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Histórias da Nossa Terra

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Histórias da Nossa Terra

Capítulo 9 · Histórias da Nossa Terra

O grumete

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O GRUMETE O mar arrebentava com furia as suas ondas de encontro ao vapor Tocantin,s, que vinha do Pará com uma preciosa carga de borracha. A noite approximava-se tenebrosa o vento passava em uivos, e as nuvens desciam compactas e ameaçad?ras. O capitão commandava em altas vozes, fazendo corree os marinheiros, que subiam e desciam dos mastroE, recolhendo velas e enrolando cabo~. No meio d'aquelles homens vinha um grumete, menino paraense, ele doze an.r;os, magro, tisnado, de olhos ardentes e bocca sympathica. Çhamava-se Manoel, e1•a orphão ele pae, e lá deixúra, no seu querido Pará, a mãe e uma ÍJ'mà pequena e doentinha. HISTOHlAti DA NOS$"\ TERRA Quando o pae moereu, o pobre Manoel pensou: Preciso · de trabalhar para soccorrer minha mãe e minha innã.; é o meu devet', e hei de cumpril-o. E tal qual como se fosse já um homem, desembaraçou-se dos seus desejos de estudar, e foi pelas ruas da cidade dr. Belém em busca de um emprego. Perguntou em varias lojas se precisariam de caixeiro pequeno, perguntou e1n algumas casas se qüereriam um Cl'iado, propoz-se a ser engraxate, vendedor de joi'naes, aprendiz de algum officio, qualquer coisa, comtanto que podesse com o seu ganho auxiliar a mãe, que lá ficara em ea~a engommando i'oupa para fóra, ao lado da filha doente; Mas ninguem precisava dos serviços do bom rapazinho. Manoel já voltava pensativo e desapontado para o seu canto, quando viu um cartaz annunciando a partida do Tocantins e lembrou-se de ir tambem ú agencia offeeecer os seus prestimos. Vendo o intere::;se dó menino, que Re O (;HU~IETE mostrava enthusiasmado pela vida mal'itima, acceitaram-n'o para gntmete; além de que, ni'lo lhe. faltaria serviço a bordo. ~essa mesma larde Manoel despedia-se da mãe, consolando-a : '' Não chore, minha ESTADO no PARÁ. Porto de Belém. mãe; vou trabalhar para a felicidade de nós todos! Hei de voltar forte e com algum dinheiro· para a nossa doentinha]» Deus te n.bençôe, meu filho I respondeu-lhe a mãe. O que , me anima é que és hon1 nadador; mas, tem cautela! Eu Hco l'ezanrlo por ti ! Quando Manoel emba1·cou, olhando de longe para a sua formosa cidade, não phde conter-se e desatou a chorar. Que seria d'elle, sózinho, eada vez mais afastado dos seus~ Uma voz fraca chamou-o : Olá! pequeno, que é isso~ entii.o um marinheiro chora quando vae para o ma1·? , Manoel voltou-se. Era um velho que dizia a'}uillo. O pobre, paralytico· das pernas, ia extendido em uma cadeira de rodas. Os cabellos brancos e as faces min·adas davam-lhe um aspecto de doçura c bondade. Manoel appi'Oximou-se.e o velho disselhe: Ouve; guarda as tuas lagrimas para maiores desgraças. Comer;as cedo a ser homem; preci~as de muita coragem. E assim, com boas palavras, para disLrahir Manoel, disse-lhe quo vinha elo Parú, sem mesmo esperar ouLl'O paquete de melhores accommodações, porque esLava a morrei' com br'l'i-br'ri. Manoel, por sua vez, contou toda a sua Yida ao paralytico. O l•lU METio Deus ha de ajudat·-te, pnt'lllle 6s bom . Quand0 ti ,.eJ'es uma hora vaga, vem tee commigo, que eu te ensinarei, nestes poucos di&.s, alguma coisa. lh:d:.'>L PaH!LIO Affonso• F'cnna. Manoel era experto e captou depressa a sympathia de toda a tripular;üo. Trabalhava muito ; o seu nbme era co ustantemenlo profer·ido : Manoel pat·a ~~qui, .\Ianoel para alli, e Manoel para aeol:'L E:lle acudifl. sempre, submisso e r·i;<on ho. 1-IISTQHI.\S l)A NOSSA TEH.ItA ?í!o primeiro momento livre, corria para o lado do velho. O doente sorria-lhe satisfeito e respondia com prazer a todas as perguntas do bom menino. Elle conhecia bem o Br·asil, viajara desde ·o Amazonas até ao Prata, descrevia assim as nossas florestas, montanhas, bahias, ·serras e rios, nomeanclo as producções de cada Estado, incutindo no rapaz amizade por tGdas as tenas do Brasil. Outms vezes desenrolava nomes e factos hist01'icos deante dos olhos curiosos do rapaz. Uma tarde fala,·a elle com enthusiasmo do padre Manoel da Nobrega, do seu grande espirito e do seu boníssimo corar;ào, da sua inlluencia em Mem de S>1, que denominavam o pae da patria, e, depois, da sua morte de santo, abençoando esta terra que tanto amou. Mas mide foi ·que elle moneu? No Rio de Janeiro; e lá foi enterrado. E a que ordem pertencia esse padre 'I -Era um jesuíta, que acompanhara até O GIWMETE aqui, com outros religiosos, o primeiro govet·nador, Thomé de Souza. Os jesuitas trabalharam enormemente na conversão dos