Universo da obra
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A VENTURAS DE R.OSlNHA Este tl'em é o que paete pat'a Paulo~ perguntou uma menina a .um empregado da estação· de Santos. É, sim. · Porquô ~ Já tenho bilhete para ir nelle. Sózinha ~! Sim, senhor. O homem mirou-a com curiosidade. Ella nilo representava ter mais de doze annos; era baixinha, magra, mas com um modo fieme, ainda que triste a ponto de fazer dó. Entl'ou a pequena para um carro de segunda classe, ageitou a sua trouxinha embaixo elo banco, e quando o trem partiu 1-llSTOHIAS DA 1\0SSA TEHRA limpou as lagrimf!-S que lhe corriam 'em fio pelas faces descoradas. No trem iam muitos immigrantes italianos, desembarcados nesse mesmo dia de um grande vapor transatlantico. Por fortuna, sentou-se ao lado da pobre menina uma senhora sympathica e risonha, que tratou logo de a consolar. Como é que você se chama, minha filha 'I perguntou-lhe ella. A menina respondeu : Chamo-me Rosa. Não tem · paes ~ Não, senhora; soi.I orphã... vivi sempre com minha irmã mais moça, em companhia de minha avó. Esta, emquanto pôde, trabalhou com coragem, obrigandonos a ir á escola todos os dias; de modo que sei alguma coisa e estou habilitada a ganhar a vida. Minha irmà ajurlará vovó nos serviços domesticas, e eu mandar-lhesei de S. Paulo os meus ordenados. Serei caixeira ou florista, ou ama secca, qualquer coisa ... Só do que eu tenho medo é da primeira noite. A \ 'EI\'J'URAS DE ROSII\IIA Se eu morasse em S. Paulo, você ficai'ia em minha casa até achar rumo ... mas eu sigo para Campinas. Tenha força de vontade e não desanime. Quando chegaram á cidade ele S. Paulo, S÷o PAULO.- Rua Direita. era jú noite c fazia frio:.· Passava-se isto em Julho. Rosa pegou na sua trouxa e saíu para a rua, aconchegando ao corpo o seu chalinho ele algodão já muito clesbotaclo. Seguindo sempre os trilhos elos bonds, foi ter ao centro ·da cidade, onde caminhou muito, até quo, jú exhausta, sentou-se nos 1-HSTOHIAS DA :\OSSA TEHH.A deg1·aus da egreja da Sé. Havia garuu, e o nevoPiro era tão espesso que só no dia seguinte foi vista a pob1·ezinhrt, adormecida na escada de pedra, com a :<ua trouxinha sob a cabeça. Um policia foi aco1·dal-a e, notando LjUe ella ardia em feb1·e, levou-a num Cal'rO para a Misericordia. li A Irmã Assumpr;ilo deitou Rosinha em uma cama muito limpa, deu-lhe um calmante, e sentou-se ao lado do Jeito. O medico foi v6l-a e disse que se tratava de uma pneumonia. Quando a doente teve conhecimento de tudo, jú se haviam passado muitas horas. Resignou~se e tratou de obedecer ás enfet·meiras e uo medi<.:o, pa1'a recuperar bem dep1·essa a saúde. Quando entrou em conYales~enr;a, a boa menina ajudam a lm1ã As,umpr;fto a serzir a roupa dos doentes e a cuidar de uma velha impertinente que do1'mia na mesma enfermaria. Chegou o dia em que lhe de1'am alta. A hm:\ Assumpc.ão acompanhou Ro~inha até a porta e, despedindà-se d'ella, disselhe co1n meiguice : SÃo PAUl.o. -Jardim publico. Se não achares onde dormir, volta, que te darei a minha cama. Ili Deixando o hospital, H.osinha foi andando, foi andando, e tinha j(t atravessado muitas ruas bonitas, quando viu reluzir na ;s lllSTURL-\S D..-\ .'