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Histórias da Nossa Terra

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Histórias da Nossa Terra

Capítulo 23 · Histórias da Nossa Terra

A fábrica

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A FABRICA Os galpões de arrecada~ <'lo estavam repletos ele obt·as promptas pam a expecli<;iio, e nas o!ticinas tumultuavam os opemrios, por entre mach i nas de todos os tamanhos e feitios. Aqui, marceneiros talhavam, na madeira cheirosa, esquadrias, molduras, cimalhas, apparelhando taboas, preparando alizares. Adeante, noutro salão, machinas movidas a electricidade, transformavam o !"erro bruto em pregos, taxas e parafusos. Aqui eram trilhos estriando o chüo terreo ela fabrica, acolá eram engrenagem; de vagões e eixos de rodas empilhados nos cantos. Todo o ediflcio offegava no trabalbo. Centenat·es de homens ganlm vam nclle o pão de cada dia. l!'-i JIIST()HI.'\:--; DA ~OS;..;A TEIHL\ Em frente i1 usina de electricidadc, o dono elo esLabclecimento inaugurava nesse dia uma escola: pal'a 05 filhos menores do,.; scus operarias. Num estrado, ao lado da pt·ofl'ssora, elle clevassaYa com a vista toda a sala. Tinha os cabellos grisalhos e uma expressüo bondosa no rosto illuminado .Pela intelligencia. As crian<;as tinham-lhe enchido as miios de Hôres. D'enlre as carteit·as e os bancos envernizados sul'giam as cabcr:as muito atteutas do" nlumnos, que a alvura elas paredes novas pa!'ecia tomat' mais Lrigueit·os. Qm<ndo na sala o silencio era absoluLo, o industl'ial eomeçou : Meus filiJOS! Quando eu tinha a vossa cclaclo, em. um pobre menin·o sem família e sem ,iintem, sempre clesagasal!tado, muiLas Yezes faminto, e cuja unica ·ambição era saber lêr um livro. Um livro era pat·a mim a repl'esentação da soberania do homem na tena. Essa intuição foi a minha felicidade: será a YOssa, se pensal'cles que nada na Yicla eguala o esfon:o da intelligencia, pela A FABRICA qual o homem se impõe. Eu nüo tinha familia, mas tinha vontade; e a Yontade vale mais pat·a os individuas que todas as pr·otecções c todos os conselhos ... Quando não haja essa qualidade, natural, é preciso fazel-a com esforço, porque uma creatura Bal'Ca phm'ol na ban'a, do Amazonas. fjUO nüo ~abe querer, co;11 tenacidade, será Llln jo:wete da vida, um fraco, sem jü,; ,-, considera~:-to da propi·ia ramilia que mais tarde criar. Nasci na raiz da sena dQ Paracaina, de um casal pauperrimo. Ainda eu n:'to andaYn, quando meus paes, numa longa viagem, ora a pé, ora em jangadas rio abaixo, ~e fot·am approxi- t:ln HlSTOHIA::=i D,\ ~<IS::;.\ TEHHA mando do littoral. Não sei quantas torras percorremos, ora internados nos serlf1es eomo c<C'ringueif'Os, ora habitando praias, como pescadores ... lembra-me <JUe aos oito annos desembarquei na ilha do Marajú, jú :-em mãe e com o pae doenLe, e que depois de alli vi\'t'r uns mezes, numa fazenda de criação, partimos para S. Luiz, onde freqüentei rlu1·ante dois annos uma escola publica. Realizei o meu sonho : aprendi a lêr; c. desde o dia em que comecei a lêr COI'rectamenle, senti-me. fortalecido o eomo que amparado por mim mesmo. J.<:m tempo. Meu pae f'alleceu, recommenclando-mc a um ma1'inhei1'0 seu amigo, que não soube consolar a mini Ja tristeza. Elle era rude, eu era amoro:-o, e ambo~ - miser·aveis! S<J me restm·a eompartilhar a sua ~orte . EmIJaJ·quei com ollo, deixando o Maran lll'io numa linda maclmgacla de Julho. O meu coraçào lú fica,·a no norte, dividiuo em duas sepulturas, uma em S. Luiz e outra no Amazonas ... O vapo1· em que embarcámos Yinha malsinado. Tocámos em Forta- A F.