Universo da obra
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DEPOIS DA BATALHA A batalha de Tuyuty, ou ela Lagôa Branca, tinha cessado, deixando o campo coberto de cadaveres. Avjzinhava-se a noite, que pt'omettia ser negt'a e feia. Todo o céo se rebut;ava em nuvens negras, comlmctas, e -o cheiro da polvot'a vagava ainda no ar carregado da tarde. No chão, sobre a relva esmagada, empo\ava-se o sangue em coagulas denegridos, e arfavam alguns soldados moribundos, emquanto "outros repousavam, de braços abertos, na placidez da morte. Já se não ouvia o estampido dos tiros, nem sequer o rumor das tropas em reiiracla, quando appareceu no campo um rapazinho esquaJido e miseravelmente Yes- IIISTOJUAS DA C\OSSA TERRA tido. Boiava nas lagrimas rios seus lindos olhos negros uma infinita e . dolorida piedade. Os cabellos crescidos caíam-lhe sobre os h ombros magros; a camisa, aberta no peito, punha a nú a sua pelle., em que se desenhavam nitidamente os ossos da carcassa. Quem era e r1 u.e vinha fazei' a)li aquelle menino anrli'ajoso e pallido~ Aquelle meni11o, débil como um cannit;o do brejo, era um heroe, um forte, e ia áquelle campo levado pela misericordia c pelo amor dos homens. Chamava-se Adriano, em natural da Parahyba e orphão de pae e mãe. Aquelle caíra baleado na guerra; Adriano acompanhara o pae como um cão acompan ha o dono. Terrivelmente audaz e paciente, resistia sern queixas ás agonias porque passava o exercito : as caminhada~ , a fome, a sêde, o leito de pedras, ou as vigílias forr;adas. Ninguem fazia caso d'elle, e elle, niesmo depois da morte do pae, acon1panhava a todos, certo de cumprir o seu destino. DEPOIS DA BATALHA Mas ah! á noite, quando extepdia na term dUI'a o seu corpinho fragil, tinha a visão de outra meninice : o collo materno .... as ruas da sua cidade ... uns companheiros para as suas partidas de pião e a salinha da eMola onde elle ·aprenderia a sei' homem digno de uma gr·nnde patria. Tudo isso acabára mal tinha começado. Porquê? Por causa da guerra, d'aquelJa guqrra maldita que lhe fôra buscar o pae á casa para o estraçalhar num campo, longe · ele tudo o que ama v a! Como se podia dar semelhante injustiça na terra'/ HaUr·ubú. veria nada mais deshumano do que essa humanidade enfurecida e cruel? ! J<:lle ficara no exercito pensando em minorar o soffrimento dos feridos : levar a gotta de agua aos beiços resequidos dos moribundos, o beijo da paz á face febril do inimigo vencido. Nessa tarde, 24 de Maio, vendo vollar ao acampamento os soldados exhaustos, e sabendo que o campo ficara juncado de cada,·eres, estremeceu lembrando-se dos urubús, que 1;!4 I-llSTORIAS DA NOSSA TERRA desceriam a atacar os corpos inermes. Que fazet·? Partir immediatamente. Elle espantaria as aves com os seus gritos; custasse o que custase, defenderia os mortos! O combal:e, que tinha durado desde as onze e meia até ás quatro e meia da tarde, fôra dos maiores, se não o maior que tinha havido na America do Sul. Bt·asileiros e Pamguayos mostmvam afl faces lividas ao céo inclemente do inverno. Alguns tinham os olhos ainda abertGs, numa expressão de terr01· ou de saudade; outros pareciam sonhar com uma outra vida. Adt·iano ajoelhou-se e rezou por todos; depois ergueu-se . assustado; ouvia um rumor sm·do, que vinha do alto. Seria a colera de Deus contra a perversidade dos homens~ Levantou os olhos e viu lá em. cima uma nuvem negra, que descia faminta, esvoaçando. Os urubús! Como poderia ell~ defender todo aquelle vasto campo 'I Desesperado, começou a gritar tentando repellir o assalto das· aves terríveis. Mas o som da sua voz aterrorisava-o no meio d'aquelle silencio. DEPOIS DA HA'\AL!L\ Lembrou-se das armas, procurou uma espingarda e achou-a logo a seus pés. Fez fogo. As aves- fugiram espavoridas, para irem pousar mais adeante. Caíu a noite; um