Leia agora
Histórias da Nossa Terra

Universo da obra

Histórias da Nossa Terra

Capítulo 14 · Histórias da Nossa Terra

O preto velho

14 de 30 ≈ 5 min de leitura

O PR.ETO VELHO A chuva começava a caír em pingos gi'Ossos, pesados, que empolavam a terra, arrancando-lhe do seio fortes cxhalações. Moravamos no Recife. Eu ·e minhas duas irmãs, Cecilia e Ma1·ia, estavamos á janella, olhando para os bandos de urubús . que fugiam nos ares com medo da tempestade .. Minha mãe cosia no interior da sala, e· meu pae lia a seu lado. Caíu a tarde rapidamente. Seguíamos assim .distrahidos o YÕO das aves, quando minha irmã mais velha , baixando o olhar para a ma silenciosa, exclamou : Meu Deus ! aquelle pobre velho vae miar nas pedras ! Hl$TOHIAS DA XOSSA TEJ\RA Olhúmos, e vimos um preLo esfarrapado cambaleai' e caír na calçada. Coitado! disse Maria, o pobrezinho morre! Qual! respondi eu desdenhosamente; elle está bebe ... Não concluí a phr-ase, porque meu pae, attrahido pelas piedosas exclamações de minhas irmãs, estava já á janella, dardejando um olhar zangado sobre mim. Vae, João disse-me elle, desce á rua soccorre aquelle infeliz, seja ellc quem fôr e o que fôr. NCw faças máo juizo ele ninguem! Corri. A chuva augmentava; curvei-me, chamei o velho, sacwdi-o ; mas o desgra- ~ado nem abria 03 olhos ! Meu pae deixoume estar alli ajoelhado por alguns minutos e mandou depois recolher o velho ao vestibulo da nossa casa·. Desceu então para alli toda a familia. Meu pae percebeu logo que se tratava dfl uma syncope, e tacteava o pulso do doente; minha mãe mnlhâvalhe o peito e as fontes eom pannos embebidos em agua sedativa; Cecilia meLtia-lhe O PHETO VELIIU colherinhas de Yinlw fino pela bocca, e até a pequena Maria procuram auxiliat· os outros ! Passado algum tempo, o pobre recobrou os sentidos e confessou estar mot·rendo de fome e ele frio ! Cecilia correu a PERNAI\!IlUCO. - Ü 1·cdfc . buscar um pt·ato de sopa e nteu pae mandou-me procurar um cobertor. Estava já o preto queute e confortado, quando bateram com força á porta; elle entâo estremeceu, balbuciando : Estou perdido! De facto, entraram dois soldados que o III~TOH 1.-\S DA :\USSA TEHlL\ procuraYam, dizendo que esse preto velho era um p1·e::,o evadido da cadeia do Recife. O pobre caíra de extenuado. Todos nós tremiamos, afrouxou nos seus cuidados. mas nenhum Meu pae peHECII'E. Ponte Buarque Macedo. cliu em voz baixa aos soldados que não declarassem ao pé de nós qual fora o crime d'aquelle homem. Minha mãe dava ao infeliz conselhos de submissão e paciencia; e, assim, o velho entregou-se resolutamente aos soldados. U PRE'l'ú VELHO A hora da saída, Maria, que é a mais pequena e a mais .curiosa de nós todos, pet·guntou ao preso, furtivamente Como se chama YOCê ~ PMHi'õAMnuco. Pan01·ama df' S. José. Henrique Dias, balbuciou elle cabisbaixo . Saíram; e meu pae, voltando-se para nós, pet·guntou, querendo desman"c11;u· a impressão de tristeza deixada por aquella scena : O nome d'aquolle homem não I"Os 11\~TORLAS DA ~OSSA TERB.A suggére nada de respeitavel e de geande? Sim! exclamei eu com movido. Henrique Dias era G nome de um preto valoroso, que se bateu como um verdadeiro he1·6e contra os hollandezes. É o nome de um defensor da patria, q11e em vinte e um annos de guerra nunca foi vencido. Foi elle que, na terrivel batalha de. PGrto Calvo, de 18 de Fevereiro de 1637, recebendo uma bala nà mão esquerda, mandou amputai-a . e continuou na peleja ! Minha mãe sorriu-me, e meu pae disse, com voz elara e satisfeita : Bem; agora subam e vão preparai· as suas lições. Cada um de vorês ha de fazer-me por escripto a narração de qualquer episodio da historia do Brazil. 11-fin/w There:m. Paraltyba, 5 de Junho. Ouoi-te honlem contar d tua· amiga Adelina os segredos que te confiou a pobre Leonardo. Fiquei trist('. Nâo deoias fa:::er ctqui/lo. A Leonarda procurou em ti um conselho e um /enitico para o seu coraçâo ele menina desprotegida. O teu d!'oer em guardar-lhe .fidelidade !' nâo trahil-a. Por ser pobre, Leonarda nâo ·merece menos do que tu, porque a sua honestidade e a sua actioidade dão-lhe muito maior p1·estigio do que daria o dinheiro. Quando alguem te pedir se9redo de alguma confidenciu, mostra-te digna da sua confiança, não repetindo a ninguem, ném mesmo a mim, tua mâe, as palavras que ticeres oucidu. Outra coisa te peço, é que nâo co/legas negues nunca o leu auxilio ás menos quando intelli[Jentes, ou mws atra:xulas, ellas . o so/icifaretÍl . 1\ISTUIH,\S DA NOSSA TEHRA Leonarda eeio lwntem ú tarde de proposito a nossrt wsa pedir-te que a esclorecesses na liçâo de historia do Brasil, propondo-/e ler com dla o capitulo rlcr sab/ecaçâo r/as J;JJssões do Druguay. Que te Tr·ccho da cidade da Parahyba. ·, custaoa indicar-lhe ao menos os ·ponto,; principaes? Ta bem os sabes, porqtte és intelligente e estudiosa; entretanto, deixaste a pobre Leonan/a saír sem uma resposta ao menos ao seu pe.rlido. Remedeia o nwl que /i:!fSIP : r·onotdrr. PS.OCt mPninu .poru rir Psfa-

