Universo da obra
Universo da obra
O SINO DE OlJR.O Maria Mathilde tinha um sonho : razer construir rente á bahia de S. Marcos, na sua linda cidade de S. Luiz do Ma1·anhào, uma torre muito alta, muito alta enuimada, pm· um enorme sino ele ouro com os nomes de todos os Estados elo B1·asil formados com pedras preciosas. Quando ~ sino bada ]asse, reboariam na atmosphera as suas sonoridades acompanhadas pelo rythmo elas ondas, e_ quando os astros o illuminassem rutilaria no espaço esplendidamente. Mas a velha louca parecia não ter um vintem ele seu. Morava num casebre em ruinas, vestia-se de trapos immundos, comia só raizes e hervas do matto, e bebia 1\ISTUHIAS 0 ,\ 2\0SSA TEHHA agua na eonchn da mão encarquilhada e ossuda. Não Linha dinheiro para as necessidades ela vida, porque, se lhe davam uma esmola, ella corria a escondel-a para o sino de 'ouro e ia illudir a fome com os sobejos atirados pela caridade, ou com um rabo de peixe chupado ~' porta ele um pescador. Ninguem o sabia, mas o seu colchão estava já tão ·cheio de moedas que lhe m.agoava o corpo miscravel, a ponto cl'ella preferir extender-se 110 chão duro, sobre uma esteira esgarçada. Lá. tinha a sua idéa fixa, e para realizai-a seria_ precisa uma fortuna ! A sua torre de omo, com um sino carvejado de pedras p1·eciosas, maravilharia o mundo inteiro ... Em casa ou na rua a visionaria falava só, gesticulando, movendo no ar os dedos nodosos, de unhas grandes. As crianças fugiam atropelladamente ao ver-lhe de longe o busto esguio; os adultos afastavam-se d'aquella immundicie, e ella O SIXO DE OURO passava sem ver ninguem, resmungando : Quando o sino de ouro fizer : ba-balahão ! ba-ba-lahão ! ba-ba-lahão ! todo o mundo dirá É o coração do Brasil que estú batendo ... Que lindo é e como bate bem ! S. LUJz. AYenida Silva Ma:va. E ella ria-se, sacudindo os longos braços magros, a repetir pelas ruas socegadas: -O corar;ão do Brasil e~tá parad~ ... . quero fazel-o palpitar com força... Ba-ba-Jahâo ... Dão! Dão! Uma noite de chuva e de relampagos, Maria Mathilde chegou encharcada e tremendo com o frio ria febre :\ sua chor:a; llltiTOlUAg DA :\OSSA TERRA mas, logo ao enil'at·, esbarrou com uma pobre rapariga da vizinhança, que se ajoelhou chorando a seus pés. Qual não foi o seu espanto! Se ninguem . a procurava nunca... Uns tinham t recida; tas : medo da sua moraàa de louca, suppunham-na ouiros feiticeira, bruxa, o diabo em pessôa ! Ella parou no humbral, estara outra exclamou de mãos posMaria Mathilde, tem dó de mim 1 Minha madt•asta, aquella má mulher, expulsou-me de casa e aos meus irrnãozinhos, que fo1·am mendigar por essas ruas, quasi nús... It por elles que eu choro. Dá-me um philtro, Maria Mathil-de, para abrandar o coração de minha madrasta e fazer com que meu pae abra a sua porta aos filhos pequeninos, que são innocentes e estão passando fome, soffrendo frio, com medo do escuro, pot· essas praias ... Se for preciso o meu sangue para salvar os anj inhos, toma-o ! Abre-me as veias, aqui tens o meu corpo ! O :>!NO LlJ.: OURO E a mo~a desnuda,·a-sc, offerocendo os pulsos e o collo, supplicemonte. Mal'ia Math ilde, de ui h os arregalados, dobrou-se toda sobre a linda cabeça ela moça: Dari1s a "ida po1' teus irmãos~ S. Lu11 .. - \'i:-;ta do po1·to .. - ' Darei a vida ! Jura! Juro ! aqui me tens, mata-me se para bem d'elles a minha Jl)or'tc fM precisa. Dizem que és l'eiticeim, mas o que tn j j~J lll~TORlAS D.