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Histórias da Nossa Terra

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Histórias da Nossa Terra

Capítulo 7 · Histórias da Nossa Terra

O tesouro

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O THESOUR.O A uns dois kilometros de Nitheroy existe ainda, num recanto de praia, a casa do Angelo, ~oldado invalido, e que alli viveu largo tempo com a neta, a sua .Margarida. Nesses dias de paz, sem receios de accender cobiças, costumava elle dizer, acariciando as cicatt·izes do rosto murcho : Neste mundo ninguem tem um thesouro egual ao meu ... Corno elle fosse pobre, julgavam que alludisse naquelles dizeres á neta, unica pessoa da familia que lhe restava. Realmente, Magarida era tão bôa e tão alegre que só o ouvir-lhe a voz, quando cantava, fazia bem ao coração I lliSTO~-tiA::; DA 1\0S~A TEltRA A casa era pequena, com um pomar á esquerda, a frente para a estrada e os fundos para o mar. Uma noite, dois malfeitores appmximaram-se cautelosamente ela residencia do soldado e quedaram-se á espreita, protegidos pela;; arvores. Por certo · ambicionavam o thesouro do Angelo. Pela janella· aberta viam todo o interior ela salinha pobre, onde alvejava a toalha feita e lavada pelas mãos laboriosas de Margarida. Angelo fumava o seu cachimbo; a moça ia e vinha, preparando o matte e a mesa. Quando acabou, o avô ordenou-lhe : Vem caut.ar os rrieus versos ... Margarida despendurou o violão, e, toda contente, veio sentar-se perto do avô, sem suspeitar que do meio da treva dois bandidos olhavam com avidez par·a a prateleira de um armario sem portas, onde se alinhavam vinte e um saquinhos de panno branco. Aquelles saccos estão cheios de ouro! pensavam entre si os ladrões. O TIIESOURO Entretanto, Margarida cantava : Á sombra das camaúbeims Nasci nas bandas do Norte, E o rigor elo clima ardente Tornou-me um caboclo forte. Casei-me por duas vezes ... Faça o mesmo quem poder : Primeiro com minha Terra Depois com minha mulher. Da primeira fui soldado E da segunda marido ; Não sei qual tenha das duas Com mais extremos querido. Soldado, bati-me sempre Por este Brasil inteiro; Não sei se é do Sul ou Norte Um coração brasileiro. De norte a sul combatendo, Porque a Patria OI'a só uma, Anelei por serras o campos E praias cheias ele espuma. De cada terra em. que estive, Das que este Brasil ericerra, E que defendi com sangue, Trouxe um punhado ele terra. Guard<Ji-a como a lembrança De mais valor e mais pma; E ha de minha neta um dia Pôl-a em minha sepultura. Terra das terras ela Patria, Que amei nesta· vida breve, Sobre o corpo do soldado Sêele bem leve, bem leve! ... A voz argentina de Margarida, o velho Angelo revia as paizagens ag1'estes dos sedões, as suas viagens por montes e valles atravez todo o Brasil, pelo qual combatera com tamanho denodo! Aquellas ten·as eram membros do mesmo corpo : não decepassem um unico, para que o gigante nãci ficasse defeituoso! .\s immensas serras azues ... os longos prados cortados cl'aguas f1·escas ... _as palmeiras nas praias arenosas ... os campana- O THESOURO rios de vi lias cercadas de matto ... tudo o soldado revia como num sonho! Quando a neta abâfou o ultimo accorde no violão, Angelo tinha os olhos rasos d'agua ... As dez horas Margarida foi abrir. a cama do avô c ageitar o travesseiro. Elle ergueu-se e caminhou direito tl prateleira, onde se demorou apalpando os saquinhos, cuidadosamente. Lá está elle examinando o seu thesouro! ... pensaram os ladrões. Á meia noite o silencio na casa do soldado era absoluto. Fóra, cantavam grillos no pomar e as ondas gemiam na pr·aia, monotonamente. Os dois ladrões approximaram-se e abriram a porta quasi sem ruído, favoreeicl.0s pela bulha do mar.. Um dos ladrões ficou