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Folhas de Relva

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Folhas de Relva

Capítulo 24 · Folhas de Relva

LIVRO XXIV. RIACHOS DE OUTONO

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Como Consequência, Etc.

Como consequência da reserva das chuvas de verão,
Ou riachos errantes fluindo no outono,
Ou as ramificações de tantos córregos margeados de ervas,
Ou regatos marítimos subterrâneos seguindo para o mar,
Canto canções de anos contínuos.

Primeiro, as corredeiras sempre modernas da vida, (logo, logo a se misturar
Com as antigas correntes da morte.)

Algumas atravessando os campos agrícolas ou as matas de Ohio,
Algumas descendo os cânions do Colorado desde fontes de neve perpétua,
Algumas meio ocultas no Oregon, ou longe, ao sul, no Texas,
Algumas no norte encontrando seu caminho para Erie, Niagara, Ottawa,
Algumas para as baías da Atlântica, e daí para a vasta salmoura.

Em ti, quem quer que sejas, que percorres meu livro,
Em mim mesmo, em todo o mundo, estas correntes fluindo,
Todas, todas tendendo ao oceano místico.

Correntes para iniciar um novo continente,
Aberturas enviadas ao sólido a partir do líquido,
Fusão de oceano e terra, ondas ternas e pensativas,
(Não apenas seguras e pacíficas, mas ondas despertas e ominosas,
Das profundezas, as ondas abissais da tempestade, quem sabe de onde?
Enfurecendo-se sobre a vastidão, com tantas vergas partidas e velas rasgadas.)

Ou do mar do Tempo, recolhendo e abrangendo tudo, trago
Uma leira de algas e conchas arrastadas.

Ó pequenas conchas, de espirais tão curiosas, tão límpidas, frias e sem voz,
Não evocaríeis, pequenas conchas, levadas aos tímpanos das têmporas,
Ainda murmúrios e ecos, a música tênue e distante da eternidade,
Soprada para o interior, enviada da orla da Atlântica, melodias para a alma
das pradarias,
Reverberações sussurradas, acordes soando jubilosos ao ouvido do Oeste,
Vossas notícias antigas, mas sempre novas e intraduzíveis,
Infinitésimos de minha vida, e de tantas vidas,
(Pois não dou apenas minha vida e meus anos, tudo, tudo dou,)
Estes despojos das profundezas, lançados em terra firme,
Trazidos pelas águas às praias da América?

O Retorno dos Heróis

1
Pelas terras e por estes dias apaixonados e por mim mesmo,
Agora por algum tempo retiro-me para ti, ó solo dos campos de outono,
Reclinado sobre teu peito, entregando-me a ti,
Correspondendo às pulsações de teu coração são e equilibrado,
Compondo um verso para ti.

Ó terra que não tens voz, confia-me uma voz,
Ó colheita de minhas terras, ó ilimitados crescimentos do verão,
Ó pródiga terra castanha e fecunda, ó infinito ventre fervilhante,
Uma canção para narrar-te.

2

Sempre neste palco
É representado o sereno drama anual de Deus,
Esplêndidas procissões, cantos de pássaros,
Nascer do sol que mais plenamente alimenta e mais renova a alma,
O mar que se eleva, as ondas na praia, as ondas musicais e vigorosas,
As matas, as árvores robustas, as árvores delgadas e afiladas,
Os incontáveis exércitos liliputianos da relva,
O calor, as chuvas, as pastagens sem medida,
A paisagem das neves, a livre orquestra dos ventos,
O extenso teto de nuvens suspenso na luz, o cerúleo límpido e as
franjas prateadas,
As estrelas que se dilatam nas alturas, as estrelas plácidas que acenam,
Os rebanhos e manadas em movimento, as planícies e os prados esmeraldinos,
Os espetáculos de todas as terras variadas e de todos os crescimentos e produtos.

3

Fecunda América, hoje,
Estás inteiramente tomada de nascimentos e alegrias!
Gemes de riquezas, tua fartura te veste como faixa que envolve o corpo,
Ris alto com a dor das grandes posses,
Uma vida de miríades entrelaçadas, como vinhas que se cruzam, liga todo o teu vasto domínio,
Como enorme navio carregado até a linha-d’água, entras no porto,
Como a chuva cai do céu e os vapores se erguem da terra, assim
os valores preciosos caíram sobre ti e se ergueram de ti;
Tu, inveja do globo! tu, milagre!
Tu, banhada, sufocada, nadando na abundância,
Tu, afortunada Senhora dos celeiros tranquilos,
Tu, Dama das Pradarias, sentada no centro, contemplando
teu mundo, olhando para o Leste e olhando para o Oeste,
Dispensadora que, com uma palavra, concedes mil milhas, um milhão
de fazendas, e nada deixas escapar,
Tu, que tudo acolhes, tu, hospitaleira, (somente tu és hospitaleira como
Deus é hospitaleiro.)

4

Quando há pouco cantei, triste era minha voz,
Tristes eram os espetáculos ao meu redor, com os ruídos ensurdecedores do ódio e
a fumaça da guerra;
No meio do conflito, dos heróis, permaneci,
Ou passei a passos lentos entre os feridos e moribundos.

Mas agora não canto a guerra,
Nem a marcha cadenciada dos soldados, nem as tendas dos acampamentos,
Nem os regimentos chegando às pressas, desdobrando-se em linha de batalha;
Não mais os tristes e antinaturais espetáculos da guerra.

Pediram passagem aquelas fileiras imortais de faces ardentes, os primeiros exércitos que avançavam?
Pedi passagem, ai, às fileiras medonhas, aos terríveis exércitos que vieram depois.

(Passai, passai, orgulhosas brigadas, com vossas pernas musculosas pisando forte,
Com vossos ombros jovens e robustos, com vossas mochilas e mosquetes;
Como fiquei exultante a observar-vos onde partíeis em marcha.

Passai, então ribombem outra vez os tambores,
Pois um exército surge à vista, ó outro exército que se reúne,
Enxameando, arrastando-se na retaguarda, ó terrível exército que se avoluma,
Ó regimentos tão lastimáveis, com vossa diarreia mortal, com vossa febre,
Ó queridos mutilados de minha terra, com as abundantes bandagens ensanguentadas e
as muletas,
Eis que vosso pálido exército segue.)

5

Mas nestes dias de luminosidade,
Na bela paisagem que se estende ao longe, nas estradas e caminhos, nas
carroças agrícolas empilhadas, nas frutas e celeiros,
Deveriam os mortos intrometer-se?

Ah, os mortos para mim nada estragam, ajustam-se bem à Natureza,
Ajustam-se muito bem à paisagem sob as árvores e a relva,
E ao longo da orla do céu, na margem distante do horizonte.

Tampouco vos esqueço, Partidos,
Nem no inverno nem no verão, meus perdidos,
Mas sobretudo ao ar livre, como agora, quando minha alma está arrebatada e em paz,
como fantasmas agradáveis,
Vossas lembranças erguem-se e deslizam silenciosamente junto a mim.

6

Vi naquele dia o retorno dos heróis,
(Contudo, os heróis jamais superados nunca retornarão,
Naquele dia não os vi.)

Vi o corpo interminável, vi as procissões dos exércitos,
Vi-os aproximando-se, passando em desfile por divisões,
Fluindo para o norte, sua obra cumprida, acampando por algum tempo em grupos de
poderosos acampamentos.

Não soldados de feriado, jovens, porém veteranos,
Gastos, morenos, belos, fortes, da estirpe da propriedade rural e da oficina,
Endurecidos por tantas longas campanhas e marchas suadas,
Curtidos em tantos campos sangrentos duramente disputados.

Uma pausa, os exércitos esperam,
Um milhão de conquistadores inflamados e aguerridos espera,
O mundo também espera, então, suaves como a noite que irrompe e certos como a aurora,
Eles se dissolvem, desaparecem.

Exultai, ó terras! terras vitoriosas!
Não está ali vossa vitória, naqueles campos vermelhos e estremecidos,
Mas aqui e doravante está vossa vitória.

Dissolvei-vos, dissolvei-vos, ó exércitos, dispersai-vos, soldados vestidos de azul,
Retornai outra vez ao que éreis, abandonai de vez vossas armas mortíferas,
Outras serão doravante vossas armas e vossos campos, no Sul ou no Norte,
Com guerras mais sãs, guerras doces, guerras que dão vida.

7

Alto, ó minha garganta, e clara, ó alma!
A estação das graças e a voz da plena produção,
O canto de alegria e poder pela fertilidade ilimitada.