ino:.ligenas, e fundaram no Brasil grandes collt>gios. O padre Nobeega, cabeça pensante entre os ela sua ordem, dedicou-se com amm· e coragem á civilisaçào do Brasil. Foi por suggestão sua · que se fundou a cidade do Hio de Janeiro, que irás vêr agora. Não havia nenhuma capitania no Hio 'l Não. E:m 1555 os francezes estabeleceram-se na fot·mosa. bahia de Guanabat•a e ahi permaneceram por alguns annos, negociando em páo-brasil, como já faziam os portuguezes, que, por se entregarem a esse commercio, eram chamados no Reino brasileiros; até que, a 20 de Janeiro de 1567, Mem ele Sá os expulsou definitivamente, morrendo nesse ataque o seu sobrinho Estacio de Sá. Mas tudo isso se fez por influencia do grande pad1·e Manoel da Nobrega. Hom·e um outro jesuita de enorme · merecimei1to tambem, e cuja historia te contarei. ·HrSTOHlAS DA NOSSA TEliHA Como se chamava 'i! José de Anchieta .. . Nesse instante um forte trov.ào abalou os ares, e o vento, redobrando do f'ul'ia, sacudiu o vapor com brutalidade. Manoel correu, obedocAndo á voz do commando, e ajudou intrepidamente a marinhagem. Mas os esforços eram inuteis. A lucta dmou muito, até que o vapo1·, vencido, com os mastros partidos, começou a afundar-se! .. _ Minha m~e reza por mim I pensou Manoel ; e não esmoi·eceu. A noite caíu, negra, pavorosa, e ouviu-se a voz do capitão g1·itai': Salve-se quem poder! Sentiu-se depois o baque dos corpos lançando-se á agua e os rangidos da madeira que se desconjunctava e partia. Entretanto, as ondas abaixaram-se, mas a escuridão e1·a completa. E o paralytico 'I pensou Manoel. (~uem lhe valerá? - · Senhor André 1 gritou o bom menino com toch< a f'ot·r;a dos seus pulmrics. O GHCMETE Ninguem lhe respoudeu; mas o i\lanoel grit"ou outra vez, com mais força ainda : Senhor André! Sen hor André ! -Estou aqui ... respondeu-lhe uma 1·oz fraca e assustada. Mas aqui, onde ? ! n:·to Ycjo nada ~ quero salval-o ! SalYa-te sózinho .. . Manoel ! N:'io !. .. Não ha perigo. Minha mãe reza por mim' Salva-te ... e que Deus te proteja ! Nüo! Quem sal val-o tambcm ; Yenha! E, como um louco, Manoel atTasta,·a-se pelo tombadilho do vapor já muito adernado e nwio submerso. Niio ! bom rapaz ! ... tu n:·to poderás commigo, eu serei um empecilho ... set•ei a causa da tua mot·te .. . Minha mãe reza pot' mim ! salvarnos-emo·s juntos I Tacteando sempre, Manoel encontrou os bmços ti·emulos do velho, que, apezar das suas palavras, pmcurava Í!fslinctivamcnlc o apoio do menino. Bem ! agora deix:e-se escorregar .. . HISTOHIAS 0"\ NOSSA TEHHA assim... enfie os dedos pelos buracos d'esta lá boa ... feche os olhos ... não tenha medo! ... vamos! ... E caíram na agua. Foram logo ao fundo, tornaram a subir, e Manoel, affi.ictis- :;imo, divisou a pequena distancia a luz Yermelha de uma lanterna. Gritou por soccono, arrastando o velho comsigo. Uma barca recolhia os naufragas e mandou um escalcr dept·essa em dit·ecção ás vozes. Ouviase, pavorosamenLe, a bulha dos remos na agua escw·a e fria ... Horas depois, recolhidos a bordo da bat·ca e agasalhados, Manoel ouvia do bom velho esta promessa, que foi rigorosamente cumprida : Foste um heróe ! devo-te a minha vida, e, a bem da tua, como sou rico; façoto rneu pupillo. Manoel voltou para o Pará e as suas primeiras palavras ao vêt• a mãe foram estas : Minha mãe ! Deus ouviu as suas orações! .11údw Isaul'a. Florianopolis, 25 de JanPiro. Já é uma bóa coisa podf'r 11ma pes;;oa dizer, como tu me dissesll' na lua ultima carta : « Vou adormecer com a consriencia SANTA CATIIARINA Blumenau. tranquilla ". Mostras ·com isso ser cttmpridora dos teus deoer·es . Enfrpfanto, nâo fp deves orgulhar d'essa qualidade, porque toda a gente deoe ser assim; os que o nrio srlo, et'!'Ctllt em seu prejui::;o, pois que a julta de methodo e de ordem acarreta sempre []t·andês dissabw:es . Conheço agora aqui, na nossa qaeriçia SANT,, ÜATI! .\BINA. Florianopolis. Florianopolis, uma menina da tua edacle, que passa as !toras elo dia procw·ando as coisas que perdf' ou nü.o sabe onde põe. A mâe rolha, o pae exaspera-se, e a pobre, cada ce;; mais atlribulada, cot~flinde fudo, esquecese dos .facios mais simples e fica mal humo-

Histórias da Nossa Terra

Sinopse

Leia gratuitamente Histórias da Nossa Terra, de Júlia Lopes de Almeida, livro brasileiro em domínio público publicado em edição histórica de 1911. Esta edição digital do Literunico organiza contos, cartas e episódios cívico-literários sobre bandeira, língua, família, escola, estados brasileiros, trabalho, República e identidade nacional em 30 capítulos HTML para leitura online, busca, redes sociais e pesquisa por IA.

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