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Folhas de Relva

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Folhas de Relva

Capítulo 30 · Folhas de Relva

LIVRO XXX. SUSSURROS DA MORTE CELESTIAL

30 de 35 ≈ 16 min de leitura

Ousas Agora, Ó Alma

Ousas agora, ó alma,
Caminhar comigo rumo à região desconhecida,
Onde não há chão para os pés nem caminho algum a seguir?

Não há mapa ali, nem guia,
Nem voz que soe, nem toque de mão humana,
Nem rosto de carne florescente, nem lábios, nem olhos, existem naquela terra.

Não a conheço, ó alma,
Nem tu a conheces, tudo é vazio diante de nós,
Tudo espera, jamais sonhado, naquela região, naquela terra inacessível.

Até que os vínculos se afrouxem,
Todos, exceto os vínculos eternos, Tempo e Espaço,
Nem escuridão, gravitação, sentido, nem limite algum a nos limitar.

Então irrompemos, flutuamos,
No Tempo e no Espaço, ó alma, preparados para eles,
Iguais, enfim equipados, (ó alegria! ó fruto de tudo!) para realizá-los, ó alma.

Sussurros da Morte Celestial

Sussurros da morte celestial ouço murmurarem,
Conversas labiais da noite, coros sibilantes,
Passos subindo suavemente, brisas místicas sopradas brandas e baixas,
Ondulações de rios invisíveis, marés de uma corrente que flui, flui para sempre,
(Ou é o chapinhar de lágrimas? as águas imensuráveis das lágrimas humanas?)

Vejo, mal vejo, voltadas para o céu, grandes massas de nuvens,
Lentas e pesarosas rolam, silenciosamente avolumando-se e misturando-se,
Com, às vezes, uma estrela distante, triste, meio obscurecida,
Aparecendo e desaparecendo.

(Antes algum parto, algum nascimento solene e imortal;
Nas fronteiras impenetráveis aos olhos,
Alguma alma está fazendo a travessia.)

Cantando o Quadrado Divino

1

Cantando o quadrado divino, avançando a partir do Uno, a partir dos lados,
A partir do antigo e do novo, a partir do quadrado inteiramente divino,
Sólido, de quatro lados, (todos os lados necessários,) deste lado sou Jeová,
Sou o antigo Brama, e sou Saturnius;
O Tempo não me afeta, eu sou o Tempo, antigo, tão moderno quanto qualquer um,
Inflexível, implacável, executando julgamentos justos,
Como a Terra, o Pai, o velho e moreno Cronos, com leis,
Antigo além de todo cálculo, contudo nunca novo, sempre girando com aquelas poderosas leis,
Implacável, não perdoo homem algum, quem peca morre, terei a vida desse homem;
Portanto, que ninguém espere misericórdia, têm as estações, a gravitação, os
dias designados, misericórdia? tampouco eu,
Mas, como as estações e a gravitação, e como todos os dias designados
que não perdoam,
Deste lado distribuo julgamentos inexoráveis sem o menor remorso.

2

Consolador suavíssimo, o prometido que avança,
Com a mão gentil estendida, sou o Deus mais poderoso,
Predito pelos profetas e poetas em suas profecias e poemas mais arrebatados,
Deste lado, eis! o Senhor Cristo contempla, eis! sou Hermes, eis! meu é
o rosto de Hércules,
Toda tristeza, trabalho, sofrimento, eu, computando-os, absorvo em mim,
Muitas vezes fui rejeitado, insultado, encarcerado e
crucificado, e muitas vezes o serei novamente,
Renunciei ao mundo inteiro por meus queridos irmãos e irmãs,
pela alma,
Percorrendo meu caminho pelas casas dos homens, ricos ou pobres, com o beijo
do afeto,
Pois sou o afeto, sou o Deus que traz alegria, com esperança e
caridade que tudo envolve,
Com palavras indulgentes, como às crianças, com palavras frescas e sãs, somente minhas,
Jovem e forte, passo, sabendo bem que estou destinado a uma
morte precoce;
Mas minha caridade não morre, minha sabedoria não morre, nem cedo nem tarde,
E meu doce amor, legado aqui e em outros lugares, nunca morre.