Histórias da Nossa Terra

Sinopse

Leia gratuitamente Histórias da Nossa Terra, de Júlia Lopes de Almeida, livro brasileiro em domínio público publicado em edição histórica de 1911. Esta edição digital do Literunico organiza contos, cartas e episódios cívico-literários sobre bandeira, língua, família, escola, estados brasileiros, trabalho, República e identidade nacional em 30 capítulos HTML para leitura online, busca, redes sociais e pesquisa por IA.

Ver ficha da edição física
LITEBN
LITEBN-978656584592081078770956
Histórias da Nossa Terra

Resenhas do livro

0 publicadas

Ainda não há resenhas para esta obra. A primeira leitura comentada pode começar aqui.

Histórias da Nossa Terra

Trilha sonora oficial

Uma seleção criada para acompanhar a atmosfera, os personagens e os caminhos desta obra.

Abrir no Spotify
Ir para o carrinho
Mercado de Histórias da Nossa Terra

Leve um fragmento deste universo

Escolha a arte, confira a disponibilidade e adicione o produto ao carrinho sem sair da experiência.

Nenhum livro físico está disponível neste universo.
Relíquias da Obra

Adquira Relíquias da Obra e deixe sua marca registrada, criando valor ao item!

Aguardando Aprovação do Autor
Aguardando grupo autoral Histórias da Nossa Terra Escolha uma Relíquia e envie uma proposta de aquisição, mesmo antes da ativação.
100Relíquias
0Titulares
0 Passagens
Central de RelíquiasDescubra coleções de outros universos e obras.
ver todas
Capítulo 14 carregado no app · 1 livro conectado 1/1
Abrir leitor completo

Capítulos disponíveis para continuar a leitura.

Capítulos de Histórias da Nossa Terra

Todos os capítulos 30 disponíveis

Donos de Relíquias

0 titulares

Nenhuma Relíquia desta obra foi adquirida ainda. Seja o primeiro a eternizar seu nome no acervo oficial!

Conhecer as 100 Relíquias

Resenhas do livro

0 publicadas

Ainda não há resenhas para esta obra. A primeira leitura comentada pode começar aqui.

Entrar para resenhar

Posses do livro

0 Leitores com posse
0 Unidades registradas

Nenhuma posse foi registrada publicamente para esta edição.

Adicionais do Universo

Visual ClássicoAbra a leitura editorial, no estilo de uma página de livro
ler
Visual AuroraApresentação imersiva do universo da obra
abrir