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Folhas de Relva

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Folhas de Relva

Capítulo 23 · Folhas de Relva

LIVRO XXIII

23 de 35 ≈ 26 min de leitura

Às Margens do Azul Ontário

Às margens do azul Ontário,
Enquanto meditava nestes dias de guerra e na paz que retornara, e nos
mortos que não mais retornam,
Um Fantasma gigantesco, soberbo, de semblante severo, dirigiu-se a mim:
Entoa para mim o poema, disse, que vem da alma da América,
entoa para mim a cantiga da vitória,
E inicia as marchas de Libertad, marchas ainda mais poderosas,
E canta para mim, antes de partires, a canção dos transes da Democracia.

(Democracia, a conquistadora predestinada, mas por toda parte sorrisos traiçoeiros,
E morte e infidelidade a cada passo.)

2
Uma Nação anunciando a si mesma,
Eu mesmo produzo o único crescimento pelo qual posso ser apreciado,
Não rejeito ninguém, aceito todos, depois reproduzo todos em minhas próprias formas.

Uma raça cuja prova está no tempo e nos feitos,
O que somos, somos, a natividade é resposta suficiente às objeções,
Empunhamos a nós mesmos como se empunha uma arma,
Somos poderosos e tremendos em nós mesmos,
Somos executivos em nós mesmos, somos suficientes na variedade
de nós mesmos,
Somos os mais belos para nós mesmos e em nós mesmos,
Mantemo-nos equilibrados no centro, ramificando-nos dali sobre o mundo,
Do Missouri, Nebraska ou Kansas, rindo dos ataques com desprezo.

Nada é pecaminoso para nós fora de nós mesmos,
Tudo o que aparece, tudo o que não aparece, somos belos ou
pecaminosos somente em nós mesmos.

(Ó Mãe, ó queridas Irmãs!
Se estamos perdidos, nenhum outro vencedor nos destruiu,
É por nós mesmos que descemos à noite eterna.)

3
Pensaste que poderia haver apenas um único supremo?
Pode haver qualquer número de supremos, um não contrabalança
outro mais do que uma visão contrabalança outra, ou
uma vida contrabalança outra.

Tudo é acessível a todos,
Tudo é para os indivíduos, tudo é para ti,
Nenhuma condição é proibida, nem a de Deus nem qualquer outra.

Tudo vem pelo corpo, somente a saúde te põe em relação com o universo.

Produzi grandes Pessoas, o restante virá.

4
Piedade e conformidade para aqueles que delas gostam,
Paz, obesidade, lealdade, para aqueles que delas gostam,
Eu sou aquele que, provocando, compele homens, mulheres, nações,
Gritando: Saltai de vossos assentos e lutai por vossas vidas!

Eu sou aquele que percorre os Estados com língua farpada, interrogando cada
pessoa que encontro:
Quem és tu, que querias apenas que te dissessem aquilo que já sabias?
Quem és tu, que querias apenas um livro que te acompanhasse em teus disparates?

(Com transes e gritos como os teus, ó geradora de muitos filhos,
Estes clamores selvagens entrego a uma raça orgulhosa.)

Ó terras, quereríeis ser mais livres que tudo o que já existiu antes?
Caso queirais ser mais livres que tudo o que existiu antes, vinde escutar-me.

Temei a graça, a elegância, a civilização, a delicadeza,
Temei o doce maduro, o sorver do suco de mel,
Cuidado com o amadurecimento mortal e progressivo da Natureza,
Cuidado com aquilo que precede a decadência da rudeza dos Estados e dos homens.

5
Eras, precedentes, há muito acumulam materiais sem direção,
A América traz construtores e traz seus próprios estilos.

Os poetas imortais da Ásia e da Europa cumpriram sua obra e
passaram a outras esferas,
Resta uma obra, a obra de superar tudo o que fizeram.

