Universo da obra
Universo da obra
Do Berço que Balança sem Cessar
Do berço que balança sem cessar,
Da garganta do tordo, a lançadeira musical,
Da meia-noite do Nono mês,
Sobre as areias estéreis e os campos além, onde a criança,
deixando a cama, vagava sozinha, de cabeça descoberta, descalça,
Descendo do halo derramado,
Subindo do jogo místico de sombras que se enlaçavam e retorciam como se
estivessem vivas,
Saindo dos matagais de espinheiros e amoras,
Das lembranças da ave que cantou para mim,
De tuas lembranças, triste irmão, das irregulares ascensões e quedas que ouvi,
De sob aquela meia-lua amarela, recém-surgida e inchada como de lágrimas,
Daquelas primeiras notas de anseio e amor ali na névoa,
Das mil respostas de meu coração que jamais cessarão,
Das miríades de palavras então despertadas,
Da palavra mais forte e mais deliciosa que qualquer outra,
De coisas como estas, agora que começam, revisitando a cena,
Como um bando, chilreando, erguendo-se ou passando sobre a cabeça,
Trazidas até aqui, antes que tudo me escape, apressadamente,
Homem, mas por estas lágrimas novamente um menino,
Lançando-me sobre a areia, enfrentando as ondas,
Eu, cantor de dores e alegrias, unificador do aqui e do além,
Tomando todos os indícios para usá-los, mas saltando velozmente para além deles,
Canto uma reminiscência.
Certa vez em Paumanok,
Quando o aroma do lilás estava no ar e crescia a relva do Quinto mês,
Nesta praia, entre alguns espinheiros,
Dois hóspedes emplumados vindos do Alabama, os dois juntos,
E seu ninho, e quatro ovos verde-claros pintalgados de marrom,
E todos os dias o pássaro macho indo e vindo ali perto,
E todos os dias a fêmea agachada sobre o ninho, silenciosa, de olhos brilhantes,
E todos os dias eu, menino curioso, nunca perto demais, nunca os
perturbando,
Espreitando cautelosamente, absorvendo, traduzindo.
Brilha! brilha! brilha!
Derrama teu calor, grande sol!
Enquanto nos aquecemos, nós dois juntos.
Dois juntos!
Soprem os ventos do sul, ou soprem os ventos do norte,
Venha o dia branco, ou venha a noite negra,
Em casa, ou rios e montanhas longe de casa,
Cantando o tempo todo, sem dar atenção ao tempo,
Enquanto nós dois permanecemos juntos.
Até que, de repente,
Talvez morta, sem que seu companheiro soubesse,
Certa manhã a fêmea não se agachou sobre o ninho,
Nem voltou naquela tarde, nem na seguinte,
Nem jamais apareceu novamente.
E dali em diante, durante todo o verão, no som do mar,
E à noite sob a lua cheia, em tempo mais calmo,
Sobre o rouco avanço do mar,
Ou esvoaçando de espinheiro em espinheiro durante o dia,
Eu via, eu ouvia a intervalos o que restara, o pássaro macho,
O hóspede solitário do Alabama.
Sopra! sopra! sopra!
Soprai, ventos marinhos, ao longo da praia de Paumanok;
Espero e espero até que sopreis minha companheira para mim.
Sim, quando as estrelas cintilavam,
Durante toda a noite, sobre a ponta de uma estaca recortada de musgo,
Quase em meio às ondas que golpeavam,
Sentava-se o cantor solitário e maravilhoso, provocando lágrimas.
Chamava por sua companheira,
Derramava os significados que, dentre todos os homens, eu conheço.
Sim, meu irmão, eu sei,
Os outros talvez não, mas guardei cada nota como tesouro,
Pois mais de uma vez deslizei vagamente até a praia,
Silencioso, evitando os raios da lua, misturando-me às sombras,
Recordando agora as formas indistintas, os ecos, os sons e visões
segundo sua espécie,
Os braços brancos lançando-se incansáveis entre as ondas que rebentavam,
Eu, de pés descalços, uma criança, o vento agitando meus cabelos,
Escutei por muito, muito tempo.
