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Folhas de Relva

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Folhas de Relva

Capítulo 25 · Folhas de Relva

LIVRO XXV

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Música Altiva da Tempestade

1

Música altiva da tempestade,
Rajada que avança tão livre, assobiando através das pradarias,
Forte rumor das copas das árvores da floresta, vento das montanhas,
Formas indistintas personificadas, vós, orquestras ocultas,
Vós, serenatas de fantasmas com instrumentos alertas,
Fundindo ao ritmo da Natureza todas as línguas das nações;
Vós, acordes deixados como por vastos compositores, vós, coros,
Vós, danças sem forma, livres, religiosas, vós vindas do Oriente,
Vós, murmúrio profundo dos rios, rugido de cataratas que se precipitam,
Vós, sons de canhões distantes com cavalaria a galope,
Ecos de acampamentos com todos os diversos toques de clarim,
Marchando tumultuosos, enchendo a noite já alta, curvando-me impotente,
Entrando em meu solitário aposento de sono, por que vos apoderastes de mim?

2

Avança, ó minha alma, e que tudo o mais se retire,
Escuta, nada percas, é para ti que se dirigem,
Apartando a meia-noite, entrando em meu aposento de sono,
Para ti cantam e dançam, ó alma.

Uma canção de festa,
O dueto do noivo e da noiva, uma marcha nupcial,
Com lábios de amor e corações de amantes cheios de amor até a borda,
As faces ruborizadas e os perfumes, o cortejo fervilhando de
rostos amigos, jovens e velhos,
Ao som das notas claras das flautas e do cantabile das harpas ressonantes.

Agora tambores ruidosos se aproximam,
Vitória! vês na fumaça da pólvora as bandeiras rasgadas, mas ainda esvoaçantes?
a debandada dos derrotados?
Ouves os brados de um exército conquistador?

(Ah, alma, os soluços das mulheres, os feridos gemendo em agonia,
O silvo e o crepitar das chamas, as ruínas enegrecidas, as brasas das cidades,
O canto fúnebre e a desolação da humanidade.)

Agora melodias antigas e medievais me enchem,
Vejo e ouço velhos harpistas com suas harpas nos festivais galeses,
Ouço os minnesingers cantando seus poemas de amor,
Ouço os menestréis, jograis e trovadores da Idade Média.

Agora soa o grande órgão,
Trêmulo, enquanto por baixo, (como os ocultos fundamentos da terra,
Sobre os quais repousam, ao se erguer, e dos quais dependem, ao irromper,
Todas as formas de beleza, graça e força, todas as cores que conhecemos,
Verdes folhas de relva e pássaros que gorjeiam, crianças que saltam e
brincam, as nuvens do céu acima,)
Permanece a base vigorosa, e suas pulsações não cessam,
Banhando, sustentando, fundindo todo o restante, maternidade de todo o restante,
E com ela cada instrumento em multidões,
Os músicos tocando, todos os músicos do mundo,
Os hinos solenes e as missas despertando adoração,
Todos os apaixonados cânticos do coração, apelos dolorosos,
Os doces e incomensuráveis cantores das eras,
E, como moldura que tudo dissolve, o próprio diapasão da terra,
Dos ventos e bosques e poderosas ondas do oceano,
Uma nova orquestra composta, ligando anos e climas, renovadora dez vezes,
Como nos dias longínquos de que falam os poetas, o Paradiso,
O extravio para longe dele, a longa separação, mas agora terminada a errância,
Terminada a viagem, o viajante de volta ao lar,
E o homem e a arte novamente fundidos com a Natureza.

Tutti! pela terra e pelo céu;
(O regente Onipotente desta vez deu o sinal com sua batuta.)

A estrofe viril dos maridos do mundo,
E todas as esposas respondendo.

As línguas dos violinos,
(Penso, ó línguas, que contais este coração, que não pode contar a si mesmo,
Este coração meditativo e ansioso, que não pode contar a si mesmo.)

3

Ah, desde criança,
Sabes, alma, como para mim todos os sons se tornaram música,
A voz de minha mãe em cantiga de ninar ou hino,
(A voz, ó vozes ternas, vozes amorosas da memória,
Último milagre de todos, ó vozes queridíssimas da mãe, da irmã;)
A chuva, o milho crescendo, a brisa entre as longas folhas do milho,
A arrebentação ritmada do mar batendo na areia,
O chilrear do pássaro, o grito agudo do falcão,
Os chamados das aves selvagens à noite, voando baixo em migração para o norte ou para o sul,
O salmo na igreja rural ou entre as árvores agrupadas, a
reunião religiosa ao ar livre,
O violinista na taverna, a cantoria, a longa canção marinheira,
O mugido do gado, o balido das ovelhas, o canto do galo ao amanhecer.

Todas as canções das terras atuais vêm ressoando ao meu redor,
As melodias alemãs de amizade, vinho e amor,
Baladas irlandesas, alegres gigas e danças, trinados ingleses,
Canções da França, melodias escocesas e, acima de todas,
As composições incomparáveis da Itália.

Atravessando o palco, com palidez no rosto, mas paixão incandescente,
Avança Norma, brandindo o punhal na mão.

Vejo o brilho sobrenatural nos olhos da pobre Lucia enlouquecida,
Seus cabelos caem soltos e desalinhados pelas costas.

Vejo onde Ernani, caminhando pelo jardim nupcial,
Entre o perfume das rosas noturnas, radiante, segurando a noiva pela mão,
Ouve o chamado infernal, o juramento de morte da trompa.

