Universo da obra
Universo da obra
Canto de Mim Mesmo
1
Celebro a mim mesmo, e canto a mim mesmo,
E o que assumo tu também assumirás,
Pois cada átomo que me pertence igualmente pertence a ti.
Vagueio e convido minha alma,
Inclino-me e vagueio à vontade, observando uma haste de relva de verão.
Minha língua, cada átomo de meu sangue, formados deste solo, deste ar,
Nascido aqui de pais nascidos aqui, de pais igualmente nascidos aqui, e os
pais deles também,
Eu, agora com trinta e sete anos e em perfeita saúde, começo,
Esperando não cessar até a morte.
Credos e escolas suspensos,
Recolhidos por algum tempo, satisfeitos com o que são, mas nunca esquecidos,
Acolho o bem ou o mal, permito que fale a qualquer risco,
A Natureza sem freio, com energia original.
2
Casas e aposentos estão cheios de perfumes, as prateleiras abarrotadas de
perfumes,
Eu mesmo respiro a fragrância, conheço-a e gosto dela,
A destilação também me embriagaria, mas não permitirei.
A atmosfera não é um perfume, não tem o sabor da
destilação, é inodora,
É para minha boca para sempre, estou apaixonado por ela,
Irei à margem junto ao bosque e ficarei sem disfarces e nu,
Enlouqueço de desejo de senti-la em contato comigo.
A fumaça de minha própria respiração,
Ecos, ondulações, sussurros zumbidos, raiz-do-amor, fio de seda, forquilha e vinha,
Minha respiração e inspiração, o bater de meu coração, a passagem
do sangue e do ar por meus pulmões,
O aroma das folhas verdes e das folhas secas, e da praia e
das rochas marinhas escuras, e do feno no celeiro,
O som das palavras arrotadas por minha voz, soltas nos remoinhos
do vento,
Alguns beijos leves, alguns abraços, braços que se estendem ao redor,
O jogo de luz e sombra nas árvores enquanto os ramos flexíveis balançam,
O deleite a sós ou no tumulto das ruas, ou pelos campos
e encostas,
A sensação de saúde, o trinado do meio-dia pleno, o canto de mim
levantando-me da cama e indo ao encontro do sol.
Julgaste muito mil acres? julgaste muito a terra?
Praticaste por tanto tempo para aprender a ler?
Sentiste tanto orgulho por alcançar o sentido dos poemas?
Detém-te este dia e esta noite comigo e possuirás a origem de
todos os poemas,
Possuirás o bem da terra e do sol, (restam milhões
de sóis,)
Já não receberás as coisas de segunda ou terceira mão, nem olharás através
dos olhos dos mortos, nem te alimentarás dos espectros dos livros,
Tampouco olharás através de meus olhos, nem receberás as coisas de mim,
Escutarás todos os lados e os filtrarás por ti mesmo.
3
Ouvi o que diziam os faladores, a conversa sobre
o princípio e o fim,
Mas não falo do princípio nem do fim.
Nunca houve mais começo do que há agora,
Nem mais juventude ou velhice do que há agora,
E nunca haverá mais perfeição do que há agora,
Nem mais céu ou inferno do que há agora.
Impulso e impulso e impulso,
Sempre o impulso procriador do mundo.
Da penumbra avançam iguais opostos, sempre substância e
crescimento, sempre sexo,
Sempre um entrelaçamento de identidade, sempre distinção, sempre uma linhagem de vida.
Elaborar de nada serve, doutos e indoutos sentem que assim é.
Seguro como o mais seguro, aprumado nos montantes, bem
amarrado, escorado nas vigas,
Robusto como um cavalo, afetuoso, altivo, elétrico,
Eu e este mistério aqui estamos.
Clara e doce é minha alma, e claro e doce é tudo o que não é minha alma.
Faltando um faltam ambos, e o invisível é provado pelo visível,
Até que este se torne invisível e receba por sua vez a prova.
Mostrar o melhor e separá-lo do pior, era após era, aflige as eras,
Conhecendo a perfeita adequação e equanimidade das coisas, enquanto eles
discutem, permaneço calado, vou banhar-me e admirar a mim mesmo.
Bem-vindos são todos os meus órgãos e atributos, e os de qualquer homem vigoroso e limpo,
Nem uma polegada nem partícula de polegada é vil, e nenhuma será
menos familiar que as demais.
Estou satisfeito, vejo, danço, rio, canto;
Enquanto o companheiro de cama, que abraça e ama, dorme ao meu lado durante a noite,
e se retira ao despontar do dia com passo furtivo,
Deixando-me cestos cobertos de toalhas brancas, enchendo a casa
com sua abundância,
Deverei adiar minha aceitação e realização e gritar aos meus olhos,
Para que deixem de contemplar ao longe e estrada abaixo,
E imediatamente calculem e me mostrem até o último centavo,
Exatamente o valor de um e exatamente o valor de dois, e qual está à frente?
4
Visitantes e perguntadores me cercam,
Pessoas que encontro, o efeito sobre mim de minha vida inicial ou do bairro e
da cidade onde vivo, ou da nação,
As últimas datas, descobertas, invenções, sociedades, autores antigos e novos,
Meu jantar, roupas, companheiros, aparência, elogios, obrigações,
A indiferença real ou imaginada de algum homem ou mulher que amo,
A doença de alguém dos meus ou de mim mesmo, ou o delito ou a perda
ou a falta de dinheiro, ou depressões ou exaltações,
Batalhas, os horrores da guerra fratricida, a febre das notícias duvidosas,
os acontecimentos instáveis;
Essas coisas vêm a mim dias e noites e tornam a partir,
Mas não são o Eu em si.
À parte dos puxões e arrastos está o que sou,
Está divertido, sereno, compassivo, ocioso, uno,
Olha de cima, mantém-se ereto, ou apoia um braço num apoio certo e impalpável,
Observando, com a cabeça inclinada de lado, curioso pelo que virá depois,
Dentro e fora do jogo, observando-o e maravilhando-se com ele.
Olhando para trás, vejo em meus próprios dias onde suei através da névoa com
linguistas e contendores,
Não tenho zombarias nem argumentos, testemunho e espero.
5
Creio em ti, minha alma, o outro que sou não deve rebaixar-se diante de ti,
E tu não deves rebaixar-te diante do outro.
Vagueia comigo sobre a relva, solta a trava de tua garganta,
Não quero palavras, nem música ou rima, nem costume ou preleção, nem
sequer o melhor,
Só me agrada o embalo, o murmúrio de tua voz modulada.
Recordo como certa vez nos deitamos numa manhã de verão tão transparente,
Como pousaste a cabeça atravessada sobre meus quadris e suavemente te voltaste sobre mim,
E afastaste a camisa do osso de meu peito, e mergulhaste a língua
até meu coração nu e despojado,
E te estendeste até sentir minha barba, e te estendeste até segurar meus pés.
Rapidamente ergueram-se e espalharam-se ao meu redor a paz e o conhecimento que superam
todos os argumentos da terra,
E sei que a mão de Deus é a promessa da minha própria,
E sei que o espírito de Deus é irmão do meu próprio,
E que todos os homens já nascidos são também meus irmãos, e as mulheres
minhas irmãs e amantes,
E que a quilha da criação é o amor,
E ilimitadas são as folhas rígidas ou pendentes nos campos,
E as formigas pardas nos pequenos poços sob elas,
E as crostas musgosas da cerca de troncos, as pedras amontoadas, o sabugueiro, o verbasco e
a tintureira.
6
Uma criança perguntou O que é a relva? trazendo-a para mim com as mãos cheias;
Como poderia responder à criança? não sei o que ela é mais do que ela.
Suponho que deva ser a bandeira de minha disposição, tecida de
substância verde e esperançosa.
Ou suponho que seja o lenço do Senhor,
Um presente perfumado e uma lembrança deixados de propósito,
Levando de algum modo nos cantos o nome do dono, para que possamos ver
e notar, e dizer De quem?
Ou suponho que a relva seja ela mesma uma criança, o bebê gerado da vegetação.
Ou suponho que seja um hieróglifo uniforme,
E queira dizer, Brotando por igual em zonas largas e zonas estreitas,
Crescendo entre negros como entre brancos,
Canadense, Tuckahoe, Congressista, Cuff, a todos dou o mesmo, a todos
recebo do mesmo modo.
E agora ela me parece o belo cabelo não cortado das sepulturas.
Com ternura te usarei, relva ondulante,
Talvez transpires dos peitos dos jovens,
Talvez, se eu os tivesse conhecido, os teria amado,
Talvez venhas dos velhos, ou de crianças cedo arrancadas
do colo das mães,
E aqui estás, sendo o colo das mães.
Esta relva é escura demais para vir das cabeças brancas das velhas mães,
Mais escura que as barbas incolores dos velhos,
Escura demais para vir de sob os pálidos tetos vermelhos das bocas.
Ah, afinal percebo tantas línguas que se exprimem,
E percebo que não vêm em vão dos tetos das bocas.
Quisera eu poder traduzir os indícios sobre os jovens mortos, homens e mulheres,
E os indícios sobre velhos e mães, e sobre os filhos cedo
arrancados de seus colos.
Que pensas ter sido feito dos homens jovens e velhos?
E que pensas ter sido feito das mulheres e crianças?
Estão vivos e bem em algum lugar,
O menor broto mostra que realmente não há morte,
E, se alguma vez houve, ela conduziu a vida adiante, e não espera no
fim para detê-la,
E cessou no instante em que a vida apareceu.
Tudo segue adiante e para fora, nada desaba,
E morrer é diferente do que qualquer um supôs, e mais afortunado.
7
Alguém supôs que seja uma sorte nascer?
Apresso-me em informar-lhe que é sorte igual morrer, e eu o sei.
Passo pela morte com os moribundos e pelo nascimento com o bebê recém-lavado, e
não estou contido entre meu chapéu e minhas botas,
E examino objetos múltiplos, nenhum igual a outro e todos bons,
A terra boa e as estrelas boas, e bons todos os seus complementos.
Não sou uma terra nem complemento de uma terra,
Sou parceiro e companheiro das pessoas, todas tão imortais e
insondáveis quanto eu mesmo,
(Elas não sabem quão imortais, mas eu sei.)
Cada espécie para si e para o que é seu, para mim os meus, masculino e feminino,
Para mim os que foram meninos e amam mulheres,
Para mim o homem que é orgulhoso e sente como fere ser menosprezado,
Para mim a enamorada e a solteirona, para mim as mães e as
mães das mães,
Para mim os lábios que sorriram, os olhos que derramaram lágrimas,
Para mim as crianças e os geradores de crianças.
Despe-te! não és culpado diante de mim, nem passado nem rejeitado,
Vejo através do tecido fino e do algodão, haja ou não,
E permaneço ao redor, tenaz, ávido, incansável, e não posso ser afastado.
8
O pequenino dorme no berço,
Ergo o véu e olho por muito tempo, e em silêncio afasto as moscas
com a mão.
O rapaz e a moça de rosto corado desviam-se pela colina coberta de arbustos,
Eu os observo atentamente do alto.
O suicida jaz estendido no chão ensanguentado do quarto,
Testemunho o cadáver com o cabelo manchado, noto onde caiu a pistola.
O rumor do calçamento, rodas de carroças, arrastar de solas, conversa dos
passeadores,
O pesado ônibus, o cocheiro com o polegar interrogativo, o
tinir dos cavalos ferrados sobre o piso de granito,
Os trenós na neve, tilintando, piadas gritadas, golpes de bolas de neve,
Os vivas aos favoritos populares, a fúria das multidões despertadas,
O agitar da liteira cortinada, um doente dentro sendo levado ao hospital,
O encontro de inimigos, a súbita blasfêmia, os golpes e a queda,
A multidão excitada, o policial com sua estrela abrindo rapidamente
caminho até o centro da multidão,
As pedras impassíveis que recebem e devolvem tantos ecos,
Quantos gemidos de superalimentados ou meio famintos que tombam fulminados pelo sol ou em convulsões,
Quantas exclamações de mulheres surpreendidas de súbito, que correm para casa e
dão à luz crianças,
Quanta fala viva e sepultada vibra sempre aqui, quantos uivos
contidos pelo decoro,
Prisões de criminosos, desfeitas, propostas adúlteras feitas, aceitações,
recusas com lábios arredondados,
Eu os noto, ou a aparência ou a ressonância deles, venho e parto.
9
As grandes portas do celeiro do campo estão abertas e prontas,
A relva seca da colheita carrega a carroça lentamente puxada,
A luz clara brinca sobre o castanho, o cinza e o verde entremeados,
As braçadas são empilhadas no palheiro que cede.
