
E nos campos e bosques, e sobre toda quilha, pequena ou grande,
que marca a água,
Sem edifícios, regras, administradores ou qualquer argumento,
A instituição do caro amor dos companheiros.
A relva da pradaria se abrindo, exalando seu odor particular,
Exijo dela o correspondente espiritual,
Exijo o mais abundante e estreito companheirismo entre os homens,
Exijo que se ergam as lâminas das palavras, atos, seres,
Aqueles da atmosfera aberta, grosseiros, banhados de sol, frescos, nutritivos,
Aqueles que seguem seu próprio passo, eretos, caminhando com liberdade e
autoridade, conduzindo, não seguindo,
Aqueles de audácia jamais subjugada, aqueles de carne doce e vigorosa,
livre de mancha,
Aqueles que olham despreocupadamente para os rostos de presidentes e governadores,
como a dizer: Quem sois?
Aqueles de paixão nascida da terra, simples, jamais contidos, jamais obedientes,
Aqueles da América interior.
Quando leio a fama conquistada dos heróis e as vitórias de
poderosos generais, não invejo os generais,
Nem o presidente em sua Presidência, nem o rico em sua grande casa,
Mas quando ouço falar da fraternidade dos amantes, de como era entre eles,
Como juntos pela vida, pelos perigos, pelo ódio, imutáveis, por muito
e muito tempo,
Pela juventude, pela meia-idade e pela velhice, como eram firmes, como
afetuosos e fiéis,
Então fico pensativo, afasto-me depressa, cheio da mais amarga inveja.
Nós dois, rapazes, juntos e agarrados,
Um nunca deixando o outro,
Indo para cima e para baixo pelas estradas, fazendo excursões ao Norte e ao Sul,
Desfrutando o poder, estendendo os cotovelos, cerrando os dedos,
Armados e sem medo, comendo, bebendo, dormindo, amando.
Não reconhecendo lei alguma abaixo de nós mesmos, navegando, guerreando, roubando,
ameaçando,
Alarmando avarentos, criados, sacerdotes, respirando ar, bebendo água, sobre
a relva ou a praia do mar dançando,
Arrancando cidades, desprezando o conforto, zombando dos estatutos, perseguindo a fraqueza,
Cumprindo nossa incursão.
Uma promessa à Califórnia,
Ou, no interior, às grandes Planícies pastoris, e adiante ao estreito de Puget e ao Oregon;
Permanecendo no leste por mais algum tempo, logo viajo em tua direção, para ficar,
para ensinar o robusto amor americano,
Pois sei muito bem que eu e o amor robusto pertencemos ao vosso meio,
no interior e ao longo do mar Ocidental;
Pois estes Estados tendem para o interior e para o mar Ocidental, e eu também irei.
Aqui, as mais frágeis folhas de mim, e ainda assim minhas mais fortes e duradouras,
Aqui sombreio e oculto meus pensamentos, eu mesmo não os exponho,
E, contudo, elas me expõem mais que todos os meus outros poemas.
Nenhuma máquina de poupar trabalho,
Nem descoberta fiz,
Nem poderei deixar atrás de mim qualquer rico legado para fundar
hospital ou biblioteca,
Nem recordação de qualquer ato de coragem pela América,
Nem êxito literário, nem intelecto; nem livro para a estante,
Mas deixo algumas canções vibrando através do ar,
Para companheiros e amantes.
Um vislumbre captado por uma fresta,
De uma multidão de trabalhadores e cocheiros numa taberna ao redor do fogão,
tarde numa noite de inverno, e eu, despercebido, sentado num canto,
De um jovem que me ama e a quem amo, aproximando-se silenciosamente e
sentando-se perto, para que possa segurar-me pela mão,
Por longo tempo, entre os ruídos de chegadas e partidas, de bebida,
juramentos e gracejos obscenos,
Ali nós dois, contentes, felizes por estarmos juntos, falando pouco,
talvez palavra alguma.
Uma folha para andar de mãos dadas;
Vós, pessoas naturais, velhas e jovens!
Vós, no Mississippi e em todos os braços e igarapés do
Mississippi!
Vós, barqueiros e mecânicos amistosos! vós, rudes!
Vós dois! e todas as procissões que avançam pelas ruas!
Desejo infundir-me entre vós até que eu veja tornar-se comum para vós
andar de mãos dadas.
Terra, minha semelhante,
Embora pareças tão impassível, ampla e esférica ali,
Agora suspeito que isso não é tudo;
Agora suspeito que há em ti algo feroz capaz de irromper,
Pois um atleta está enamorado de mim, e eu dele,
Mas em relação a ele há em mim algo feroz e terrível, capaz
de irromper,
Não ouso dizê-lo em palavras, nem mesmo nestas canções.
Sonhei num sonho que vi uma cidade invencível aos ataques de
todo o restante da terra,
Sonhei que essa era a nova cidade dos Amigos,
Nada era maior ali que a qualidade do amor robusto, ele conduzia o restante,
Era visto a cada hora nos atos dos homens daquela cidade,
E em todos os seus olhares e palavras.
Que pensais que tomo minha pena para registrar?