3

Distante, insatisfeito, tramando revolta,
Camarada dos criminosos, irmão dos escravos,
Astuto, desprezado, um serviçal, ignorante,
Com rosto de sudra e fronte desgastada, negro, mas nas profundezas do coração,
tão altivo quanto qualquer um,
Erguido agora e sempre contra quem, com desprezo, pretende governar-me,
Taciturno, cheio de ardil, cheio de lembranças, cismando, com muitas artimanhas,
(Embora tenham pensado que fui frustrado e dissipado, e que minhas artimanhas
terminaram, isso jamais acontecerá,)
Desafiador, eu, Satã, ainda vivo, ainda profiro palavras, aparecendo devidamente
em novas terras, (e também nas antigas,)
Permanente aqui, deste meu lado, guerreiro, igual a qualquer um, tão real quanto qualquer um,
Nem o tempo nem a mudança jamais mudarão a mim ou minhas palavras.

4

Santa Spirita, sopro, vida,
Além da luz, mais leve que a luz,
Além das chamas do inferno, jubilosa, saltando facilmente acima do inferno,
Além do Paraíso, perfumada somente por meu próprio perfume,
Incluindo toda a vida na terra, tocando, incluindo Deus, incluindo
Salvador e Satã,
Etérea, penetrando tudo, (pois sem mim o que seria tudo? o que seria Deus?)
Essência das formas, vida das identidades reais, permanente, positiva,
(isto é, a invisível,)
Vida do grande mundo redondo, do sol e das estrelas, e do homem, eu, a
alma geral,
Aqui completando o quadrado, o sólido, eu, a mais sólida,
Sopra também meu sopro através destas canções.

Daquele que Amo Dia e Noite

Daquele que amo dia e noite sonhei ter ouvido que estava morto,
E sonhei que fui aonde haviam enterrado aquele que amo, mas ele
não estava naquele lugar,
E sonhei que vaguei procurando entre lugares de sepultamento para encontrá-lo,
E descobri que todo lugar era um lugar de sepultamento;
As casas cheias de vida estavam igualmente cheias de morte, (esta casa está agora,)
As ruas, os navios, os lugares de diversão, Chicago,
Boston, Filadélfia, Mannahatta, estavam tão cheios de mortos quanto
de vivos,
E mais cheios, ó, imensamente mais cheios de mortos que de vivos;
E o que sonhei contarei de agora em diante a toda pessoa e era,
E de agora em diante permaneço ligado ao que sonhei,
E agora estou disposto a desconsiderar os lugares de sepultamento e dispensá-los,
E, se os memoriais dos mortos fossem erguidos indistintamente por toda parte,
mesmo no quarto onde como ou durmo, ficaria satisfeito,
E, se o cadáver de qualquer pessoa que amo, ou se meu próprio cadáver, fosse devidamente
reduzido a pó e derramado no mar, ficaria satisfeito,
Ou, se fosse distribuído aos ventos, ficaria satisfeito.

Ainda, Ainda, Ó Horas Abatidas

Ainda, ainda, ó horas abatidas, também vos conheço,
Massas de chumbo, como obstruís e vos agarrais a meus tornozelos,
A terra se transforma numa câmara de luto, ouço a voz arrogante e
zombeteira,
A matéria é vencedora, somente a matéria, triunfante, prossegue.

Gritos desesperados flutuam incessantemente até mim,
O chamado de meu amante mais próximo, lançado, alarmado, incerto,
O mar que em breve navegarei, vem, diz-me,
Vem, diz-me para onde me precipito, diz-me meu destino.

Compreendo tua angústia, mas não posso ajudar-te,
Aproximo-me, ouço, contemplo a boca triste, o olhar dos olhos,
tua pergunta muda,
Para onde vou deste leito em que me reclino, vem, diz-me,
A velhice, alarmada, incerta, a voz de uma jovem, apelando a
mim por consolo;
A voz de um jovem: Não escaparei?

Como se um Fantasma me Acariciasse

Como se um fantasma me acariciasse,
Pensei não estar caminhando sozinho aqui junto à praia;
Mas aquele que pensei estar comigo enquanto agora caminho junto à praia, aquele
que amei e que me acariciou,
Enquanto me inclino e olho através da luz trêmula, desapareceu
por completo.
E aparecem aqueles que me são odiosos e zombam de mim.