Todos os campos cultivados e incultos se estendem diante de mim,
Vejo as verdadeiras arenas de minha raça, primeiras ou últimas,
As arenas inocentes e vigorosas do homem.

Vejo os heróis em outros labores,
Vejo em suas mãos, bem manejadas, as armas melhores.

Vejo onde a Mãe de Todos,
Com olhar que tudo abrange, contempla ao longe, demora-se,
E conta a variada reunião dos produtos.

Ativo é o panorama distante, iluminado pelo sol,
Pradaria, pomar e grão amarelo do Norte,
Algodão e arroz do Sul e cana da Louisiana,
Pousios abertos ainda não semeados, ricos campos de trevo e timóteo,
Vacas e cavalos pastando, e rebanhos de ovelhas e porcos,
E tantos rios majestosos fluindo e tantos córregos alegres,
E terras altas salubres com brisas perfumadas de ervas,
E a boa relva verde, aquele delicado milagre, a relva que sempre retorna.

8

Trabalhai, heróis! colhei os produtos!
Não apenas naqueles campos de guerra a Mãe de Todos,
De forma dilatada e olhos faiscantes, vos observava.

Trabalhai, heróis! trabalhai bem! manejai bem as armas!
A Mãe de Todos, ainda aqui, como sempre, vos observa.

Satisfeita, América, contemplas
Sobre os campos do Oeste aqueles monstros rastejantes,
As invenções humano-divinas, os instrumentos que poupam trabalho;
Contemplas movendo-se em todas as direções, como se imbuídos de vida, os
ancinhos de feno giratórios,
As ceifadeiras movidas a vapor e as máquinas movidas a cavalo,
Os motores, debulhadores e limpadores de grãos, separando bem
a palha, o trabalho ágil do forcado patenteado,
Contemplas a serraria mais nova, o descaroçador de algodão do sul e o
limpador de arroz.

Sob teu olhar, ó Maternal,
Com estas coisas e outras, e com suas próprias mãos fortes, os heróis colhem.

Todos recolhem e todos colhem,
Contudo, não fosse por ti, ó Poderosa, nenhuma foice poderia oscilar agora em segurança,
Nenhum pé de milho balançaria agora em paz suas borlas sedosas.

Somente sob ti eles colhem, mesmo uma braçada de feno somente sob teu grande
rosto,
Colhem o trigo de Ohio, Illinois, Wisconsin, cada espiga farpada
sob ti,
Colhem o milho de Missouri, Kentucky, Tennessee, cada espiga em sua
bainha verde-clara,
Recolhem o feno em suas miríades de medas nos celeiros tranquilos e perfumados,
A aveia para seus depósitos, a batata branca, o trigo-sarraceno de Michigan, para os seus;
Recolhem o algodão no Mississippi ou Alabama, desenterram e armazenam a
dourada e doce batata da Geórgia e das Carolinas,
Tosquiam a lã da Califórnia ou da Pensilvânia,
Cortam o linho nos Estados Centrais, ou o cânhamo ou o tabaco nas Fronteiras,
Colhem a ervilha e o feijão, ou arrancam maçãs das árvores ou cachos
de uvas das videiras,
Ou tudo o que amadurece em todos estes Estados, no Norte ou no Sul,
Sob o sol radiante e sob ti.

Havia uma Criança que Saía

Havia uma criança que saía todos os dias,
E o primeiro objeto que contemplava, nesse objeto ela se transformava,
E esse objeto se tornava parte dela durante o dia ou certa parte do dia,
Ou por muitos anos ou por extensos ciclos de anos.

Os primeiros lilases tornaram-se parte dessa criança,
E a relva e as campânulas brancas e vermelhas, e o trevo branco e
vermelho, e o canto do papa-moscas,
E os cordeiros do Terceiro Mês e a ninhada rosada e pálida da porca, e o
potro da égua e o bezerro da vaca,
E a ninhada ruidosa do terreiro ou junto à lama à margem do lago,
E os peixes pairando tão curiosamente lá embaixo, e o
belo e curioso líquido,
E as plantas aquáticas com suas graciosas cabeças planas, tudo se tornou parte dela.

Os brotos dos campos do Quarto e do Quinto Mês tornaram-se parte dela,
Brotos dos cereais de inverno e os do milho amarelo-claro, e as
raízes comestíveis da horta,
E as macieiras cobertas de flores e depois de frutos,
e as frutas silvestres, e as ervas mais comuns à beira da estrada,
E o velho bêbado cambaleando para casa desde a dependência da
taverna de onde acabara de se levantar,
E a professora que passava a caminho da escola,
E os meninos amistosos que passavam, e os meninos briguentos,
E as meninas asseadas e de faces frescas, e o menino e a menina negros e descalços,
E todas as mudanças da cidade e do campo por onde quer que ela fosse.

Seus próprios pais, aquele que a gerara e aquela que a concebera
no ventre e lhe dera à luz,
Deram a essa criança mais de si mesmos que tudo aquilo,
Deram-lhe depois, todos os dias, tornaram-se parte dela.

A mãe em casa colocando tranquilamente os pratos sobre a mesa do jantar,
A mãe de palavras suaves, limpas a touca e a roupa, um aroma saudável
desprendendo-se de sua pessoa e de suas roupas enquanto passa,
O pai, forte, autossuficiente, viril, mesquinho, enfurecido, injusto,
O golpe, a palavra rápida e sonora, o acordo apertado, a sedução astuta,
Os costumes da família, a linguagem, a companhia, os móveis, o
coração que anseia e se avoluma,
A afeição que não admite contestação, o sentido daquilo que é real, o
pensamento de que afinal talvez se revele irreal,
As dúvidas do dia e as dúvidas da noite, a curiosidade
sobre se e como,
Se aquilo que assim aparece é assim, ou tudo são lampejos e partículas?
Homens e mulheres apinhando-se depressa nas ruas, se não são lampejos
e partículas, o que são?
As próprias ruas e as fachadas das casas, e as mercadorias nas vitrines,
Veículos, parelhas, os cais de grossas pranchas, a enorme travessia
das balsas,
A aldeia na elevação vista de longe ao pôr do sol, o rio entre elas,
Sombras, auréola e névoa, a luz caindo sobre telhados e frontões
brancos ou castanhos a duas milhas de distância,
A escuna próxima descendo sonolenta com a maré, o pequeno
barco rebocado frouxamente à popa,
As ondas apressadas e revoltas, as cristas que depressa se desfazem, golpeando,
Os estratos de nuvens coloridas, a longa faixa de tom castanho-avermelhado ao longe,
solitária por si mesma, a extensão de pureza em que jaz imóvel,
A borda do horizonte, o corvo-marinho em voo, a fragrância do pântano salgado
e da lama da praia,
Estas coisas tornaram-se parte daquela criança que saía todos os dias, e que
agora sai, e sempre sairá todos os dias.

Velha Irlanda

Longe daqui, no meio de uma ilha de beleza maravilhosa,
Curvada sobre uma sepultura, uma mãe antiga e pesarosa,
Outrora rainha, agora magra e esfarrapada, sentada no chão,
Seus velhos cabelos brancos caindo desgrenhados ao redor dos ombros,
A seus pés, caída, uma harpa real sem uso,
Há muito silenciosa, ela também há muito silenciosa, lamentando sua esperança e seu herdeiro amortalhados,
De toda a terra, seu coração mais cheio de tristeza por ser o mais cheio de amor.

Contudo, uma palavra, antiga mãe,
Já não precisas permanecer curvada ali no chão frio, com a fronte
entre os joelhos,
Ó, não precisas permanecer sentada ali, velada por teus velhos cabelos brancos tão desgrenhados,
Pois sabe que aquele por quem choras não está naquela sepultura,
Foi uma ilusão, o filho que amas não estava realmente morto,
O Senhor não está morto, ressuscitou jovem e forte em outro país,
Mesmo enquanto choravas ali junto à harpa caída, ao lado da sepultura,
Aquilo por que choravas foi trasladado, passou para além da sepultura,
Os ventos o favoreceram e o mar o transportou,
E agora, com sangue novo e rosado,
Move-se hoje em um novo país.