Estou ali, ajudo, vim estendido sobre o alto da carga,
Senti seus suaves solavancos, uma perna repousando sobre a outra,
Salto das travessas e agarro o trevo e o capim-timóteo,
E rolo de cambalhota e enredo o cabelo cheio de fiapos.
10
Sozinho, longe, nas regiões selvagens e montanhas, eu caço,
Vagando admirado com minha própria leveza e alegria,
No fim da tarde escolhendo um lugar seguro para passar a noite,
Acendendo uma fogueira e assando a caça recém-abatida,
Adormecendo sobre as folhas recolhidas, com meu cão e minha arma ao lado.
O cúter ianque navega sob as velas altas, corta o brilho e a espuma,
Meus olhos fixam a terra, inclino-me em sua proa ou grito alegremente do convés.
Os barqueiros e catadores de mariscos levantaram-se cedo e pararam por mim,
Enfiei as barras das calças nas botas e fui divertir-me;
Deverias ter estado conosco naquele dia ao redor do caldeirão de sopa.
Vi o casamento do caçador ao ar livre no extremo oeste,
a noiva era uma moça indígena,
O pai dela e seus amigos sentavam-se perto, de pernas cruzadas, fumando em silêncio,
tinham mocassins nos pés e grandes cobertores grossos
pendendo dos ombros,
Numa ribanceira descansava o caçador, vestido em grande parte com peles, sua exuberante
barba e os cachos protegiam-lhe o pescoço, segurava a noiva pela mão,
Ela tinha longos cílios, a cabeça descoberta, suas mechas ásperas e lisas
desciam sobre os membros voluptuosos e chegavam aos pés.
O escravo fugitivo veio à minha casa e parou do lado de fora,
Ouvi seus movimentos estalando os gravetos da pilha de lenha,
Pela meia-porta oscilante da cozinha vi-o flácido e fraco,
E fui até onde se sentara sobre um tronco, conduzi-o para dentro e o tranquilizei,
E trouxe água e enchi uma tina para seu corpo suado e seus pés feridos,
E dei-lhe um quarto com entrada pelo meu, e dei-lhe algumas
roupas grosseiras e limpas,
E lembro perfeitamente seus olhos que giravam e seu embaraço,
E lembro de pôr emplastros nas escoriações do pescoço e dos tornozelos;
Ficou comigo uma semana antes de se recuperar e seguir para o norte,
Fiz que se sentasse ao meu lado à mesa, meu mosquete encostado no canto.
11
Vinte e oito jovens banham-se junto à praia,
Vinte e oito jovens, todos tão amigáveis;
Vinte e oito anos de vida feminina, todos tão solitários.
Ela é dona da bela casa junto à elevação da margem,
Esconde-se bela e ricamente vestida atrás das persianas da janela.
De qual dos jovens ela gosta mais?
Ah, o mais feio deles é belo para ela.
Aonde vais, senhora? pois eu te vejo,
Chapinhas na água ali, contudo permaneces imóvel em teu quarto.
Dançando e rindo ao longo da praia veio a vigésima nona banhista,
Os outros não a viram, mas ela os viu e os amou.
As barbas dos jovens brilhavam molhadas, a água corria de seus longos cabelos,
Pequenos regatos passavam por todos os seus corpos.
Uma mão invisível também passava sobre seus corpos,
Descia trêmula de suas têmporas e costelas.
Os jovens flutuam de costas, seus ventres brancos avolumam-se ao
sol, não perguntam quem se agarra firmemente a eles,
Não sabem quem arqueja e declina com arco pendente e curvado,
Não pensam em quem molham com seus borrifos.
12
O rapaz do açougue tira as roupas do abate, ou afia a faca
no balcão do mercado,
Demoro-me desfrutando suas tiradas e seus passos arrastados e dança saltitante.
Ferreiros de peitos peludos e enegrecidos cercam a bigorna,
Cada um tem seu grande malho, estão todos de fora, há grande calor
no fogo.
Da soleira coberta de cinzas acompanho seus movimentos,
O corte ágil de suas cinturas acompanha seus braços maciços,
Por cima da cabeça os martelos balançam, por cima tão devagar, por cima tão certos,
Não se apressam, cada homem golpeia em seu lugar.
13
O negro segura firmemente as rédeas de seus quatro cavalos, o bloco oscila
embaixo, preso pela corrente,
O negro que conduz a longa carroça do pátio de pedras, firme e
alto, permanece equilibrado sobre uma perna na longarina,
Sua camisa azul expõe o amplo pescoço e peito e afrouxa-se sobre
o cinto,
Seu olhar é calmo e imperioso, ele afasta da testa a aba caída
do chapéu,
O sol incide sobre seu cabelo crespo e bigode, incide sobre o negro
de seus membros polidos e perfeitos.
Contemplo o gigante pitoresco e o amo, e não paro aí,
Sigo também com a parelha.
Em mim, aquele que acaricia a vida onde quer que ela se mova, girando para trás tanto quanto
para a frente,
Para nichos ao lado e curvando-se aos mais jovens, sem deixar faltar pessoa ou objeto,
Absorvendo tudo em mim e para este canto.
Bois que fazeis retinir o jugo e a corrente ou parais na sombra frondosa, o que
exprimis em vossos olhos?
Parece-me mais que toda a escrita que li em minha vida.
Meu passo assusta o pato-selvagem e a pata-selvagem em minha distante e
longa caminhada do dia,
Erguem-se juntos, circulam lentamente ao redor.
Creio nesses propósitos alados,
E reconheço o vermelho, o amarelo, o branco, brincando dentro de mim,
E considero intencionais o verde, o violeta e a coroa emplumada,
E não chamo a tartaruga indigna por não ser outra coisa,
E o gaio no bosque nunca estudou a escala, contudo trinou muito bem para mim,
E o olhar da égua baia expulsa de mim a tolice de vergonha.
14
O ganso selvagem conduz seu bando pela noite fresca,
Ya-honk ele diz, e o som desce até mim como um convite,
O petulante pode supô-lo sem sentido, mas eu, escutando de perto,
Encontro seu propósito e seu lugar lá em cima, rumo ao céu de inverno.
O alce do norte de cascos afiados, o gato no peitoril da casa, o
chapim, o cão-da-pradaria,
A ninhada da porca grunhidora enquanto puxam-lhe as tetas,
A ninhada da perua e ela com as asas meio abertas,
Vejo neles e em mim a mesma lei antiga.
A pressão de meu pé contra a terra faz brotar uma centena de afeições,
Elas desprezam o melhor que posso fazer para relatá-las.
Estou enamorado de crescer ao ar livre,
Dos homens que vivem entre o gado ou têm o sabor do oceano ou dos bosques,
Dos construtores e condutores de navios e dos que manejam machados e
malhos, e dos condutores de cavalos,
Posso comer e dormir com eles semana após semana.
O mais comum, mais barato, mais próximo, mais fácil, sou Eu,
Eu arriscando minhas oportunidades, gastando em troca de vastos retornos,
Enfeitando-me para oferecer-me ao primeiro que me aceitar,
Sem pedir ao céu que desça até minha boa vontade,
Espalhando-a livremente para sempre.
15
A contralto pura canta no coro do órgão,
O carpinteiro aplaina sua tábua, a lâmina de sua plaina comprida
assobia seu selvagem ceceio ascendente,
Os filhos casados e solteiros voltam para casa para o jantar de Ação de Graças,
O piloto agarra o pino-mestre, força-o para baixo com braço vigoroso,
O imediato permanece firme no bote baleeiro, lança e arpão estão prontos,
O caçador de patos caminha por trechos silenciosos e cautelosos,
Os diáconos são ordenados com as mãos cruzadas diante do altar,
A fiandeira recua e avança ao zumbido da grande roda,
O fazendeiro para junto às cercas enquanto caminha num passeio ocioso do Primeiro Dia e
observa a aveia e o centeio,
O lunático é por fim levado ao asilo, caso confirmado,
(Nunca mais dormirá como dormia na pequena cama no quarto
de sua mãe;)
O impressor jornaleiro de cabeça grisalha e maxilares descarnados trabalha junto à caixa,
Vira o naco de tabaco enquanto seus olhos se turvam sobre o manuscrito;
Os membros deformados são amarrados à mesa do cirurgião,
O que é removido cai horrivelmente num balde;
A moça mestiça é vendida no palanque do leilão, o bêbado cochila junto
ao fogão da taberna,
O mecânico arregaça as mangas, o policial percorre sua ronda,
o porteiro anota quem passa,
O rapaz conduz a carroça de entregas, (eu o amo, embora não o
conheça;)
O mestiço prende as botas leves para disputar a corrida,
A competição de tiro ao peru no oeste atrai velhos e jovens, alguns se apoiam nos
rifles, outros se sentam em troncos,
Da multidão sai o atirador, toma posição, aponta a arma;
Os grupos de imigrantes recém-chegados cobrem o cais ou o dique,
Enquanto os de cabeças lanosas capinam o canavial, o capataz os observa
de sua sela,
A corneta chama no salão de baile, os cavalheiros correm em busca de suas
parceiras, os dançarinos curvam-se uns diante dos outros,
O jovem permanece acordado no sótão coberto de cedro e escuta a
chuva musical,
O homem de Michigan arma suas ratoeiras no riacho que ajuda a encher o Huron,
A mulher indígena envolta em seu pano de bainha amarela oferece mocassins e
bolsas de contas à venda,
O conhecedor perscruta a galeria de exposição com os olhos semicerrados
e inclinados de lado,
Enquanto os marinheiros de convés amarram o vapor, a prancha é lançada para
os passageiros que desembarcam,
A irmã mais nova segura a meada enquanto a mais velha a enrola
num novelo, e para de vez em quando por causa dos nós,
A esposa de um ano recupera-se e está feliz por ter dado à luz
seu primeiro filho há uma semana,
A moça ianque de cabelos limpos trabalha com sua máquina de costura ou na
fábrica ou no moinho,
O calceteiro apoia-se no pilão de duas mãos, o lápis do repórter
voa rapidamente sobre o caderno, o pintor de letreiros desenha letras
em azul e dourado,
O rapaz do canal trota pelo caminho de reboque, o guarda-livros conta em sua
escrivaninha, o sapateiro encera o fio,
O maestro marca o compasso para a banda e todos os músicos o seguem,
A criança é batizada, o convertido faz suas primeiras profissões,
A regata se abre sobre a baía, a corrida começou, (como brilham as velas
brancas!)
O boiadeiro, vigiando a boiada, grita para os que querem se afastar,
O mascate sua com a carga nas costas, (o comprador regateando
o centavo quebrado;)
A noiva desfaz os vincos do vestido branco, o ponteiro dos minutos do relógio
move-se lentamente,
O comedor de ópio reclina-se com a cabeça rígida e os lábios apenas abertos,
A prostituta arrasta o xale, o chapéu balança sobre o pescoço cambaleante e
coberto de espinhas,
A multidão ri de suas blasfêmias grosseiras, os homens zombam e piscam
uns para os outros,
(Miserável! não rio de tuas blasfêmias nem zombo de ti;)
O Presidente, presidindo uma reunião de gabinete, está cercado pelos grandes
Secretários,
Na varanda caminham três matronas majestosas e amistosas, de braços entrelaçados,
A tripulação do barco pesqueiro empilha camadas sucessivas de alabote no porão,
O homem do Missouri atravessa as planícies carregando suas mercadorias e seu gado,
Enquanto o cobrador de passagens percorre o trem, anuncia-se pelo
tilintar das moedas soltas,
Os assoalhadores assentam o piso, os funileiros revestem de estanho o
telhado, os pedreiros pedem argamassa,
Em fila única, cada qual levando o caixote de pedreiro ao ombro, seguem os trabalhadores;
Estações perseguindo umas às outras, reúne-se a multidão indescritível, é
o quarto dia do Sétimo Mês, (quantas salvas de canhões e armas leves!)
Estações perseguindo umas às outras, o lavrador ara, o ceifador ceifa,
e o cereal de inverno cai na terra;
Longe, nos lagos, o pescador de lúcio observa e espera junto ao buraco na
superfície congelada,
Os tocos erguem-se densos ao redor da clareira, o posseiro golpeia fundo
com o machado,
Barqueiros de chatas amarram as embarcações ao anoitecer junto aos choupos ou nogueiras-pecã,
Caçadores de guaxinins percorrem as regiões do Rio Vermelho ou as
drenadas pelo Tennessee, ou as do Arkansas,
Tochas brilham na escuridão que paira sobre o Chattahoochee ou o Altamaha,
Patriarcas sentam-se à ceia com filhos, netos e bisnetos
ao redor,
Entre paredes de adobe, em tendas de lona, descansam caçadores e armadilheiros após
a jornada de caça,
A cidade dorme e o campo dorme,
Os vivos dormem por seu tempo, os mortos dormem por seu tempo,
O velho marido dorme junto à esposa e o jovem marido dorme junto à esposa;
E todos convergem para dentro de mim, e eu me expando para fora em direção a eles,
E, conforme é ser mais ou menos cada um destes, eu sou,
E de cada um e de todos estes teço o canto de mim mesmo.