A América, curiosa diante de caracteres estrangeiros, permanece ao lado dos seus a
qualquer custo,
Permanece apartada, espaçosa, composta, sã, inicia o verdadeiro uso
dos precedentes,
Não os repele, nem ao passado, nem ao que produziram sob
suas formas,
Recebe a lição com serenidade, percebe o cadáver lentamente levado
para fora da casa,
Percebe que ele espera um pouco à porta, que foi
o mais adequado para seus dias,
Que sua vida desceu ao herdeiro robusto e bem-formado que
se aproxima,
E que ele será o mais adequado para seus dias.

Em qualquer período, uma nação deve liderar,
Uma terra deve ser a promessa e o amparo do futuro.

Estes Estados são o mais amplo poema,
Aqui não há meramente uma nação, mas uma fecunda Nação de nações,
Aqui os feitos dos homens correspondem aos feitos amplamente disseminados do
dia e da noite,
Aqui está o que se move em massas magníficas, indiferente aos pormenores,
Aqui estão os rudes, as barbas, a amizade, a combatividade, que a alma ama,
Aqui os cortejos que fluem, aqui as multidões, a igualdade, a diversidade, que a
alma ama.

6
Terra das terras, e bardos para confirmá-la!
Entre eles, de pé em meio a eles, um ergue para a luz um rosto criado no Oeste,
A ele o semblante hereditário legado tanto pela mãe quanto pelo pai,
Suas primeiras partes, substâncias, terra, água, animais, árvores,
Construído do tronco comum, tendo espaço para o distante e o próximo,
Habituado a dispensar outras terras, encarnando esta terra,
Atraindo-a, corpo e alma, para si, pendendo de seu pescoço com
amor incomparável,
Mergulhando seu músculo seminal nos méritos e deméritos dela,
Fazendo suas cidades, começos, acontecimentos, diversidades, guerras, falarem nele,
Fazendo seus rios, lagos, baías, desembocarem nele,
Mississippi com suas enchentes anuais e canais mutáveis, Columbia,
Niagara, Hudson, derramando-se amorosamente nele,
Se a costa Atlântica se estende ou se estende a costa do Pacífico, ele
se estende com elas para o Norte ou para o Sul,
Abrangendo entre elas o Leste e o Oeste, e tocando tudo o que existe entre ambas,
Crescimentos crescendo dele para contrabalançar os crescimentos do pinheiro, cedro, tsuga,
carvalho-verde, acácia, castanheiro, nogueira, choupo, laranjeira, magnólia,
Emaranhados tão emaranhados nele quanto qualquer canavial ou pântano,
Ele assemelhando-se às encostas e aos cumes das montanhas, às florestas cobertas de
gelo transparente do norte,
Dele, pastagem doce e natural como savana, planalto, pradaria,
Através dele, voos, giros, gritos, respondendo aos do
gavião-pescador, sabiá-mímico, savacu e águia,
Seu espírito envolvendo o espírito de seu país, aberto ao bem e ao mal,
Envolvendo as essências das coisas reais, dos tempos antigos e dos tempos presentes,
Envolvendo praias recém-descobertas, ilhas, tribos de aborígenes vermelhos,
Embarcações castigadas pelo tempo, desembarques, povoações, estatura e músculos embrionários,
O altivo desafio do Ano Um, guerra, paz, a formação da
Constituição,
Os Estados separados, o plano simples e elástico, os imigrantes,
A União sempre fervilhando de tagarelas e sempre segura e inexpugnável,
O interior não demarcado, casas de toras, clareiras, animais selvagens,
caçadores, armadilheiros,
Envolvendo a agricultura multiforme, minas, temperatura, a
gestação de novos Estados,
O Congresso reunindo-se a cada Décimo Segundo Mês, os membros devidamente
chegando das regiões mais remotas,
Envolvendo o caráter nobre dos mecânicos e agricultores, especialmente
dos jovens,
Correspondendo a seus modos, fala, vestimenta, amizades, ao andar que
têm as pessoas que jamais souberam como era permanecer diante
de superiores,
O frescor e a franqueza de sua fisionomia, a abundância e
decisão de sua frenologia,
A soltura pitoresca de seu porte, sua ferocidade quando injustiçados,
A fluência de sua fala, seu prazer na música, sua curiosidade,
bom humor e generosidade, todo o conjunto composto,
O ardor e o empreendimento predominantes, a ampla capacidade amorosa,
A perfeita igualdade da mulher com o homem, o movimento fluido
da população,
A marinha superior, o comércio livre, a pesca, a caça à baleia, a extração de ouro,
Cidades cercadas de cais, linhas ferroviárias e de barcos a vapor cruzando todos os pontos,
Fábricas, vida mercantil, máquinas que poupam trabalho, o Nordeste,
Noroeste, Sudoeste,
Bombeiros de Manhattan, a troca ianque, a vida nas plantações do sul,
Escravidão, a conspiração assassina e traiçoeira para erguê-la sobre as
ruínas de todo o restante,
Adiante e adiante até o confronto com ela, Assassina! então tua vida ou a nossa
será a aposta, e nenhuma trégua mais.

