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Histórias da Nossa Terra

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Histórias da Nossa Terra

Capítulo 20 · Histórias da Nossa Terra

Depois da batalha

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DEPOIS DA BATALHA A batalha de Tuyuty, ou ela Lagôa Branca, tinha cessado, deixando o campo coberto de cadaveres. Avjzinhava-se a noite, que pt'omettia ser negt'a e feia. Todo o céo se rebut;ava em nuvens negras, comlmctas, e -o cheiro da polvot'a vagava ainda no ar carregado da tarde. No chão, sobre a relva esmagada, empo\ava-se o sangue em coagulas denegridos, e arfavam alguns soldados moribundos, emquanto "outros repousavam, de braços abertos, na placidez da morte. Já se não ouvia o estampido dos tiros, nem sequer o rumor das tropas em reiiracla, quando appareceu no campo um rapazinho esquaJido e miseravelmente Yes- IIISTOJUAS DA C\OSSA TERRA tido. Boiava nas lagrimas rios seus lindos olhos negros uma infinita e . dolorida piedade. Os cabellos crescidos caíam-lhe sobre os h ombros magros; a camisa, aberta no peito, punha a nú a sua pelle., em que se desenhavam nitidamente os ossos da carcassa. Quem era e r1 u.e vinha fazei' a)li aquelle menino anrli'ajoso e pallido~ Aquelle meni11o, débil como um cannit;o do brejo, era um heroe, um forte, e ia áquelle campo levado pela misericordia c pelo amor dos homens. Chamava-se Adriano, em natural da Parahyba e orphão de pae e mãe. Aquelle caíra baleado na guerra; Adriano acompanhara o pae como um cão acompan ha o dono. Terrivelmente audaz e paciente, resistia sern queixas ás agonias porque passava o exercito : as caminhada~ , a fome, a sêde, o leito de pedras, ou as vigílias forr;adas. Ninguem fazia caso d'elle, e elle, niesmo depois da morte do pae, acon1panhava a todos, certo de cumprir o seu destino. DEPOIS DA BATALHA Mas ah! á noite, quando extepdia na term dUI'a o seu corpinho fragil, tinha a visão de outra meninice : o collo materno .... as ruas da sua cidade ... uns companheiros para as suas partidas de pião e a salinha da eMola onde elle ·aprenderia a sei' homem digno de uma gr·nnde patria. Tudo isso acabára mal tinha começado. Porquê? Por causa da guerra, d'aquelJa guqrra maldita que lhe fôra buscar o pae á casa para o estraçalhar num campo, longe · ele tudo o que ama v a! Como se podia dar semelhante injustiça na terra'/ HaUr·ubú. veria nada mais deshumano do que essa humanidade enfurecida e cruel? ! J<:lle ficara no exercito pensando em minorar o soffrimento dos feridos : levar a gotta de agua aos beiços resequidos dos moribundos, o beijo da paz á face febril do inimigo vencido. Nessa tarde, 24 de Maio, vendo vollar ao acampamento os soldados exhaustos, e sabendo que o campo ficara juncado de cada,·eres, estremeceu lembrando-se dos urubús, que 1;!4 I-llSTORIAS DA NOSSA TERRA desceriam a atacar os corpos inermes. Que fazet·? Partir immediatamente. Elle espantaria as aves com os seus gritos; custasse o que custase, defenderia os mortos! O combal:e, que tinha durado desde as onze e meia até ás quatro e meia da tarde, fôra dos maiores, se não o maior que tinha havido na America do Sul. Bt·asileiros e Pamguayos mostmvam afl faces lividas ao céo inclemente do inverno. Alguns tinham os olhos ainda abertGs, numa expressão de terr01· ou de saudade; outros pareciam sonhar com uma outra vida. Adt·iano ajoelhou-se e rezou por todos; depois ergueu-se . assustado; ouvia um rumor sm·do, que vinha do alto. Seria a colera de Deus contra a perversidade dos homens~ Levantou os olhos e viu lá em. cima uma nuvem negra, que descia faminta, esvoaçando. Os urubús! Como poderia ell~ defender todo aquelle vasto campo 'I Desesperado, começou a gritar tentando repellir o assalto das· aves terríveis. Mas o som da sua voz aterrorisava-o no meio d'aquelle silencio. DEPOIS DA HA'\AL!L\ Lembrou-se das armas, procurou uma espingarda e achou-a logo a seus pés. Fez fogo. As aves- fugiram espavoridas, para irem pousar mais adeante. Caíu a noite; um vento aspero uiva\'a na ca·mpina. Sózinho naquelle logar sinistro, Adriano, entanguido de frio, sentouse apertando os joelhos