O Necrotério da Cidade

Junto ao necrotério da cidade, perto do portão,
Enquanto, ocioso, eu vagava, afastando-me do clangor,
Detenho-me curioso, pois eis uma figura rejeitada, uma pobre prostituta morta que trouxeram,
Depositam seu cadáver, não reclamado, jaz sobre o úmido pavimento de tijolos,
A mulher divina, seu corpo, vejo o corpo, contemplo somente a ele,
Aquela casa outrora cheia de paixão e beleza, nada mais percebo,
Nem a imobilidade tão fria, nem a água correndo da torneira, nem os odores
mórbidos me impressionam,
Mas somente a casa, aquela casa prodigiosa, aquela casa delicada e bela,
aquela ruína!
Aquela casa imortal, maior que todas as fileiras de moradias jamais construídas!
Ou que o capitólio de cúpula branca coroado por majestosa figura, ou todas as
antigas catedrais de altas torres,
Aquela pequena casa, sozinha, maior que todas elas, pobre casa desesperada!
Bela e terrível ruína, morada de uma alma, ela própria uma alma,
Casa não reclamada, evitada, recebe um sopro de meus lábios trêmulos,
Recebe uma lágrima que deixo cair de lado ao passar, pensando em ti,
Casa morta do amor, casa da loucura e do pecado, desfeita, esmagada,
Casa da vida, outrora falando e rindo, mas ah, pobre casa,
morta já então,
Meses, anos, casa ressoante, adornada, mas morta, morta, morta.

Este Composto

1
Algo me assusta onde eu julgava estar mais seguro,
Retiro-me dos bosques quietos que amava,
Não irei agora caminhar pelas pastagens,
Não tirarei as roupas do corpo para encontrar meu amante, o mar,
Não encostarei minha carne na terra como em outra carne para me renovar.

Ó, como pode ser que o próprio solo não adoeça?
Como podeis estar vivos, rebentos da primavera?
Como podeis oferecer saúde, sangue das ervas, raízes, pomares, cereais?
Não estão continuamente depositando cadáveres enfermos dentro de vós?
Não é cada continente revolvido vezes e mais vezes com mortos azedos?

Onde dispusestes suas carcaças?
Aqueles bêbados e glutões de tantas gerações?
Para onde drenastes todo o líquido imundo e toda a carne?
Hoje não vejo nada disso sobre vós, ou talvez esteja enganado,
Abrirei um sulco com meu arado, cravarei minha pá
através da relva e revolverei o que há por baixo,
Tenho certeza de que exporei um pouco da carne imunda.

2

Vede este composto! vede-o bem!
Talvez cada partícula tenha formado um dia parte de um enfermo, contudo vede!
A relva da primavera cobre as pradarias,
O feijão rompe silenciosamente o húmus no jardim,
A delicada lança da cebola perfura para cima,
Os brotos da macieira se agrupam nos galhos,
A ressurreição do trigo surge com rosto pálido de seus túmulos,
O matiz desperta sobre o salgueiro e a amoreira,
Os pássaros machos cantam de manhã e à tarde enquanto as fêmeas permanecem
nos ninhos,
Os filhotes das aves rompem os ovos chocados,
Surgem os recém-nascidos dos animais, o bezerro cai da vaca, o
potro da égua,
De seu pequeno montículo erguem-se fiéis as folhas verde-escuras da batata,
De seu montículo ergue-se o caule amarelo do milho, os lilases florescem
diante das portas,
O crescimento do verão, inocente e desdenhoso, eleva-se acima de todos aqueles estratos
de mortos azedos.

Que química!
Que os ventos realmente não sejam infecciosos,
Que não seja fraude esta transparente aguada verde do mar, que
tanto me deseja,
Que seja seguro deixá-la lamber todo o meu corpo nu com suas línguas,
Que ela não me ponha em perigo com as febres que nela
se depositaram,
Que tudo esteja limpo para todo o sempre,
Que a bebida fresca do poço tenha sabor tão bom,
Que as amoras sejam tão saborosas e suculentas,
Que os frutos do pomar de macieiras e do pomar de laranjeiras, que
os melões, uvas, pêssegos e ameixas, nenhum deles me envenene,
Que, ao me reclinar sobre a relva, eu não contraia doença alguma,
Embora provavelmente cada folha de relva nasça daquilo que outrora
transmitia doenças.

Agora a Terra me aterroriza, tão calma e paciente ela é,
Faz crescer coisas tão doces de tamanhas corrupções,
Gira inofensiva e imaculada sobre seu eixo, com tão intermináveis
sucessões de cadáveres enfermos,
Destila ventos tão primorosos de tamanho fedor impregnado,
Renova com semblante tão inconsciente suas pródigas, anuais e suntuosas colheitas,
Dá aos homens materiais tão divinos e por fim aceita deles
tais restos.

A um Revolucionário Europeu Derrotado

Coragem ainda, meu irmão ou minha irmã!
Prossegue, a Liberdade deve ser servida, aconteça o que acontecer;
Nada significa ser sufocada por um ou dois fracassos, ou por qualquer
número de fracassos,
Ou pela indiferença ou ingratidão do povo, ou por qualquer
deslealdade,
Ou pela exibição das presas do poder, soldados, canhões, leis penais.

Aquilo em que acreditamos espera latente para sempre através de todos os continentes,
Não convida ninguém, nada promete, repousa em calma e luz, é
afirmativo e sereno, não conhece o desalento,
Espera pacientemente, espera sua hora.

(Não são somente canções de lealdade estas,
Mas também canções de insurreição,
Pois sou o poeta juramentado de todo rebelde intrépido mundo afora,
E aquele que segue comigo deixa para trás a paz e a rotina,
E arrisca a vida, que pode perder a qualquer momento.)

A batalha se enfurece entre muitos alarmes estrondosos e frequentes avanços e recuos,
O infiel triunfa, ou supõe que triunfa,
A prisão, o cadafalso, o garrote, as algemas, o colar de ferro e
as balas de chumbo fazem seu trabalho,
Os heróis com nome e sem nome passam a outras esferas,
Os grandes oradores e escritores são exilados, jazem doentes em terras distantes,
A causa dorme, as gargantas mais fortes são sufocadas pelo próprio sangue,
Os jovens baixam os cílios para o chão quando se encontram;
Mas, apesar de tudo, a Liberdade não deixou o lugar, nem o
infiel tomou posse completa.

Quando a liberdade deixa um lugar, não é a primeira a partir, nem a
segunda ou a terceira,
Espera que todo o restante se vá, é a última.

Quando já não houver lembranças de heróis e mártires,
E quando toda a vida e todas as almas de homens e mulheres forem retiradas
de alguma parte da terra,
Somente então a liberdade ou a ideia de liberdade será retirada
daquela parte da terra,
E o infiel tomará posse completa.

Então coragem, rebelde europeu, homem ou mulher!
Pois, enquanto tudo não cessar, tampouco deves cessar.

Não sei para que serves, (não sei para que eu mesmo sirvo,
nem para que serve coisa alguma,)
Mas procurarei atentamente por isso até mesmo na derrota,
No fracasso, na pobreza, na incompreensão, no encarceramento, pois também são grandiosos.

Pensávamos que a vitória era grandiosa?
E é, mas agora me parece, quando não há como evitá-lo, que
a derrota é grandiosa,
E que a morte e o desalento são grandiosos.

Terra Sem Nome

Nações de dez mil anos antes destes Estados, e de muitas vezes dez
mil anos antes destes Estados,
Feixes acumulados de eras em que homens e mulheres como nós cresceram,
percorreram seu curso e passaram,
Que cidades de vasta construção, que repúblicas ordenadas, que tribos pastoris
e nômades,
Que histórias, governantes, heróis, talvez superiores a todos os outros,
Que leis, costumes, riquezas, artes, tradições,
Que formas de casamento, que trajes, que fisiologia e frenologia,
Que liberdade e escravidão havia entre eles, o que pensavam da morte
e da alma,
Quem era espirituoso e sábio, quem belo e poético, quem brutal e
não desenvolvido,
Nem sinal, nem registro permanece, e contudo tudo permanece.

Ó, sei que aqueles homens e mulheres não existiram em vão, assim como
nós não existimos em vão,
Sei que pertencem ao plano do mundo em cada parcela tanto quanto
nós agora pertencemos a ele.

Distantes permanecem, contudo permanecem perto de mim,
Alguns de semblantes ovais, instruídos e calmos,
Alguns nus e selvagens, alguns como enormes aglomerados de insetos,
Alguns em tendas, pastores, patriarcas, tribos, cavaleiros,
Alguns rondando pelos bosques, alguns vivendo pacificamente em fazendas,
trabalhando, ceifando, enchendo celeiros,
Alguns percorrendo avenidas pavimentadas, entre templos, palácios, fábricas,
bibliotecas, espetáculos, tribunais, teatros, monumentos prodigiosos.
Terão realmente desaparecido aqueles bilhões de homens?
Terão desaparecido aquelas mulheres da antiga experiência da terra?
Suas vidas, cidades, artes, repousam somente conosco?
Nada realizaram de bom para si mesmos?