7
(Eis, alto em direção ao céu, neste dia,
Libertad, retornada do campo da conquistadora,
Distingo a nova auréola ao redor de tua cabeça,
Já não suave e astral, mas deslumbrante e feroz,
Com as chamas da guerra e os relâmpagos tremulantes brincando,
E teu porte imóvel onde permaneces,
Ainda com o olhar inextinguível e o punho cerrado e erguido,
E teu pé sobre o pescoço daquele que ameaçava, o escarnecedor inteiramente
esmagado sob ti,
O ameaçador arrogante que caminhou e avançou com seu
desprezo insensato, portando a faca assassina,
Aquele que tanto se avolumava, o fanfarrão que ontem faria tanto,
Hoje carniça morta e condenada, desprezado por toda a terra,
Imundície fétida, lançada aos vermes do esterco.)

8
Outros chegam ao acabamento, mas a República está sempre construindo e sempre
conserva a perspectiva,
Outros adornam o passado, mas a vós, ó dias do presente, eu vos adorno,
Ó dias do futuro, creio em vós, isolo-me por vossa causa,
Ó América, porque constróis para a humanidade, construo para ti,
Ó bem-amados talhadores de pedra, conduzo aqueles que planejam com decisão
e ciência,
Conduzo o presente com mão amiga em direção ao futuro.
(Bravos a todos os impulsos que enviam filhos sãos à próxima era!
Mas maldito aquilo que se gasta sem pensar na mancha,
nas dores, no desalento, na debilidade que está legando.)

9
Escutei o Fantasma às margens do Ontário,
Ouvi a voz que se erguia exigindo bardos,
Por eles todos nativos e grandiosos, somente por eles podem estes Estados
fundir-se no organismo compacto de uma Nação.

Manter os homens unidos por papel e selo ou por coerção nada vale,
Somente mantém os homens unidos aquilo que agrega todos num princípio vivo,
como a união dos membros do corpo ou das fibras das plantas.

De todas as raças e eras, estes Estados, com veias cheias de matéria poética,
são os que mais necessitam de poetas, e terão os maiores, e deles farão o maior uso,
Seus Presidentes não serão tanto seus árbitros comuns quanto
serão seus poetas.

(Alma de amor e língua de fogo!
Olho para perfurar as profundezas mais fundas e varrer o mundo!
Ah, Mãe, prolífica e plena em tudo o mais, mas por quanto tempo estéril, estéril?)

