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Folhas de Relva

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Folhas de Relva

Capítulo 11 · Folhas de Relva

LIVRO XI

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Uma Canção de Alegrias

Ó, compor a mais jubilosa das canções!
Cheia de música, cheia de virilidade, feminilidade, infância!
Cheia dos trabalhos comuns, cheia de grãos e árvores.

Ó, pelas vozes dos animais, ó, pela rapidez e o equilíbrio dos peixes!
Ó, pela queda das gotas de chuva numa canção!
Ó, pela luz do sol e o movimento das ondas numa canção!

Ó, a alegria de meu espírito, está fora da gaiola, dispara como um relâmpago!
Não me basta ter este globo ou determinado tempo,
Terei milhares de globos e todo o tempo.

Ó, as alegrias do maquinista! Ir com uma locomotiva!
Ouvir o silvo do vapor, o alegre grito, o apito, a
locomotiva risonha!
Avançar com impulso irresistível e partir veloz rumo à distância.

Ó, o passeio jubiloso pelos campos e encostas!
As folhas e flores das ervas mais comuns, a úmida e fresca
quietude dos bosques,
O aroma primoroso da terra ao romper do dia e por toda a manhã.

Ó, as alegrias do cavaleiro e da amazona!
A sela, o galope, a pressão sobre o assento, o fresco
murmúrio junto aos ouvidos e aos cabelos.

Ó, as alegrias do bombeiro!
Ouço o alarme no coração da noite,
Ouço sinos, gritos! Passo pela multidão, corro!
A visão das chamas enlouquece-me de prazer.

Ó, a alegria do lutador de músculos vigorosos, erguendo-se na arena em
perfeita forma, consciente da força, sedento por enfrentar o adversário.

Ó, a alegria daquela vasta simpatia elementar que somente a alma humana é
capaz de gerar e emitir em torrentes constantes e ilimitadas.

Ó, as alegrias da mãe!
A vigília, a resistência, o amor precioso, a angústia, a
vida pacientemente oferecida.

Ó, a alegria do aumento, do crescimento, da recuperação,
A alegria de acalmar e apaziguar, a alegria da concórdia e da harmonia.

Ó, voltar ao lugar onde nasci,
Ouvir os pássaros cantarem mais uma vez,
Vaguear pela casa e pelo celeiro e pelos campos mais uma vez,
E pelo pomar e ao longo dos velhos caminhos mais uma vez.

Ó, ter sido criado junto a baías, lagoas, riachos ou ao longo da costa,
Continuar ali e ali trabalhar por toda a minha vida,
O cheiro salgado e úmido, a praia, as algas expostas na maré baixa,
O trabalho dos pescadores, o trabalho do pescador de enguias e do mariscador;
Venho com meu ancinho de mariscos e minha pá, venho com minha lança de enguias,
A maré baixou? Junto-me ao grupo de mariscadores nas planícies de lodo,
Rio e trabalho com eles, brinco enquanto trabalho como um jovem cheio de brio;
No inverno pego meu cesto e minha lança de enguias e sigo a pé
sobre o gelo, tenho um pequeno machado para abrir buracos no gelo,
Vede-me bem agasalhado, indo alegremente ou regressando à tarde,
acompanhado por minha ninhada de rapazes rijos,
Minha ninhada de rapazes crescidos e meio crescidos, que não gostam de estar
com ninguém tanto quanto gostam de estar comigo,
De dia trabalhando comigo, e à noite dormindo comigo.

Noutra ocasião, em tempo quente, saio num barco para erguer os covos de lagosta
onde estão afundados com pedras pesadas, conheço as boias,
Ó, a doçura da manhã do quinto mês sobre as águas, quando remo
pouco antes do nascer do sol em direção às boias,
Puxo obliquamente os covos de vime, as lagostas verde-escuras
agitam desesperadas as pinças enquanto as retiro, introduzo
cunhas de madeira nas articulações de suas tenazes,

Vou a todos os lugares, um após outro, e então remo de volta à praia,
Ali, numa enorme caldeira de água fervente, as lagostas serão cozidas
até que sua cor se torne escarlate.

Noutra ocasião, a pesca da cavala,
Vorazes, enlouquecidas pelo anzol, perto da superfície, parecem encher
as águas por milhas;
Noutra ocasião, pescando robalos na baía de Chesapeake, eu, um dos
tripulantes de rosto queimado;
Noutra ocasião, pescando enchovas ao largo de Paumanok, fico de corpo firmado,
Meu pé esquerdo está sobre a amurada, meu braço direito lança longe
as espirais da corda delgada,
Ao meu redor, à vista, as rápidas guinadas e arrancadas de cinquenta botes, meus
companheiros.

