Universo da obra
Universo da obra
A FABRICA Os galpões de arrecada~ <'lo estavam repletos ele obt·as promptas pam a expecli<;iio, e nas o!ticinas tumultuavam os opemrios, por entre mach i nas de todos os tamanhos e feitios. Aqui, marceneiros talhavam, na madeira cheirosa, esquadrias, molduras, cimalhas, apparelhando taboas, preparando alizares. Adeante, noutro salão, machinas movidas a electricidade, transformavam o !"erro bruto em pregos, taxas e parafusos. Aqui eram trilhos estriando o chüo terreo ela fabrica, acolá eram engrenagem; de vagões e eixos de rodas empilhados nos cantos. Todo o ediflcio offegava no trabalbo. Centenat·es de homens ganlm vam nclle o pão de cada dia. l!'-i JIIST()HI.'\:--; DA ~OS;..;A TEIHL\ Em frente i1 usina de electricidadc, o dono elo esLabclecimento inaugurava nesse dia uma escola: pal'a 05 filhos menores do,.; scus operarias. Num estrado, ao lado da pt·ofl'ssora, elle clevassaYa com a vista toda a sala. Tinha os cabellos grisalhos e uma expressüo bondosa no rosto illuminado .Pela intelligencia. As crian<;as tinham-lhe enchido as miios de Hôres. D'enlre as carteit·as e os bancos envernizados sul'giam as cabcr:as muito atteutas do" nlumnos, que a alvura elas paredes novas pa!'ecia tomat' mais Lrigueit·os. Qm<ndo na sala o silencio era absoluLo, o industl'ial eomeçou : Meus filiJOS! Quando eu tinha a vossa cclaclo, em. um pobre menin·o sem família e sem ,iintem, sempre clesagasal!tado, muiLas Yezes faminto, e cuja unica ·ambição era saber lêr um livro. Um livro era pat·a mim a repl'esentação da soberania do homem na tena. Essa intuição foi a minha felicidade: será a YOssa, se pensal'cles que nada na Yicla eguala o esfon:o da intelligencia, pela A FABRICA qual o homem se impõe. Eu nüo tinha familia, mas tinha vontade; e a Yontade vale mais pat·a os individuas que todas as pr·otecções c todos os conselhos ... Quando não haja essa qualidade, natural, é preciso fazel-a com esforço, porque uma creatura Bal'Ca phm'ol na ban'a, do Amazonas. fjUO nüo ~abe querer, co;11 tenacidade, será Llln jo:wete da vida, um fraco, sem jü,; ,-, considera~:-to da propi·ia ramilia que mais tarde criar. Nasci na raiz da sena dQ Paracaina, de um casal pauperrimo. Ainda eu n:'to andaYn, quando meus paes, numa longa viagem, ora a pé, ora em jangadas rio abaixo, ~e fot·am approxi- t:ln HlSTOHIA::=i D,\ ~<IS::;.\ TEHHA mando do littoral. Não sei quantas torras percorremos, ora internados nos serlf1es eomo c<C'ringueif'Os, ora habitando praias, como pescadores ... lembra-me <JUe aos oito annos desembarquei na ilha do Marajú, jú :-em mãe e com o pae doenLe, e que depois de alli vi\'t'r uns mezes, numa fazenda de criação, partimos para S. Luiz, onde freqüentei rlu1·ante dois annos uma escola publica. Realizei o meu sonho : aprendi a lêr; c. desde o dia em que comecei a lêr COI'rectamenle, senti-me. fortalecido o eomo que amparado por mim mesmo. J.<:m tempo. Meu pae f'alleceu, recommenclando-mc a um ma1'inhei1'0 seu amigo, que não soube consolar a mini Ja tristeza. Elle era rude, eu era amoro:-o, e ambo~ - miser·aveis! S<J me restm·a eompartilhar a sua ~orte . EmIJaJ·quei com ollo, deixando o Maran lll'io numa linda maclmgacla de Julho. O meu coraçào lú fica,·a no norte, dividiuo em duas sepulturas, uma em S. Luiz e outra no Amazonas ... O vapo1· em que embarcámos Yinha malsinado. Tocámos em Forta- A F.