fóra, ele senlinella; só o mais moço entrou na ~alinha deserta. Com clle entrou o lua1', azul, muito claro, que foi dar de chapa no velho armario onde · Angelo guardava o .seu thesouro. O bandido IIISTOHIAS DA NOSSA TEI-tH.A oxtendeu Jogo pam elle as mãos criminosas, numa ancia de posse. Ia emfim tocar num d'esses saccos de OLiro, que o velho militar escondia tão mal! O luar· fa,·orecia-o. Dir-seía quo Deus o ajudava. Sem poder conter a N ITBERO\'. Caes de dosem barque. sua curiosidade, o bandido desatoLL o primeiro sacco e mergulhou nelle os dedos para tactear as moedas. Só encontrou terr·a ! ... Abriu o segundo. .. terea! Desatou j(t phreneticamente o terceiro ... term! Desesperado, abriu o quar·to ... o quinto ... terra! em todos terra, tet·ra, sempre terra! Então uma idéa atravessou-lhe o espi- O THESOlllW ll rito. Suppoz que entre a argilla, o barm ou o saibro, estivessem occultas pedms pt'eciosas; sobraçou então uma quantidade de saguinlios; averiguaria lá fóra com o outro companheiro e voltaria pelo resto depois ... Ao Yoltar-se, porém, estremeceu dando de rosto com o velho soldado, cuja espada rutilam ao forte clarão da lua. O bandido caíu de joelhos, tal a energia com que Angelo lhe col'tava os passos com a lamina immovel do sabre, ao mesmo tempo quo dizia : Ajoelha- te, miset·avel , e beija a tena que tens nas mãos, que é a tena da patria I Bem avisá.ra a Margarida na can<:ào do soldado: De norte a sul combatendo, Porque a Pat!'ia era só um~, Andei por serras e carnpos E praias cheias de espuma. De cada terra em que estive, Das que este Brasil encerra, E que defendi com sangue, Trouxe um pun ltado de [Prra. IIISTOHIAS DA C\OSSA TERHA Guardei-a como a !em bmnça De mais valor e mais pura, E: ha de minha neta um dia Pôl-a em miulm sepultura. Margarida cumpriu muito mais tarde a nmtade do avo, e sobre a leve torra da patria quo o cobre, vicejam rosas que ella cultiva piedosamente! ' ' Minha bóa O~vmpia Natal, 9 de Jàneir·o. Depois que parti'ste, quem administra os meus estados é a nossa que1·ida. irmâ Alice. Ern o.bediencia ao bom t·egim.en estabelecido em casa por nossa mamâe, continuo a leoantw·- me ás seis horas da manhâ. Depois de tomar o meu banho frio e de arrumar p meu quarto, visto-me, almoço e saio para o collegio; antes de saír, porém, examino sempre a bolsa, verificando se está tudo em ordem. Por isso levo sempre bem acàndicionados os livros, os caderrws. o lapis, a penna, a tesoura, a botTacha e a merenda. Os bons exemplos que recebi de Ú e dE Alice fazem-me ser cuidadosa e previdente. Percebo · que nossos paes estâo satisfeitos commigo, e zsso basta para ;azer a minha felicidade I lllSTORIA,; DA NOSSA 'l'l.atHA Vou sempr·e muito contente para a escalo,, e sei porquê ! lt' porque leoa as minhas lições bem sabidas e considem a minha pr·ojessora como uma amiga a quem a minha presença vae dar pra:::er. NATAL. Visla parcial do po•·to. E como é pacwnfe a minha p!'Ofessora ! Tambem por isso todas nós lá no collegio a amamos muito. As ve:::es r certo que a fazemos exasperar-se. . . lw crianças ião trat:Jês· sas, tão encliabr·adas ! Com a sua coz já enrouquecida, ella grita, zanga-se, mas .. nunca a sua mâo ameafou ninguem nem de um beliscão! A verdade é q~e bem os me1·e-

Histórias da Nossa Terra

Sinopse

Leia gratuitamente Histórias da Nossa Terra, de Júlia Lopes de Almeida, livro brasileiro em domínio público publicado em edição histórica de 1911. Esta edição digital do Literunico organiza contos, cartas e episódios cívico-literários sobre bandeira, língua, família, escola, estados brasileiros, trabalho, República e identidade nacional em 30 capítulos HTML para leitura online, busca, redes sociais e pesquisa por IA.

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