nas mãos, e pensou que toda aquella gente mutilada e sem vida, deixava olhos que a chorassem, • mãos que se juntassem em preces dolorosas, mulheres e crianças sem arrimo e na pobreza! A gueri'a é o mais tremendo de todos os crimes, porque sacrifica innocentes! Que prégou Jesus no mundo? Paz, egualdade, fratemidade. E o homem que se diz christão, de que modo cumpre e~­ ses preceitos divinos~ ! De _vez ém quando Adl'iano parecia ouvir um soluço. Quedava-se á esc.uta. O. som não se repetia de egual maneira; vinha mais forte ou mais feaco, confundindo-se ora com a vo:~: humana, oea com um grasnido de corvo. Só tarde appareccu a lua entre nuvens pretas como véos de lucto. HISTORIA,S DA NOSSA TERRA Dir-se-ía a face pallida de uma viuva triste, nos seus véos de crepe. Entt'otanto, vinha á lembrança de Adriãno a sua cazinba t1a Parahyba, onde a mãe cosia na soleira, e o pae lavrava a terra, cantando uns versos que nunca esquecera, e em que havia como que um prognostico elo sou triste fim : Quando com agua regada, Todo a terra fructifica; Mas se é de sangue encharcada, Esteril fica. Vae para a guerra o soldado Sempre em marcha com afan, Sôa o tambo1' compassado Plan ... rataplan I · O que é bom produz bondade, E que é que produz a guena? Da patria e da humanidi~de O homem desterra. DEPOIS DA BATALHA Batalhões e regimentos, A' noite e pela manhã, Sem parar ma1·cham, aos centos : Plan ... rataplan. Quem ame a patria, conserve Esta idéa sempre viva : Que melhor á terra serve Quem a cultiva. Alta gloria retumbante, . A gloria da gue1·ra é vã. Fusilae! matae! avante! Plan ... rataplan ... Bons fmctos faz a semente E as feras deixam que as domem; Só o homem, unicamente, É contra o homem ! Soldados contra soldados, Na moutanha e na rechã, Atiram-se allucinados .. . Plan ... l'ataplan! .. . Te1Ti veis carnificinas, Sang;ue, holTOJ', craneos abe1'tos ... E os campos e as officinas Ficam desertos. Varreu feroz a metralha Campina inda hontem louçii ... Travou-se nella a batalha : PJan ... rataplan ... Quando o amor da humanidade Dominai' por toda a Terra, Ha de have1· paz e bondade, Nunca mais guena. Se a ch1·istandade alg,um dia Fo1' de verdade christà, Sú em tempo ele alegria Se ha de ou vil' o rataplan! Que saudades estes versos acordavam na alma de AdriiJ-110 I A noite foi longa; só com a luz da madrugada seriam perigÕsos os urublis, que dormiam agora nos altos galhos das arvores. Pouco a pouco as sombras foram-se modificando; uma DEPOIS DA BATALHA faixa de luz alvadia traçava uma linha no horizonte; depois essa faixa foi-se alargando, alargando, e invadiu todo o céo. Era o dia. Adriano tratou de carregar as armas dos soldados ex tendidos a seus pés; desabotoando-lhes os cinturões, abria-lhes as cartucheiras com mãos tremulas, como se com aquelle acto faltasse ao respeito devido aos mo1·tos, ou praticasse uma act;ào vil! Era , tempo. Mal elle acabava de pôr o ultimo cartucho em uma carabina, quando ouviu o rumo1· dos urublls descendo em bando aterrador! Adriano fez fogo, e ia atirar de novo quando sentiu pousar-lhe no hombro a mão pesada de um homem. Voltou-se e viu alli, junto de si, o general Oso1·io. Que fazes aqui, rapaz "ll Defendo os mortos, general... titubeou elle. O general contemplou-o com admiraSózinho ~! Sózinho ... És um heróe I Volta para o acampamento. Deita-te na minha barraca. Os mortos vão ser enterrados... A sentinella não te viu? Não sei ... Dá-me a tua mão. És um homem! Queres ser soldado~ Não I quero ser lavrador. Escolheste bem. Caminha! E Adriano caminhou, sentindo acompanhai-o um longo ollmr de enternecida sympathia elo velho militar. -!... fQ.

Histórias da Nossa Terra

Sinopse

Leia gratuitamente Histórias da Nossa Terra, de Júlia Lopes de Almeida, livro brasileiro em domínio público publicado em edição histórica de 1911. Esta edição digital do Literunico organiza contos, cartas e episódios cívico-literários sobre bandeira, língua, família, escola, estados brasileiros, trabalho, República e identidade nacional em 30 capítulos HTML para leitura online, busca, redes sociais e pesquisa por IA.

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