Escutei para guardar, para cantar, agora traduzindo as notas,
Seguindo-te, meu irmão.
Acalma! acalma! acalma!
Junto de sua onda, acalma a onda que vem atrás,
E novamente outra atrás, abraçando e lambendo, cada uma bem próxima,
Mas meu amor não me acalma, não a mim.
Baixa pende a lua, surgiu tarde,
Está ficando para trás, ó, penso que está carregada de amor, de amor.
Ó, loucamente o mar se lança sobre a terra,
Com amor, com amor.
Ó noite! não vejo meu amor esvoaçando ali entre as ondas que rebentam?
O que é aquela pequena coisa negra que vejo ali no branco?
Alto! alto! alto!
Alto clamo por ti, meu amor!
Alta e clara lanço minha voz sobre as ondas,
Certamente deves saber quem está aqui, está aqui,
Deves saber quem sou, meu amor.
Lua que pendes baixa!
O que é aquela mancha escura em teu amarelo castanho?
Ó, é a forma, a forma de minha companheira!
Ó lua, não a retenhas longe de mim por mais tempo.
Terra! terra! ó terra!
Para qualquer lado que me volte, ó, penso que poderias devolver-me minha companheira
se apenas quisesses,
Pois tenho quase certeza de vê-la vagamente para qualquer lado que olho.
Ó estrelas nascentes!
Talvez aquela que tanto desejo surja, surja com alguma de vós.
Ó garganta! ó garganta trêmula!
Soa mais clara através da atmosfera!
Penetra os bosques, a terra,
Em algum lugar, escutando para te captar, deve estar aquela que desejo.
Solta teus cânticos!
Solitários aqui, os cânticos da noite!
Cânticos de amor solitário! cânticos da morte!
Cânticos sob aquela lua atrasada, amarela, minguante!
Ó, sob aquela lua que se inclina quase até o mar!
Ó cânticos temerários, desesperados.
Mas devagar! desce baixo!
Devagar! deixa-me apenas murmurar,
E espera um momento, tu, mar de ruído rouco,
Pois em algum lugar creio ter ouvido minha companheira respondendo-me,
Tão débil, devo ficar quieto, ficar quieto para escutar,
Mas não inteiramente quieto, pois então talvez ela não venha imediatamente a mim.
Para cá, meu amor!
Aqui estou! aqui!
Com esta nota apenas sustentada anuncio-me a ti,
Este chamado suave é para ti, meu amor, para ti.
Não te deixes atrair para outro lugar,
Aquele é o assobio do vento, não é minha voz,
Aquele é o esvoaçar, o esvoaçar da espuma,
Aquelas são as sombras das folhas.
Ó escuridão! ó, em vão!
Ó, estou muito enfermo e pesaroso.
Ó halo castanho no céu junto à lua, inclinado sobre o mar!
Ó reflexo perturbado no mar!
Ó garganta! ó coração palpitante!
E eu cantando inutilmente, inutilmente durante toda a noite.
Ó passado! ó vida feliz! ó cantos de alegria!
No ar, nos bosques, sobre os campos,
Amada! amada! amada! amada! amada!
Mas minha companheira já não, já não comigo!
Nós dois juntos nunca mais.