\HRICA leza, Natal e Pal'ahyba; mas, ao chegarmos ao Rceife, rebentou a bordo a varíola, e o ·primei m atacar! o foi o meu proteetor, que cndaeam para um hospital. Fiquei súzinho na infinita solidão d'aquellas aguas e PonTO A LEr. R E. Vista de um H'echo da cidade. cl'aquelle cC·o! Em l\Iaeeiú foram mais dois marinheiros pa1'a tel'l'a. .. mais outros na Bahia ... e outros na Victoria! Cheg:'unos ao Rio de Janeiro sem guai'J1it;ilo. O cornmandante tomou ahi gen1e e continuou na sua viagem do littoral para o Sul. MilagJ'osamentc, eu ia escapando ú epidemia e ia IIISTOHIAS DA NOSSA TEHHt\ sendo utilizado como criado a bordo. Em Sant.os morreu mais um marinheiro, em Santa Catharina íamos naufragando, e aporlámos com avarias em Porto Alegre. Ao termo d'esta viagem tempestuosa, caí finalmente eu tambem com as bexigas, e chegou a minha vez de ir para o hospital. .. Meu pae ... minha mãe ... minha villa serrana, tudo vivia no meu pensamento, n1,1ma bruma de lagrirnas I Entre os· doentes da minha enfermaria havia um mattogt'ossense que se compadeceu de mim e prometteu auxiliar-me como pudesse, ao saí!' do hospital. Era um carpinteiro inculto, cujo retrato occupa o logat: de honra na minha sala. Entrei para a sua officina. Elle em analphabeto; comecei a escrevet' as sua,.; contas e ellc a ensinar-me o officio. No fim do alguns annos eu era o seu primeim olncial e o seu socio, grac;as á minha actividade e ao meu esforc;o. A minha vontade era chegar a ser um grande industrial, para fazer ganhat' a vida a muitos homens, neste formoso Eslado, tão acolhedor e ti\o independente. A pouco .\ FABRICA <' pouco,. economisando, calculando, e 1)1'0curando fazer o meu trabalho com a maior perfeição, cheguei a transformar a modesta ofJ1cina do carpinteil'o numa gmnde officinn, . depois nesta fabrica, onde todos nós llJo GRANDE oo Sut .. Pol'to de Rio Gt·andP. vivemos reunidos e onde sinto o calor da vossa amizade tiio consoladora I Consegui assim o meu desejo, e bojo o j)l'il~er mais doce ao meu cora<;:'tO de brasileiro é chamai' para debaixo ~:!'estas telhas o~ rapazinhos descalços, Ol'phãos ou filhos de paes pobres, que vivem por ahi, e darlhes o agasalho que me custou tanto a ado. 111.:-;TUHI.\'6 1>.\ NOSSA TEH.HA <JUÍr'ir· e <JUe eu n:\o conseguiria sr nAo fos~e insu!'llado pela ener'gia e a fr'anqueza do povo riogr'andense. Meus filhos, esiudae com amor e tr'abalhae com cor'agem. A patria precisa de lronwns fortes, instruidos e de vontade bem Or'ieniada. Meu neto ahi está comvosco. O mais Yelho, jú engenheiro, não teme engrossar as mãos com a li ma, e é tão bom operaria como os melhores da nossa fabrica. É o meu orgulho. Sêde bons camaradas e viYei em paz, como irmãos e amigos que somos uns dos outrõs. Agorã, todos juntos, saudemos alegremente o Estado do Rio Grande do Sul! Um viva. formidavel reboou por toda a sala e o grande industr'ial desceu do esLra.do sob uma chuva de flôres.

Histórias da Nossa Terra

Sinopse

Leia gratuitamente Histórias da Nossa Terra, de Júlia Lopes de Almeida, livro brasileiro em domínio público publicado em edição histórica de 1911. Esta edição digital do Literunico organiza contos, cartas e episódios cívico-literários sobre bandeira, língua, família, escola, estados brasileiros, trabalho, República e identidade nacional em 30 capítulos HTML para leitura online, busca, redes sociais e pesquisa por IA.

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