10
Destes Estados, o poeta é o homem equilibrado,
Não nele, mas longe dele, as coisas são grotescas, excêntricas, deixam de alcançar
seus plenos resultados,
Nada fora de seu lugar é bom, nada em seu lugar é mau,
Ele concede a cada objeto ou qualidade sua proporção adequada, nem
mais nem menos,
Ele é o árbitro do diverso, ele é a chave,
Ele é o equalizador de sua era e de sua terra,
Fornece o que precisa ser fornecido, contém o que precisa ser contido,
Na paz, dele fala o espírito da paz, amplo, rico,
próspero, construindo cidades populosas, incentivando a agricultura, as artes,
o comércio, iluminando o estudo do homem, da alma, da saúde,
da imortalidade, do governo,
Na guerra, é o melhor sustentáculo da guerra, traz artilharia tão
boa quanto a do engenheiro, pode fazer cada palavra que pronuncia extrair sangue,
Os anos que se desviam em direção à infidelidade ele retém com sua fé constante,
Não é um argumentador, é o juízo, (a Natureza o aceita por completo,)
Não julga como o juiz julga, mas como o sol incidindo ao redor
da coisa indefesa,
Como enxerga mais longe, tem mais fé,
Seus pensamentos são os hinos de louvor às coisas,
Na disputa sobre Deus e a eternidade, permanece calado,
Vê a eternidade menos como uma peça com prólogo e desfecho,
Vê a eternidade em homens e mulheres, não vê homens e mulheres
como sonhos ou pontos.

Pela grande Ideia, a ideia de indivíduos perfeitos e livres,
Por ela, o bardo caminha à frente, líder dos líderes,
Sua atitude anima os escravos e aterroriza os déspotas estrangeiros.

Sem extinção é a Liberdade, sem retrocesso é a Igualdade,
Vivem nos sentimentos dos jovens e das melhores mulheres,
(Não foi em vão que as cabeças indomáveis da terra estiveram sempre
prontas a cair pela Liberdade.)

11
Pela grande Ideia,
Essa, ó meus irmãos, essa é a missão dos poetas.

Canções de severo desafio sempre prontas,
Canções do rápido armamento e da marcha,
A bandeira da paz depressa dobrada, e em seu lugar a bandeira que conhecemos,
Bandeira guerreira da grande Ideia.

(Tecido furioso que vi ali saltando!
Permaneço de novo sob a chuva de chumbo, saudando tuas pregas que batem,
Canto-te acima de tudo, voando, chamando através da luta, ó luta
duramente disputada!
Os canhões abrem suas bocas de clarões rosados, os projéteis arremessados gritam,
A frente de batalha se forma em meio à fumaça, as salvas jorram incessantes
da linha,
Escutai, a palavra sonora: Atacar! agora a refrega e os furiosos
gritos enlouquecedores,
Agora os cadáveres tombam encolhidos sobre o chão,
Frios, frios na morte, pela preciosa vida de ti,
Tecido furioso que vi ali saltando.)

12
És tu aquele que assumiria um lugar para ensinar ou ser poeta aqui
nos Estados?
O lugar é augusto, as condições inflexíveis.

Quem assumiria ensinar aqui deve preparar-se bem de corpo e mente,
Deve examinar, ponderar, armar-se, fortificar-se, endurecer-se, tornar-se ágil,
Certamente será interrogado antes por mim com muitas e severas perguntas.

Quem és tu, de fato, que falarias ou cantarias à América?
Estudaste a terra, seus idiomas e seus homens?
Aprendeste a fisiologia, a frenologia, a política, a geografia,
o orgulho, a liberdade, a amizade da terra? seus substratos e objetos?
Consideraste o pacto orgânico do primeiro dia do
primeiro ano da Independência, assinado pelos Comissários, ratificado
pelos Estados e lido por Washington à frente do exército?
Assenhoraste-te da Constituição Federal?
Vês quem deixou para trás todos os processos e poemas feudais
e assumiu os poemas e processos da Democracia?
És fiel às coisas? ensinas o que ensinam a terra e o mar, os
corpos dos homens, a condição feminina, a capacidade amorosa, as cóleras heroicas?
Atravessaste velozmente costumes passageiros, popularidades?
Podes manter tua mão firme contra todas as seduções, loucuras, torvelinhos,
contendas ferozes? és muito forte? és realmente de todo o
Povo?
Não pertences a algum círculo? alguma escola ou mera religião?
Terminaste com resenhas e críticas da vida? animando-te agora
para a própria vida?
Vivificaste a ti mesmo pela maternidade destes Estados?
Tens também a antiga e sempre renovada tolerância e imparcialidade?
Conservas igual amor pelos que amadurecem e se fortalecem? pelos
últimos nascidos? pequenos e grandes? e pelos errantes?