A ária baixando,
Tudo o mais continuando, as estrelas brilhando,
Os ventos soprando, as notas da ave ecoando continuamente,
Com gemidos furiosos a velha mãe feroz gemendo sem cessar,
Sobre as areias da praia de Paumanok, cinzentas e farfalhantes,
A meia-lua amarela ampliada, cedendo para baixo, inclinando-se, quase tocando
a face do mar,
O menino extático, com seus pés descalços as ondas, com seus cabelos a
atmosfera brincando,
O amor há muito represado no coração, agora solto, agora por fim irrompendo
tumultuosamente,
O significado da ária depositando-se velozmente nos ouvidos, na alma,
As estranhas lágrimas correndo pelas faces,
O colóquio ali, o trio, cada qual se expressando,
O murmúrio profundo, a velha mãe selvagem clamando sem cessar,
Marcando sombriamente o compasso das perguntas da alma do menino, sibilando algum segredo afogado,
Para o bardo que partia.
Demônio ou ave! (disse a alma do menino,)
É realmente para tua companheira que cantas? ou é de fato para mim?
Pois eu, que era criança, com o uso de minha língua adormecido, agora te ouvi,
Agora, num instante, sei para que existo, desperto,
E já mil cantores, mil cantos, mais claros, mais altos
e mais pesarosos que os teus,
Mil ecos gorjeantes começaram a viver dentro de mim, para nunca morrer.
Ó tu, cantor solitário, cantando sozinho, projetando-me,
Ó eu solitário, escutando, nunca mais cessarei de perpetuar-te,
Nunca mais escaparei, nunca mais das reverberações,
Nunca mais os clamores do amor insatisfeito estarão ausentes de mim,
Nunca mais me deixarão ser a criança serena que eu era antes daquilo
ali na noite,
Junto ao mar, sob a lua amarela e inclinada,
O mensageiro ali despertado, o fogo, o doce inferno interior,
O desejo desconhecido, meu destino.
Ó, dá-me a chave! (ela se oculta na noite, em algum lugar aqui,)
Ó, se devo receber tanto, deixa-me receber mais!
Uma palavra então, (pois hei de conquistá-la,)
A palavra final, superior a todas,
Sutil, enviada para o alto, o que é? escuto;
Sois vós que a sussurrais, e a tendes sussurrado o tempo todo, ondas do mar?
É essa que vem de vossas bordas líquidas e areias molhadas?
Ao que respondeu o mar,
Sem demorar, sem se apressar,
Sussurrou para mim através da noite, e muito claramente antes do amanhecer,
Balbuciou para mim a palavra baixa e deliciosa morte,
E novamente morte, morte, morte, morte,
Sibilando melodioso, nem como a ave nem como o coração de minha criança despertada,
Mas aproximando-se às ocultas, farfalhando a meus pés somente para mim,
Rastejando dali firmemente até meus ouvidos e banhando-me suavemente por inteiro,
Morte, morte, morte, morte, morte.
Da qual não me esqueço.
Mas fundo o canto de meu demônio sombrio e irmão,
Que ele cantou para mim ao luar na praia cinzenta de Paumanok,
Com os mil cantos responsivos ao acaso,
Meus próprios cantos despertados desde aquela hora,
E com eles a chave, a palavra que subiu das ondas,
A palavra do mais doce canto e de todos os cantos,
Aquela palavra forte e deliciosa que, rastejando até meus pés,
(Ou como alguma velha embalando o berço, envolta em doces
vestes, inclinando-se para o lado,)
O mar sussurrou para mim.
1
Enquanto eu refluía com o oceano da vida,
Enquanto percorria as praias que conheço,
Enquanto caminhava onde as ondulações continuamente te lavam, Paumanok,
Onde se agitam roucas e sibilantes,
Onde a velha mãe feroz clama sem cessar por seus náufragos,
Eu, meditando ao fim do dia de outono, contemplando o sul distante,
Preso por este eu elétrico, de cujo orgulho profiro poemas,
Fui tomado pelo espírito que se arrasta nas linhas sob os pés,
A orla, o sedimento que representa toda a água e toda a terra
do globo.
