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Histórias da Nossa Terra

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Histórias da Nossa Terra

Capítulo 21 · Histórias da Nossa Terra

Coragem

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CORAGEM + + O jangadeiro Anselmo, da Fortaleza, olhava para o mar, sentado num casco velho de barco, emquanto a seus pés os netos brincavam, revolvendo-se na areia branca da ,praia. Vovô, pet'guntou . um d'elles ao ve- 1 h o, em que está pensando? _ Em que já fui assim como vocês são : pequeno, alegre, e que passava as tardes rolando nesta linda areia, emquanto n1eu avô olhava para o mar. Sómente, eu não lhe perguntava : Em que está pensando, vovô 'I pol'que elle era um homem calado e não me dava confiança ... Os dois meninos tinham saltado para os joelhos do velho, e ameigavam-lhe as faces com as mãozinhas gordas. HISTORJAS DA NOSSA TERRA O nosso vovõ é o melhor do mundo I exclamou um d'elles. O jangadeiro sorriu e continuou O meu avo tambem era um santo; muito melhor do que eu. Isso é im possi vel ! Et·a um cearense de lei, aferraçlo aos nossos costumes, ousado, forte, simples e amigo da pobreza. Uma vez vi-o tirar o 0asaco do corpo, e era n uni co que elle tinha, para o dar a um mendigo, que vivia a tremer de febre... Dava tudo; como era pescador, atirava-se ús vezes por essas . ondas bravas, só para ajudar os outms pescadores mais infelizes. Depois, se lhe queriam agradecer, voltava as costas e lá se ia embora. Não voltava de pescaria que não trouxesse uma porção de peixes para qualquer viuva necéssitada ou para qualquer criança sem pae. Da su::: rede muita gente comia sem gastar vintem. Entretanto era um homem calado ... Isso não quer dizer nada na gente velha, que é quasi sempre triste. Por isso rnesrn<J COHAliE:\JI é que as crianças devem ser meigas e riRonhas para n6s. Vocf's, meus Yelhacos, parecem ensinados! Quem YOS diz que me passeis assim com tanta do<;ura as mãos pela cara~ É a ·mamile ~ C.EARA Uma jangada. As crianças entreolharam-se admira- . das; depois o mais velho disse : Mamãe diz muitas Yezes : Vocês respeitem sempre os velhos, não ~e riam de quem tiver os cabe !los brancos ... Mas nunca nos recom mendon que o :abraçassemos. IIISTOI{I t\S DA NOSSA TERRA Então porque fazem vocôs isso~ Não sei ... Eu sei ! l'espondeu o mais pequeno, muito ufano. É porque dá gosto á gente. O jangadeiro limpou furtivamente uma lagrima e beijou as duas crianças. Os netos continuaram : Vovô já foi mesmo do nosso tamanho~ Fui ... E teve pae? E mãe; e gostei de fazer travessuras, como vocôs. Eu trazia sempre os bolsos cheios de conchas, por mais que minha mãe dissesse que ellas rasgavam as calças... E trepava. ás arvo1·es e enterrava-me na areia movediça e era um diabrete, como vocês. Bom tempo! Os meninos sorr·i1·am e apalparam as algibeiras recheadas de buzios. Então toda a gente é egual? Como essas ondas. Vocês que ahi estão, pequenos e lépidos, hão de ser, como eu tambem já fui, moços aventuro- CORA Gil~! sos e alegres, aLé que chegue um dia em que sejam o que eu sou agora, ·velhos e cançados. E é por isso mesmo, meus amores, porque nós todos somos eguaes, estando sujeitos ás mesmas leis da natuFoRT .... r.EZA. P:-~ sse io Publico. reza, que nos devemos r·espeitar· e auxiliar uns aos outros. A proposito d'isto vou contar· agora um caso · que vos pódo servil' de exemplo. A histor·ia é gr·ande? Não. Que pena! I:IISTOHIA:::i DA NOSSA TEHRA Escutem : " Em 1878 houve uma grande seccu no Ceará. O sol queimaYa, bebia toda a seiva da teeea; a atmosphera abrasada ném seque!' 01;valhava os pastos e as campinas. " A:; hervas muecharam, as fontes não deitavam nem um pingo de agua, as feudas mirravam-se ainda verdes, e o gado andava por ahi, mugindo, que et'a uma tt'isteza, e muito magm, com a lingLl;;t penclrmte e os olhos baços... No sel'tão, Üá para os lados de Quixeramobim, havia na vizinhança de uma fazenda ele criação uma pobre mulher viuva que amamentava um filho de um atlt10 ... Coitada ... cc Todas as tardes aquella gente dos :arredores, cançada ele ir batet' em vão á ,porta elo rico fazendeit'o criaclot' de gado, ['eunia-se, faminta, no terreiro da viuva, ·que repartia com todos um bocadinho do que tinha em casa, e ainda clava de mamat' a uma ou outra criança sequiosa. cc Por fim, chegou um dia em que a CORAGE~1 infeliz não teve nada para dar ·nem aos seus nem aos extranhos. Escondendo as Jagrimas, Lydia era assim que ella se 'Chamava disse aos seus pobres : " Amigos, já não tenho nada para repartir comvosco, senão a minha coragem. Ponhamo-nos a caminho; não desanimemos. " Todos a acompanharam pelas invias Bstradm; do sertão. Se alguem se lamentava, Lydia simulava alegt·ia e rompia em -cantigas para distrahir os amigos. Mas, de cançaço, de fome e de sêde, os mais fracos iam caindo mortos. « Lydia enterrava-os piedosamente e animava os outros, apontándo-lhlls um porto de salvação. " Depois de grandes luctas e martyrios sem nome, chegaram, por fim, esfarrapados ~ cambaleantes, á Fortaleza, onde