Creio que, de todos aqueles homens e mulheres que encheram as terras sem nome,
cada qual existe nesta hora aqui ou em outro lugar, invisível para nós.
Na exata proporção daquilo a partir do qual ele ou ela cresceu em vida, e daquilo
que ele ou ela fez, sentiu, tornou-se, amou, pecou, em vida.

Creio que aquele não foi o fim daquelas nações nem de pessoa alguma
entre elas, assim como este não será o fim de minha nação, nem o meu;
De suas línguas, governos, casamentos, literaturas, produtos,
jogos, guerras, maneiras, crimes, prisões, escravos, heróis, poetas,
Suspeito que seus resultados aguardem curiosamente no mundo ainda invisível,
correspondentes ao que lhes adveio no mundo visível,
Suspeito que os encontrarei lá,
Suspeito que lá encontrarei cada antiga particularidade daquelas terras sem nome.

Canção da Prudência

Pelas ruas de Manhattan vaguei meditando,
Sobre o Tempo, o Espaço, a Realidade, sobre coisas como essas, e, lado a lado com elas, a Prudência.

A explicação final acerca da prudência permanece sempre por fazer,
Pequenos e grandes igualmente se afastam em silêncio da prudência que
convém à imortalidade.

A alma existe por si mesma,
Tudo converge para ela, tudo se refere ao que se segue,
Tudo que uma pessoa faz, diz, pensa, tem consequência,
Nenhum movimento pode um homem ou uma mulher fazer que o afete em um dia,
mês, em qualquer parte da vida direta, ou na hora da morte,
Sem que o mesmo o afete depois, ao longo
da vida indireta.

O indireto é tanto quanto o direto,
O espírito recebe do corpo tanto quanto dá ao
corpo, se não mais.

Nenhuma palavra ou ação, nenhuma chaga venérea, descoloração, intimidade
do onanista,
Putrefação de glutões ou bebedores de rum, desvio de dinheiro, astúcia,
traição, assassinato, sedução, prostituição,
Deixa de produzir resultados além da morte tão realmente quanto antes da morte.

A caridade e a força pessoal são os únicos investimentos que valem alguma coisa.

Nenhuma especificação é necessária, tudo o que um homem ou uma mulher faz,
sendo vigoroso, benevolente, limpo, constitui lucro para ele ou ela,
Na ordem inabalável do universo e através de toda a extensão
dele para sempre.

Quem foi sábio recebe juros,
Selvagem, criminoso, Presidente, juiz, agricultor, marinheiro, mecânico, literato,
jovem, velho, é o mesmo,
Os juros retornarão, tudo retornará.

Isoladamente, inteiramente, para influir agora, tendo influído em seu tempo, influirá para sempre,
todo o passado, todo o presente e todo o futuro,
Todas as ações corajosas da guerra e da paz,
Toda ajuda dada a parentes, estranhos, pobres, velhos, aflitos,
crianças pequenas, viúvas, enfermos e pessoas evitadas,
Toda abnegação que permaneceu firme e afastada sobre destroços, e viu
outros ocuparem os assentos dos botes,
Toda oferta de bens ou vida pela boa e velha causa, ou por
um amigo, ou por uma convicção,
Todos os sofrimentos de entusiastas ridicularizados pelos vizinhos,
Todo o ilimitado amor doce e o precioso sofrimento das mães,
Todos os homens honestos frustrados em conflitos registrados ou não registrados,
Toda a grandeza e o bem das antigas nações cujos fragmentos herdamos,
Todo o bem das dezenas de antigas nações que desconhecemos por nome,
data ou localização,
Tudo que alguma vez foi virilmente iniciado, tenha triunfado ou não,
Todas as sugestões da mente divina do homem ou da divindade de sua
boca, ou da modelagem de suas grandes mãos,
Tudo que é bem pensado ou dito neste dia em qualquer parte do globo,
ou em qualquer das estrelas errantes, ou em qualquer das estrelas fixas,
pelos que lá estão como nós estamos aqui,
Tudo que de agora em diante será pensado ou feito por ti, quem quer que sejas,
ou por qualquer pessoa,
Tudo isso beneficia, beneficiou, beneficiará as identidades das quais
surgiu ou surgirá.

Supunhas que alguma coisa vivesse somente seu momento?
O mundo não existe assim, nenhuma parte palpável ou impalpável existe assim,
Nenhuma consumação existe sem provir de alguma consumação
muito anterior, e esta de alguma outra,
Sem que a mais distante concebível se aproxime um pouco mais do
princípio que qualquer outra.

Tudo que satisfaz as almas é verdadeiro;
A Prudência satisfaz inteiramente o anseio e a plenitude das almas,
Somente ela, enfim, satisfaz a alma,
A alma possui aquele orgulho sem medida que se revolta contra toda lição,
exceto a sua própria.

Agora pronuncio a palavra da prudência que caminha lado a lado com o tempo,
o espaço, a realidade,
Que responde ao orgulho que recusa toda lição, exceto a sua própria.

O que é prudência é indivisível,
Recusa-se a separar uma parte da vida de todas as outras,
Não divide o justo do injusto, nem o vivo do morto,
Faz corresponder cada pensamento ou ato a seu correlato,
Não conhece perdão possível nem expiação delegada,
Sabe que o jovem que serenamente arriscou a vida e a perdeu
fez sem dúvida muitíssimo bem a si mesmo,
Que aquele que nunca arriscou a vida, mas a conserva até a velhice
em riqueza e conforto, provavelmente nada realizou para si digno
de menção,
Sabe que somente aprendeu de fato aquela pessoa que aprendeu a
preferir os resultados,
Que favorece igualmente corpo e alma,
Que percebe o indireto seguindo infalivelmente o direto,
Que em seu espírito, em qualquer emergência, nem se precipita nem
evita a morte.

A Cantora na Prisão

Ó visão de piedade, vergonha e dor!
Ó pensamento terrível, uma alma condenada.

1

Ressoou o refrão pelo salão, pela prisão,
Subiu ao teto, às abóbadas do céu acima,
Derramando-se em torrentes de melodia, em tons tão pensativos, doces e fortes,
como jamais se ouvira,
Alcançando a sentinela distante e os guardas armados, que cessaram suas rondas,
Fazendo parar de êxtase e assombro o pulso de quem escutava.

2

O sol estava baixo no oeste, num dia de inverno,
Quando por um corredor estreito, entre os ladrões e fora da lei do país,
(Ali sentados às centenas, assassinos de rostos crestados, falsificadores astutos,
Reunidos para a igreja dominical dentro dos muros da prisão, os carcereiros ao redor,
Numerosos, bem armados, vigiando com olhos atentos,)
Uma senhora caminhou serenamente, segurando uma pequena criança inocente por cada mão,
E, depois de acomodá-las em bancos ao seu lado sobre o estrado,
Ela, primeiro preludiando ao instrumento um prelúdio baixo e musical,
Com voz superior a todas, entoou um antigo hino singular.

Uma alma presa por barras e grilhões,
Clama, socorro! Ó socorro! e torce as mãos,
Cegos os olhos, sangrando o peito,
Não encontra perdão, nem bálsamo de repouso.

Sem cessar caminha de um lado a outro,
Ó dias de coração enfermo! Ó noites de aflição!
Nem mão de amigo, nem rosto amoroso,
Nem favor lhe chega, nem palavra de graça.

Não fui eu quem cometeu o pecado,
O corpo implacável arrastou-me para dentro;
Embora por muito tempo eu lutasse corajosamente,
O corpo era forte demais para mim.

Querida alma aprisionada, resiste por algum tempo,
Pois cedo ou tarde chegará a graça certa;
Para te libertar e levar-te para casa,
Virá a morte, o perdoador celeste.

Não mais condenada, nem vergonha, nem dor!
Parte, alma libertada por Deus!

3

A cantora cessou,
Um olhar de seus olhos claros e serenos percorreu todos aqueles rostos erguidos,
Estranho mar de rostos de prisioneiros, mil rostos variados, astutos, brutais,
marcados e belos,
Então, levantando-se, retornando pelo estreito corredor entre eles,
Enquanto seu vestido os tocava, roçando no silêncio,
Desapareceu com as crianças na penumbra.