vento aspero uiva\'a na ca·mpina. Sózinho naquelle logar sinistro, Adriano, entanguido de frio, sentouse apertando os joelhos nas mãos, e pensou que toda aquella gente mutilada e sem vida, deixava olhos que a chorassem, • mãos que se juntassem em preces dolorosas, mulheres e crianças sem arrimo e na pobreza! A gueri'a é o mais tremendo de todos os crimes, porque sacrifica innocentes! Que prégou Jesus no mundo? Paz, egualdade, fratemidade. E o homem que se diz christão, de que modo cumpre e~ ses preceitos divinos~ ! De _vez ém quando Adl'iano parecia ouvir um soluço. Quedava-se á esc.uta. O. som não se repetia de egual maneira; vinha mais forte ou mais feaco, confundindo-se ora com a vo:~: humana, oea com um grasnido de corvo. Só tarde appareccu a lua entre nuvens pretas como véos de lucto. HISTORIA,S DA NOSSA TERRA Dir-se-ía a face pallida de uma viuva triste, nos seus véos de crepe. Entt'otanto, vinha á lembrança de Adriãno a sua cazinba t1a Parahyba, onde a mãe cosia na soleira, e o pae lavrava a terra, cantando uns versos que nunca esquecera, e em que havia como que um prognostico elo sou triste fim : Quando com agua regada, Todo a terra fructifica; Mas se é de sangue encharcada, Esteril fica. Vae para a guerra o soldado Sempre em marcha com afan, Sôa o tambo1' compassado Plan ... rataplan I · O que é bom produz bondade, E que é que produz a guena? Da patria e da humanidi~de O homem desterra. DEPOIS DA BATALHA Batalhões e regimentos, A' noite e pela manhã, Sem parar ma1·cham, aos centos : Plan ... rataplan. Quem ame a patria, conserve Esta idéa sempre viva : Que melhor á terra serve Quem a cultiva. Alta gloria retumbante, . A gloria da gue1·ra é vã. Fusilae! matae! avante! Plan ... rataplan ... Bons fmctos faz a semente E as feras deixam que as domem; Só o homem, unicamente, É contra o homem ! Soldados contra soldados, Na moutanha e na rechã, Atiram-se allucinados .. . Plan ... l'ataplan! .. . Te1Ti veis carnificinas, Sang;ue, holTOJ', craneos abe1'tos ... E os campos e as officinas Ficam desertos. Varreu feroz a metralha Campina inda hontem louçii ... Travou-se nella a batalha : PJan ... rataplan ... Quando o amor da humanidade Dominai' por toda a Terra, Ha de have1· paz e bondade, Nunca mais guena. Se a ch1·istandade alg,um dia Fo1' de verdade christà, Sú em tempo ele alegria Se ha de ou vil' o rataplan! Que saudades estes versos acordavam na alma de AdriiJ-110 I A noite foi longa; só com a luz da madrugada seriam perigÕsos os urublis, que dormiam agora nos altos galhos das arvores. Pouco a pouco as sombras foram-se modificando; uma DEPOIS DA BATALHA faixa de luz alvadia traçava uma linha no horizonte; depois essa faixa foi-se alargando, alargando, e invadiu todo o céo. Era o dia. Adriano tratou de carregar as armas dos soldados ex tendidos a seus pés; desabotoando-lhes os cinturões, abria-lhes as cartucheiras com mãos tremulas, como se com aquelle acto faltasse ao respeito devido aos mo1·tos, ou praticasse uma act;ào vil! Era , tempo. Mal elle acabava de pôr o ultimo cartucho em uma carabina, quando ouviu o rumo1· dos urublls descendo em bando aterrador! Adriano fez fogo, e ia atirar de novo quando sentiu pousar-lhe no hombro a mão pesada de um homem. Voltou-se e viu alli, junto de si, o general Oso1·io. Que fazes aqui, rapaz "ll Defendo os mortos, general... titubeou elle. O general contemplou-o com admiraSózinho ~! Sózinho ... És um heróe I Volta para o acampamento. Deita-te na minha barraca. Os mortos vão ser enterrados... A sentinella não te viu? Não sei ... Dá-me a tua mão. És um homem! Queres ser soldado~ Não I quero ser lavrador. Escolheste bem. Caminha! E Adriano caminhou, sentindo acompanhai-o um longo ollmr de enternecida sympathia elo velho militar. -!... fQ.
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