\OStiA TEHH.A calçada uma pulseira de ouro cravejada de brilhantes riquíssimos. A menina ergueu a joia e pensou logo em restiluil-a á dona. Mas quem ~eria a dona~ De um lauo e de oulm ua rua alinhavam-se predios elegantes e ella bateu em todo::;, perguntando : 'l'e1'ia alguem d'esla casa . perdido uma joia de valor? Não ... respondiam todos. Senti.ndo-se muito fatigada, Rnsinha . sentou-se ao portão de um bello jardim, mas, mal pousara a spa trouxa, ouviu a voz do jardinei1'0 gl'itando·lhe furioso : ' Que quer Yocê ahi '? Saia ! V á trabalhar I Desr;ulpe ... murmueou Rosinha, envergonhada, sai hoje do hospital e estou muito fraca... Eu vou-me embora ... Nesse instante chegou de l'óra a dona da casa e, sabendo do occorrido, disse bondosamente: Entra; \'ae clrscançar Já dentro ... Ven1 commigo. Antes ele entl'ar, Rosinha perguntou : A VE~'I'UHAS DE H.OSINHA A senhora não teria perdido uma joia ~ Sit~! perdi uma pulseira cravejada ele brilhantes e estou muito impressionada, porque era um mimo de minha mãe! Será esta? disse Rosinha muito contente, mostrando-lhe a pulseira que tinha encontrado na rua. Que fortuna ! é esta mesmo ! ... E a senhora, radiante de alegria, beijou Rosinha. !V Entramm em uma gmnde sala, onde estavam muitas crianças; umas bdncavam, outras, já mais velhas, estudavam peeto de uma mesa. Em pé, com a sua trouxinha na mão, Rosinha esperava ordem para sentar-se. Nunca ella vira tantos objectos bonitos assim reunidos : · q uadms originaes dos nossos melhores pintores, tapetes, mobilias' bellisimas, trabalhadas na propria cidade, cuja riqueza e gosto a atordoavam. Ah! lllS'I'OIUAS DA NOSSA TERRA S. Paulo era realmente uma cidade esplendida! pensava a pobrezinha, encolhendo-se na sua humildade. De repente uma das crianças menores, t1·opec;ando numa cadeira, caiu de bruços e magoou-se nos beiços. Hosa acudiu e consolou a CI'ianc;a, que mesmo por entre lagi'imas SOI'I'iu para clla. Um .dos estudantes, o mais pequeno, morto por ir gozar as delicias do balanço no jardim, á beira elo Tietê, revoltava-se conb'a a difficuldade dos problemas que lhe deixara o professor. Que doçura haveria lá fMa na agua arrepiada por aguella aragem f1'ia que o incitava a con'er como seu cão negro, o formoso Zulú ! Voltando-se pat:a o imüio, elle pediu-lhe que o auxiliasse. All! mas o irmão morria tambem por fugi1' d'aquella sala cheia de livros e respondeu.lhe zombeteiramente : Pede á l-tosa que te ensine! ... O pequeno voltou pai'a a menina um olhar supplice; ella aYançou com um sorriso, e pegando no lapis explicou com a maior facilidade o P''ob1ema. A Vri:NTURAS DE H.081l\'IIA Si Olhavam todos, attonitos, para aquella. menina que assim demonstrava a ::ua applicação. Quando e!Ta acabou de falar a dona da casa exclamou com enthusiasmo : H não te cleixaeei saíi' d'aqui. Quando me restituíste · a pulseira, "i que E STADO DE S,\o PAUI.O. Fazenda modelo. oras uma menina honrada; na maneira por.1ue acudic;te a meu filhinho, mostraste a tua meiguice, e agora acabas ele revela!' grande amor ao estudo. Serás uma oxcellente companheira para meus filhos, e como filha serás tratada. Ahi'a(;a-me. Dias depois, Rosinha mandava do li. lllSTOHJAS DA NOSSA TEHH.\ S. ·Paulo fados recursos para a sua av6zinha, e escrevia-lhe, molhando a carta com lagrimas de alegria : r< Conte com um bom amparo; porque encontrei uma excellente mãe! ''
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