Enquanto sobre todos, condenados e guardas armados, antes que se movessem,
(O condenado esquecendo a prisão, o guarda sua pistola carregada,)
Um silêncio e uma pausa desceram por um minuto prodigioso,
Com soluços profundos e meio sufocados e o som de homens maus curvados e comovidos até o pranto,
E as respirações convulsivas da juventude, lembranças do lar,
A voz da mãe em cantiga de ninar, o cuidado da irmã, a infância feliz,
O espírito por tanto tempo contido despertado para a reminiscência;
Um minuto prodigioso então, mas depois, na noite solitária, para muitos,
muitos ali,
Anos depois, até mesmo na hora da morte, o triste refrão, a melodia,
a voz, as palavras,
Recomeçavam, a grande senhora serena percorre o estreito corredor,
A melodia lamentosa outra vez, a cantora canta na prisão,

Ó visão de piedade, vergonha e dor!
Ó pensamento terrível, uma alma condenada.

Trinado para o Tempo dos Lilases

Trina para mim agora pela alegria do tempo dos lilases, (retornando em reminiscência,)
Ordenai para mim, ó língua e lábios, em nome da Natureza, lembranças do começo do verão,
Reuni os sinais bem-vindos, (como crianças com pedrinhas ou enfiando conchas num fio,)
Incluí abril e maio, as pererecas coaxando nos lagos, o ar elástico,
Abelhas, borboletas, o pardal com suas notas simples,
O azulão e a andorinha veloz, nem esqueçais o pica-pau-de-topete-vermelho exibindo
suas asas douradas,
A névoa tranquila e ensolarada, a fumaça suspensa, o vapor,
O cintilar das águas com peixes nelas, o cerúleo acima,
Tudo que é jovial e cintilante, os riachos correndo,
Os bosques de bordos, os dias límpidos de fevereiro e o fabrico do açúcar,
O tordo onde salta, olhos brilhantes, peito castanho,
Com chamado musical e claro ao nascer do sol, e outra vez ao pôr do sol,
Ou esvoaçando entre as árvores do pomar de macieiras, construindo o ninho
de sua companheira,
A neve derretida de março, o salgueiro lançando seus brotos verde-amarelos,
Pois a primavera chegou! o verão chegou! e que é isto dentro dele
e vindo dele?
Tu, alma, desprendida, a inquietação por algo que não sei o quê;
Vem, não nos demoremos mais aqui, levantemo-nos e partamos!
Ó, se ao menos se pudesse voar como um pássaro!
Ó, escapar, fazer-se ao largo como num navio!
Deslizar contigo, ó alma, sobre tudo, em tudo, como um navio sobre as águas;
Reunindo estes indícios, os prelúdios, o céu azul, a relva, as
gotas matinais de orvalho,
O perfume dos lilases, os arbustos de folhas verde-escuras em forma de coração,
Violetas silvestres, as pequenas e delicadas flores pálidas chamadas inocência,
Amostras e espécies não somente por si mesmas, mas por sua atmosfera,
Para adornar o arbusto que amo, para cantar com os pássaros,
Um trinado pela alegria que retorna na reminiscência.

Esboços para um Túmulo [G. P., Sepultado em 1870]

1
Que podemos cantar, ó tu que estás dentro deste túmulo?
Que placas, que esboços pendurar para ti, ó milionário?
A vida que viveste não conhecemos,
Mas sabemos que atravessaste teus anos no comércio, entre os redutos
dos corretores,
Nem heroísmo foi teu, nem guerra, nem glória.

2

Silenciosa, minha alma,
Com as pálpebras baixadas, como à espera, meditava,
Afastando-se de todas as amostras, monumentos de heróis.

Enquanto, pelas perspectivas interiores,
Erguiam-se sem ruído, fantasmagóricas, (como à noite as Auroras do norte,)
Cenas luminosas, proféticas, incorpóreas,
Projeções espirituais.

Numa delas, entre as ruas da cidade, aparecia o lar de um trabalhador,
Terminado seu dia de trabalho, limpo, de ar agradável, a luz de gás acesa,
O tapete varrido e um fogo no alegre fogão.

Numa delas, a cena sagrada do parto,
Uma mãe feliz e sem dor dava à luz uma criança perfeita.

Numa delas, numa farta refeição matinal,
Sentavam-se pais tranquilos com filhos satisfeitos.

Numa delas, de dois em dois e de três em três, jovens,
Centenas convergindo, percorriam caminhos, ruas e estradas,
Em direção a uma escola de alta cúpula.

Numa delas, um belo trio,
Avó, filha amorosa, filha da filha amorosa, sentavam-se,
Conversando e costurando.

Numa delas, ao longo de uma sequência de salas nobres,
Entre livros e jornais em abundância, pinturas nas paredes, delicadas estatuetas,
Havia grupos de oficiais e mecânicos amigos, jovens e velhos,
Lendo, conversando.

Todos, todos os espetáculos da vida trabalhadora,
Da cidade e do campo, das mulheres, dos homens e das crianças,
Suas necessidades atendidas, coloridas pelo sol e pela primeira vez tingidas de alegria,
O casamento, a rua, a fábrica, a fazenda, o aposento da casa, o quarto de hospedagem,
O trabalho e o pedágio, o banho, o ginásio, o campo de jogos, a biblioteca, a faculdade,
O estudante, menino ou menina, conduzido adiante para aprender,
O enfermo cuidado, o descalço calçado, o órfão recebendo pai e mãe,
O faminto alimentado, o sem-teto abrigado;
(As intenções perfeitas e divinas,
A execução, os detalhes, talvez humanos.)

3

Ó tu que estás dentro deste túmulo,
De ti tais cenas, tu, doador sem limites, pródigo,
Igualando as dádivas da terra, vastas como a terra,
Teu nome uma terra, com montanhas, campos e marés.

Nem somente junto a vossas correntes, ó rios,
Junto a ti e a tuas margens, Connecticut,
Junto a ti e a toda a tua vida abundante, velho Thames,
Junto a ti, Potomac, banhando o solo que Washington pisou, junto a ti, Patapsco,
Tu, Hudson, tu, Mississippi interminável, nem somente vós,
Mas aos altos-mares lança-te, meu pensamento, sua memória.

De Trás Desta Máscara [Para Encarar um Retrato]

1
De trás desta máscara curva, talhada rudemente,
Destas luzes e sombras, deste drama do todo,
Desta cortina comum do rosto contida em mim para mim, em ti para
ti, em cada um para cada um,
(Tragédias, tristezas, risos, lágrimas, ó céu!
As peças apaixonadas e fervilhantes que esta cortina ocultava!)
Deste esmalte do céu mais sereno e puro de Deus,
Desta película do poço fervente de Satã,
Deste mapa da geografia do coração, deste pequeno continente sem limites, deste
mar sem som;
Das circunvoluções deste globo,
Deste orbe astronômico mais sutil que o sol ou a lua, que Júpiter, Vênus, Marte,
Desta condensação do universo, (não, aqui o único universo,
Aqui a ideia, tudo envolto neste punhado místico;)
Destes olhos gravados a buril, lampejando para ti, para passar ao tempo futuro,
Para lançar-se e girar pelo espaço, rodopiando de lado, destes olhos emanar,
Para ti, quem quer que sejas, um olhar.

2

Um viajante de pensamentos e anos, de paz e guerra,
Da juventude há muito passada e da meia-idade em declínio,
(Como o primeiro volume de uma história lido e guardado, e este o segundo,
Canções, aventuras, especulações, prestes a se encerrar,)
Demorando-me um momento aqui e agora, volto-me de frente para ti,
Como na estrada, ou diante de alguma porta entreaberta ao acaso, ou janela aberta,
Parando, inclinando-me, descobrindo a cabeça, a ti especialmente saúdo,
Para atrair e unir tua alma, uma vez, inseparavelmente à minha,
Depois seguir, seguir viagem.

Vocalismo

1
Vocalismo, medida, concentração, determinação e o poder divino
de pronunciar palavras;
Tens pulmões plenos e lábios flexíveis por longa provação? por prática
vigorosa? pela constituição física?
Moves-te por estas terras amplas com amplitude igual à delas?
Chegaste devidamente ao poder divino de pronunciar palavras?
Pois somente ao fim, depois de muitos anos, depois da castidade, amizade,
procriação, prudência e nudez,
Depois de pisar o solo e enfrentar rios e lagos com o peito,
Depois de soltar a garganta, depois de absorver eras, temperamentos, raças,
depois do conhecimento, da liberdade, dos crimes,
Depois da fé completa, depois de esclarecimentos, elevações e remoção
de obstáculos,
Depois disso e de mais, é apenas possível que chegue a um homem,
a uma mulher, o poder divino de pronunciar palavras;
Então, para esse homem ou essa mulher, tudo se apressa velozmente, nada
recusa, tudo acorre,
Exércitos, navios, antiguidades, bibliotecas, pinturas, máquinas, cidades,
ódio, desespero, amizade, dor, roubo, assassinato, aspiração, formam
fileiras cerradas,
Desembocam conforme são chamados a marchar obedientemente pela
boca desse homem ou dessa mulher.