16
Sou dos velhos e dos jovens, dos tolos tanto quanto dos sábios,
Alheio aos outros, sempre atento aos outros,
Materno tanto quanto paterno, criança tanto quanto homem,
Repleto da matéria grosseira e repleto da matéria
refinada,
Um da Nação de muitas nações, o menor igual e o
maior igual,
Sulista tão logo quanto nortista, plantador despreocupado e
hospitaleiro, vivo junto ao Oconee,
Ianque seguindo meu próprio rumo, pronto para o comércio, minhas juntas as mais flexíveis
juntas da terra e as mais firmes juntas da terra,
Homem do Kentucky caminhando pelo vale do Elkhorn com minhas perneiras
de pele de veado, homem da Louisiana ou da Geórgia,
Barqueiro pelos lagos ou baías ou ao longo das costas, homem de Indiana, Wisconsin, Ohio;
Em casa com raquetes de neve canadenses ou mata adentro, ou com pescadores
ao largo da Terra Nova,
Em casa na frota de barcos de gelo, navegando com os demais e mudando de bordo,
Em casa nas colinas de Vermont ou nos bosques do Maine, ou no
rancho texano,
Camarada dos californianos, camarada dos livres homens do Noroeste, (amando
suas grandes proporções,)
Camarada de jangadeiros e carvoeiros, camarada de todos os que apertam mãos
e acolhem para beber e comer,
Aprendiz com os mais simples, mestre dos mais pensativos,
Novato que começa, contudo experiente em miríades de estações,
De toda cor e casta sou, de toda classe e religião,
Fazendeiro, mecânico, artista, cavalheiro, marinheiro, quacre,
Prisioneiro, janota, arruaceiro, advogado, médico, sacerdote.
Resisto a qualquer coisa melhor que à minha própria diversidade,
Respiro o ar, mas deixo muito depois de mim,
E não sou arrogante, e estou em meu lugar.
(A mariposa e as ovas dos peixes estão em seu lugar,
Os sóis brilhantes que vejo e os sóis escuros que não posso ver estão em seu lugar,
O palpável está em seu lugar e o impalpável está em seu lugar.)
17
Estes são realmente os pensamentos de todos os homens em todas as eras e terras, não
são originais em mim,
Se não são teus tanto quanto meus, nada são, ou quase nada,
Se não são o enigma e o desfazer do enigma, nada são,
Se não são tão próximos quanto distantes, nada são.
Esta é a relva que cresce onde quer que haja terra e haja água,
Este é o ar comum que banha o globo.
18
Com música vigorosa venho, com minhas cornetas e meus tambores,
Não toco marchas apenas para vencedores reconhecidos, toco marchas para
vencidos e mortos.
Ouviste dizer que era bom vencer o dia?
Eu também digo que é bom cair, as batalhas são perdidas no mesmo espírito
em que são ganhas.
Percuto e retumbo pelos mortos,
Sopros pelas embocaduras o mais alto e alegre que posso por eles.
Vivas aos que fracassaram!
E aos que tiveram seus navios de guerra afundados no mar!
E aos que eles próprios afundaram no mar!
E a todos os generais que perderam combates, e a todos os heróis vencidos!
E aos incontáveis heróis desconhecidos, iguais aos maiores heróis conhecidos!
19
Esta é a refeição posta igualmente, esta a carne para a fome natural,
É para os perversos tal como para os justos, marco encontros
com todos,
Não permitirei que uma única pessoa seja menosprezada ou deixada de lado,
A amante sustentada, o parasita, o ladrão, estão por isto convidados,
O escravo de lábios grossos é convidado, o sifilítico é convidado;
Não haverá diferença entre eles e os demais.
Este é o aperto de uma mão tímida, este o flutuar e o odor dos cabelos,
Este o toque de meus lábios nos teus, este o murmúrio do anseio,
Esta a profundidade e a altura distantes refletindo meu próprio rosto,
Esta a fusão pensativa de mim mesmo, e novamente a saída.
Supões que tenho algum propósito intrincado?
Pois tenho, como têm as chuvas do Quarto Mês, e a mica na
face de uma rocha.
Julgas que eu desejaria causar espanto?
A luz do dia causa espanto? causa-o o rabirruivo que cedo gorjeia
pelos bosques?
Causo eu mais espanto que eles?
Nesta hora conto coisas em confiança,
Talvez não as contasse a todos, mas as contarei a ti.
20
Quem vem lá? desejoso, grosseiro, místico, nu;
Como é que extraio força da carne bovina que como?
Afinal, o que é um homem? o que sou eu? o que és tu?
Tudo o que assinalo como meu, tu o compensarás com o teu,
De outro modo seria tempo perdido escutar-me.
Não choramingo esse choramingo que percorre o mundo,
Que os meses são vazios e o chão apenas lamaçal e imundície.
Gemidos e servilismo dobram-se com pós para inválidos, o conformismo
vai para o quarto grau de parentesco,
Uso meu chapéu como me agrada, dentro ou fora de casa.
Por que deveria rezar? por que deveria venerar e fazer cerimônias?
Depois de perscrutar os estratos, analisar até o último fio, consultar
médicos e calcular com rigor,
Não encontro gordura mais doce que a aderida a meus próprios ossos.
Em todas as pessoas vejo a mim mesmo, nenhuma mais e nenhuma um grão de cevada menos,
E o bem ou o mal que digo de mim digo delas.
Sei que sou sólido e são,
Para mim fluem perpetuamente os objetos convergentes do universo,
Todos estão escritos para mim, e devo captar o que significa a escrita.
Sei que sou imortal,
Sei que esta minha órbita não pode ser traçada pelo compasso de um carpinteiro,
Sei que não passarei como o rabisco de uma criança traçado com um graveto
queimado à noite.
Sei que sou augusto,
Não perturbo meu espírito para que se justifique ou seja compreendido,
Vejo que as leis elementares jamais se desculpam,
(Afinal, suponho que não me comporto com mais orgulho que o nível pelo qual alinho minha casa.)
Existo como sou, isso basta,
Se ninguém mais no mundo estiver ciente, sento-me satisfeito,
E se todos e cada um estiverem cientes, sento-me satisfeito.
Um mundo está ciente, e de longe o maior para mim, e esse sou eu mesmo,
E quer eu alcance o que é meu hoje, ou em dez mil ou dez
milhões de anos,
Posso alegremente tomá-lo agora, ou com igual alegria posso esperar.
Meu apoio está unido por espigas e encaixes ao granito,
Rio do que chamas dissolução,
E conheço a amplitude do tempo.
21
Sou o poeta do Corpo e sou o poeta da Alma,
Os prazeres do céu estão comigo e as dores do inferno estão comigo,
Os primeiros enxerto e aumento em mim, as últimas traduzo
para nova língua.
Sou o poeta da mulher tal como do homem,
E digo que ser mulher é tão grandioso quanto ser homem,
E digo que nada é maior que a mãe dos homens.
Entoo o canto da expansão ou do orgulho,
Já tivemos bastante de nos encolhermos e nos depreciarmos,
Mostro que tamanho é apenas desenvolvimento.
Ultrapassaste os demais? és o Presidente?
É uma ninharia, todos chegarão mais que plenamente até lá, e
ainda seguirão adiante.
Sou aquele que caminha com a noite terna e crescente,
Clamo à terra e ao mar meio tomados pela noite.
Aperta-te contra mim, noite de seios nus, aperta-te contra mim, noite magnética e nutridora!
Noite de ventos do sul, noite de poucas estrelas grandes!
Noite imóvel e sonolenta, louca noite nua de verão.
Sorri, ó terra voluptuosa de hálito fresco!
Terra das árvores adormecidas e líquidas!
Terra do poente que partiu, terra das montanhas de cumes enevoados!
Terra do derramar vítreo da lua cheia apenas tingida de azul!
Terra de luz e treva mosqueando a corrente do rio!
Terra do cinza límpido das nuvens mais brilhantes e claras por minha causa!
Terra de cotovelos que se precipitam ao longe, rica terra florida de macieiras!
Sorri, pois teu amante vem.
Pródiga, deste-me amor, por isso te dou amor!
Ó amor apaixonado, indizível.
Tu que te lanças e me seguras firme, e a quem seguro firme!
Ferimo-nos um ao outro como o noivo e a noiva se ferem.
22
Tu, mar! também me entrego a ti, suponho compreender o que queres dizer,
Contemplo da praia teus dedos curvos,
Creio que te recusas a voltar sem me sentir,
Devemos dar uma volta juntos, dispo-me, leva-me depressa para longe da vista da terra,
Acolchoa-me suavemente, embala-me em sonolência ondulante,
Golpeia-me com tua umidade amorosa, posso retribuir-te.
Mar de longas ondulações,
Mar que respira largas e convulsivas respirações,
Mar da salmoura da vida e de sepulturas ainda não cavadas, mas sempre prontas,
Uivador e escavador de tempestades, mar caprichoso e delicado,
Sou parte integral de ti, eu também sou de uma fase e de todas as fases.
Participante do fluxo e do refluxo, exaltador do ódio e da reconciliação,
Exaltador dos amigos e dos que dormem nos braços uns dos outros.
Sou aquele que atesta a simpatia,
(Deverei fazer minha lista das coisas da casa e omitir a casa que
as sustenta?)
Não sou apenas o poeta da bondade, não me recuso a ser também o poeta
da perversidade.
Que súbita tagarelice é esta sobre virtude e vício?
O mal me impulsiona e a reforma do mal me impulsiona, permaneço indiferente,
Meu andar não é o andar de um censor nem de um rejeitador,
Umedeço as raízes de tudo o que cresceu.
Temeste alguma escrófula da gravidez incansável?
Supuseste que as leis celestes ainda precisam ser refeitas e corrigidas?
Encontro equilíbrio de um lado e equilíbrio do lado antípoda,
Doutrina branda como auxílio tão firme quanto doutrina estável,
Pensamentos e atos do presente, nosso despertar e partida precoce.
Este minuto que me chega através dos decilhões passados,
Nada há melhor que ele e que agora.
O que se comportou bem no passado ou se comporta bem hoje não é tamanho assombro,
O assombro é sempre e sempre como pode haver um homem mesquinho ou um infiel.
23
Infinito desdobrar das palavras das eras!
E minha é uma palavra do moderno, a palavra Em-Massa.
Uma palavra da fé que nunca recua,
Aqui ou daqui em diante é tudo o mesmo para mim, aceito o Tempo absolutamente.
Só ele é sem falha, só ele arredonda e completa tudo,
Só esse assombro místico e desconcertante completa tudo.
Aceito a Realidade e não ouso questioná-la,
Materialismo primeiro e último impregnando tudo.
Viva a ciência positiva! viva a demonstração exata!
Trazei sempre-viva misturada com cedro e ramos de lilás,
Este é o lexicógrafo, este o químico, este fez uma gramática dos
antigos cartuchos,
Estes marinheiros conduziram o navio por mares perigosos e desconhecidos.
Este é o geólogo, este trabalha com o escalpelo, e este é
matemático.
Senhores, a vós sempre as primeiras honras!
Vossos fatos são úteis, contudo não são minha morada,
Apenas entro por eles numa área de minha morada.
Menos lembranças de propriedades narram minhas palavras,
E mais lembranças do que elas deixam de narrar da vida, e da liberdade e da libertação,
E fazem pouco caso de neutros e castrados, e favorecem homens e
mulheres plenamente equipados,
E fazem soar o gongo da revolta, e permanecem com fugitivos e com os que
tramam e conspiram.
24
Walt Whitman, um cosmos, filho de Manhattan,
Turbulento, carnal, sensual, comendo, bebendo e procriando,
Não sentimental, não acima dos homens e mulheres nem à parte deles,
Nem mais modesto que imodesto.
Desparafusai as fechaduras das portas!
Desparafusai as próprias portas de seus batentes!
Quem quer que degrade outro me degrada,
E tudo o que é feito ou dito por fim retorna a mim.
Por mim o sopro inspirado avança em ondas e mais ondas, por mim a corrente
e o índice.
Pronuncio a senha primordial, dou o sinal da democracia,
Por Deus! não aceitarei nada de que todos não possam ter
equivalente nas mesmas condições.