Fascinados, meus olhos, desviando-se do sul, baixaram para seguir aqueles
tênues cordões,
Palha miúda, hastes, lascas de madeira, ervas e glúten do mar,
Escuma, escamas de rochas brilhantes, folhas de alface-do-mar deixadas pela maré,
Caminhando milhas, o som das ondas quebrando do outro lado de mim,
Paumanok ali e então, enquanto eu pensava o antigo pensamento das semelhanças,
Estas coisas me apresentaste, tu, ilha em forma de peixe,
Enquanto percorria as praias que conheço,
Enquanto caminhava com aquele eu elétrico em busca de tipos.
2
Enquanto avanço para praias que não conheço,
Enquanto escuto o canto fúnebre, as vozes de homens e mulheres naufragados,
Enquanto inalo as brisas impalpáveis que investem sobre mim,
Enquanto o oceano tão misterioso rola em minha direção, cada vez mais perto,
Eu também, no máximo, significo apenas um pouco de detrito trazido pela água,
Uns poucos grãos de areia e folhas mortas para recolher,
Recolher, e fundir-me como parte das areias e dos detritos.
Ó frustrado, impedido, curvado até a própria terra,
Oprimido por mim mesmo, por ter ousado abrir a boca,
Consciente agora de que, em meio a toda aquela tagarelice cujos ecos ricocheteiam sobre mim,
nem uma vez tive a menor ideia de quem ou do que sou,
Mas de que diante de todos os meus poemas arrogantes o verdadeiro Eu ainda permanece
intocado, não dito, inteiramente inalcançado,
Retirado ao longe, zombando de mim com sinais e reverências de falsa congratulação,
Com explosões de riso irônico distante a cada palavra que escrevi,
Apontando em silêncio para estes cantos, e depois para a areia abaixo.
Percebo que na verdade não compreendi coisa alguma, nem um único
objeto, e que homem algum jamais poderá,
A Natureza aqui, diante do mar, aproveitando-se de mim para lançar-se
sobre mim e me ferir,
Porque ousei abrir a boca para cantar.
3
Vós, ambos os oceanos, uno-me a vós,
Murmuramos igualmente, reprovadores, rolando areias e detritos, sem saber por quê,
Estes pequenos fragmentos representando de fato a vós, a mim e a tudo.
Tu, praia friável com rastros de destroços,
Tu, ilha em forma de peixe, tomo o que está sob os pés,
O que é teu é meu, meu pai.
Eu também, Paumanok,
Eu também borbulhei, flutuei a flutuação incomensurável e fui
lançado em tuas praias,
Eu também sou apenas um rastro de detritos e destroços,
Eu também deixo pequenos naufrágios sobre ti, tu, ilha em forma de peixe.
Lanço-me sobre teu peito, meu pai,
Agarro-me a ti para que não possas desprender-me,
Seguro-te com tanta firmeza até que me respondas alguma coisa.
Beija-me, meu pai,
Toca-me com teus lábios como toco aqueles que amo,
Sopra para mim, enquanto te aperto junto a mim, o segredo do murmúrio que invejo.
4
Recua, oceano da vida, (o fluxo retornará,)
Não cesses teu gemido, tu, velha mãe feroz,
Clama sem cessar por teus náufragos, mas não temas, não me rejeites,
Não te agites tão rouca e furiosa contra meus pés quando te toco ou
recolho de ti.
Quero ser terno contigo e com tudo,
Recolho para mim e para este fantasma que olha de cima para onde seguimos,
e acompanha a mim e ao que é meu.
Eu e o que é meu, cordões soltos, pequenos cadáveres,
Espuma, branca como neve, e bolhas,
(Vê, de meus lábios mortos a vasa finalmente exsudando,
Vê, as cores prismáticas cintilando e rolando,)
Tufos de palha, areias, fragmentos,
Trazidos para cá, boiando, de muitos estados de ânimo, um contradizendo o outro,
Da tempestade, da longa calmaria, da escuridão, da vaga,
Meditando, ponderando, um sopro, uma lágrima salgada, uma gota de líquido ou terra,
Igualmente fermentados e lançados das operações insondáveis,
Uma ou duas flores flácidas, rasgadas, igualmente flutuando sobre as ondas,
levadas ao acaso,
Igualmente para nós esse soluçante canto fúnebre da Natureza,
Igualmente de onde viemos esse clangor das trombetas das nuvens,
Nós, caprichosos, trazidos para cá sem saber de onde, espalhados diante de ti,
Tu aí em cima, caminhando ou sentado,
Quem quer que sejas, nós também jazemos em montes a teus pés.