O que é isto que trazes à minha América?
Está em conformidade com meu país?
Não é algo que já foi melhor dito ou feito antes?
Não importaste isto, ou seu espírito, em algum navio?
Não é mera história? uma rima? uma graciosidade? está nela a boa e velha causa?
Não ficou por muito tempo pendurado nos calcanhares dos poetas, políticos,
letrados, das terras inimigas?
Não presume que aquilo que notoriamente se foi ainda está aqui?
Responde às necessidades universais? aperfeiçoará os costumes?
Faz soar com voz de trombeta a orgulhosa vitória da União naquela
guerra de secessão?
Pode tua obra enfrentar os campos abertos e a praia?
Será absorvida em mim como absorvo alimento, ar, para reaparecer em minha
força, meu andar, meu rosto?
Ocupações reais contribuíram para ela? criadores originais, não meros
amanuenses?
Enfrenta frente a frente descobertas, calibres e fatos modernos?
O que significa para as pessoas, os progressos, as cidades americanas? Chicago,
Canadá, Arkansas?
Vê, por trás dos aparentes guardiões, os verdadeiros guardiões
de pé, ameaçadores, silenciosos, os mecânicos, os habitantes de Manhattan, os homens
do Oeste, os sulistas, igualmente significativos em sua apatia e na
prontidão de seu amor?
Vê o que enfim sucede, e sempre enfim sucedeu,
a cada contemporizador, remendador, forasteiro, parcialista, alarmista,
infiel que alguma vez pediu alguma coisa à América?
Que negligência zombeteira e desdenhosa?
A trilha semeada com o pó de esqueletos,
Outros lançados com desprezo à beira da estrada.

13
Rimas e rimadores desaparecem, poemas destilados de poemas desaparecem,
Os enxames de refletores e os polidos passam e deixam cinzas,
Admiradores, importadores, pessoas obedientes, fazem apenas o solo da literatura,
A América justifica a si mesma, dai-lhe tempo, nenhum disfarce pode enganá-la
ou ocultar-se dela, ela é suficientemente impassível,
Somente em direção aos semelhantes a si mesma avançará para encontrá-los,
Caso seus poetas apareçam, no devido tempo avançará para encontrá-los, não
há receio de erro,
(A prova de um poeta será severamente adiada até que seu país
o absorva tão afetuosamente quanto ele o absorveu.)

Domina aquele cujo espírito domina, saboreia mais docemente aquele que resulta
mais doce ao longo do tempo,
O sangue da força muscular amada pelo tempo é livre de constrangimento;
Na necessidade de canções, filosofia, uma grande ópera nativa adequada,
construção naval, qualquer ofício,
Ele ou ela é maior quando oferece o maior exemplo original
e prático.

Já uma raça despreocupada, emergindo silenciosamente, aparece nas ruas,
Os lábios do povo saúdam apenas os que fazem, os que amam, os que satisfazem, os que conhecem de modo positivo,
Em breve não haverá mais sacerdotes, digo que sua obra está concluída,
A morte não tem emergências aqui, mas a vida é perpétua emergência aqui,
São soberbos teu corpo, teus dias, teus modos? depois da morte serás soberbo,
Justiça, saúde, autoestima, abrem caminho com poder irresistível;
Como ousas colocar qualquer coisa antes de um homem?