Por mim muitas vozes há muito mudas,
Vozes das intermináveis gerações de prisioneiros e escravos,
Vozes dos enfermos e desesperados e dos ladrões e anões,
Vozes de ciclos de preparação e acréscimo,
E dos fios que conectam as estrelas, e dos ventres e da
matéria paterna,
E dos direitos daqueles que os demais oprimem,
Dos deformados, insignificantes, apagados, tolos, desprezados,
Névoa no ar, besouros rolando bolas de esterco.
Por mim vozes proibidas,
Vozes de sexos e desejos, vozes veladas, e retiro o véu,
Vozes indecentes, por mim clarificadas e transfiguradas.
Não comprimo os dedos sobre a boca,
Trato com a mesma delicadeza as entranhas, a cabeça e o coração,
A cópula não é mais indecorosa para mim que a morte.
Creio na carne e nos apetites,
Ver, ouvir, sentir são milagres, e cada parte e apêndice de mim
é um milagre.
Divino sou por dentro e por fora, e santifico tudo quanto toco ou por que sou
tocado,
O cheiro destas axilas, aroma mais fino que a oração,
Esta cabeça, mais que igrejas, bíblias e todos os credos.
Se eu adorar uma coisa mais que outra, será a extensão de
meu próprio corpo, ou qualquer parte dele,
Molde translúcido de mim, serás tu!
Saliências sombreadas e repousos, sereis vós!
Firme relha masculina, serás tu!
Tudo quanto entra no cultivo de mim, serás tu!
Tu, meu sangue rico! tua corrente leitosa, pálidas extrações de minha vida!
Peito que se comprime contra outros peitos, serás tu!
Meu cérebro, sereis vós, suas circunvoluções ocultas!
Raiz de cálamo lavada! tímida narceja-do-lago! ninho de ovos gêmeos
protegidos! sereis vós!
Feno revolto e misturado de cabeça, barba, músculos, sereis vós!
Seiva gotejante do bordo, fibra de trigo viril, sereis vós!
Sol tão generoso, serás tu!
Vapores que iluminam e sombreiam meu rosto, sereis vós!
Vós, riachos e orvalhos suados, sereis vós!
Ventos cujos genitais de suave cócega roçam em mim, sereis vós!
Campos largos e musculosos, ramos de carvalho vivo, vagabundo amoroso em minhas
veredas sinuosas, sereis vós!
Mãos que tomei, rosto que beijei, mortal que alguma vez toquei,
sereis vós.
Adoro a mim mesmo, há tanto de mim e tudo tão delicioso,
Cada momento e tudo o que acontece me faz estremecer de alegria,
Não sei dizer como meus tornozelos se dobram, nem de onde vem a causa de meu menor desejo,
Nem a causa da amizade que emito, nem a causa da
amizade que recebo de volta.
Ao subir os degraus diante de minha casa, paro para considerar se é mesmo real,
Uma ipomeia em minha janela me satisfaz mais que a metafísica
dos livros.
Contemplar o alvorecer!
A pequena luz desfaz as sombras imensas e diáfanas,
O ar tem bom sabor em meu paladar.
Massas do mundo em movimento, em folguedos inocentes, erguendo-se em silêncio,
exsudando frescor,
Disparando obliquamente para o alto e para baixo.
Algo que não posso ver projeta para cima pontas libidinosas,
Mares de sumo brilhante inundam o céu.
A terra acompanhada pelo céu, o diário fechamento de sua união,
O desafio lançado do leste naquele instante sobre minha cabeça,
A provocação zombeteira, Vê então se serás senhor!
25
Deslumbrante e tremendo, quão depressa o nascer do sol me mataria,
Se eu não pudesse agora e sempre lançar de mim o nascer do sol.
Também ascendemos deslumbrantes e tremendos como o sol,
Encontramos o que é nosso, ó minha alma, na calma e no frescor da aurora.
Minha voz vai atrás do que meus olhos não podem alcançar,
Com o volteio de minha língua abarco mundos e volumes de mundos.
A fala é gêmea de minha visão, é incapaz de medir a si mesma,
Provoca-me para sempre, diz sarcasticamente,
Walt, conténs o bastante, por que então não o deixas sair?
Vamos, não serei atormentado, concebes demais a
articulação,
Não sabes, ó fala, como estão dobrados os brotos sob ti?
Esperando na penumbra, protegidos pela geada,
A terra recuando diante de meus gritos proféticos,
Eu, causas subjacentes para por fim equilibrá-los,
Meu conhecimento, minhas partes vivas, mantendo a conta do sentido de todas as coisas,
Felicidade, (e quem quer que me ouça, que parta hoje mesmo em busca
dela.)
Meu mérito final eu te recuso, recuso afastar de mim aquilo que realmente sou,
Abarca mundos, mas jamais tentes abarcar-me,
Supero o que tens de mais elegante e melhor apenas olhando em tua direção.
A escrita e a fala não me provam,
Trago no rosto a plenitude da prova e tudo mais,
Com o silêncio de meus lábios confundo inteiramente o cético.
26
Agora nada farei senão escutar,
Para acumular o que ouço neste canto, para deixar que os sons contribuam para ele.
Ouço bravuras de pássaros, o rumor do trigo que cresce, a conversa das chamas,
o crepitar dos gravetos que cozinham minhas refeições,
Ouço o som que amo, o som da voz humana,
Ouço todos os sons correndo juntos, combinados, fundidos ou sucedendo-se,
Sons da cidade e sons fora da cidade, sons do dia e da noite,
Jovens tagarelas falando aos que gostam deles, o riso alto dos
trabalhadores durante as refeições,
O baixo irado de uma amizade desfeita, os tons débeis dos enfermos,
O juiz com as mãos firmes sobre a mesa, seus lábios pálidos pronunciando
uma sentença de morte,
O heiça-ô dos estivadores descarregando navios junto aos cais, o
refrão dos que içam a âncora,
O toque dos sinos de alarme, o grito de incêndio, o zumbido das velozes
máquinas e carroças de mangueiras, com tilintares de aviso e luzes coloridas,
O apito a vapor, o rolar maciço da composição que se aproxima,
A marcha lenta tocada à frente da associação que avança de dois em dois,
(Vão guardar algum cadáver, os topos das bandeiras estão cobertos de musselina negra.)
Ouço o violoncelo, (é o lamento do coração do jovem,)
Ouço a corneta de chaves, ela desliza depressa para dentro de meus ouvidos,
Faz estremecer dores loucas e doces através de meu ventre e peito.
Ouço o coro, é uma grande ópera,
Ah, isto de fato é música, isto me convém.
Um tenor vasto e fresco como a criação me preenche,
A curva circular de sua boca derrama-se e me enche por completo.
Ouço a soprano treinada, (que obra é esta com a dela?)
A orquestra me lança em giros mais amplos que o voo de Urano,
Arranca de mim ardores que eu não sabia possuir,
Faz-me navegar, chapinho com os pés nus, lambidos pelas ondas indolentes,
Sou cortado por granizo amargo e colérico, perco o fôlego,
Mergulhado em morfina adocicada, minha traqueia estrangulada nos laços da morte,
Por fim novamente libertado para sentir o enigma dos enigmas,
E aquilo a que chamamos Ser.
27
Ser sob qualquer forma, o que é isso?
(Giramos e giramos, todos nós, e sempre retornamos para lá,)
Se nada se desenvolvesse mais, a amêijoa em sua concha calejada bastaria.
Minha concha não é calejada,
Tenho condutores instantâneos por todo o corpo, quer eu passe ou pare,
Eles capturam cada objeto e o conduzem inofensivamente através de mim.
Apenas me movo, pressiono, sinto com os dedos, e sou feliz,
Encostar minha pessoa à de outro é quase mais do que posso suportar.
28
É isto então um toque? fazendo-me estremecer até uma nova identidade,
Chamas e éter precipitando-se para minhas veias,
Ponta traiçoeira de mim avançando e apertando-se para ajudá-los,
Minha carne e meu sangue lançando relâmpagos para atingir o que quase não é
diferente de mim,
De todos os lados provocadores lascivos enrijecendo meus membros,
Ordenhando o úbere de meu coração para obter a gota retida,
Comportando-se licenciosamente comigo, não aceitando recusa,
Privando-me do melhor que tenho para algum propósito,
Desabotoando minhas roupas, segurando-me pela cintura nua,
Iludindo minha confusão com a calma da luz solar e dos campos de pastagem,
Fazendo deslizar indecorosamente para longe os sentidos companheiros,
Subornaram-nos para trocar tudo pelo toque e irem roçar as bordas de mim,
Sem consideração, sem respeito por minha força que se esvai ou por minha cólera,
Trazendo o restante do rebanho ao redor para desfrutá-los por algum tempo,
Depois todos se unindo para ficar sobre um promontório e atormentar-me.
As sentinelas desertam todas as outras partes de mim,
Deixaram-me indefeso diante de um invasor vermelho,
Todos vêm ao promontório para testemunhar e auxiliá-lo contra mim.
Fui entregue por traidores,
Falo desvairadamente, perdi o juízo, eu e ninguém mais sou o
maior traidor,
Eu mesmo fui primeiro ao promontório, minhas próprias mãos me levaram até lá.
Toque vilão! o que estás fazendo? meu fôlego se aperta na garganta,
Abre tuas comportas, és demais para mim.
29
Toque cego, amoroso, lutador, embainhado, encapuzado, de dentes afiados!
Doeu-te tanto assim, deixar-me?
Partida seguida pela chegada, pagamento perpétuo de empréstimo perpétuo,
Rica chuva que se derrama, e depois recompensa mais rica.
Brotos recebem e acumulam, permanecem junto à margem, prolíficos e vitais,
Paisagens projetadas, masculinas, de tamanho pleno e douradas.
30
Todas as verdades esperam em todas as coisas,
Nem apressam sua própria vinda nem resistem a ela,
Não precisam dos fórceps obstétricos do cirurgião,
O insignificante é para mim tão grande quanto qualquer outro,
(O que é menos ou mais que um toque?)
A lógica e os sermões jamais convencem,
A umidade da noite penetra mais fundo em minha alma.
(Somente o que se prova a cada homem e mulher é verdadeiro,
Somente o que ninguém nega é verdadeiro.)
Um minuto e uma gota de mim assentam meu cérebro,
Creio que os torrões encharcados se tornarão amantes e lâmpadas,
E um compêndio de compêndios é a carne de um homem ou de uma mulher,
E seu cume e flor é o sentimento que têm um pelo outro,
E devem ramificar-se ilimitadamente a partir dessa lição até que ela
se torne criadora de tudo,
E até que todos e cada um nos deleitem, e nós a eles.
31
Creio que uma folha de relva não é menor que o trabalho itinerante das estrelas,
E a formiga é igualmente perfeita, e um grão de areia, e o ovo
da carriça,
E a perereca é uma obra-prima para o Altíssimo,
E a amoreira rasteira adornaria os salões do céu,
E a menor articulação de minha mão envergonha toda maquinaria,
E a vaca que mastiga de cabeça baixa supera qualquer estátua,
E um camundongo é milagre suficiente para fazer cambalear sextilhões de infiéis.
Descubro que incorporo gnaisse, carvão, musgo de longos filamentos, frutos,
grãos, raízes comestíveis,
E estou revestido de quadrúpedes e aves por toda parte,
E deixei para trás o que está atrás de mim por boas razões,
Mas torno a chamar qualquer coisa quando a desejo.
Em vão a velocidade ou a timidez,
Em vão as rochas plutônicas enviam seu antigo calor contra minha aproximação,
Em vão o mastodonte recua sob seus próprios ossos pulverizados,
Em vão os objetos permanecem a léguas de distância e assumem formas múltiplas,
Em vão o oceano se acomoda nas depressões e os grandes monstros se escondem no fundo,
Em vão o urubu faz do céu sua morada,
Em vão a serpente desliza entre trepadeiras e troncos,
Em vão o alce se refugia nas passagens interiores dos bosques,
Em vão a torda de bico afiado navega para o extremo norte, rumo ao Labrador,
Sigo depressa, subo ao ninho na fissura do penhasco.
32
Creio que poderia voltar-me e viver com os animais, tão plácidos e
contidos em si mesmos,
Fico parado e os observo por muito, muito tempo.
Não suam nem choramingam por sua condição,
Não permanecem despertos no escuro chorando por seus pecados,
Não me enfastiam discutindo seu dever para com Deus,
Nenhum está insatisfeito, nenhum enlouqueceu com a mania de
possuir coisas,
Nenhum se ajoelha diante de outro, nem diante de sua espécie que viveu milhares de
anos atrás,
Nenhum é respeitável ou infeliz sobre toda a terra.
Assim mostram a mim suas relações e eu as aceito,
Trazem-me sinais de mim mesmo, exibem-nos claramente em sua
posse.