\ :'\ü!:;SA TEHB.A és é smda! N<'iO prolongue:<; a agonia de meus irmãos, Maria 1fathilde ! aqui me iens. A velha considerou a rapariga com e.s· panio; depois, t'apidamente, correu ao catre, sumiu as mãos trigll:eiras nos rasgões da enxerga e atit·ou punhados de moedas, vertiginosamente, paea o regaço da moça estupefacta. Teus innãos estão nüs ~ Toma, vae comprar agasallto para elles! Tôm fome'? Dá-lhes pão ... muito pão ... toma! Toma ! Toma ! Vae para junto d'elles, boa imÍã ! · Vae com Deus ! A moça aparava aquellas moedas inesperadas, num delit·io de felicidade; a velha deu-lhe tudo; depois empurrou-a ~iolenta mente pela porta f'óra, fechou-se por dentro e desatou a chorat·. Como haveria el la agot·a de compra'!' o sino de ouro e construir a SLla alta tort•e rutilante'? Teria ele ret:omeçat· pelo pri meim vintem ... · e as coslas cloíam-lhe tanto ... tanto ! Ao ,menos nessa noite poderia dormir sobre o seu colclt<1.o ... O que a fazia O SINO DE OUHO tremer eram aquellas cobrinbas de gelo que andavam a passear pela sua espinha ... a cabeça estalava-lhe. Em a febre. Maria Mathilde debateuse toda a santa noite, ·com os labias seccos, os olhos em fogo, as roupas, ainda alagadas da chuva, unidas aos membros doloridos. Pela madrugada serenou ; e rompia a manhã gloriosa quando ella ouviu a voz dulcíssima de um ~ anjo dizer-lhe c~ cabeceira : Construíste esta noite a tua torre e por ella subirás ao céo ! Maria Mathilde atirou para fóra do catre as pernas finas, aconchegou aos rins os rnolambos da saia, aos hombros os far-· rapos de um chale e correu anciosa para a. praia. A cidade dot'mia ainda; só os passarinhos despertavam cantando. No largo mar azul, o sol nascente espelhava urna co- : lumna de ouro, tiio larga e tão longa que ninguem lhe poder.ia calcular as dimensões. No ar voavam gaivotas até além, ús HfSTORIAS DA NOSSA TERRA nuvens de amethystas e de rubis, que engrinaldavam no horizonte a torre deslumbrante. Era a pedraria do sino, que reluzia! Sumindo nella os olhos felizes e fascinados, Maria Mathilde sacudiu os longos bt·aços, gritando victoriosa, antes de ca.ír redondamente, na at·eia fria : Ba ... ba ... la-hão! .. Ba ... ba-la-hão! ... Dão ! ... Da ... ão I Quando a miragem do sol se desfez, já a louca tinha subido pela tot·re de ouro até a.o céo! J\1inha querida irmâ. Thr>re;:ina, 11 de .LVfaio. Tens es!ttdado Jionco, demonstnuuLu mâ contadP. Mal sabes a ingratidão que praticas assim Jazendo. Vou reeelar-te wn segredá que ff' torilarâ, I'S]Jf'ro, mais r·apl'ichosa d'aqui por deanta. Como Pstás farta de saber, e ninguem de There.,ina ignora, nosso pae não tem recursos e nossa máe, magra f' c«nçada, é prodigiosa na l'conomia I' na ordem C0/11 que dirige a sua casa. Observa com attenr;ão essas virtudes, que foi'IIWI'áo melhor o lett caracter de mulher, qui' todas as palauás que eu escrevesse ctqui. Os e,cemplos de nossa mãe e de nosso pae são lições oioas que não deoemos esquecer nunca I P ois bem, a nossa mâe, qui' é trio rigorosa e tâo poupada com tudo que diz r!'speilo á swt HJSTQR[AS DA NOSSA TERRA pessóa, e o nosso pae que, sendo tâo conhecido em todo o Piauhy, é tâo isento de Baiclacle e se sujeita a túo grandes restricções e a tantos ·lraba/lws, nâo poupam paf'a a tua instrucçâo nem um vúdem I E I 71's sujeiESTADO no PJAUUY. Crca~ão de gado. Iam-se a tndo para que nada te falte a ti! I-Jantem, e eis aqui o segredo a que alhtdi, mamân oendert o sen t~ltimo annel, paÍ·a pagw· os teus lioros e o teu nwstt·e·. Como COI'f'esponderás a esse sacrificio, que ella de mais a mais deseja qui' fique ignorculo ?
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