Lágrimas! lágrimas! lágrimas!
Na noite, em solidão, lágrimas,
Sobre a praia branca pingando, pingando, sugadas pela areia,
Lágrimas, nenhuma estrela brilhando, tudo escuro e desolado,
Lágrimas úmidas dos olhos de uma cabeça encoberta;
Ó, quem é esse fantasma? essa forma no escuro, com lágrimas?
Que massa informe é aquela, curvada, agachada ali sobre a areia?
Lágrimas correntes, lágrimas soluçantes, convulsões, sufocadas por gritos selvagens;
Ó tempestade, corporificada, erguendo-se, avançando em disparada pela praia!
Ó selvagem e lúgubre tempestade noturna, com vento, ó, arrotando e desesperada!
Ó sombra tão serena e decorosa durante o dia, de semblante calmo e
passo regulado,
Mas longe à noite, enquanto voas, sem ninguém olhando, ó, então o oceano liberto,
De lágrimas! lágrimas! lágrimas!
Tu que dormiste a noite inteira sobre a tempestade,
Despertando renovada em tuas prodigiosas asas,
(Irrompeu a tempestade selvagem? acima dela ascendeste,
E repousaste no céu, teu escravo que te embalou,)
Agora um ponto azul, longe, muito longe, flutuando no céu,
Enquanto, emergindo aqui no convés para a luz, observo-te,
(Eu mesmo um ponto, uma partícula na vastidão flutuante do mundo.)
Longe, muito longe no mar,
Depois que as violentas rajadas da noite cobriram a praia de destroços,
Com o dia reaparecendo, como agora tão feliz e sereno,
A aurora rosada e elástica, o sol cintilante,
A límpida extensão de ar cerúleo,
Tu também reapareces.
Tu, nascida para igualar a ventania, (és toda asas,)
Para enfrentar céu e terra e mar e furacão,
Tu, nave do ar que nunca recolhes as velas,
Dias, até semanas, incansável e adiante, girando por espaços, reinos,
Ao crepúsculo contemplas o Senegal, pela manhã a América,
Brincas em meio ao clarão do relâmpago e à nuvem de trovão,
Neles, em tuas experiências, se tivesses minha alma,
Que alegrias! que alegrias seriam tuas!
A bordo, ao leme de um navio,
Um jovem timoneiro conduzindo com cuidado.
Através da névoa, numa costa marítima, soando melancolicamente,
Um sino oceânico, ó sino de advertência, embalado pelas ondas.
Ó, de fato dás bom aviso, tu, sino soando junto aos recifes do mar,
Soando, soando, para afastar o navio do lugar de seu naufrágio.
Pois, alerta, ó timoneiro, atentas à alta advertência,
A proa gira, o navio carregado muda de bordo e afasta-se veloz sob suas velas cinzentas,
O belo e nobre navio, com toda a sua riqueza preciosa, afasta-se
alegre e seguro.
Mas ó navio, navio imortal! ó navio a bordo do navio!
Navio do corpo, navio da alma, viajando, viajando, viajando.
Na praia à noite,
Está uma criança com seu pai,
Observando o leste, o céu de outono.
Através da escuridão,
Enquanto nuvens vorazes, nuvens de sepultamento, espalham-se em massas negras,
Descendem sombrias e rápidas, atravessando e baixando pelo céu,
Em meio a uma faixa transparente e clara de éter ainda deixada no leste,
Ascende grande e calma a estrela soberana, Júpiter,
E bem perto, apenas um pouco acima,
Nadam as delicadas irmãs, as Plêiades.