14
Ficai para trás de mim, Estados!
Um homem antes de tudo, eu mesmo, típico, antes de tudo.

Dai-me o pagamento pelo qual servi,
Dai-me cantar as canções da grande Ideia, tomai todo o restante,
Amei a terra, o sol, os animais, desprezei as riquezas,
Dei objetivos a cada pessoa que os pediu, defendi os estúpidos
e os loucos, dediquei minha renda e meu trabalho aos outros,
Odiei tiranos, não discuti a respeito de Deus, tive paciência e indulgência
para com o povo, não tirei o chapéu diante de nada conhecido ou desconhecido,
Convivi livremente com pessoas poderosas e sem instrução, e com os jovens,
e com as mães de família,
Li estas folhas para mim mesmo ao ar livre, provei-as pelas árvores,
estrelas, rios,
Rejeitei tudo o que insultava minha própria alma ou profanava meu corpo,
Nada reivindiquei para mim que não tenha cuidadosamente reivindicado para
os outros nos mesmos termos,
Corri aos acampamentos e encontrei e aceitei camaradas de todos os Estados,
(Sobre este peito muitos soldados moribundos se inclinaram para exalar o último suspiro,
Este braço, esta mão, esta voz alimentaram, ergueram, restauraram,
Chamando de volta à vida muitas formas prostradas;)
Estou disposto a esperar ser compreendido pelo crescimento do gosto por mim mesmo,
Sem rejeitar ninguém, permitindo todos.

(Dize, ó Mãe, não fui fiel ao teu pensamento?
Não mantive, durante a vida, a ti e aos teus diante de mim?)

15
Juro que começo a ver o significado destas coisas,
Não é a terra, não é a América que é tão grande,
Sou eu que sou grande ou devo ser grande, és Tu aí, ou qualquer pessoa,
É atravessar rapidamente civilizações, governos, teorias,
Através de poemas, cortejos, espetáculos, para formar indivíduos.

Sob tudo, indivíduos,
Juro que nada agora me parece bom quando ignora indivíduos,
O pacto americano é inteiramente com indivíduos,
O único governo é aquele que dá minuciosa atenção aos indivíduos,
Toda a teoria do universo se dirige infalivelmente a um
único indivíduo, isto é, a Ti.

(Mãe! com senso sutil e severo, com a espada nua em tua mão,
Vi-te enfim recusar tratar senão diretamente com indivíduos.)

16
Sob tudo, a Natividade,
Juro que permanecerei fiel à minha própria natividade, piedosa ou ímpia, que assim seja;
Juro que nada me encanta exceto a natividade,
Homens, mulheres, cidades, nações, são belos somente pela natividade.

Sob tudo está a Expressão do amor pelos homens e mulheres,
(Juro que vi o bastante de modos mesquinhos e impotentes de expressar
amor por homens e mulheres,
Depois deste dia adoto meus próprios modos de expressar amor por homens e
mulheres.) em mim mesmo,

Juro que terei em mim cada qualidade de minha raça,
(Falai como quiserdes, somente convém a estes Estados aquele cujos modos favorecem
a audácia e a sublime turbulência dos Estados.)

Sob as lições das coisas, dos espíritos, da Natureza, dos governos,
das propriedades, juro que percebo outras lições,
Sob tudo, para mim, estou eu mesmo, para ti, tu mesmo, (a mesma
velha canção monótona.)

17
Ó, vejo num lampejo que esta América é somente tu e eu,
Seu poder, suas armas, seu testemunho, são tu e eu,
Seus crimes, mentiras, roubos, deserções, são tu e eu,
Seu Congresso é tu e eu, os funcionários, capitólios, exércitos, navios,
são tu e eu,
Suas intermináveis gestações de novos Estados são tu e eu,
A guerra, (aquela guerra tão sangrenta e sombria, a guerra que doravante
esquecerei), foi tu e eu,
O natural e o artificial são tu e eu,
Liberdade, linguagem, poemas, ocupações, são tu e eu,
Passado, presente, futuro, são tu e eu.

Não ouso esquivar-me de qualquer parte de mim mesmo,
Nem de qualquer parte da América, boa ou má,
Nem deixar de construir para aquilo que constrói para a humanidade,
Nem deixar de equilibrar classes, compleições, credos e os sexos,
Nem deixar de justificar a ciência ou a marcha da igualdade,
Nem de alimentar o sangue arrogante da força muscular amada pelo tempo.