Pergunto-me onde conseguiram esses sinais,
Passei por aquele caminho eras imensas atrás e os deixei cair por descuido?
Eu mesmo avançando então e agora e para sempre,
Reunindo e mostrando sempre mais e com velocidade,
Infinito e de todas as espécies, e semelhantes a estes entre eles,
Não excessivamente exclusivo diante dos que me trazem minhas lembranças,
Escolhendo aqui um que amo, e agora seguindo com ele em termos fraternos.
Uma beleza gigantesca de garanhão, fresco e sensível a minhas carícias,
Cabeça alta na fronte, larga entre as orelhas,
Membros lustrosos e flexíveis, cauda varrendo o chão,
Olhos cheios de malícia cintilante, orelhas de corte fino, movendo-se com flexibilidade.
Suas narinas se dilatam quando meus calcanhares o abraçam,
Seus membros bem formados tremem de prazer enquanto corremos ao redor e retornamos.
Uso-te apenas por um minuto, depois te libero, garanhão,
Por que preciso de teus passos quando eu mesmo os ultrapasso a galope?
Mesmo parado ou sentado, passo mais depressa que tu.
33
Espaço e Tempo! agora vejo que é verdade aquilo que pressenti,
Aquilo que pressenti quando vagueava sobre a relva,
Aquilo que pressenti enquanto jazia sozinho em minha cama,
E novamente quando caminhava pela praia sob as estrelas empalidecentes da manhã.
Meus vínculos e lastros me abandonam, meus cotovelos repousam nas fendas do mar,
Contorno serras, minhas palmas cobrem continentes,
Avanço a pé com minha visão.
Pelas casas quadrangulares da cidade, em cabanas de troncos, acampando com lenhadores,
Pelos sulcos da estrada de pedágio, pelo barranco seco e pelo leito do regato,
Capinando meu canteiro de cebolas ou regando fileiras de cenouras e pastinacas,
atravessando savanas, seguindo rastros nas florestas,
Prospectando, escavando ouro, descascando em anel as árvores de uma terra recém-comprada,
Queimado até os tornozelos pela areia quente, arrastando meu barco pelo
rio raso,
Onde a pantera anda de um lado para o outro sobre um galho acima, onde o
cervo se volta furioso contra o caçador,
Onde a cascavel expõe ao sol seu comprimento flácido sobre uma rocha, onde a
lontra se alimenta de peixes,
Onde o jacaré, com suas duras protuberâncias, dorme junto ao braço do rio,
Onde o urso-negro procura raízes ou mel, onde o
castor bate a lama com a cauda em forma de remo;
Sobre a cana que cresce, sobre o algodoeiro de flores amarelas, sobre
o arroz em seu campo baixo e úmido,
Sobre a casa de fazenda de telhado agudo, com sua espuma recortada e
seus delgados rebentos saindo das calhas,
Sobre o caqui do oeste, sobre o milho de folhas longas, sobre o
delicado linho de flores azuis,
Sobre o trigo-sarraceno branco e castanho, zumbindo e vibrando ali com
os demais,
Sobre o verde sombrio do centeio enquanto ondula e se sombreia na brisa;
Escalando montanhas, puxando-me cautelosamente para cima, segurando-me em galhos baixos
e nodosos,
Caminhando pela trilha gasta na relva e batida através das folhas do matagal,
Onde a codorna assobia entre os bosques e o campo de trigo,
Onde o morcego voa ao entardecer do Sétimo Mês, onde o grande
besouro-dourado cai através da escuridão,
Onde o riacho brota das raízes da velha árvore e corre até
a campina,
Onde o gado permanece e afasta as moscas com o trêmulo
estremecimento do couro,
Onde o pano de queijo pende na cozinha, onde os cães de lareira atravessam
a pedra do fogão, onde teias de aranha descem em festões das vigas;
Onde os malhos mecânicos estrondam, onde a prensa gira seus cilindros,
Onde quer que o coração humano bata com terríveis espasmos sob as costelas,
Onde o balão em forma de pera flutua no alto, (eu mesmo flutuando nele
e olhando serenamente para baixo,)
Onde o bote salva-vidas é puxado pelo laço corrediço, onde o calor
choca ovos verde-claros na areia afundada,
Onde a baleia fêmea nada com seu filhote e jamais o abandona,
Onde o navio a vapor arrasta para trás sua longa flâmula de fumaça,
Onde a barbatana do tubarão corta como uma lasca negra para fora da água,
Onde o brigue meio queimado navega em correntes desconhecidas,
Onde conchas crescem em seu convés viscoso, onde os mortos apodrecem embaixo;
Onde a bandeira densamente estrelada é levada à frente dos regimentos,
Aproximando-se de Manhattan pela ilha que se estende longamente,
Sob o Niágara, a catarata caindo como um véu sobre meu rosto,
Sobre um degrau de porta, sobre o cepo de madeira dura para montar a cavalo do lado de fora,
Na pista de corridas, ou desfrutando piqueniques ou danças ou um bom jogo de
beisebol,
Em festas de homens, com zombarias grosseiras, licenciosidade irônica,
danças de touros, bebida, risos,
No moinho de sidra provando a doçura da polpa castanha, sugando o
sumo por um canudo,
Nas descascas de maçãs querendo beijos por cada fruto vermelho que encontro,
Em revistas militares, festas na praia, mutirões amistosos, debulhas, erguidas de casas;
Onde o sabiá-mímico solta seus deliciosos gorgolejos, cacarejos,
gritos, choros,
Onde a meda de feno se ergue no terreiro do celeiro, onde os talos secos estão
espalhados, onde a vaca com cria espera no abrigo,
Onde o touro avança para cumprir seu trabalho masculino, onde o garanhão vai
à égua, onde o galo pisa a galinha,
Onde as novilhas pastam, onde os gansos beliscam a comida com movimentos curtos,
Onde as sombras do poente se alongam sobre a pradaria ilimitada e solitária,
Onde manadas de búfalos formam uma extensão rastejante por milhas quadradas,
perto e longe,
Onde o beija-flor cintila, onde o pescoço do longevo
cisne se curva e serpenteia,
Onde a gaivota risonha dispara pela praia, onde solta seu riso
quase humano,
Onde colmeias se alinham sobre um banco cinzento no jardim, meio ocultas pelas
ervas altas,
Onde perdizes de pescoço anelado pousam em círculo no chão com
as cabeças voltadas para fora,
Onde coches funerários entram pelos portões arqueados de um cemitério,
Onde lobos de inverno latem entre extensões de neve e árvores cobertas de gelo,
Onde a garça de coroa amarela chega à beira do pântano à
noite e se alimenta de pequenos caranguejos,
Onde os mergulhos de nadadores e saltadores refrescam o meio-dia quente,
Onde a esperança trabalha sua flauta cromática na nogueira sobre
o poço,
Através de canteiros de cidras e pepinos com folhas riscadas de prata,
Através do barreiro salgado ou da clareira de laranjeiras, ou sob abetos cônicos,
Através do ginásio, através do salão cortinado, através do
escritório ou do salão público;
Satisfeito com o nativo e satisfeito com o estrangeiro, satisfeito com
o novo e o velho,
Satisfeito com a mulher simples tanto quanto com a bela,
Satisfeito com a quacre enquanto tira a touca e fala melodiosamente,
Satisfeito com a melodia do coro da igreja caiada,
Satisfeito com as palavras fervorosas do pregador metodista suado,
seriamente impressionado na reunião campal;
Olhando as vitrines das lojas da Broadway durante toda a manhã,
achatando a carne do nariz contra o grosso vidro,
Vagando naquela mesma tarde com o rosto voltado para as nuvens,
ou por uma viela ou ao longo da praia,
Meus braços direito e esquerdo em torno de dois amigos, e eu no meio;
Voltando para casa com o jovem do mato, silencioso e de faces escuras, (atrás de mim
ele cavalga no cair do dia,)
Longe dos povoados estudando a marca das patas dos animais, ou a
marca do mocassim,
Junto ao leito no hospital oferecendo limonada a um paciente febril,
Perto do cadáver no caixão quando tudo está imóvel, examinando-o à luz de uma vela;
Viajando a todos os portos para negociar e aventurar-me,
Correndo com a multidão moderna, tão ávido e volúvel quanto qualquer um,
Ardendo contra alguém que odeio, pronto em minha loucura para esfaqueá-lo,
Solitário à meia-noite em meu quintal, meus pensamentos há muito afastados de mim,
Caminhando pelas antigas colinas da Judeia com o belo e gentil Deus a meu lado,
Acelerando pelo espaço, acelerando pelo céu e pelas estrelas,
Acelerando entre os sete satélites e o amplo anel, e o
diâmetro de oitenta mil milhas,
Acelerando com meteoros caudados, lançando bolas de fogo como os demais,
Carregando a criança crescente que carrega no ventre sua própria mãe plena,
Tempestuando, desfrutando, planejando, amando, advertindo,
Recuando e avançando, aparecendo e desaparecendo,
Percorro dia e noite estradas como essas.
Visito os pomares das esferas e observo os frutos,
E observo quintilhões amadurecidos e observo quintilhões verdes.
Voo esses voos de uma alma fluida e absorvente,
Meu curso passa abaixo das sondagens dos prumos.
Sirvo-me do material e do imaterial,
Nenhum guarda pode barrar-me, nenhuma lei impedir-me.
Ancoro meu navio apenas por pouco tempo,
Meus mensageiros continuamente partem em cruzeiro ou trazem seus retornos a mim.
Vou caçar peles polares e focas, saltando abismos com um
bastão de ponta metálica, agarrando-me a massas frágeis e azuis prestes a tombar.
Subo ao topo do mastro de proa,
Tomo meu lugar tarde da noite no cesto da gávea,
Navegamos pelo mar ártico, há luz mais que suficiente,
Pela atmosfera límpida estendo-me ao redor sobre a beleza maravilhosa,
As enormes massas de gelo passam por mim e eu passo por elas, a paisagem está
nítida em todas as direções,
As montanhas de cumes brancos aparecem ao longe, lanço minhas
fantasias em direção a elas,
Aproximamo-nos de algum grande campo de batalha no qual em breve
entraremos,
Passamos pelos colossais postos avançados do acampamento, passamos com passos
silenciosos e cautela,
Ou entramos pelos subúrbios de alguma vasta cidade arruinada,
Os quarteirões e a arquitetura caída maiores que todas as cidades vivas
do globo.
Sou um companheiro livre, acampo junto às fogueiras dos invasores,
Expulso o noivo da cama e fico eu mesmo com a noiva,
Aperto-a a noite inteira contra minhas coxas e meus lábios.
Minha voz é a voz da esposa, o grito junto ao corrimão da escada,
Trazem para cima o corpo de meu homem, pingando e afogado.
Compreendo os grandes corações dos heróis,
A coragem dos tempos presentes e de todos os tempos,
Como o capitão viu o naufrágio apinhado e sem leme do
navio a vapor, e a Morte perseguindo-o para cima e para baixo na tempestade,
Como cerrou os punhos e não recuou uma polegada, e foi fiel
de dia e fiel de noite,
E escreveu com giz em grandes letras numa prancha, Tende ânimo, nós
não vos abandonaremos;
Como os acompanhou e mudou de bordo com eles durante três dias e
não desistiu,
Como por fim salvou a companhia à deriva,
Como pareciam as mulheres esguias de vestidos soltos quando retiradas de barco do
lado de suas sepulturas já preparadas,
Como os bebês silenciosos de rostos envelhecidos e os doentes erguidos, e os
homens de lábios finos e barba por fazer;
Tudo isso engulo, tem bom sabor, gosto muito, torna-se meu,
Sou o homem, sofri, estive lá.
O desprezo e a serenidade dos mártires,
A mãe dos tempos antigos, condenada como bruxa, queimada com madeira seca, seus
filhos olhando,
O escravo perseguido que fraqueja na corrida, apoia-se na cerca,
ofegante, coberto de suor,
As pontadas que ferem como agulhas suas pernas e pescoço, os mortíferos
bagos de chumbo e as balas,
Tudo isso sinto ou sou.
Sou o escravo perseguido, estremeço com a mordida dos cães,
Inferno e desespero caem sobre mim, estalam e tornam a estalar os atiradores,
Agarro as barras da cerca, meu sangue goteja, diluído pela
secreção de minha pele,
Caio sobre ervas e pedras,
Os cavaleiros esporeiam os cavalos relutantes, aproximam-se depressa,
Insultam meus ouvidos aturdidos e me golpeiam violentamente na cabeça com os cabos dos chicotes.
Agonias são uma de minhas trocas de vestimenta,
Não pergunto ao ferido como se sente, eu mesmo me torno o
ferido,
Minhas feridas ficam lívidas sobre mim enquanto me apoio numa bengala e observo.