Ó, navegar de barco pelos rios,
A viagem descendo o São Lourenço, a paisagem soberba, os vapores,
Os navios velejando, as Mil Ilhas, a ocasional jangada de madeira
e os jangadeiros com seus longos remos de governo,
As pequenas cabanas sobre as jangadas e a coluna de fumaça quando preparam
a ceia ao entardecer.

(Ó, algo pernicioso e terrível!
Algo muito distante de uma vida débil e piedosa!
Algo não comprovado! Algo em transe!
Algo que escapou da ancoragem e deriva livremente.)

Ó, trabalhar nas minas ou forjar ferro,
A fundição, o próprio edifício da fundição, o rude teto elevado, o amplo
espaço coberto de sombras,
A fornalha, o líquido ardente derramado e correndo.

Ó, retomar as alegrias do soldado!
Sentir a proximidade de um bravo comandante, sentir sua solidariedade!
Contemplar sua calma, aquecer-me nos raios de seu sorriso!
Ir à batalha, ouvir os clarins tocarem e os tambores rufarem!
Ouvir o estrondo da artilharia, ver o brilho das baionetas
e dos canos dos mosquetes ao sol!

Ver homens caírem e morrerem sem se queixar!
Provar o gosto selvagem do sangue, ser tão diabólico!
Deleitar-se assim com os ferimentos e as mortes do inimigo.

Ó, as alegrias do baleeiro! Ó, refaço minha antiga viagem!
Sinto sob mim o movimento do navio, sinto as brisas do Atlântico me abanarem,
Ouço novamente o grito que desce do alto do mastro: Ali, ela sopra!
De novo subo de um salto pelo cordame para olhar com os demais, descemos
enlouquecidos de excitação,
Salto no bote baixado, remamos em direção à presa onde ela jaz,
Aproximamo-nos furtivos e silenciosos, vejo a massa montanhosa,
letárgica, aquecendo-se ao sol,
Vejo o arpoador de pé, vejo a arma disparar de seu
braço vigoroso;
Ó, veloz novamente, muito longe no oceano, a baleia ferida, submergindo,
correndo contra o vento, reboca-me,
De novo a vejo subir para respirar, remamos para perto outra vez,
Vejo uma lança atravessar-lhe o flanco, cravada fundo, girada na ferida,
De novo recuamos, vejo-a afundar outra vez, a vida abandona-a depressa,
Ao emergir, esguicha sangue, vejo-a nadar em círculos cada vez mais
estreitos, cortando rapidamente a água, vejo-a morrer,
Dá um salto convulsivo no centro do círculo e então
cai achatada e imóvel na espuma ensanguentada.

Ó, minha velhice viril, minha mais nobre alegria de todas!
Meus filhos e netos, meus cabelos e minha barba brancos,
Minha amplitude, serenidade, majestade, vindas da longa extensão de minha vida.

Ó, alegria madura da feminilidade! Ó, enfim a felicidade!
Tenho mais de oitenta anos, sou a mais venerável das mães,
Como é lúcida minha mente, como todos se aproximam de mim!
Que atrativos são estes, superiores a todos os anteriores? Que florescimento maior
que o florescimento da juventude?
Que beleza é esta que desce sobre mim e se ergue de dentro de mim?

Ó, as alegrias do orador!
Inflar o peito, fazer rolar o trovão da voz para fora das
costelas e da garganta,
Fazer o povo enfurecer-se, chorar, odiar, desejar, junto com você,
Conduzir a América, subjugar a América com uma grande língua.

Ó, a alegria de minha alma, apoiada e equilibrada em si mesma, recebendo identidade por meio
das matérias e amando-as, observando caracteres e absorvendo-os,
Minha alma vibrando de volta para mim a partir deles, da visão, da audição, do tato,
da razão, da articulação, da comparação, da memória e de coisas semelhantes,
A verdadeira vida de meus sentidos e de minha carne transcendendo meus sentidos e minha carne,
Meu corpo acabado com matérias, minha visão acabada com meus olhos materiais,
Comprovado para mim neste dia, sem possibilidade de contestação, que não são meus olhos materiais
que finalmente veem,
Nem meu corpo material que finalmente ama, caminha, ri, grita,
abraça, procria.