um navio se enchia de emigrantes para o Sul. " Foi só ao chegar a bordo, depois de vêr os companheiros repousados e fartos, que a bôa Lydia desatou em pranto soluçado, lembrando-se dos amigbs mortos H!STOHIAS DA NOSSA TERRA pelo caminho e ela sua casa ceJ'cacla ele carnaúbeiras, e da sua terra querida, tão mjustamente castigada! « 'Tinham passado dez annos quando um dia um caboclo viu abeir-se a cazinha ela estrada, cercada de carnaúbeiras; approximou-se espantado. Quem lhe havia de apparecer~ A bôa Lydia, gorda, risonha e feliz. " Como é isso'? toda a gente aqui a julgava mortal " Pouco faltou! Mas, cá estou, meu amigo. Deixei os companheiros . espalhados por esse Brasil, que todo elle é nosso, e voltei eu, com saudades' do meu canto. Apezar do abandono e da mattaria qué eBconde a minl1a roça e mata as minhas plantas, acho tudo agora aqui muito bonito! " A agua parece-me mais ·clara e em rnaior quantidade que nos tempos antigos; as fructas estão mais doces e mesmo os coradouros estão tão frescos e os pastos tão lindos, que até Cls vezes fico com inveja do gado. COI~AGEi\1 " Como está seu filho '! " Está um rapaz valente, e vou pô1-o na escola ... " Se vocemecil não tivesse tido tanta coragem ... " Não vale a pena falar agora nisso. Do que precisamos 6 de tmbalhar I << Não houve ninguem naquellas cercanias, que não conessr> á casa de Lydia para of'ferecer-lhe os seus . serviç()s. Uns cultivaram-lhe a horta, outros arrancaram do pomar as hervas damninhas, outros semearam a roça; e assim, depressa vicejaram as plantas em torno da sua casa. " Isto quer dizer que nos devemos au-xiliar mutuamente. Entender·am? Entendemos. Agm;a explique-nos, vovô : porque chamam ao Ceará terra da Luz? Porque foi a primeira província que aboliu a escr·avidào. Já agora, vou contarvos outra historia. Como em nossa terra não se podia vender nem comprar escr·avos, os senhores, donos d'elles, mandavamos em levas para outras provincias, onde os pagavam bem. Hl~TORL-\S DA NOSSA TEH.HA Que borrO!'! Pois fomos nós, os jangadeiros, que impedimos a saída d'cssa pobre gente. Corno~! ·- Corno os mares aqui são b1·avios, só em jangadas se podem as pessôas transportar dll tena para bordo. Portanto os escravos que saíam da província, tinham de ir para os vapores nas jangadas do. porto. l~nke os jangadeiro;; havia um de nome . Francisco do Nascimento, que, reunindo-nos um dia, disse : Meus camaradas, depende da nossa Yontade salvar estes homens da escmvidão! Por mais r1ue os seus senhores nos peçam e nos offereçam, neguemos sempre, semp1·e, com toda a energi~, o transporte de escravos pa1·a bordo. A minha jangada é livre, e só levará d'esta nossa terra gente livre! E as nossas tarnbem I gritámos nós todos com enthusiasmo. E como isto se cumpriu, meus netos, cabe-nos a nós, homens rusticos, uma das mais bellas glorias do Cem·á. Pot· isso elle ficou sendo chamado .....:_ Terra da Luz I 111inha irmü . . 1mcajú, 13 de Maio, á noite. A nossa professora disse lwntem que nus esperaria hoje ao meio-dia na escola, para I eL'w·-nos a um passeio ao campo. A lwra indicada, o salâo principal do col- !egio regorgitaoa de crianças. As adjunctas e a direcfo!'(t iam e vinham, arranjwulo me11wr as graoatas mal atadas dos r·apazes ou as fitas e os cabellos das meninas. Antes de saírmos, a professora, oNlenando ôilencio, perguntou Sabem qual é o acontecimento que ce/('bremos hoje? · Nlais -de wna oo.:; respondeu alto : A redempçâo dos captioos! .Isso mesmo. É,' em regostjo cl'('sta data glor·iosa que os leco hoje a gozar· da libenlwle do ccunfJ_O. H ISTOHIAS DA NOSSA TEHHA Instantes depois saíamos. Nas nws tremalarxun bandeiras, e as fanfarras enchiam o ar de· sons jestioos. Como toda a gente mr parecia alegre! As professoras Ja:úam-nos notar a expansão do povo, úiteressando-nos por tudo. Nunca a nossa cidade me pareceu tão bonita. A bahia estava que nem um espelho, mais azul do que o céo. E ntrâmos em grandes carToças de bois que a pericia de não sei quem transfortnál'a em jardins ambulantes. l amas doidas de alegria! A té chegarmos ao ponto terminal fomos em uma algazarra de ensurdecer cigarras. A mestra leoou-nos então a uma grande chacara, onde havia lindissimas arvores e . cantaoam pussaros deliciosos. A professora influia-nos - : que brincassemos e corressemos, jogando o << esconde-esconde )), a (( cabra-cega ,, apostando corridas e cantando em edro os nossos hymnos escolares. Ordenaoa twnbem qtte nâo bulissemos nas plantas, que respeitassemos aquella casa que tâo hospitaleiramente nos

Histórias da Nossa Terra

Sinopse

Leia gratuitamente Histórias da Nossa Terra, de Júlia Lopes de Almeida, livro brasileiro em domínio público publicado em edição histórica de 1911. Esta edição digital do Literunico organiza contos, cartas e episódios cívico-literários sobre bandeira, língua, família, escola, estados brasileiros, trabalho, República e identidade nacional em 30 capítulos HTML para leitura online, busca, redes sociais e pesquisa por IA.

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