\HRICA leza, Natal e Pal'ahyba; mas, ao chegarmos ao Rceife, rebentou a bordo a varíola, e o ·primei m atacar! o foi o meu proteetor, que cndaeam para um hospital. Fiquei súzinho na infinita solidão d'aquellas aguas e PonTO A LEr. R E. Vista de um H'echo da cidade. cl'aquelle cC·o! Em l\Iaeeiú foram mais dois marinheiros pa1'a tel'l'a. .. mais outros na Bahia ... e outros na Victoria! Cheg:'unos ao Rio de Janeiro sem guai'J1it;ilo. O cornmandante tomou ahi gen1e e continuou na sua viagem do littoral para o Sul. MilagJ'osamentc, eu ia escapando ú epidemia e ia IIISTOHIAS DA NOSSA TEHHt\ sendo utilizado como criado a bordo. Em Sant.os morreu mais um marinheiro, em Santa Catharina íamos naufragando, e aporlámos com avarias em Porto Alegre. Ao termo d'esta viagem tempestuosa, caí finalmente eu tambem com as bexigas, e chegou a minha vez de ir para o hospital. .. Meu pae ... minha mãe ... minha villa serrana, tudo vivia no meu pensamento, n1,1ma bruma de lagrirnas I Entre os· doentes da minha enfermaria havia um mattogt'ossense que se compadeceu de mim e prometteu auxiliar-me como pudesse, ao saí!' do hospital. Era um carpinteiro inculto, cujo retrato occupa o logat: de honra na minha sala. Entrei para a sua officina. Elle em analphabeto; comecei a escrevet' as sua,.; contas e ellc a ensinar-me o officio. No fim do alguns annos eu era o seu primeim olncial e o seu socio, grac;as á minha actividade e ao meu esforc;o. A minha vontade era chegar a ser um grande industrial, para fazer ganhat' a vida a muitos homens, neste formoso Eslado, tão acolhedor e ti\o independente. A pouco .\ FABRICA <' pouco,. economisando, calculando, e 1)1'0curando fazer o meu trabalho com a maior perfeição, cheguei a transformar a modesta ofJ1cina do carpinteil'o numa gmnde officinn, . depois nesta fabrica, onde todos nós llJo GRANDE oo Sut .. Pol'to de Rio Gt·andP. vivemos reunidos e onde sinto o calor da vossa amizade tiio consoladora I Consegui assim o meu desejo, e bojo o j)l'il~er mais doce ao meu cora<;:'tO de brasileiro é chamai' para debaixo ~:!'estas telhas o~ rapazinhos descalços, Ol'phãos ou filhos de paes pobres, que vivem por ahi, e darlhes o agasalho que me custou tanto a ado. 111.:-;TUHI.\'6 1>.\ NOSSA TEH.HA <JUÍr'ir· e <JUe eu n:\o conseguiria sr nAo fos~e insu!'llado pela ener'gia e a fr'anqueza do povo riogr'andense. Meus filhos, esiudae com amor e tr'abalhae com cor'agem. A patria precisa de lronwns fortes, instruidos e de vontade bem Or'ieniada. Meu neto ahi está comvosco. O mais Yelho, jú engenheiro, não teme engrossar as mãos com a li ma, e é tão bom operaria como os melhores da nossa fabrica. É o meu orgulho. Sêde bons camaradas e viYei em paz, como irmãos e amigos que somos uns dos outrõs. Agorã, todos juntos, saudemos alegremente o Estado do Rio Grande do Sul! Um viva. formidavel reboou por toda a sala e o grande industr'ial desceu do esLra.do sob uma chuva de flôres.
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