Ó, as alegrias do agricultor!
Alegrias do habitante de Ohio, de Illinois, de Wisconsin, do Canadá, de Iowa,
do Kansas, do Missouri, do Oregon!
Levantar-se ao primeiro clarão do dia e sair ágil para o trabalho,
Arar a terra no outono para as culturas semeadas no inverno,
Arar a terra na primavera para o milho,
Cultivar pomares, enxertar as árvores, colher maçãs no outono.

Ó, banhar-se na piscina ou num bom lugar junto à praia,
Espalhar a água em borrifos! Caminhar com água pelos tornozelos ou correr nu pela praia.

Ó, compreender o espaço!
A abundância de tudo, que não existem limites,
Emergir e ser do céu, do sol, da lua e das nuvens
que voam, uno com eles.

Ó, a alegria de uma individualidade viril!
Não ser servil a ninguém, não se curvar diante de ninguém, de tirano algum conhecido ou desconhecido,
Caminhar com postura ereta, com passo flexível e elástico,
Olhar com serenidade ou com olhos faiscantes,
Falar com voz plena e sonora saída de um peito amplo,
Confrontar com tua personalidade todas as outras personalidades da terra.

Conheces as excelentes alegrias da juventude?
Alegrias dos queridos companheiros, da palavra jovial e do rosto risonho?
Alegria do dia feliz e luminoso, alegria dos jogos de respiração ampla?
Alegria da música doce, alegria do salão iluminado e dos dançarinos?
Alegria do jantar abundante, da vigorosa farra e da bebida?

Contudo, ó minha alma suprema!
Conheces as alegrias do pensamento meditativo?
Alegrias do coração livre e solitário, do coração terno e sombrio?
Alegrias da caminhada solitária, do espírito curvado mas orgulhoso, do sofrimento
e da luta?
Os tormentos agônicos, os êxtases, as alegrias das reflexões solenes de dia
ou de noite?
Alegrias do pensamento da Morte, das grandes esferas do Tempo e do Espaço?
Alegrias proféticas de ideais melhores e mais elevados do amor, a esposa divina,
a doce, eterna e perfeita companheira?
Alegrias inteiramente tuas, ó imortal, alegrias dignas de ti, ó alma.

Ó, enquanto eu viver, ser senhor da vida, não escravo,
Enfrentar a vida como um poderoso conquistador,
Sem vapores, sem tédio, sem mais queixas ou críticas desdenhosas,
Diante destas soberbas leis do ar, da água e do solo, demonstrando
que minha alma interior é inexpugnável,
E nada exterior jamais assumirá o comando de mim.

Pois não canto apenas as alegrias da vida, repito, canto a alegria da morte!
O belo toque da Morte, acalmando e entorpecendo por alguns momentos,
por suas razões,
Eu próprio descartando meu corpo excrementício para ser queimado, reduzido
a pó ou enterrado,
Meu verdadeiro corpo, sem dúvida, deixado comigo para outras esferas,
Meu corpo evacuado, nada mais para mim, retornando às purificações,
aos serviços posteriores, aos usos eternos da terra.

Ó, atrair por mais que atração!
Como isso acontece, não sei, mas vede! Algo que não obedece a nenhuma
das demais coisas,
É ofensivo, jamais defensivo, mas com que magnetismo atrai.

Ó, lutar contra enormes desvantagens, enfrentar inimigos sem temor!
Ficar inteiramente sozinho diante deles, descobrir quanto alguém pode suportar!
Encarar de frente o conflito, a tortura, a prisão, o ódio popular!
Subir ao cadafalso, avançar até as bocas das armas com
perfeita indiferença!
Ser de fato um Deus!

Ó, partir para o mar num navio!
Deixar esta terra firme e insuportável,
Deixar a fatigante monotonia das ruas, das calçadas e das
casas,
Deixar-te, ó terra sólida e imóvel, e, entrando num navio,
Navegar e navegar e navegar!

Ó, ter a vida, daqui em diante, como um poema de novas alegrias!
Dançar, bater palmas, exultar, gritar, saltitar, saltar, seguir rolando, seguir flutuando!
Ser um marinheiro do mundo destinado a todos os portos,
Um próprio navio, vede de fato estas velas que desfraldo ao sol e ao ar,
Um navio veloz e túrgido, cheio de palavras ricas, cheio de alegrias.

Folhas de Relva

Sinopse

Tradução integral direta para o português brasileiro da edição final de 1891–1892 de Folhas de Relva, organizada nos 35 livros reais da obra e preservando seus 377 cabeçalhos estruturais.

Ver ficha da edição física
LITEBN
LITEBN-978657992047977741151761
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