Sou o bombeiro esmagado, com o esterno partido,
Paredes em queda me sepultaram sob os escombros,
Inspirei calor e fumaça, ouvi os gritos de meus companheiros,
Ouvi ao longe o bater de suas picaretas e pás,
Afastaram as vigas, erguem-me com ternura para fora.
Jazo no ar noturno com minha camisa vermelha, o silêncio que tudo invade é por minha causa,
Afinal sem dor, jazo exausto, mas não tão infeliz,
Brancos e belos são os rostos ao meu redor, as cabeças estão livres
dos capacetes de incêndio,
A multidão ajoelhada se apaga com a luz das tochas.
Os distantes e mortos ressuscitam,
Mostram-se como o mostrador ou movem-se como meus ponteiros, eu mesmo sou o relógio.
Sou um velho artilheiro, conto o bombardeio de meu forte,
Estou lá novamente.
Novamente o longo rufar dos tambores,
Novamente os canhões atacantes, os morteiros,
Novamente aos meus ouvidos atentos respondem os canhões.
Tomo parte, vejo e ouço tudo,
Os gritos, maldições, estrondo, os aplausos aos tiros bem apontados,
A ambulância passando devagar, deixando um rastro vermelho,
Trabalhadores procurando os estragos, fazendo reparos indispensáveis,
A queda das granadas através do teto rompido, a explosão em forma de leque,
O zunido de membros, cabeças, pedra, madeira, ferro, no alto do ar.
Novamente gorgoleja a boca de meu general moribundo, ele agita furiosamente
a mão,
Arqueja através do coágulo Não cuidem de mim, cuidem das trincheiras.
34
Agora conto o que conheci no Texas em minha primeira juventude,
(Não conto a queda do Álamo,
Ninguém escapou para contar a queda do Álamo,
Os cento e cinquenta ainda estão mudos no Álamo,)
É a história do assassinato a sangue-frio de quatrocentos e doze
jovens.
Recuando, haviam formado um quadrado fechado, com a bagagem servindo de
parapeito,
Novecentas vidas dos inimigos ao redor, nove vezes mais
numerosos, foi o preço que cobraram antecipadamente,
Seu coronel estava ferido e a munição acabara,
Negociaram uma capitulação honrosa, receberam documento e
selo, entregaram as armas e marcharam de volta como prisioneiros de guerra.
Eram a glória da raça dos patrulheiros,
Incomparáveis com cavalo, rifle, canto, ceia, cortejo,
Grandes, turbulentos, generosos, belos, orgulhosos e afetuosos,
Barbados, queimados de sol, vestidos com o traje livre dos caçadores,
Nenhum deles tinha mais de trinta anos.
Na manhã do segundo Primeiro Dia foram trazidos para fora em grupos e
massacrados, era o belo início do verão,
O trabalho começou por volta das cinco horas e terminou às oito.
Nenhum obedeceu à ordem de ajoelhar-se,
Alguns fizeram uma corrida louca e inútil, outros permaneceram rígidos e eretos,
Alguns caíram de imediato, atingidos na têmpora ou no coração, vivos e mortos
jaziam juntos,
Os mutilados e dilacerados cavavam a terra, os recém-chegados os viam ali,
Alguns, meio mortos, tentaram rastejar para longe,
Estes foram liquidados com baionetas ou golpeados com as coronhas dos mosquetes,
Um jovem de menos de dezessete anos agarrou seu assassino até que outros dois
vieram libertá-lo,
Os três ficaram rasgados e cobertos com o sangue do rapaz.
Às onze horas começou a queima dos corpos;
Essa é a história do assassinato dos quatrocentos e doze jovens.
35
Quereis ouvir falar de um combate naval dos tempos antigos?
Quereis saber quem venceu à luz da lua e das estrelas?
Escutai o relato, como o pai de minha avó, o marinheiro, contou-o a mim.
Nosso inimigo não se escondia em seu navio, digo-vos, (disse ele,)
Sua era a áspera coragem inglesa, e não há coragem mais dura nem mais verdadeira,
nunca houve, nunca haverá;
Ao cair da tarde veio varrendo-nos horrivelmente com seus tiros.
Encostamos nele, as vergas se enredaram, os canhões se tocaram,
Meu capitão amarrou-nos firmemente com as próprias mãos.
Havíamos recebido cerca de dezoito tiros de libra abaixo da linha d’água,
Em nosso convés inferior de canhões, duas grandes peças explodiram no primeiro disparo,
matando todos ao redor e arrebentando o teto.
Lutando ao pôr do sol, lutando no escuro,
Dez horas da noite, a lua cheia já alta, nossas infiltrações aumentando,
e cinco pés de água anunciados,
O mestre de armas libertando os prisioneiros confinados no porão de popa
para que tivessem uma oportunidade por si mesmos.
A passagem de ida e volta ao paiol agora é detida pelas sentinelas,
Veem tantos rostos estranhos que não sabem em quem confiar.
Nossa fragata pega fogo,
A outra pergunta se pedimos quartel?
Se nossas cores foram arriadas e o combate terminou?
Agora rio satisfeito, pois ouço a voz de meu pequeno capitão,
Não arriamos, grita serenamente, apenas começamos nossa parte
do combate.
Somente três canhões estão em uso,
Um é dirigido pelo próprio capitão contra o mastro principal do inimigo,
Dois, bem servidos com metralha e balins, silenciam sua mosquetaria e
limpam seus conveses.
Apenas os mastaréus secundam o fogo dessa pequena bateria, sobretudo
o mastaréu principal,
Resistem bravamente durante toda a ação.
Nem um instante de pausa,
As infiltrações vencem depressa as bombas, o fogo avança em direção ao paiol.
Uma das bombas foi destruída a tiros, todos pensam que estamos afundando.
Sereno permanece o pequeno capitão,
Não se apressa, sua voz não é alta nem baixa,
Seus olhos nos dão mais luz que nossas lanternas de combate.
Perto da meia-noite, ali sob os raios da lua, eles se rendem a nós.
36
Estendida e imóvel jaz a meia-noite,
Dois grandes cascos imóveis sobre o peito da escuridão,
Nosso navio crivado e afundando lentamente, preparativos para passar ao
que conquistamos,
O capitão no tombadilho dando friamente suas ordens através de um
rosto branco como um lençol,
Perto, o cadáver da criança que servia na cabine,
O rosto morto de um velho marinheiro de longos cabelos brancos e suíças
cuidadosamente encaracoladas,
As chamas, apesar de tudo o que pode ser feito, tremulando em cima e embaixo,
As vozes roucas dos dois ou três oficiais ainda aptos ao serviço,
Pilhas informes de corpos e corpos isolados, manchas de carne
sobre mastros e vergas,
Cordame cortado, aparelhamento pendente, leve choque do embalo das ondas,
Canhões negros e impassíveis, dispersão de cartuchos de pólvora, odor forte,
Algumas grandes estrelas acima, silenciosas e lúgubres em seu brilho,
Delicadas baforadas da brisa do mar, cheiros de capim áspero e campos junto
à costa, mensagens de morte confiadas aos sobreviventes,
O silvo da faca do cirurgião, os dentes roedores de sua serra,
Chiado, estalo, jorro do sangue que cai, grito curto e selvagem, e longo,
surdo e decrescente gemido,
Assim são estas coisas, irrecuperáveis.
37
Vós, retardatários de guarda! cuidai de vossas armas!
Pelas portas conquistadas eles se amontoam! estou possuído!
Encarnem-se em mim todos os seres proscritos ou sofredores,
Vejo-me na prisão sob a forma de outro homem,
E sinto a dor surda e incessante.
Por mim os guardas dos condenados põem as carabinas ao ombro e vigiam,
Sou eu quem é solto de manhã e trancado à noite.
Nenhum amotinado caminha algemado até a prisão sem que eu esteja algemado a ele
e caminhe a seu lado,
(Sou menos o alegre ali, e mais o silencioso com suor
nos lábios trêmulos.)
Nenhum jovem é preso por furto sem que eu também suba, seja julgado
e sentenciado.
Nenhum doente de cólera jaz em seu último suspiro sem que eu também jaza no último suspiro,
Meu rosto tem a cor de cinza, meus tendões se retorcem, as pessoas recuam para longe de mim.
Os que pedem encarnam-se em mim e eu me encarno neles,
Estendo meu chapéu, sento-me envergonhado e mendigo.
38
Basta! basta! basta!
De algum modo fui atordoado. Afastai-vos!
Dai-me um pouco de tempo além de minha cabeça algemada, sono, sonhos, bocejos,
Descubro-me à beira de um erro habitual.
Que eu pudesse esquecer os zombadores e os insultos!
Que eu pudesse esquecer as lágrimas que escorrem e os golpes dos
porretes e martelos!
Que eu pudesse olhar com olhar separado para minha própria crucificação e
coroação ensanguentada.
Agora me lembro,
Retomo a fração que se demorou demais,
O túmulo de pedra multiplica aquilo que lhe foi confiado, ou confiado a quaisquer túmulos,
Cadáveres se erguem, feridas cicatrizam, amarras rolam para longe de mim.
Avanço em tropa, reabastecido de poder supremo, um numa procissão
comum e interminável,
Pelo interior e pelo litoral seguimos, e atravessamos todas as linhas de fronteira,
Nossas rápidas ordenanças a caminho por toda a terra,
As flores que usamos nos chapéus são o crescimento de milhares de anos.
Alunos, eu vos saúdo! avançai!
Continuai vossas anotações, continuai vossas perguntas.
39
O selvagem amistoso e fluente, quem é ele?
Espera pela civilização, ou já passou por ela e a domina?
É algum homem do Sudoeste criado ao ar livre? é canadense?
Vem da região do Mississippi? Iowa, Oregon, Califórnia?
Das montanhas? vida na pradaria, vida no mato? ou marinheiro vindo do mar?
Onde quer que vá, homens e mulheres o aceitam e desejam,
Desejam que goste deles, que os toque, fale com eles, fique com eles.
Comportamento sem lei como flocos de neve, palavras simples como a relva, cabeça
despenteada, riso e ingenuidade,
Pés de passo lento, feições comuns, modos e emanações comuns,
Descem em novas formas das pontas de seus dedos,
São levados com o odor de seu corpo ou hálito, voam para fora do
olhar de seus olhos.
40
Ostentação da luz solar, não preciso de teu calor, deita-te por cima!
Iluminas apenas as superfícies, eu penetro superfícies e profundezas também.
Terra! pareces esperar algo de minhas mãos,
Dize, velha cabeça emplumada, o que queres?
Homem ou mulher, eu poderia dizer como gosto de ti, mas não posso,
E poderia dizer o que há em mim e o que há em ti, mas não posso,
E poderia falar desse anseio que tenho, desse pulso de minhas noites e dias.
Vede, não dou palestras nem uma pequena caridade,
Quando dou, dou a mim mesmo.
Tu aí, impotente, frouxo nos joelhos,
Abre tuas mandíbulas cobertas pelo lenço até que eu sopre fibra para dentro de ti,
Estende as palmas e ergue as abas de teus bolsos,
Não posso ser recusado, obrigo, tenho provisões em abundância e de sobra,
E tudo o que tenho concedo.
Não pergunto quem és, isso não é importante para mim,
Nada podes fazer nem ser, salvo aquilo em que eu te envolver.
Ao trabalhador do algodoeiro ou ao limpador de latrinas me inclino,
Em sua face direita deposito o beijo de família,
E em minha alma juro jamais renegá-lo.
Em mulheres aptas à concepção inicio bebês maiores e mais ágeis.
(Neste dia lanço a matéria de repúblicas muito mais arrogantes.)
A qualquer moribundo, para lá corro e giro a maçaneta da porta.
Voltai as cobertas para os pés da cama,
Deixai que o médico e o sacerdote voltem para casa.
Agarro o homem que desce e o ergo com vontade irresistível,
Ó desesperado, aqui está meu pescoço,
Por Deus, não descerás! deixa todo o teu corpo pender sobre mim.
Dilato-te com tremenda respiração, mantenho-te à tona,
Encho cada aposento da casa com uma força armada,
Amantes meus, frustradores de sepulturas.
Dorme, eu e eles montamos guarda a noite inteira,
Nem dúvida, nem morte ousarão pôr um dedo sobre ti,
Abracei-te, e de agora em diante possuo-te para mim,
E quando te levantares pela manhã descobrirás que é verdade o que te digo.
41
Sou aquele que leva auxílio aos enfermos enquanto ofegam deitados de costas,
E aos homens fortes e eretos levo auxílio ainda mais necessário.
Ouvi o que se dizia do universo,
Ouvi e ouvi durante vários milhares de anos;
Está razoavelmente bem até onde vai, mas é só isso?