2

Ó, que há em mim que me faz tremer tanto diante das vozes?
Certamente, quem quer que me fale com a voz certa, a ele ou a ela seguirei,
Como a água segue a lua, silenciosamente, com passos fluidos, por qualquer lugar
ao redor do globo.

Tudo espera pelas vozes certas;
Onde está o órgão exercitado e perfeito? onde está a alma desenvolvida?
Pois vejo que cada palavra ali pronunciada possui sons mais profundos, mais doces, novos,
impossíveis sob condições menores.

Vejo cérebros e lábios fechados, tímpanos e têmporas não percutidos,
Até chegar aquilo que possui a qualidade de percutir e abrir,
Até chegar aquilo que possui a qualidade de fazer surgir o que jaz
adormecido, para sempre pronto, em todas as palavras.

Àquele que Foi Crucificado

Meu espírito ao teu, querido irmão,
Não te importes porque muitos que pronunciam teu nome não te compreendem,
Eu não pronuncio teu nome, mas te compreendo,
Nomeio-te com alegria, ó meu camarada, para saudar-te, e saudar
os que estão contigo, antes e depois, e também os que virão,
Pois todos trabalhamos juntos, transmitindo a mesma incumbência e sucessão,
Nós, poucos iguais, indiferentes às terras, indiferentes aos tempos,
Nós, que abrangemos todos os continentes, todas as castas, que admitimos todas as teologias,
Compassivos, perceptivos, unidos aos homens,
Caminhamos silenciosos entre disputas e afirmações, mas não rejeitamos
os contendores nem coisa alguma que se afirme,
Ouvimos os brados e o estrondo, somos atingidos por divisões,
ciúmes, recriminações de todos os lados,
Elas avançam imperiosamente sobre nós para nos cercar, meu camarada,
E contudo caminhamos sem amarras, livres, por toda a terra, viajando para cima e
para baixo até deixarmos nossa marca indelével no tempo e nas diversas eras,
Até saturarmos o tempo e as eras, para que os homens e mulheres de raças
e tempos futuros possam mostrar-se irmãos e amantes como nós.

Vós, Criminosos Julgados nos Tribunais

Vós, criminosos julgados nos tribunais,
Vós, condenados nas celas das prisões, vós, assassinos sentenciados, acorrentados e
algemados com ferro,
Quem sou eu também para não estar sendo julgado ou na prisão?
Eu, implacável e diabólico como qualquer um, por que meus pulsos não estão presos com
ferro, nem meus tornozelos com ferro?

Vós, prostitutas que vos exibis pelas calçadas ou obscenas em vossos quartos,
Quem sou eu para vos chamar mais obscenas que a mim mesmo?

Ó culpado! reconheço, exponho!
(Ó admiradores, não me louveis, não me elogiais, fazeis-me estremecer,
Vejo o que não vedes, sei o que não sabeis.)

Dentro destes ossos do peito jazo manchado e sufocado,

Sob este rosto que parece tão impassível, correm sem cessar as marés do inferno,
A luxúria e a perversidade me são aceitáveis,
Caminho com os transgressores em amor apaixonado,
Sinto que sou um deles, eu próprio pertenço àqueles condenados e prostitutas,
E de agora em diante não os negarei, pois como poderia negar a mim mesmo?

Leis para as Criações

Leis para as criações,
Para artistas e líderes vigorosos, para novas gerações de mestres e
literatos perfeitos para a América,
Para nobres sábios e músicos vindouros.
Tudo deve referir-se ao conjunto do mundo e à
verdade compacta do mundo,
Não haverá tema pronunciado demais, todas as obras ilustrarão
a lei divina das vias indiretas.

O que supões que seja a criação?
O que supões que satisfará a alma, senão caminhar livre e
não reconhecer superior algum?
O que supões que eu te insinuaria de cem maneiras, senão
que o homem ou a mulher é tão bom quanto Deus?
E que não há Deus mais divino que Tu Mesmo?
E que isso é o que enfim significam os mitos mais antigos e os mais novos?
E que tu ou qualquer pessoa deve aproximar-se das criações por meio de tais leis?

A uma Prostituta Comum

Fica serena, fica à vontade comigo, sou Walt Whitman, liberal e
ardente como a Natureza,
Enquanto o sol não te excluir, eu não te excluirei,
Enquanto as águas não se recusarem a cintilar para ti e as folhas a
farfalhar para ti, minhas palavras não se recusarão a cintilar e farfalhar para ti.

Minha moça, marco contigo um encontro, e te ordeno que
te prepares para seres digna de me encontrar,
E te ordeno que sejas paciente e perfeita até que eu chegue.

Até lá te saúdo com um olhar significativo, para que não te esqueças de mim.

Procurei por Muito Tempo

Procurei por muito tempo as Intenções,
Uma pista para a história do passado, para mim mesmo e para estes
cânticos, e agora a encontrei,
Não está naquelas fábulas encerradas em páginas nas bibliotecas, (não as
aceito nem as rejeito,)
Não está mais nas lendas do que em tudo o mais,
Está no presente, é esta terra de hoje,
Está na Democracia, (o propósito e o objetivo de todo o passado,)
É a vida de um homem ou de uma mulher de hoje, o homem comum de hoje,
Está nas línguas, nos costumes sociais, nas literaturas, nas artes,
Está no vasto espetáculo das coisas artificiais, navios, maquinaria,
política, credos, aperfeiçoamentos modernos e o intercâmbio entre as nações,
Tudo para o moderno, tudo para o homem comum de hoje.

Pensamento

Sobre pessoas que chegaram a altas posições, cerimônias, riquezas,
erudição e coisas semelhantes;
(Para mim, tudo aquilo a que essas pessoas chegaram se desprende delas,
exceto na medida em que resulta em seus corpos e almas,
De modo que muitas vezes me parecem esquálidas e nuas,
E muitas vezes cada uma me parece zombar das outras e de si mesma,
E, em cada uma, o cerne da vida, isto é, a felicidade, está cheio dos
excrementos apodrecidos dos vermes,
E muitas vezes me parece que esses homens e mulheres passam, sem perceber, pelas verdadeiras
realidades da vida e seguem rumo a falsas realidades,
E muitas vezes me parece que estão vivos segundo aquilo que o costume lhes proporcionou,
mas nada além disso,
E muitas vezes me parecem sonâmbulos tristes, apressados, ainda não despertos, caminhando no crepúsculo.)

Milagres

Ora, quem dá grande importância a um milagre?
Quanto a mim, nada conheço além de milagres,
Quer eu caminhe pelas ruas de Manhattan,
Ou lance o olhar por sobre os telhados das casas em direção ao céu,
Ou avance com os pés nus pela praia, bem à beira da água,
Ou permaneça sob as árvores nos bosques,
Ou converse de dia com alguém que amo, ou durma à noite na cama
com alguém que amo,
Ou me sente à mesa para jantar com os demais,
Ou observe os desconhecidos sentados diante de mim no bonde,
Ou contemple as abelhas ocupadas ao redor da colmeia numa manhã de verão,
Ou os animais alimentando-se nos campos,
Ou os pássaros, ou a maravilha dos insetos no ar,
Ou a maravilha do pôr do sol, ou das estrelas brilhando tão quietas
e luminosas,
Ou a primorosa, delicada e fina curva da lua nova na primavera;
Estes, com todo o restante, cada um e todos, são para mim milagres,
O todo relacionado, mas cada qual distinto e em seu lugar.

Para mim, cada hora de luz e escuridão é um milagre,
Cada polegada cúbica do espaço é um milagre,
Cada jarda quadrada da superfície da terra está recoberta deles,
Cada pé de seu interior fervilha deles.
Para mim, o mar é um milagre contínuo,
Os peixes que nadam, as rochas, o movimento das ondas, os
navios com homens dentro deles,
Que milagres mais estranhos existem?