Sou por aqueles que jamais foram dominados,
Por homens e mulheres cujos temperamentos jamais foram dominados,
Por aqueles que leis, teorias, convenções jamais podem dominar.

Sou por aqueles que caminham lado a lado com toda a terra,
Que inauguram um para inaugurar todos.

Não me deixarei intimidar pelas coisas irracionais,
Penetrarei o que há nelas de sarcástico contra mim,
Farei cidades e civilizações cederem diante de mim,
Isto é o que aprendi com a América, essa é a soma, e isso
ensino novamente.

(Democracia, enquanto armas estavam por toda parte apontadas para teu peito,
Vi-te serenamente dar à luz filhos imortais, vi em sonhos
tua forma dilatando-se,
Vi-te com o manto estendido cobrindo o mundo.)

18
Confrontarei estes espetáculos do dia e da noite,
Saberei se devo ser menor que eles,
Verei se não sou tão majestoso quanto eles,
Verei se não sou tão sutil e real quanto eles,
Verei se devo ser menos generoso que eles,
Verei se não tenho significado, enquanto as casas e os navios têm significado,
Verei se os peixes e os pássaros devem bastar a si mesmos,
e eu não devo bastar a mim mesmo.

Comparo meu espírito ao vosso, ó orbes, crescimentos, montanhas, animais,
Copiosos como sois, absorvo-vos todos em mim e torno-me eu mesmo o senhor,
A América isolada e ainda assim encarnando tudo, o que é enfim senão eu mesmo?
Estes Estados, o que são senão eu mesmo?

Agora sei por que a terra é grosseira, provocadora, perversa, é por minha causa,
Tomo-vos especialmente como meus, ó formas terríveis e rudes.

(Mãe, inclina-te, aproxima teu rosto do meu,
Não sei para que servem estas tramas, guerras e adiamentos,
Não conheço o êxito da fruição, mas sei que através da guerra e do crime
tua obra prossegue, e ainda deve prosseguir.)

19
Assim, às margens do azul Ontário,
Enquanto os ventos me abanavam e as ondas vinham em tropas em minha direção,
Estremeci com as pulsações do poder, e o encanto de meu tema
estava sobre mim,
Até que os tecidos que me continham romperam seus vínculos sobre mim.

E vi as almas livres dos poetas,
Os mais elevados bardos das eras passadas caminharam diante de mim,
Estranhos homens grandiosos, por muito tempo adormecidos, não revelados, revelaram-se a mim.

20
Ó meu verso arrebatado, meu chamado, não zombes de mim!
Não pelos bardos do passado, não para invocá-los lancei-te
adiante,
Nem para chamar sequer aqueles elevados bardos aqui às margens do Ontário,
Cantei tão caprichosa e sonoramente minha canção selvagem.

Bardos apenas para minha própria terra eu invoco,
(Pois a guerra, a guerra terminou, o campo está desimpedido,)
Até que iniciem marchas doravante triunfantes e sempre adiante,
Para animar, ó Mãe, tua alma ilimitada e expectante.

Bardos da grande Ideia! bardos das invenções pacíficas! (pois a
guerra, a guerra terminou!)
Contudo, bardos de exércitos latentes, um milhão de soldados esperando sempre prontos,
Bardos com canções como carvões ardentes ou os riscos bifurcados do relâmpago!
Bardos do amplo Ohio, do Canadá, bardos da Califórnia! bardos do interior,
bardos da guerra!
A vós, por meu encanto, invoco.

Reversões

Que aquilo que estava à frente passe para trás,
Que aquilo que estava atrás avance para a frente,
Que fanáticos, tolos, pessoas impuras ofereçam novas proposições,
Que as antigas proposições sejam adiadas,
Que um homem busque prazer em toda parte, exceto em si mesmo,
Que uma mulher busque felicidade em toda parte, exceto em si mesma.

Folhas de Relva

Sinopse

Tradução integral direta para o português brasileiro da edição final de 1891–1892 de Folhas de Relva, organizada nos 35 livros reais da obra e preservando seus 377 cabeçalhos estruturais.

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LITEBN
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