Venho ampliar e aplicar,
Superando de saída os velhos mascates cautelosos,
Tomando eu mesmo as dimensões exatas de Jeová,
Litografando Cronos, Zeus seu filho, e Hércules seu neto,
Comprando estampas de Osíris, Ísis, Belo, Brahma, Buda,
Pondo em minha pasta Manitu solto, Alá numa folha, o crucifixo
gravado,
Com Odin e Mexitli de rosto hediondo e cada ídolo e imagem,
Tomando todos pelo que valem e nem um centavo a mais,
Admitindo que estiveram vivos e cumpriram o trabalho de seus dias,
(Geraram pequenos seres como pássaros ainda sem penas que agora devem erguer-se e voar
e cantar por si mesmos,)
Aceitando os esboços rudes do divino para completá-los melhor em mim,
concedendo-os livremente a cada homem e mulher que vejo,
Descobrindo tanto ou mais num carpinteiro que arma uma casa,
Reivindicando para ele honras maiores ali, com as mangas arregaçadas,
manejando o malho e o cinzel,
Sem me opor a revelações especiais, considerando um fio de fumaça ou
um pelo no dorso de minha mão tão extraordinário quanto qualquer revelação,
Rapazes agarrados às máquinas de incêndio e às cordas das escadas de gancho não são menos para mim
que os deuses das antigas guerras,
Atento às suas vozes ressoando através do estrondo da destruição,
Seus membros vigorosos passando incólumes sobre ripas carbonizadas, suas frontes
brancas inteiras e ilesas fora das chamas;
Pela esposa do mecânico com o bebê ao seio intercedendo por
cada pessoa nascida,
Três foices na colheita zunindo em fila, manejadas por três anjos vigorosos
com as camisas enfunadas na cintura,
O cavalariço ruivo de dentes quebrados redimindo pecados passados e futuros,
Vendendo tudo o que possui, viajando a pé para pagar advogados por seu
irmão e sentar-se ao lado dele enquanto é julgado por falsificação;
Aquilo que foi espalhado na mais ampla dispersão pelo quadrado de terra ao meu redor, e
que então não o preenchia,
O touro e o inseto nunca adorados nem pela metade do que mereciam,
Esterco e sujeira mais admiráveis do que se sonhou,
O sobrenatural sem importância, eu esperando meu tempo para ser um dos
supremos,
O dia preparando-se para mim, quando farei tanto bem quanto o
melhor, e serei igualmente prodigioso;
Por meus nódulos de vida! tornando-me já um criador,
Pondo-me aqui e agora diante do ventre emboscado das sombras.
42
Um chamado no meio da multidão,
Minha própria voz, plena, abrangente e final.
Vinde, meus filhos,
Vinde, meus meninos e meninas, minhas mulheres, gente da casa e íntimos,
Agora o intérprete lança seus nervos, já passou seu prelúdio nas
flautas interiores.
Acordes soltos e facilmente escritos por dedos livres, sinto o pulsar de vosso
clímax e término.
Minha cabeça gira sobre o pescoço,
A música rola, mas não vem do órgão,
Há gente ao meu redor, mas não são pessoas de minha casa.
Sempre o chão duro que não afunda,
Sempre os que comem e bebem, sempre o sol que sobe e desce, sempre
o ar e as marés incessantes,
Sempre eu mesmo e meus vizinhos, revigorantes, perversos, reais,
Sempre a velha pergunta inexplicável, sempre aquele polegar espinhoso, aquele
sopro de coceiras e sedes,
Sempre o grito do atormentador, uh! uh! até descobrirmos onde o astuto se esconde
e o trouxermos para fora,
Sempre o amor, sempre o líquido soluçante da vida,
Sempre a faixa sob o queixo, sempre os cavaletes da morte.
Aqui e ali caminhando com moedas de dez centavos sobre os olhos,
Para alimentar a avidez do ventre, servindo generosamente os miolos às colheradas,
Comprando, tomando, vendendo bilhetes, mas nunca entrando uma só vez no banquete,
Muitos suando, arando, debulhando, e depois recebendo a palha
como pagamento,
Uns poucos possuindo ociosamente, e reivindicando continuamente para si o trigo.
Esta é a cidade e eu sou um dos cidadãos,
Tudo o que interessa aos demais me interessa, política, guerras, mercados,
jornais, escolas,
O prefeito e os conselhos, bancos, tarifas, navios a vapor, fábricas,
ações, lojas, bens imóveis e bens pessoais.
Os pequenos homenzinhos abundantes saltitando de colarinhos e casacas
Sei quem são, (certamente não são vermes nem pulgas,)
Reconheço as duplicatas de mim mesmo, o mais fraco e superficial
é imortal comigo,
O mesmo que faço e digo espera por eles,
Cada pensamento que se debate em mim também se debate neles.
Conheço perfeitamente meu próprio egotismo,
Conheço meus versos onívoros e não devo escrever menos,
E traria a ti, quem quer que sejas, para ficar ombro a ombro comigo.
Não são palavras rotineiras este meu canto,
Mas um questionar súbito, um salto além que ainda assim aproxima;
Este livro impresso e encadernado, mas e o impressor e o
rapaz da tipografia?
As fotografias bem tiradas, mas e tua esposa ou teu amigo, próximos e sólidos
em teus braços?
O navio negro couraçado de ferro, seus poderosos canhões nas torres, mas
e a coragem do capitão e dos engenheiros?
Nas casas, os pratos e a comida e os móveis, mas e o anfitrião e
a anfitriã, e o olhar de seus olhos?
O céu lá em cima, mas e aqui ou na casa ao lado, ou do outro lado da rua?
Os santos e sábios da história, mas e tu mesmo?
Sermões, credos, teologia, mas e o insondável cérebro humano,
E o que é razão? e o que é amor? e o que é vida?
43
Não vos desprezo, sacerdotes de todos os tempos, do mundo inteiro,
Minha fé é a maior das fés e a menor das fés,
Abrangendo o culto antigo e moderno e tudo entre o antigo e o moderno,
Crendo que voltarei à terra depois de cinco mil anos,
Esperando respostas dos oráculos, honrando os deuses, saudando o sol,
Fazendo fetiche da primeira rocha ou toco, dançando ritos com varas no
círculo dos obis,
Ajudando o lama ou o brâmane enquanto aparam as lâmpadas dos ídolos,
Ainda dançando pelas ruas numa procissão fálica, extasiado e
austero nos bosques como um gimnosofista,
Bebendo hidromel numa taça feita de crânio, admirando os Shastras e os Vedas,
atento ao Alcorão,
Caminhando pelos teocális, manchado de sangue vindo da pedra e da faca,
batendo o tambor de pele de serpente,
Aceitando os Evangelhos, aceitando aquele que foi crucificado, sabendo
com certeza que ele é divino,
Ajoelhando-me na missa ou levantando-me na oração puritana, ou sentado
pacientemente num banco,
Vociferando e espumando em minha crise insana, ou esperando como morto até
que meu espírito me desperte,
Olhando para o pavimento e a terra, ou para além do pavimento e da terra,
Pertencendo aos que percorrem o circuito dos circuitos.
Um daquele bando centrípeto e centrífugo, volto-me e falo como
homem que deixa instruções antes de uma viagem.
Céticos abatidos, entorpecidos e excluídos,
Frívolos, sombrios, taciturnos, coléricos, afetados, desalentados, ateus,
Conheço cada um de vós, conheço o mar de tormento, dúvida, desespero
e descrença.
Como as nadadeiras caudais espadanam!
Como se contorcem rápidas como relâmpagos, com espasmos e jorros de sangue!
Acalmai-vos, nadadeiras ensanguentadas dos céticos e taciturnos sombrios,
Tomo meu lugar entre vós tanto quanto entre quaisquer outros,
O passado é o impulso de vós, de mim, de todos, precisamente o mesmo,
E aquilo que ainda não foi provado e o que vem depois são para vós, para mim, para todos, precisamente
o mesmo.
Não sei o que ainda não foi provado nem o que vem depois,
Mas sei que por sua vez se mostrará suficiente, e não pode falhar.
Cada um que passa é considerado, cada um que para é considerado, nem
um só pode ser esquecido.
Não pode ser esquecido o jovem que morreu e foi sepultado,
Nem a jovem que morreu e foi posta a seu lado,
Nem a criancinha que espiou pela porta, depois recuou
e nunca mais foi vista,
Nem o velho que viveu sem propósito e o sente com
amargura pior que fel,
Nem aquele no asilo dos pobres, tuberculoso pelo rum e pela má enfermidade,
Nem os incontáveis mortos e arruinados, nem o embrutecido kobu
chamado escória da humanidade,
Nem os sacos apenas flutuando de boca aberta para que a comida entre,
Nem coisa alguma na terra, ou sob as mais antigas sepulturas da terra,
Nem coisa alguma nas miríades de esferas, nem as miríades de miríades
que as habitam,
Nem o presente, nem o menor fiapo conhecido.
44
É hora de explicar-me, levantemo-nos.
Despojo aquilo que é conhecido,
Lanço todos os homens e mulheres adiante comigo para o Desconhecido.
O relógio indica o momento, mas o que indica a eternidade?
Até aqui esgotamos trilhões de invernos e verões,
Há trilhões pela frente, e trilhões depois deles.
Nascimentos nos trouxeram riqueza e variedade,
E outros nascimentos nos trarão riqueza e variedade.
Não chamo um maior e outro menor,
Aquilo que preenche seu período e lugar é igual a qualquer outro.
A humanidade foi assassina ou ciumenta contigo, meu irmão, minha irmã?
Lamento por ti, ela não foi assassina nem ciumenta comigo,
Tudo foi gentil comigo, não mantenho contas com a lamentação,
(Que tenho eu a ver com lamentação?)
Sou um ápice das coisas realizadas, e sou aquele que contém as coisas por vir.
Meus pés alcançam um cume entre os cumes da escada,
Em cada degrau, feixes de eras, e feixes maiores entre os degraus,
Tudo abaixo devidamente percorrido, e ainda subo e subo.
Elevação após elevação, os fantasmas se curvam atrás de mim,
Muito abaixo vejo o imenso Nada primeiro, sei que estive até mesmo lá,
Esperei invisível e sempre, e dormi através da névoa letárgica,
E tomei meu tempo, e não sofri dano algum do carbono fétido.
Por muito tempo fui apertado num abraço, por muito e muito tempo.
Imensos foram os preparativos para mim,
Fiéis e amistosos os braços que me ajudaram.
Ciclos transportaram meu berço, remando e remando como barqueiros alegres,
Para me dar espaço, estrelas se mantiveram afastadas em seus próprios anéis,
Enviaram influências para cuidar daquilo que me sustentaria.
Antes que eu nascesse de minha mãe, gerações me guiaram,
Meu embrião nunca esteve entorpecido, nada pôde recobri-lo.
Para ele a nebulosa se condensou numa esfera,
Os longos e lentos estratos se empilharam para que repousasse sobre eles,
Vegetais imensos lhe deram sustento,
Sauroides monstruosos transportaram-no em suas bocas e depositaram-no
com cuidado.
Todas as forças foram constantemente empregadas para completar-me e deleitar-me,
Agora neste ponto estou com minha alma robusta.
45
Ó extensão da juventude! elasticidade sempre impulsionada!
Ó maturidade, equilibrada, florida e plena.
Meus amantes me sufocam,
Aglomerando-se em meus lábios, densos nos poros de minha pele,
Acotovelando-me pelas ruas e salões públicos, vindo nus a mim à noite,
Gritando de dia, Ahoy! das rochas do rio, balançando e
gorjeando sobre minha cabeça,
Chamando meu nome dos canteiros de flores, das vinhas, do matagal emaranhado,
Pousando sobre cada instante de minha vida,
Beijando meu corpo com suaves beijos balsâmicos,
Passando silenciosamente punhados de seus corações e dando-os para que sejam meus.
Velhice erguendo-se soberba! Ó bem-vinda graça inefável dos dias finais!
Cada condição proclama não apenas a si mesma, proclama aquilo que cresce
depois e para fora de si,
E o silêncio escuro proclama tanto quanto qualquer outra.
Abro minha escotilha à noite e vejo os sistemas salpicados ao longe,
E tudo o que vejo multiplicado até onde consigo calcular apenas margeia a borda dos
sistemas mais distantes.
Mais e mais amplamente se espalham, expandindo-se, sempre expandindo-se,
Para fora e para fora e para sempre para fora.
Meu sol tem seu sol e gira obedientemente ao redor dele,
Une-se a seus companheiros num grupo de circuito superior,
E conjuntos maiores seguem, fazendo dos maiores dentro deles simples pontos.