Centelhas da Roda

Onde a multidão incessante da cidade passa durante todo o longo dia,
Afastado, junto-me a um grupo de crianças que observa, detenho-me ao lado delas.

Junto ao meio-fio, perto da borda da calçada,
Um amolador trabalha em sua roda, afiando uma grande faca,
Inclinado, segura-a cuidadosamente contra a pedra, com o pé e o joelho,
Com passo medido, gira depressa, enquanto pressiona com a mão leve,
porém firme,
Então irrompem em abundantes jatos dourados,
Centelhas da roda.

A cena e tudo que lhe pertence, como me prendem e me afetam,
O velho triste, de queixo pontudo, roupas gastas e larga
correia de couro sobre o ombro,
Eu mesmo derramado e fluido, um fantasma curiosamente flutuante, agora aqui
absorvido e detido,
O grupo, (um ponto despercebido colocado numa vastidão circundante,)
As crianças atentas e quietas, a base ruidosa, altiva e inquieta das ruas,
O ronco baixo e rouco da pedra giratória, a lâmina levemente pressionada,
Espalhando-se, caindo, lançando-se para os lados, em minúsculas chuvas de ouro,
Centelhas da roda.

A um Discípulo

É necessária uma reforma? será por meio de ti?
Quanto maior a reforma necessária, maior a Personalidade de que precisas
para realizá-la.

Tu! não vês como seria útil ter olhos, sangue,
tez, limpos e doces?
Não vês como seria útil possuir um corpo e uma alma tais que,
quando entrasses na multidão, uma atmosfera de desejo e comando
entrasse contigo, e todos fossem marcados por tua Personalidade?

Ó o ímã! a carne uma vez e outra!
Vai, caro amigo, se necessário abandona tudo o mais e começa hoje a
habituar-te à coragem, à realidade, à estima por ti mesmo, à precisão,
à elevação,
Não descanses até cravares e proclamares a ti mesmo por tua própria Personalidade.

Desdobrado das Dobras

Desdobrado das dobras da mulher, o homem vem desdobrado, e
sempre há de vir desdobrado,
Somente da mais soberba mulher da terra há de vir
o mais soberbo homem da terra,
Da mulher mais amistosa há de vir o homem mais amistoso,
Somente do corpo perfeito de uma mulher pode um homem ser
formado com corpo perfeito,
Somente dos poemas inimitáveis da mulher podem vir os
poemas do homem, (somente daí vieram meus poemas;)
Da mulher forte e arrogante que amo, somente daí
pode surgir o homem forte e arrogante que amo,
Desdobrados pelos abraços vigorosos da mulher de músculos firmes
que amo, somente daí vêm os abraços vigorosos do homem,
Das dobras do cérebro da mulher vêm desdobradas todas as dobras
do cérebro do homem, devidamente obedientes,
Da justiça da mulher se desdobra toda justiça,
Da compaixão da mulher vem toda compaixão;
Um homem é algo grandioso sobre a terra e através da eternidade, mas
toda a grandeza do homem se desdobra da mulher;
Primeiro o homem é moldado na mulher, depois pode ser moldado em si mesmo.

O Que Sou Eu, Afinal

O que sou eu, afinal, senão uma criança, satisfeita com o som do meu próprio
nome? repetindo-o uma vez e outra;
Fico à parte para ouvi-lo, ele nunca me cansa.

Para ti também, teu nome;
Pensavas que havia apenas duas ou três pronúncias
no som do teu nome?

Kosmos

Aquele que inclui a diversidade e é a Natureza,
Aquele que é a amplitude da terra, e a rudeza e a sexualidade da
terra, e a grande caridade da terra, e também o equilíbrio,
Aquele cujos olhos não olharam pelas janelas em vão,
nem cujo cérebro recebeu mensageiros em vão,
Aquele que contém crentes e descrentes, que é o mais majestoso amante,
Aquele que mantém devidamente sua proporção tríplice de realismo,
espiritualismo e estética ou intelecto,
Aquele que, tendo considerado o corpo, julga bons todos os seus órgãos e partes,
Aquele que, a partir da teoria da terra e de seu próprio corpo,
compreende por analogias sutis todas as demais teorias,
A teoria de uma cidade, de um poema e da vasta política destes Estados;
Aquele que crê não somente em nosso globo com seu sol e sua lua, mas em
outros globos com seus sóis e luas,
Aquele que, construindo a casa de si mesmo, não para um dia,
mas para todo o tempo, vê raças, eras, datas, gerações,
O passado, o futuro, habitando ali, como o espaço, inseparáveis juntos.

Outros Podem Louvar o Que Quiserem

Outros podem louvar o que quiserem;
Mas eu, das margens do Missouri corrente, nada louvo na arte
nem em qualquer outra coisa,
Até que tenha respirado profundamente a atmosfera deste rio e também o
aroma das pradarias do Oeste,
E exale tudo outra vez.

Quem Aprende Minha Lição por Inteiro?

Quem aprende minha lição por inteiro?
Patrão, oficial, aprendiz, religioso e ateu,
O estúpido e o pensador sábio, pais e filhos, mercador,
balconista, carregador e freguês,
Editor, autor, artista e estudante, aproximai-vos e começai;
Não é uma lição, ela baixa as barreiras para uma boa lição,
E esta para outra, e cada uma ainda para outra.

As grandes leis recebem e derramam sem argumentar,
Sou do mesmo estilo, pois sou amigo delas,
Amo-as de igual para igual, não paro para fazer reverências.

Jazo abstraído e ouço belas histórias sobre as coisas e as razões
das coisas,
São tão belas que cutuco a mim mesmo para escutar.

Não posso dizer a pessoa alguma o que ouço, não posso dizê-lo a mim mesmo,
é muito maravilhoso.

Não é coisa pequena este globo redondo e delicioso movendo-se tão
precisamente em sua órbita para todo o sempre, sem um só solavanco nem
a falsidade de um único segundo,
Não penso que tenha sido feito em seis dias, nem em dez mil anos,
nem em dez bilhões de anos,
Nem planejado e construído uma coisa depois da outra, como um arquiteto planeja
e constrói uma casa.

Não penso que setenta anos sejam o tempo de um homem ou de uma mulher,
Nem que setenta milhões de anos sejam o tempo de um homem ou de uma mulher,
Nem que os anos jamais detenham minha existência ou a de qualquer outro.

É maravilhoso que eu seja imortal? como todos são imortais;
Sei que é maravilhoso, mas minha visão é igualmente maravilhosa, e
como fui concebido no ventre de minha mãe é igualmente maravilhoso,
E como passei de bebê, no transe rastejante de dois
verões e invernos, a falar e caminhar, tudo isso é
igualmente maravilhoso.

E que minha alma te abrace nesta hora, e que nos afetemos
sem jamais nos vermos, e talvez sem nunca chegarmos a nos ver,
é igualmente maravilhoso.

E que eu possa pensar pensamentos como estes é igualmente maravilhoso,
E que eu possa recordá-los a ti, e tu os penses e saibas
que são verdadeiros, é igualmente maravilhoso.

E que a lua gire ao redor da terra e siga com a terra é
igualmente maravilhoso,
E que ambas se equilibrem com o sol e as estrelas é igualmente
maravilhoso.

Provas

Todos se submetem a elas onde estão, interiores, seguras, inacessíveis à
análise na alma,
Não as tradições, não as autoridades exteriores são os juízes,
Elas são os juízes das autoridades exteriores e de todas as tradições,
Confirmam ao passar apenas aquilo que as confirma
e que as toca;
Apesar de tudo, possuem para sempre dentro de si o poder de confirmar longe
e perto, sem uma única exceção.

A Tocha

Em minha costa Noroeste, no meio da noite, um grupo de pescadores
permanece observando,
Lá no lago que se estende diante deles, outros arpoam salmões,
A canoa, coisa sombria e indistinta, move-se pelas águas negras,
Levando uma tocha em chamas na proa.

Ó Estrela da França [1870-71]

Ó estrela da França,
O brilho de tua esperança, força e fama,
Como algum navio altivo que por tanto tempo conduziu a frota,
Parece hoje um destroço impelido pelo vendaval, um casco sem mastros,
E, entre suas fervilhantes multidões enlouquecidas e meio afogadas,
Nem leme nem timoneiro.

Estrela turva e ferida,
Orbe não apenas da França, pálido símbolo de minha alma, de suas esperanças mais caras,
Da luta e da ousadia, da fúria divina pela liberdade,
Das aspirações rumo ao ideal distante, dos sonhos de fraternidade do entusiasta,
Do terror para o tirano e o sacerdote.