Da praia, a criança segurando a mão do pai,
Observando aquelas nuvens de sepultamento que descem vitoriosas, prestes a devorar tudo,
Chora em silêncio.
Não chores, criança,
Não chores, minha querida,
Com estes beijos deixa-me remover tuas lágrimas,
As nuvens vorazes não permanecerão vitoriosas por muito tempo,
Não possuirão o céu por muito tempo, devoram as estrelas apenas em
aparência,
Júpiter surgirá, tem paciência, observa novamente em outra noite, as
Plêiades surgirão,
São imortais, todas aquelas estrelas, tanto as prateadas quanto as douradas,
voltarão a brilhar,
As grandes estrelas e as pequenas voltarão a brilhar, elas perduram,
Os vastos sóis imortais e as pensativas luas de longa duração
tornarão a brilhar.
Então, criança querida, lamentas apenas por Júpiter?
Consideras apenas o sepultamento das estrelas?
Há alguma coisa,
(Acalmando-te com meus lábios, acrescento num sussurro,
Dou-te a primeira sugestão, o problema e o caminho indireto,)
Há alguma coisa ainda mais imortal que as estrelas,
(Muitos os sepultamentos, muitos os dias e noites, passando,)
Alguma coisa que perdurará ainda mais que o luminoso Júpiter,
Mais que o sol ou qualquer satélite giratório,
Ou as radiantes irmãs, as Plêiades.
O mundo sob a salmoura,
Florestas no fundo do mar, os ramos e as folhas,
Alface-do-mar, vastos líquens, flores e sementes estranhas, as aberturas
do emaranhado espesso, e relva rosada,
Cores diferentes, cinza-pálido e verde, púrpura, branco e dourado, o
jogo da luz através da água,
Nadadores mudos ali entre as rochas, coral, glúten, relva, juncos,
e o alimento dos nadadores,
Existências lentas pastando ali suspensas, ou rastejando devagar
junto ao fundo,
O cachalote à superfície soprando ar e borrifo, ou divertindo-se
com as nadadeiras caudais,
O tubarão de olhos plúmbeos, a morsa, a tartaruga, o peludo
leopardo-marinho e a arraia,
Paixões ali, guerras, perseguições, tribos, visão naquelas profundezas oceânicas,
respirando aquele ar de respiração espessa, como tantos fazem,
A mudança dali para a visão daqui, e para o ar sutil respirado
por seres como nós, que caminham nesta esfera,
A mudança adiante, da nossa condição para a de seres que caminham em outras esferas.
Na praia à noite, sozinho,
Enquanto a velha mãe se move de um lado para o outro, cantando seu canto rouco,
Enquanto observo as estrelas brilhantes reluzindo, penso um pensamento sobre a clave
dos universos e do futuro.
Uma vasta semelhança entrelaça tudo,
Todas as esferas, desenvolvidas, não desenvolvidas, pequenas, grandes, sóis, luas, planetas,
Todas as distâncias do espaço, por mais vastas,
Todas as distâncias do tempo, todas as formas inanimadas,
Todas as almas, todos os corpos vivos, por mais diferentes que sejam, ou em
mundos diferentes,
Todos os processos gasosos, aquáticos, vegetais, minerais, os peixes, os animais,
Todas as nações, cores, barbáries, civilizações, línguas,
Todas as identidades que existiram ou possam existir neste globo, ou em qualquer globo,
Todas as vidas e mortes, tudo do passado, presente, futuro,
Esta vasta semelhança os abrange, e sempre os abrangeu,
E para sempre os abrangerá, mantendo-os unidos e encerrando-os compactamente.
