Universo da obra
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POLACO! CuriLyba . Pelas janellas abertas da escola entrava a Juz clara' e doce de um dia de primavera. Os peeegueiros do pomar, todos fioridos, punham mancha'? côt' de rosa no fundo azul do céo. Cantavam os passarinhos. Sentada na sua cadeira, D. Vit·ginia. vigiava es cliscipulos, que faziam socegada.mente os seus exercícios ele calligraphia. Alli estava o Romiío, gordo e co!'aclo, ao lado da Elvirinha, e logo o Paulo, o .José, a Theociol'a e ouL!'os tantos no outro banco, e muitos mais, attentos, cornpenetrados do seu devet'. Olhando pat·a aquelle tapete ele cabo- cinhas loiras, castanhas ou pretas, uma expressão de jubilosa ternura extravasavase ela physionornia da mestra. Todos aquelles coraçõezinhos eeam aperfeiçoados pela sua dedicação, a sua intelligencia e a sua eonsciencia! Nenhuma posição social no mundo podia egualae á sua, feita de saceificios a bem da patria o do futuro alheio. Findara a hora elo exercício de escripta. O primeiro a entregar o seu caderno foi o Daniel, um moreno gordinho e amavel, que levava figos do seu quintal para· distribuir no recreio pelos pequenos que não tivessem merenda. A professora determinara que os exei'cicios versassem sobr~ a ambição. O de Daniel dizia assim : " No fim do seculo xv11, tendo corrülu noticia de haver jazidas de ouro nos ·sertões de Minas, gelipos de aventureil·os paulistas, portuguezes e mamelucos, munidos de instrumentos de mineração, interna\'am-se por esse .Estado a dentro, teansponüo montanhas, descendo vallados, ·dormindo ao relento, escalando mchas, POLACO Yacleallllo rios, passando emfim por enormissimos perigos, com o sentido de angariar Lhesouros exLraordinarios. A esses grupos claYam o nome de bandeiras; aos que os constituiam : ele bandeiJ~antes. A CURITYBA.- Praça Tiradcntc. ambi~âo levava-os para deante. Gastavam nisso annos e annos. Uns morriam sem ter visto realizado o seu sonho, e os que, por mais fortes ou mais pertinazes venciam, estabeleciam-se em cabanas ele colmo á beira elas jazidas. Com o seu exemplo outras cabanas surgiam e faziam-se assim IHSTOHIAS DA NOSSA TERRA aldeias cuja populaçiio augmentava depressa. >> DANIEL. D. Vi,·ginia annotava o exercício de Daniel, quando ouviu um grito ao fundo da sala. Que foi~ I peeguntou ella erguendo-se. Então um pequeno acaboclado e reclionr;hudo respondeu sacmlidamente, çom ar desdenhoso : Foi aquelle polaco que me . atirou com a penna ~~ ca1·a! Á maneira porque o rapazinho pronunciou polaco D. Virgínia fnmziu as sobrecelhas; mas, volt.ando-se para o accusado, ordenoú ; explique-se 1 O polaco, um rapazinho de oito annos, levantou-se torcendo com desespero a aba do casaco. Era uma CI"iança clara e cabeçuda, com olhos que nem duas contin],as de vidro azul. Depois de alguma hesita- (;ão, elle começou: POLACO Desde que cnLL'ei para o collegio, que o Frederico me chama polaco, com desprezo, a modo de insulto. Tenho-me calado... mas agora... a senhora perdôeme, mandei-lhe a resposta. Caminho de .ferro de Curit.yba a Paranaguá. D. Virgínia ch~.mou os dois pequenos para seu lado e perguntou em voz bem alta ao polaco, para que todos a ouvissem, apontando pela janella aberta para o céo e as arvores : IILSTUHLAS DA NOSSA TEHL\A De que CO I' é o céo da tua terra, meu filho? Azul ... respondeu o pequeno, espantado. E as llôres dos pecegueii'OS "( Càr de rosa. Que fazem os passarinhos ele lá? Vôam e cantam ... Vêem? Tal e qual Meus filhos, a patria do mundo inteiro. como aqui l homem é o Em todas as terras a gente ama, goza, soffre, vive e morre do mesmo modo. É justo e natural que prefiramos a todos os paizes aquelle em que nascemos e em que vivemos com os que mais amamos. Mas por isso será justo e bonito que tratemos com arrogancia e brutalidade os nossos semelhantes que vêm de longe ajudar-nos no nosso Lt'abalho e compa.rticipar das nossas dôres e alegrias? Frederico ! quando alguma visita vae á casa de teus, paes, elles não prpcuram obsequiai-a, tornando hospitaleiro o seu tecto e· franca a suA mesa? POLACO Sim, senhora ... Puis se teus paes te dão o exemplo ue gentileza e de bàa educação, porque o não segues ~ Imagina que talvez a esta mesma hora alguma criança · brasileira, desprote CuRITYilA.- A Cathedral. gicla, erl'e pelas !'Uas ele uma cidade extrangeira e que sejam as esmolas elos extrangeiros que lhe matem a fome.:. Olhas para mim · admirado, sem comprehendei' a hypothese ele que um brasileiro possa so!Trer miseria ~ Quando f<'ll'es HISTORIAo DA NOSSA TERHA grande- e tiveres observado o mundo, verús que tudo póde ser... Agora confessem-me ambos que estão arrependidos, um da intenção de offender, outl'O da brutalidade da vingança. Que vos resta faze1· '? Frederico e o polaco avançaram pausadamente um para o outro e estreitaram-se em um longo abraço. Muito bem'? exclamou a mestra; agora sentem-se um ao lado do outro e estudem a mesma licçáo, no mesmo livro. Os meninos sentaram-se, e ella, voltando-se para Daniel, disse : Para a semana, o seu thema será este : confraternisaçào !
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