Certezas

Não preciso de certezas, sou um homem ocupado com a própria alma;
Não duvido de que, sob os pés e junto às mãos e ao
rosto que conheço, estejam agora olhando rostos que não conheço,
rostos serenos e reais,
Não duvido de que a majestade e a beleza do mundo estejam latentes em
cada ínfima parte do mundo,
Não duvido de que sou ilimitado e de que os universos são ilimitados,
em vão tento pensar quão ilimitados,
Não duvido de que os orbes e os sistemas de orbes realizam seus
rápidos jogos através do ar com um propósito, e de que um dia
estarei apto a fazer tanto quanto eles, e mais que eles,
Não duvido de que os assuntos temporários prossigam por milhões de anos,
Não duvido de que os interiores tenham seus interiores, e os exteriores
seus exteriores, e de que a visão tenha outra visão, e
a audição outra audição, e a voz outra voz,
Não duvido de que estejam previstas as mortes apaixonadamente choradas dos jovens,
e de que estejam previstas as mortes das jovens e as
mortes das criancinhas,
(Pensavas que a Vida estivesse tão bem prevista, e que a Morte, o propósito
de toda Vida, não estivesse bem prevista?)
Não duvido de que os naufrágios no mar, não importam seus horrores,
não importa a esposa, o filho, o marido, o pai, o amante de quem
tenha afundado, estejam previstos até nos mínimos detalhes,
Não duvido de que tudo quanto possa acontecer em qualquer lugar e em qualquer
momento esteja previsto nas propriedades inerentes das coisas,
Não penso que a Vida preveja tudo, nem o Tempo e o Espaço, mas
creio que a Morte Celestial prevê tudo.

Anos de Areia Movediça

Anos de areia movediça que me fazem girar não sei para onde,
Vossos esquemas, políticas, fracassam, linhas cedem, substâncias zombam e fogem de mim,
Somente o tema que canto, a alma grande e possuída de força, não foge,
O próprio eu jamais deve ceder, essa é a substância final, aquilo
que, dentre tudo, é seguro,
Da política, dos triunfos, das batalhas, da vida, o que enfim permanece?
Quando os espetáculos se desfazem, que há de seguro senão o Próprio Eu?

Aquela Música Sempre ao Meu Redor

Aquela música sempre ao meu redor, incessante, sem princípio, contudo por muito tempo,
sem instrução, eu não a ouvi,
Mas agora ouço o coro e me exalto,
Um tenor, forte, ascendendo com poder e saúde, com notas alegres da
aurora, eu ouço,
Um soprano navegando a intervalos, flutuante, sobre o cume de ondas imensas,
Um baixo transparente estremecendo voluptuosamente sob e através do universo,
O tutti triunfante, os lamentos fúnebres com doces flautas e
violinos, de tudo isso me preencho,
Não ouço apenas os volumes sonoros, sou movido pelos sentidos
primorosos,
Escuto as vozes diferentes entrelaçando-se, esforçando-se,
disputando com veemência ardente para superarem umas às outras em emoção;
Não creio que os intérpretes conheçam a si mesmos, mas agora creio que
começo a conhecê-los.

Que Navio Perplexo no Mar

Que navio, perplexo no mar, estuda o cálculo verdadeiro?
Ou, ao entrar, para evitar os bancos e seguir o canal, precisa de um
piloto perfeito?
Aqui, marinheiro! aqui, navio! leva a bordo o mais perfeito piloto,
Que, num pequeno barco, afastando-me e remando, ofereço-vos enquanto vos saúdo.

Uma Aranha Silenciosa e Paciente

Uma aranha silenciosa e paciente,
Observei onde, sobre um pequeno promontório, permanecia isolada,
Observei como, para explorar o vasto vazio ao redor,
Lançava de si filamento, filamento, filamento,
Sempre os desenrolando, sempre os lançando incansavelmente.

E tu, ó minha alma, onde permaneces,
Cercada, separada, em oceanos imensuráveis de espaço,
Cismando sem cessar, aventurando-te, lançando, buscando as esferas para
conectá-las,
Até que se forme a ponte de que precisarás, até que a âncora flexível se firme,
Até que o fio de teia que lanças se prenda em algum lugar, ó minha alma.

Ó Sempre Vivendo, Sempre Morrendo

Ó sempre vivendo, sempre morrendo!
Ó meus sepultamentos passados e presentes,
Ó eu, enquanto avanço a passos largos, material, visível, imperioso como sempre;
Ó eu, aquilo que fui durante anos, agora morto, (não lamento, estou satisfeito;)
Ó, desprender-me daqueles meus cadáveres, para os quais me volto e
olho onde os abandonei,
Prosseguir, (ó vivendo! sempre vivendo!) e deixar os cadáveres para trás.

A Alguém que em Breve Morrerá

Dentre todos os demais, escolho-te, pois tenho uma mensagem para ti,
Morrerás, que os outros te digam o que quiserem, não posso dissimular,
Sou exato e impiedoso, mas amo-te, não há escapatória para ti.

