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Histórias da Nossa Terra

Capítulo 18 · Histórias da Nossa Terra

Paciência e bondade

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PACIENCIA E BONDADE Eram tres horas da tarde quando saíu da porta do collegio o bando ruidoso e alegre das crian~as. A rua, uma rua estreita ladeada por altos predios, na cidade baixa da Bahia, extendia-se em uma linha sinuosa e longa, por onde a todos os Instantes passavam vohiculos. de todas as especies. Entretanto, o bando dos collegiaes ia pela . calçada, ~ muito correctamente. Lá estava o Benedicto dando a mão- á irmàzinha, desvianc!o-a elos pedgos com todo o cuidado; lá seguia a Clarinha com a boba dos livros bem al·lvellada e o seu avental branco escrupulosamente limpo; lá iam de braço dado o Dionysio e o Lauro, direitos lOS IIISTURIAS DA :\OSSA TEHRA e risonho.~, com os seus. collarinhos ú marinheira bem assentes nas costas fortes e largas; lá iam Magdalena e Sophia acompanhadas pela preta Anna, de camisa de crivo, trunfa azul e contas polychromas no pescoço e nos pulsos; lú, iam todos, emfim, com muito bom .modo e_ juizo, dando aos tl'an;;euntes bonita prova da sua bôa educação. Só Carlota caminhava sem reparar em coisa nenhuma, distrahida como sempre, e por isso, deixando a calçada, poz-se a andar peJo meio da ma atravancada de vehiculos e ele povo. Subitamente ouviu-se um grito agudíssimo um carro atropellara a pobre Carlota, que lá estava extendida nas pedras e pallida como se fosse ele cêra! Acudiu logo muita gente e levaram a ú1enina para a casa elos paes, na cidade alta, onde moravam em uma cazinha pittoresca, cercada de mangueiras. Todos os collegas acompanharam a pobre menina, que ia deitada em uma padiola e tão immove] que parecia morta! Vieram clPpt'essa PACIF.NGIA E BO'iDADE Jois medicos, que arfinnaram á mãe de Carlota- ter a filha quebrauo uma perna, mas estar livre de maior perigo. A bôa senhora perguntava a todos : Como foi que aconteceu isto~ B.UIIA.- Vista da bahia de Todos os Santos. Prenderam o cocheiro~ Elle é um malvado! Responrliam-lhe que s1m, que o cocheiro tinha sido preso e pagaria caro aquelle desastre. Mas, já acordada e entre gemidos de dôr, Carlota explicou : !lO IHSTOHIAS DA NOSSA TERRA A culpada fui eu; eu só. Na rua deve-se andar com cuidado, fugindo dos carros, sempre com attenção; entretanto eu andava como se estivesse no meu quintal, sem me lembrar de que poderia esbarrar em alguem, pisar um animal, fazer cair uma criança, . tropeçar em um cego, ou em uma velhinha tropega. . Eu li tudo isto em um .livro, na escola, o a professora mesmo sompre aconselha que sejamos cuidadosos e que na rua, mais do quo em outro qualquer Jogar, devemos respeitar os outros para que os outros nos respeitem. Ora... eu vinha no mundo da lua, e foi só por isso que aconteceu este desastre. Mamãe descance, que hei de ficar bôa depressa o d'aqui por deante terei muita cautela sempre que andar na rua. Se prenderam o cocheiro, peço a meu papae que o mande soltar; eu poderia ter fugido a tempo, se não fosse tão distrahida! Ouvindo estas palavras generosas, toda a gente que estava alli ficou querendo bem á pobre Carlota. PAClEN('[A E BO~DADE Os collegas da excellente menina volLamm para suas casas já tranquillos, pt'Omettendo vir saber d'ella todos os dias. Entre todos destacava-se a Clarinha como uma todo enfermeira o tempo dedicadissima! da enfermidade, BAniA.- S. Bento. Durante Carlota teve-a a seu lado, procurando animal-a e distrahil-a. As qualidades de enfermeira devem ser cultivadas com esmero e denotam sempre exceliente coração. Clarinha era incançavel, apiedada pelo soffrimento de Cadota fazia tudo por alegrai-a. Um HISTOHJAS DA NOSSA TEHHA dia levava-lhe doces feitos pela mãe, nouteo Rôres do seu jaeclim, cultivadas por· ella, ou as oxcolleutes mangas do sen pomae, ou bellos livros da sua bibliotheca. Se Carlota se cançava de uma coisa, ella corria a buscar outra, sempee amavel e jovial, como verdadeira bahiana. Uma tarde Clarinha empmram a cadeira de Cadota para a vantnda · do quarto, e estavam ambas contemplando a paizagem luminosa do mar e das ribanceieas cobertas de formosíssima vegetação, quando a mfte do Carlota entr·ou no quarto acompanhada de um homem espadaúdo e trigueiro. Quem é'? mamãe ... Adivinha, minha filha ... ~ão posso, .. Ao mesmo tempo o homem, que no quartinho da menina parecia um gigante, dobrou os joelhos d~>ante d'ella e murmurou commovido : Obrigado pelo seu perdão l Eu ::;ou o cocheiro do cano gue a atropellou; e ainda estaria preso, sem ganhar o pão · PACIENCIA E 80:\1DADE para a mulher e os Rete filhos, se da sua bocca não tivessem saído palavras de clemencia! A culpada fui eu. Vá descançado. Voltarei em breve para o collegio. EsTADO DA BAulA. Cachoeira. Paulo Affonso. No meu carro. Não ; irei e virei sempre a pé. Sómente, ser~i mais cautelosa. Carlota extendeu a màozinha ao· cocheii'O, que não sabia como tocar-lhe com os seus grossos dedos callosos. !li Este desastre mostrou-me que não devo andar distrahida nas ruas ~ .. e fez-me comprehender o valor de uma amizade! exclamou Carlota, enlaçando Clal'inha pelo pescoço.

Histórias da Nossa Terra

Sinopse

Leia gratuitamente Histórias da Nossa Terra, de Júlia Lopes de Almeida, livro brasileiro em domínio público publicado em edição histórica de 1911. Esta edição digital do Literunico organiza contos, cartas e episódios cívico-literários sobre bandeira, língua, família, escola, estados brasileiros, trabalho, República e identidade nacional em 30 capítulos HTML para leitura online, busca, redes sociais e pesquisa por IA.

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