1
Hoje, um rude e breve recitativo,
De navios singrando os mares, cada um com sua bandeira particular ou sinal marítimo,
De heróis sem nome nos navios, de ondas espalhando-se e espalhando-se
até onde a vista alcança,
De borrifos arremessados, e dos ventos assobiando e soprando,
E de tudo isso, um canto para os marinheiros de todas as nações,
Irregular, como uma vaga.
De capitães do mar, jovens ou velhos, e dos imediatos, e de todos os marinheiros intrépidos,
Dos poucos, muito seletos, taciturnos, a quem o destino jamais pode surpreender nem
a morte consternar.
Escolhidos parcamente e sem ruído por ti, velho oceano, eleitos por ti,
Tu, mar que escolhes e selecionas a raça ao longo do tempo, e unes as nações,
Amamentados por ti, velha ama rouca, corporificando-te,
Indomáveis, não domesticados como tu.
(Sempre os heróis sobre a água ou sobre a terra, aparecendo um ou dois de cada vez,
Sempre a estirpe preservada e nunca perdida, embora rara, suficiente para
conservar a semente.)
2
Ostenta, ó mar, tuas bandeiras distintas das nações!
Ostenta, visíveis como sempre, os variados sinais dos navios!
Mas reserva especialmente para ti e para a alma do homem
uma bandeira acima de todas as demais,
Um sinal espiritual tecido para todas as nações, emblema do homem exultante acima da morte,
Símbolo de todos os capitães valentes e de todos os marinheiros e imediatos intrépidos,
E de todos os que afundaram cumprindo seu dever,
Em lembrança deles, entrelaçado de todos os capitães intrépidos, jovens ou velhos,
Um pendão universal, ondulando sutilmente em todo o tempo, sobre todos os marinheiros valentes,
Todos os mares, todos os navios.
Selvagem, selvagem a tempestade, e o mar correndo alto,
Constante o rugido da ventania, com incessante murmúrio profundo,
Gritos de riso demoníaco, irregulares, penetrando e ribombando,
Ondas, ar, meia-noite, sua mais selvagem trindade açoitando,
Lá fora, nas sombras, cristas brancas como leite avançando em disparada,
Sobre a lama praiana e a areia, rajadas de neve inclinando-se ferozes,
Onde através da escuridão se enfrenta o vento mortal do leste,
Através do turbilhão cortante e do borrifo, vigilantes e firmes avançando,
(Aquilo à distância! será um naufrágio? estará o sinal vermelho flamejando?)
Pela lama e areia da praia, incansáveis, seguindo até a luz do dia,
Firmemente, lentamente, através do rugido rouco que nunca cessa,
Ao longo da orla da meia-noite, junto àquelas cristas brancas como leite avançando,
Um grupo de formas indistintas, estranhas, lutando, enfrentando a noite,
Vigiando cautelosamente aquela trindade selvagem.
Depois do navio marítimo, depois dos ventos assobiantes,
Depois das velas branco-acinzentadas retesadas contra vergas e cordas,
Abaixo, miríades e miríades de ondas apressando-se, erguendo o pescoço,
Tendendo em fluxo incessante para o rastro do navio,
Ondas do oceano borbulhando e gorgolejando, perscrutando alegremente,
Ondas, ondas ondulantes, líquidas, irregulares, ondas rivais,
Rumo àquela corrente turbilhonante, risonhas e flutuantes, com curvas,
Onde a grande embarcação, singrando e mudando de bordo, deslocou a superfície,
Ondas maiores e menores, na extensão do oceano, fluindo ansiosamente,
A esteira do navio marítimo depois que ele passa, cintilante e brincalhona
sob o sol,
Uma procissão variegada com muitas manchas de espuma e muitos fragmentos,
Seguindo o majestoso e veloz navio, seguindo em sua esteira.
Tradução integral direta para o português brasileiro da edição final de 1891–1892 de Folhas de Relva, organizada nos 35 livros reais da obra e preservando seus 377 cabeçalhos estruturais.
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