Suavemente pouso minha mão direita sobre ti, deves senti-la,
Não discuto, inclino a cabeça bem perto e meio a envolvo,
Sento-me tranquilamente ao lado, permaneço fiel,
Sou mais que enfermeiro, mais que pai, mãe ou vizinho,
Absolvo-te de tudo, exceto de ti mesmo, espiritual e corporal, que és
eterno, tu mesmo certamente escaparás,
O cadáver que deixarás será apenas excrementício.

O sol irrompe em direções inesperadas,
Pensamentos fortes e confiança te preenchem, sorris,
Esqueces que estás doente, como eu esqueço que estás doente,
Não vês os remédios, não te importas com os amigos que choram,
estou contigo,
Afasto os outros de ti, nada há de que se compadecer,
Não me compadeço, felicito-te.

Noite nas Pradarias

Noite nas pradarias,
A ceia terminou, o fogo no chão arde baixo,
Os emigrantes exaustos dormem, envolvidos em seus cobertores;
Caminho sozinho, detenho-me e olho as estrelas, que creio agora
jamais ter compreendido antes.

Agora absorvo imortalidade e paz,
Admiro a morte e ponho proposições à prova.

Quão abundante! quão espiritual! como tudo retoma!
O mesmo velho homem e a mesma alma, as mesmas antigas aspirações e a mesma satisfação.

Eu pensava que o dia era o mais esplêndido, até ver o que o não dia exibia,
Eu pensava que este globo bastava, até que brotaram tão silenciosamente
ao meu redor miríades de outros globos.

Agora, enquanto os grandes pensamentos do espaço e da eternidade me preenchem, vou
medir-me por eles,
E agora, tocado pelas vidas de outros globos que chegaram tão longe
quanto as da terra,
Ou que esperam chegar, ou que avançaram mais que as da terra,
De agora em diante não os ignoro mais do que ignoro minha própria vida,
Ou as vidas da terra que chegaram tão longe quanto a minha, ou esperam chegar.

Ó, agora vejo que a vida não pode exibir-me tudo, assim como o dia não pode,
Vejo que devo esperar pelo que será exibido pela morte.

Pensamento

Enquanto me sento com outros num grande banquete, de súbito, enquanto a música toca,
Surge em minha mente, (de onde vem não sei,) espectral na névoa, um
naufrágio no mar,
De certos navios, como partem do porto com flâmulas ao vento e
beijos lançados, e isso é o último que se vê deles,
Do solene e sombrio mistério em torno do destino do Presidente,
Da flor da ciência marítima de cinquenta gerações naufragada
ao largo da costa Nordeste e afundando, do navio a vapor Arctic
afundando,
Do quadro velado, mulheres reunidas no convés, pálidas, heroicas,
esperando o momento que se aproxima tanto, ó, o momento!

Um imenso soluço, algumas bolhas, a espuma branca jorrando para cima, e então as
mulheres desaparecem,
Afundando ali enquanto o fluxo úmido e impassível prossegue, e eu agora
pondero: aquelas mulheres de fato desapareceram?
As almas se afogam e são destruídas assim?
Somente a matéria triunfa?

A Última Invocação

Por fim, suavemente,
Das paredes da casa poderosa e fortificada,
Do aperto das fechaduras entrelaçadas, da guarda das portas bem fechadas,
Que eu seja levado pelo ar.

Que eu deslize silenciosamente para fora;
Com a chave da suavidade, abre as fechaduras, com um sussurro,
Escancara as portas, ó alma.

Suavemente, não sejas impaciente,
(Forte é teu domínio, ó carne mortal,
Forte é teu domínio, ó amor.)

Enquanto Observo o Lavrador Lavrando

Enquanto observava o lavrador lavrando,
Ou o semeador semeando nos campos, ou o ceifador fazendo a colheita,
Vi ali também, ó vida e morte, vossas analogias;
(Vida, a vida é o cultivo, e a Morte é a colheita correspondente.)

Pensativo e Hesitante

Pensativo e hesitante,
Escrevo as palavras os Mortos,
Pois vivos estão os Mortos,
(Talvez os únicos vivos, os únicos reais,
E eu a aparição, eu o espectro.)

Folhas de Relva

Sinopse

Tradução integral direta para o português brasileiro da edição final de 1891–1892 de Folhas de Relva, organizada nos 35 livros reais da obra e preservando seus 377 cabeçalhos estruturais.

Ver ficha da edição física
LITEBN
LITEBN-978657992047977741151761
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