Não há interrupção e jamais pode haver interrupção,
Se eu, tu, e os mundos, e tudo sob ou sobre suas superfícies,
fôssemos neste instante reduzidos outra vez a uma flutuação pálida, isso
de nada valeria no longo curso,
Certamente tornaríamos a chegar onde agora estamos,
E certamente iríamos igualmente mais longe, e então mais longe e mais longe.
Alguns quatrilhões de eras, alguns octilhões de léguas cúbicas, não
ameaçam a extensão nem a tornam impaciente,
São apenas partes, qualquer coisa é apenas uma parte.
Vê tão longe quanto quiseres, há espaço ilimitado além disso,
Conta tanto quanto quiseres, há tempo ilimitado ao redor disso.
Meu encontro está marcado, é certo,
O Senhor estará lá e esperará até que eu chegue em perfeitas condições,
O grande Camarada, o amante verdadeiro por quem anseio, estará lá.
46
Sei que tenho o melhor do tempo e do espaço, e nunca fui medido e
nunca serei medido.
Percorro uma jornada perpétua, (vinde escutar, todos!)
Meus sinais são um casaco impermeável, bons sapatos e um cajado cortado no bosque,
Nenhum amigo meu descansa à vontade em minha cadeira,
Não tenho cadeira, igreja, filosofia,
Não conduzo homem algum a uma mesa de jantar, biblioteca, bolsa de comércio,
Mas cada homem e cada mulher dentre vós conduzo até uma colina,
Minha mão esquerda enlaçando-vos pela cintura,
Minha mão direita apontando para paisagens de continentes e para a estrada pública.
Nem eu, nem qualquer outro pode percorrer essa estrada por ti,
Deves percorrê-la por ti mesmo.
Não é longe, está ao alcance,
Talvez estejas nela desde que nasceste e não o saibas,
Talvez esteja em toda parte, sobre a água e sobre a terra.
Põe teus trastes ao ombro, querido filho, e eu porei os meus, e apressemos a partida,
Cidades maravilhosas e nações livres alcançaremos enquanto seguimos.
Se te cansares, dá-me ambos os fardos, e apoia a palma de tua mão
em meu quadril,
E no devido tempo me retribuirás o mesmo serviço,
Pois depois que partimos nunca mais paramos à margem.
Hoje antes da aurora subi uma colina e contemplei o céu apinhado,
E disse a meu espírito Quando nos tornarmos os envolvedores dessas esferas,
e do prazer e conhecimento de tudo o que há nelas, estaremos
então plenos e satisfeitos?
E meu espírito disse Não, apenas nivelamos essa elevação para passar e prosseguir além.
Também me fazes perguntas e eu te ouço,
Respondo que não posso responder, deves descobrir por ti mesmo.
Senta-te um pouco, querido filho,
Aqui há biscoitos para comer e aqui há leite para beber,
Mas assim que dormires e te renovares em roupas agradáveis, beijo-te
com um beijo de despedida e abro o portão para tua saída daqui.
Por tempo suficiente sonhaste sonhos desprezíveis,
Agora lavo a secreção de teus olhos,
Deves acostumar-te ao deslumbramento da luz e de cada
instante de tua vida.
Por muito tempo avançaste timidamente pela água, segurando uma prancha junto à margem,
Agora quero que sejas um nadador intrépido,
Que saltes no meio do mar, tornes a emergir, acenes para mim, grites,
e, rindo, sacudas os cabelos na água.
47
Sou o mestre dos atletas,
Aquele que por mim expande um peito mais largo que o meu prova a largura do meu,
Aquele que mais honra meu estilo é quem aprende com ele a destruir o mestre.
O rapaz que amo torna-se homem não por poder derivado,
mas por direito próprio,
Antes perverso que virtuoso por conformismo ou medo,
Afeiçoado à amada, saboreando bem seu bife,
Amor não correspondido ou uma desfeita ferindo-o mais que aço afiado,
Excelente para cavalgar, lutar, acertar o centro do alvo, conduzir um
bote, cantar uma canção ou tocar banjo,
Preferindo cicatrizes, barba e rostos marcados pela varíola a
todos os barbeados,
E os bem curtidos pelo sol aos que dele se afastam.
Ensino a afastar-se de mim, contudo quem pode afastar-se de mim?
Sigo-te, quem quer que sejas, desde esta hora,
Minhas palavras coçam em teus ouvidos até que as compreendas.
Não digo estas coisas por um dólar nem para preencher o tempo enquanto
espero um barco,
(És tu quem fala tanto quanto eu, atuo como tua língua,
Presa em tua boca, em minha começa a soltar-se.)
Juro que nunca mais mencionarei amor ou morte dentro de uma casa,
E juro que jamais traduzirei a mim mesmo, salvo para aquele ou aquela
que permanecer comigo em particular ao ar livre.
Para compreender-me, vai às alturas ou à beira da água,
O mosquito mais próximo é uma explicação, e uma gota ou movimento das ondas, uma chave,
O malho, o remo, o serrote confirmam minhas palavras.
Nenhum aposento fechado por venezianas ou escola pode comungar comigo,
Mas homens rudes e crianças pequenas podem melhor que eles.
O jovem mecânico é o mais próximo de mim, conhece-me bem,
O lenhador que leva consigo o machado e a garrafa me levará
consigo o dia inteiro,
O rapaz da fazenda que ara o campo sente-se bem ao som de minha voz,
Nos navios que navegam minhas palavras navegam, sigo com pescadores e marinheiros
e os amo.
O soldado acampado ou em marcha é meu,
Na noite anterior à batalha iminente muitos me procuram, e não lhes falho,
Nessa noite solene, (pode ser a última deles,) os que me conhecem me procuram.
Meu rosto roça o rosto do caçador quando ele se deita sozinho em seu cobertor,
O condutor que pensa em mim não se incomoda com os solavancos de sua carroça,
A jovem mãe e a velha mãe me compreendem,
A moça e a esposa pousam a agulha por um instante e esquecem onde estão,
Elas e todos retomariam o que lhes contei.
48
Disse que a alma não é mais que o corpo,
E disse que o corpo não é mais que a alma,
E nada, nem Deus, é maior para alguém que seu próprio ser,
E quem percorre um estádio sem compaixão caminha para o próprio
funeral vestido em sua mortalha,
E eu ou tu, sem um centavo no bolso, podemos comprar o que há de melhor na terra,
E olhar com um olho ou mostrar um feijão em sua vagem confunde o
saber de todos os tempos,
E não há ofício ou ocupação em que o jovem que o segue não
possa tornar-se herói,
E não há objeto tão macio que não forme um eixo para o universo sobre rodas,
E digo a qualquer homem ou mulher, Deixa tua alma permanecer serena e tranquila
diante de um milhão de universos.
E digo à humanidade, Não tenhais curiosidade acerca de Deus,
Pois eu, que tenho curiosidade por cada coisa, não tenho curiosidade acerca de Deus,
(Nenhuma sucessão de palavras pode dizer quanto estou em paz com Deus e
com a morte.)
Ouço e contemplo Deus em cada objeto, contudo não compreendo Deus nem um pouco,
Nem compreendo quem poderia ser mais maravilhoso que eu mesmo.
Por que desejaria ver Deus melhor do que neste dia?
Vejo algo de Deus em cada uma das vinte e quatro horas, e em cada instante delas,
Nos rostos de homens e mulheres vejo Deus, e em meu próprio rosto no espelho,
Encontro cartas de Deus caídas na rua, e cada uma está assinada
com o nome de Deus,
E deixo-as onde estão, pois sei que, aonde quer que eu vá,
Outras virão pontualmente para todo o sempre.
49
E quanto a ti, Morte, e a ti, amargo abraço da mortalidade, é inútil
tentares alarmar-me.
Para seu trabalho, sem recuar, vem o parteiro,
Vejo a mão experiente pressionando, recebendo, sustentando,
Reclino-me junto aos umbrais das portas primorosas e flexíveis,
E observo a saída, e observo o alívio e a libertação.
E quanto a ti, Cadáver, creio que és bom adubo, mas isso não
me ofende,
Sinto o perfume das rosas brancas, fragrantes e crescendo,
Estendo-me até os lábios folhosos, estendo-me até os peitos lisos dos melões.
E quanto a ti, Vida, suponho que sejas os restos de muitas mortes,
(Sem dúvida eu mesmo morri dez mil vezes antes.)
Ouço-vos sussurrando ali, ó estrelas do céu,
Ó sóis, ó relva das sepulturas, ó transferências e promoções perpétuas,
Se nada dizeis, como posso eu dizer alguma coisa?
Da poça turva que jaz na floresta de outono,
Da lua que desce as encostas do crepúsculo sussurrante,
Lançai-vos, centelhas do dia e do ocaso, lançai-vos sobre os caules negros que apodrecem
no lodo,
Lançai-vos ao balbucio gemebundo dos galhos secos.
Elevo-me da lua, elevo-me da noite,
Percebo que o clarão espectral são raios do sol do meio-dia refletidos,
E desemboco no firme e central, vindo da descendência grande ou pequena.
50
Há algo em mim, não sei o que é, mas sei que está em mim.
Retorcido e suado, depois meu corpo se torna calmo e fresco,
Durmo, durmo longamente.
Não o conheço, não tem nome, é uma palavra não pronunciada,
Não está em dicionário algum, enunciação, símbolo.
Algo em que ele se apoia mais que a terra em que me apoio,
Para ele a criação é o amigo cujo abraço me desperta.
Talvez eu pudesse dizer mais. Contornos! suplico por meus irmãos e irmãs.
Vedes, ó meus irmãos e irmãs?
Não é caos nem morte, é forma, união, plano, é vida
eterna, é Felicidade.
51
O passado e o presente fenecem, eu os enchi, esvaziei-os.
E prossigo para encher minha próxima dobra do futuro.
Ouvinte aí em cima! o que tens a confiar-me?
Olha em meu rosto enquanto aspiro o roçar do entardecer,
(Fala honestamente, ninguém mais te ouve, e fico apenas mais um minuto.)
Contradigo a mim mesmo?
Muito bem, então contradigo a mim mesmo,
(Sou vasto, contenho multidões.)
Concentro-me nos que estão próximos, espero sobre a laje da porta.
Quem terminou seu trabalho do dia? quem mais cedo acabará a ceia?
Quem deseja caminhar comigo?
Falarás antes que eu parta? já será tarde demais?
52
O falcão malhado mergulha e me acusa, queixa-se de minha tagarelice
e de minha demora.
Também não sou nem um pouco domesticado, também sou intraduzível,
Lanço meu brado bárbaro sobre os telhados do mundo.
A última nuvem veloz do dia se detém por mim,
Lança minha imagem atrás das demais, tão verdadeira quanto qualquer outra, sobre as vastidões sombreadas,
Atrai-me para o vapor e o crepúsculo.
Parto como o ar, sacudo meus cabelos brancos para o sol fugitivo,
Derramo minha carne em remoinhos, e a deixo flutuar em recortes de renda.
Lego a mim mesmo à terra para crescer da relva que amo,
Se me quiseres novamente, procura-me sob as solas de tuas botas.
Dificilmente saberás quem sou ou o que quero dizer,
Mas ainda assim serei boa saúde para ti,
E filtrarei e darei fibra a teu sangue.
Se não conseguires encontrar-me de início, conserva o ânimo,
Se não me achares num lugar, procura em outro,
Paro em algum lugar à tua espera.
Tradução integral direta para o português brasileiro da edição final de 1891–1892 de Folhas de Relva, organizada nos 35 livros reais da obra e preservando seus 377 cabeçalhos estruturais.
Ainda não há resenhas para esta obra. A primeira leitura comentada pode começar aqui.
Uma seleção criada para acompanhar a atmosfera, os personagens e os caminhos desta obra.
Escolha a arte, confira a disponibilidade e adicione o produto ao carrinho sem sair da experiência.
Adquira Relíquias da Obra e deixe sua marca registrada, criando valor ao item!
Capítulos disponíveis para continuar a leitura.
Nenhuma Relíquia desta obra foi adquirida ainda. Seja o primeiro a eternizar seu nome no acervo oficial!
Conhecer as 100 RelíquiasAinda não há resenhas para esta obra. A primeira leitura comentada pode começar aqui.
Nenhuma posse foi registrada publicamente para esta edição.
Durante a leitura, abra Menu para ajustar a experiência sem sair do capítulo. As preferências de aparência ficam salvas neste aparelho.
Recursos identificados como “em preparo” aparecem para antecipar a evolução do leitor, mas ainda não executam uma ação.
Posso mostrar leituras em destaque, clássicos e Relíquias disponíveis agora no Literúnico.
Escolha um caminho
Dúvidas desta página
As explicações do Aurélio são respostas cadastradas pelo Literúnico.