Ao cruzar de espadas e cabelos grisalhos descobertos diante do céu,
O claro e elétrico baixo e barítono do mundo,
O duo de trombones, Libertad para sempre!
Sob a sombra densa dos castanheiros espanhóis,
Junto aos muros antigos e pesados de um convento, uma canção lamentosa,
Canção do amor perdido, a tocha da juventude e da vida apagada pelo desespero,
Canção do cisne moribundo, o coração de Fernando está se partindo.

Despertando de suas dores, por fim recuperada, Amina canta,
Copiosas como estrelas e alegres como a luz da manhã, as torrentes de sua alegria.

(A senhora fecunda se aproxima,
O orbe luminoso, Vênus contralto, a mãe florescente,
Irmã dos deuses mais elevados, ouço a própria Alboni.)

4

Ouço aquelas odes, sinfonias, óperas,
Ouço em Guilherme Tell a música de um povo desperto e irado,
Ouço Os Huguenotes, O Profeta ou Roberto, de Meyerbeer,
Fausto, de Gounod, ou Don Juan, de Mozart.

Ouço a música de dança de todas as nações,
A valsa, alguma cadência deliciosa, fluindo, banhando-me em êxtase,
O bolero ao tilintar de violões e ao estalar de castanholas.

Vejo danças religiosas antigas e novas,
Ouço o som da lira hebraica,
Vejo os cruzados marchando, levando a cruz erguida, ao
clangor marcial dos címbalos,
Ouço os dervixes entoando monotonamente, entrecortados por brados
frenéticos, enquanto giram, voltando-se sempre para Meca,
Vejo as danças religiosas extáticas dos persas e dos árabes,
Novamente, em Elêusis, morada de Ceres, vejo os gregos modernos dançando,
Ouço-os bater palmas enquanto curvam o corpo,
Ouço o arrastar ritmado de seus pés.

Vejo outra vez a antiga e selvagem dança coribântica, os dançarinos ferindo
uns aos outros,
Vejo os jovens romanos, ao som estridente das flautas, lançando e
apanhando suas armas,
Enquanto caem de joelhos e tornam a erguer-se.

Ouço da mesquita muçulmana o chamado do muezim,
Vejo os fiéis lá dentro, sem forma nem sermão, argumento ou palavra,
Mas silenciosos, estranhos, devotos, cabeças erguidas e ardentes, rostos extáticos.

Ouço a harpa egípcia de muitas cordas,
Os cânticos primitivos dos barqueiros do Nilo,
Os sagrados hinos imperiais da China,
Aos delicados sons do king, (madeira e pedra percutidas,)
Ou ao som das flautas hindus e do vibrante dedilhar da vina,
Um grupo de baiadeiras.

5

Agora Ásia e África me deixam, a Europa me toma e me infla,
Ao som de enormes órgãos e bandas, ouço como que vastas multidões de vozes,
O vigoroso hino de Lutero, Eine feste Burg ist unser Gott,
O Stabat Mater dolorosa de Rossini,
Ou, flutuando em alguma alta catedral, obscurecida por esplêndidos vitrais coloridos,
O apaixonado Agnus Dei ou Gloria in Excelsis.

Compositores! poderosos maestros!
E vós, doces cantores das terras antigas, soprani, tenori, bassi!
A vós um novo bardo, cantando no Oeste,
Inclinado em reverência, envia seu amor.

(Tudo isso conduziu a ti, ó alma,
Todos os sentidos, espetáculos e objetos conduzem a ti,
Mas agora me parece que o som conduz acima de todo o restante.)

Ouço o canto anual das crianças na catedral de São Paulo,
Ou, sob o alto teto de algum salão colossal, as sinfonias,
os oratórios de Beethoven, Handel ou Haydn,
A Criação me banha em ondas de divindade.

Dai-me conter todos os sons, (clamo, lutando como louco,)
Enchei-me com todas as vozes do universo,
Dotai-me de suas pulsações, e também das da Natureza,
As tempestades, águas, ventos, óperas e cânticos, marchas e danças,
Proferi, derramai dentro de mim, pois quero recebê-los todos!

6

Então despertei suavemente,
E, detendo-me, interrogando por algum tempo a música de meu sonho,
E interrogando todas aquelas reminiscências, a tempestade em sua fúria,
E todas as canções de sopranos e tenores,
E aquelas extáticas danças orientais de fervor religioso,
E os doces e variados instrumentos, e o diapasão dos órgãos,
E todos os singelos lamentos de amor, dor e morte,
Disse à minha alma silenciosa e curiosa, do leito do aposento de sono:
Vem, pois encontrei a pista que procurei por tanto tempo,
Saiamos revigorados em meio ao dia,
Contando alegremente a vida, caminhando pelo mundo, pelo real,
Nutridos de agora em diante por nosso sonho celestial.

E disse ainda:
Talvez o que ouviste, ó alma, não fosse o som dos ventos,
Nem sonho de tempestade furiosa, nem bater de asas ou grito áspero do falcão-marinho,
Nem a vocalização da Itália iluminada pelo sol,
Nem o majestoso órgão alemão, nem vasta multidão de vozes, nem camadas
de harmonias,
Nem estrofes de maridos e esposas, nem som de soldados marchando,
Nem flautas, nem harpas, nem os toques de clarim dos acampamentos,
Mas poemas ajustados a um novo ritmo para ti,
Poemas abrindo uma ponte da Vida para a Morte, vagamente levados pelo ar
noturno, não capturados, não escritos,
Que saiamos à luz do dia audaz e escrevamos.

Folhas de Relva

Sinopse

Tradução integral direta para o português brasileiro da edição final de 1891–1892 de Folhas de Relva, organizada nos 35 livros reais da obra e preservando seus 377 cabeçalhos estruturais.

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LITEBN
LITEBN-978657992047977741151761
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