Estrela crucificada, vendida por traidores,
Estrela ofegante sobre uma terra de morte, terra heroica,
Terra estranha, apaixonada, zombeteira, frívola.

Miserável! contudo, por teus erros, vaidades e pecados, não te censurarei agora,
Teus inigualáveis infortúnios e tormentos aplacaram todos eles,
E te deixaram sagrada.

Porque, entre tuas muitas falhas, sempre aspiraste alto,
Porque não te venderias de verdade, por maior que fosse o preço,
Porque certamente despertaste chorando de teu sono entorpecido,
Porque, sozinha entre tuas irmãs, tu, gigante, rompeste os grilhões
que te envergonhavam,
Porque não pudeste, não quiseste, usar as correntes habituais,
Esta cruz, teu rosto lívido, tuas mãos e pés perfurados,
A lança cravada em teu flanco.

Ó estrela! Ó navio da França, repelido e frustrado por tanto tempo!
Resiste, ó orbe ferido! Ó navio, segue adiante!

Tão certo quanto o navio de todos, a própria Terra,
Produto do fogo mortal e do caos turbulento,
Saindo de seus espasmos de fúria e de seus venenos,
Surgindo por fim em força e beleza perfeitas,
Adiante, sob o sol, seguindo seu curso,
Assim tu, ó navio da França!

Terminados os dias, dispersas as nuvens,
Findo o trabalho de parto, alcançada a libertação há tanto buscada,
Quando eis! renascida, bem acima do mundo europeu,
(Respondendo dali com alegria, como rosto distante diante de rosto, refletindo a nossa
Colúmbia,)
Outra vez tua estrela, ó França, bela estrela luminosa,
Em paz celeste, mais clara, mais brilhante que nunca,
Há de fulgir imortal.

O Domador de Bois

Num distante condado do norte, na plácida região pastoril,
Vive meu amigo fazendeiro, tema de meu recitativo, famoso domador de bois,
Ali lhe trazem os de três e quatro anos para
amansá-los,
Ele pega o novilho mais selvagem do mundo e o domina e amansa,
Avança sem medo e sem chicote algum até onde o jovem boi
se agita de um lado para outro no curral,
A cabeça do boi se lança inquieta para o alto, com olhos furiosos,
Mas vede! como depressa sua fúria diminui, como depressa este domador o amansa;
Vede! nas fazendas daqui ao redor, cem bois jovens e velhos,
e ele é o homem que os amansou,
Todos o conhecem, todos lhe têm afeto;
Vede! alguns são animais tão belos, de aparência tão altiva;
Alguns são cor de camurça, alguns malhados, um tem uma linha branca correndo
pelo dorso, alguns são rajados,
Alguns têm chifres largos e abertos (bom sinal), vede! os couros brilhantes,
Vede os dois com estrelas na testa, vede os corpos arredondados
e os dorsos largos,
Como se erguem retos e firmes sobre as pernas, que belos olhos sagazes!
Como olham diretamente para seu domador, querem-no perto deles, como
se viram para segui-lo com os olhos!
Que expressão de anseio! como ficam inquietos quando ele se afasta deles;
Agora me pergunto o que ele lhes parecerá, (livros, política,
poemas, parti, tudo o mais parte,)
Confesso que invejo apenas seu fascínio, meu amigo silencioso e iletrado,
A quem cem bois amam ali, em sua vida nas fazendas,
No distante condado do norte, na plácida região pastoril.

Pensamento de um Velho sobre a Escola
[Para a Inauguração de uma Escola Pública, Camden, Nova Jersey, 1874]

Pensamento de um velho sobre a escola,
Um velho reunindo lembranças juvenis e flores que a própria juventude não pode colher.

Somente agora vos conheço,
Ó belos céus da aurora, ó orvalho da manhã sobre a relva!

E estes eu vejo, estes olhos cintilantes,
Estes tesouros de sentido místico, estas vidas jovens,
Construindo-se, equipando-se como uma frota de navios, navios imortais,
Que em breve partirão sobre os mares sem medida,
Na viagem da alma.

Apenas um grupo de meninos e meninas?
Apenas as tediosas aulas de ortografia, escrita e aritmética?
Apenas uma escola pública?

Ah, mais, infinitamente mais;
(Como George Fox ergueu seu grito de advertência: “É este amontoado de tijolos e
argamassa, estes pisos mortos, janelas, grades, que chamais de igreja?
Ora, isto não é a igreja de modo algum, a igreja são almas vivas,
eternamente vivas.”)

E tu, América,
Fazes o verdadeiro cálculo de teu presente?
Das luzes e sombras de teu futuro, bem ou mal?
Para as meninas, os meninos, olha, para o mestre e a escola.

Vagando pela Manhã

Vagando pela manhã,
Emergindo da noite e dos pensamentos sombrios, tu em meus pensamentos,
Ansiando por ti, União harmoniosa! por ti, pássaro divino que canta!
Por ti, meu país, enroscado em tempos maus, com astúcia e negro desalento,
com toda baixeza e traição lançadas sobre ti,
Contemplei esta maravilha comum, observei o tordo progenitor alimentando os filhotes,
O tordo cantor cujos tons de alegria e fé extática
Não deixam de confirmar e animar minha alma.

Ali meditei, ali senti:
Se vermes, serpentes e larvas repugnantes podem transformar-se em doces cânticos espirituais,
Se tais pragas, assim transpostas, usadas e abençoadas, podem sê-lo,
Então posso confiar em ti, em teus destinos, em teus dias, meu país;
Quem sabe não sejam estas as lições adequadas para ti?
Delas pode erguer-se teu canto futuro em trinados jubilosos,
Destinado a encher o mundo.

Música Italiana em Dakota
[“A Décima Sétima, a melhor Banda Regimental que já ouvi.”]

Pelo suave ar da tarde que envolve tudo,
Rochas, bosques, forte, canhão, sentinelas em ronda, ermos sem fim,
Em doces correntes, em notas de flautas e cornetas,
Elétricas, meditativas, turbulentas, artificiais,
(Contudo estranhamente adequadas até mesmo aqui, sentidos antes desconhecidos,
Mais sutis que nunca, maior harmonia, como se nascidos aqui, ligados a este lugar,
Não às salas afrescadas da cidade, não ao público da casa de ópera,
Sons, ecos, frases errantes, verdadeiramente em casa aqui,
O amor inocente de Sonnambula, trios com a angústia de Norma,
E teu coro extático, Poliuto;)
Irradiada no límpido poente amarelo e inclinado,
Música, música italiana em Dakota.

Enquanto a Natureza, soberana deste reino nodoso,
Oculta em recessos bárbaros, sombrios e escondidos,
Reconhecendo a afinidade, por mais distante que esteja,
(Como alguma velha raiz ou solo da terra reconhece sua flor ou fruto mais recente,)
Escuta, satisfeita.

Com Todos os Teus Dons

Com todos os teus dons, América,
Erguida em segurança, avançando depressa, contemplando o mundo,
Poder, riqueza, extensão, concedidos a ti, com estes e outros semelhantes
concedidos a ti,
E se te falta um dom? (o problema humano derradeiro, jamais resolvido,)
O dom de mulheres perfeitas dignas de ti, e se te falta esse dom dos dons?
Teu feminino majestoso? a beleza, a saúde, a plenitude dignas de ti?
As mães dignas de ti?

Minha Galeria de Quadros

Numa pequena casa mantenho quadros suspensos, não é uma casa fixa,
É redonda, mede apenas algumas polegadas de um lado ao outro;
Contudo vede, nela há espaço para todos os espetáculos do mundo, todas as lembranças!
Aqui os quadros da vida, e aqui os agrupamentos da morte;
Aqui, reconheces isto? este é o próprio cicerone,
Com o dedo erguido, aponta para as pródigas imagens.

Os Estados das Pradarias

Um jardim mais novo da criação, nenhuma solidão primordial,
Denso, alegre, moderno, milhões de habitantes, cidades e fazendas,
Entrelaçado por ferro, composto, unido, muitos em um,
Formado pela contribuição de todo o mundo, sociedade da liberdade, da lei e da prosperidade,
A coroa e o paraíso fervilhante, até agora, das acumulações do tempo,
Para justificar o passado.

Folhas de Relva

Sinopse

Tradução integral direta para o português brasileiro da edição final de 1891–1892 de Folhas de Relva, organizada nos 35 livros reais da obra e preservando seus 377 cabeçalhos estruturais.

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LITEBN
LITEBN-978657992047977741151761
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