O navio de guerra, de modelo perfeito, majestoso, que vi passar ao
largo hoje, com todas as velas abertas?
Os esplendores do dia passado? ou o esplendor da noite que
me envolve?
Ou a alardeada glória e o crescimento da grande cidade espalhada ao meu redor? não;
Mas apenas dois homens simples que vi hoje no cais, no meio
da multidão, despedindo-se como queridos amigos,
Aquele que ficaria pendurou-se ao pescoço do outro e beijou-o apaixonadamente,
Enquanto aquele que partiria apertava firmemente nos braços aquele que ficaria.
Ao Leste e ao Oeste,
Ao homem do Estado Litorâneo e da Pensilvânia,
Ao canadense do norte, ao sulista que amo,
Estas coisas, com perfeita confiança, para retratar-vos como a mim mesmo, os germes estão em todos os homens,
Creio que o principal propósito destes Estados é fundar uma soberba
amizade, elevada, antes desconhecida,
Porque percebo que ela espera, e sempre esteve esperando, latente em todos os homens.
Às vezes, com alguém que amo, encho-me de ira por medo de derramar
amor sem retorno,
Mas agora penso que não existe amor sem retorno, a recompensa é certa de
um modo ou de outro,
(Amei ardentemente certa pessoa, e meu amor não foi correspondido,
Contudo, a partir disso escrevi estas canções.)
Muitas coisas para absorver ensino, para ajudar-te a tornar-te meu aluno;
Contudo, se sangue como o meu não circular em tuas veias,
Se não fores silenciosamente escolhido por amantes e não escolheres silenciosamente amantes,
De que serve buscares tornar-te meu aluno?
Firmemente ancorado, eterno, ó amor! Ó mulher que amo!
Ó noiva! Ó esposa! mais irresistível do que posso dizer, o pensamento de ti!
Depois, separado, como desencarnado ou outro nascido,
Etéreo, a última realidade atlética, meu consolo,
Ascendo, flutuo nas regiões de teu amor, ó homem,
Ó companheiro de minha vida errante.
Entre os homens e mulheres da multidão,
Percebo alguém escolhendo-me por sinais secretos e divinos,
Não reconhecendo ninguém mais, nem pai, esposa, marido, irmão, filho,
como mais próximo que eu,
Alguns ficam desconcertados, mas aquele não, aquele me conhece.
Ah, amante e perfeito igual,
Pretendia que me descobrisses assim por tênues vias indiretas,
E eu, quando te encontrar, pretendo descobrir-te pelo mesmo em ti.
Ó tu a quem frequentemente e em silêncio procuro onde estás, para que eu possa estar contigo,
Enquanto caminho a teu lado ou me sento perto, ou permaneço no mesmo aposento contigo,
Mal sabes do sutil fogo elétrico que, por tua causa,
brinca dentro de mim.
Essa sombra, minha semelhante, que vai e vem buscando sustento,
tagarelando, barganhando,
Quantas vezes me vejo parado e olhando para ela onde passa veloz,
Quantas vezes questiono e duvido se aquilo sou realmente eu;
Mas entre meus amantes e cantando estas canções,
Ó, nunca duvido se aquilo sou realmente eu.
Cheio de vida agora, compacto, visível,
Eu, com quarenta anos, no octogésimo terceiro ano dos Estados,
A alguém daqui a um século ou qualquer número de séculos,
A vós, ainda não nascidos, estas coisas, buscando-vos.
Quando lerdes estas coisas, eu, que era visível, terei me tornado invisível,
Agora sois vós, compactos, visíveis, realizando meus poemas, buscando-me,
Imaginando como seríeis felizes se eu pudesse estar convosco e tornar-me vosso companheiro;
Seja como se eu estivesse convosco. (Não tenhais tanta certeza de que não estou agora convosco.)
Tradução integral direta para o português brasileiro da edição final de 1891–1892 de Folhas de Relva, organizada nos 35 livros reais da obra e preservando seus 377 cabeçalhos estruturais.
Ainda não há resenhas para esta obra. A primeira leitura comentada pode começar aqui.
Uma seleção criada para acompanhar a atmosfera, os personagens e os caminhos desta obra.
Escolha a arte, confira a disponibilidade e adicione o produto ao carrinho sem sair da experiência.
Adquira Relíquias da Obra e deixe sua marca registrada, criando valor ao item!
Capítulos disponíveis para continuar a leitura.
Nenhuma Relíquia desta obra foi adquirida ainda. Seja o primeiro a eternizar seu nome no acervo oficial!
Conhecer as 100 RelíquiasAinda não há resenhas para esta obra. A primeira leitura comentada pode começar aqui.
Nenhuma posse foi registrada publicamente para esta edição.
Durante a leitura, abra Menu para ajustar a experiência sem sair do capítulo. As preferências de aparência ficam salvas neste aparelho.
Recursos identificados como “em preparo” aparecem para antecipar a evolução do leitor, mas ainda não executam uma ação.
Posso mostrar leituras em destaque, clássicos e Relíquias disponíveis agora no Literúnico.
Escolha um caminho
Dúvidas desta página
As explicações do Aurélio são respostas cadastradas pelo Literúnico.